Slavoj Zizek – Ideologia e Cinema.

Há Algum tempo assisti um documentário na TV Escola apresentado pelo filosofo esloveno Slavoj Zizek sobre a questão da ideologia no cinema. Documentário que me chamou bastante atenção. De uma forma descontraída e dinâmica, o seu humor afiado, o que lhe é bastante característico – Zizek nos brinda com uma excelente analise a cerca da ideologia no cinema. Apesar de ser um documentário longo (2h10) não é nem um pouco cansativo, pelo contrário. Tal fato se dá por que mesmo tratando de um tema profundo, é feito de uma forma bastante leve. Gostei tanto do documentário que já assisti umas três vezes e resolvi escrever essas linhas para recomenda-lo a aqueles que ainda não conhecem essa obra. Nesse sentido vamos aqui abordar alguns pontos que fazem desse documentário uma obra fundamental. Mas antes, falemos um pouco de quem é Slavoj Zizek.
Zizek é um dos pensadores mais conhecidos da atualidade. Filosofo e Psicanalista – atualmente é professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, presidente da Society for Theoretical Psychoanalysis de Liubliana, e diretor internacional do Instituto de Humanidades da Universidade Birkbeck de Londres. É autor de diversas obras, entre elas; “Vivendo no fim dos tempos”, “Primeiro como tragédia, depois como farsa”, “Em defesa das causas perdidas”, “Um mapa da ideologia”, “O Sujeito incomodo” entre outras.
Em “Zizek – Ideologia e Cinema”. Slavoj Zizek analisa tanto filmes hollywoodiano como também alemães, russos e ingleses. Não poupa norte-americanos, nazistas, stalinistas ou quem quer que seja – nem cristãos, nem judeus, nem ateus. Polemista mor busca desvendar a ideologia embutida no cinema – “a ideologia no seu fundamental, não no que é explicito, mas no menos aparente”. Ao analisar os filmes, Zizek exemplifica com fatos históricos, como por exemplo, a primavera de praga, o nazismo, o stalinismo, a guerra no Iraque, as torturas na prisão de Abugrab, o fundamentalismo, a invasão da Hungria até chegar no ocupa Wall street. Esse método contribui para que compreendamos melhor a sua tese. Vejamos, portanto como se dá esse diálogo.
Por exemplo, No filme “O tubarão” ele fará um paralelo com o nazifascimo, do medo como processo unificador, da ideologia como moldura, da visão do estrangeiro como inimigo, do racismo. Zizek fala do desafio que é identificar onde esta a ideologia, é então que ele aborda a questão do consumismo – como a propaganda por meio de campanhas nos faz consumir sem peso na consciência. Segundo Zizek ai está o poder da ideologia, o poder do capitalismo que tem uma estranha estrutura religiosa. Em seguida ele analisará os filmes hollywoodianos “Eu sou a lenda” e “Titanic” que para Zizek é um caso supremo de ideologia. Ele criticará o que denomina de mito reacionário, a relação vampira entre o casal de protagonistas. Segundo ele a mensagem ideológica do filme “Titanic” é que os ricos se revitalizam na relação com os pobres. Zizek mostra que o cinema esta povoado dessas estórias de amor, e não apenas o hollywoodiano, em “A queda de Berlim”, filme russo, onde Stalin aparece como “o divino casamenteiro” também podemos ver essa armadilha. Tanto em “Titanic” como em “A queda de Berlim” Slavoj Zizek chama atenção para a necessidade de ver a ideologia no que ela tem de mais fundamental, isto é, não no que é explicito, mas no menos aparente, isto é, na estória de amor do casal protagonista.
Em nascido para matar” Zizek analisa a cultura militar norte americana. A questão da obscenidade como elemento importante dessa cultura, as regras implícitas, a busca para ser aceito, o caminho para autodestruição. Já em “Batman – O cavaleiro das trevas”. Zizek fala da mentira como elemento importante para manter o sistema legal, já que o sistema legal é extremamente corrupto, no entanto o povo não pode saber, pois se não, não o aceitaria. Em seguida ao abordar a questão do fundamentalismo Slavoj Zizek discorda da celebre frase que diz – se deus não existe, tudo é permitido. Para Zizek é justamente o contrário – é por que deus existe e não por que ele não existe que tudo é permitido. E para comprovar a sua afirmação ele trará o exemplo dos ataques terroristas as torres gêmeas em Nova York e a guerra no Iraque. “Tudo é permitido quando agimos em nome do grande outro”. Para os fundamentalistas o grande outro seria deus, mas os ateus não fogem dessa logica, é o que ele mostra ao analisar o stalinismo e o culto ao líder. Dai que Zizek chama a atenção para necessidade de desmitificar a figura do líder. É o que vemos, por exemplo, no filme “desencanto”. A teoria do grande outro ou a ordem invisível das coisas é explicada pela necessidade de fuga da realidade – “para existirmos precisamos da ficção do grande outro”. Slavoj Zizek é enfático – não existe o grande outro, nós estamos sós.
Já ao analisar “Brazil – o filme” ele abordará a relação da burocracia e o gozo divino. A transformação das pessoas a alcançar algum posto superior na hierarquia estatal. E em “A ultima tentação de cristo” Zizek afirma que – a histeria é mais corrosiva do que a persuasão. Para ele ao contrario do que busca os cristãos “não existe significado para as catástrofes”. Para Slavoj Zizek com o advento do cristianismo houve um revés ideológico – rompendo com o judaísmo. Enquanto o judaísmo se baseia na culpa, o cristianismo prega o amor. E assim a mensagem do cristianismo é radicalmente ateia, sobretudo o episodio da crucificação de cristo. Dai que para Zizek a única forma de ser verdadeiramente ateu é através do cristianismo. Para Slavoj Zizek “não sabemos o que deus quer de nós, por que simplesmente ele não existe”. E a morte de Jesus é a libertação do grande outro – “não espere sua volta, ele não voltará”.
Em seguida Zizek aborda a questão dos sonhos e dos desejos. Para tanto se utilizará do filme “O segundo rosto” e “Zabrisnk point”. Fazendo ai uma analogia com as revoluções cubana e chinesa. Para Slavoj Zizek temos que ter cuidado com o que sonhamos e com o que desejamos, pois tais sonhos e desejos podem nos levar ao fim. O caminho para liberdade passa por um caminho de mudança. E a realidade é como os sonhos, é preciso saber o que queremos e lutarmos para alcançarmos. Ele afirma que o capitalismo tem sido a verdadeira força revolucionária, mas que serve apenas a si mesmo, por isso a necessidade de mudar a ordem vigente. E essa mudança só depende de nós. Nessa linha ele analisa o movimento ocupe wall street como exemplo de um movimento de luta contra hegemônica na atualidade. E por fim, parafraseando Walter Benjamim afirma: “Uma revolução autentica não é dirigida ao futuro apenas, mas ela redime as que fracassaram no passado”. A cena final do documentário “Zizek – ideologia e cinema” é emblemática. Invadindo uma das cenas finais do filme “Titanic” quando a protagonista esta soltando a mão do seu amado que acabara de morrer congelado. Surge Zizek tomando o lugar do Leonardo de Caprio afirmando – você não vai se livrar de mim. E de punho esquerdo cerrado para cima grita – nem todo o gelo do mundo pode congelar uma ideia verdadeira.
Em tempos em que a falácia da doutrinação ideológica tornou-se a frase da moda. Utilizada por amplos setores – da direita à esquerda, de cima a baixo. O documentário apresentado por Zizek nos ajuda a desmistificar essa questão ao contribuir para um maior entendimento de como funciona a engrenagem ideológica. Claro, no que ela tem de mais fundamental. Para quem gosta de filosofia, psicologia, sociologia, história e cinema eis ai um prato cheio. No entanto se prepare para ouvir muita coisa que provavelmente lhe incomodará. Eis ai o fundamental desse documentário – causar incômodo. E isso, poucos filósofos tem feito na atualidade tal como Slavoj Zizek.


Pedro Ferreira Nunes – é educador popular e bacharel em Serviço Social. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Federal do Tocantins.

Um comentário: