Notas de um dia histórico: Estudantes, Professores e Técnicos Administrativos da Universidade Federal do Tocantins participam da maior Greve Geral da História do Brasil.

*Por Pedro Ferreira Nunes
Era pouco mais das 05h30 da manhã quando chegamos ao campus Palmas da Universidade Federal do Tocantins para nos somarmos aos técnicos administrativos e professores do Comitê Reage UFT que ali estavam para fazer um piquete e mobilizar a comunidade acadêmica a aderir à greve geral. Não perdemos tempo e logo abrimos nossas faixas que davam o recado: GREVE GERAL! FORA TEMER: EM DEFESA DOS NOSSOS DIREITOS. SERVIDORES DA UFT NA LUTA! UFT NA LUTA E NAS RUAS: CONTRA AS REFORMAS DO GOVERNO TEMER! UFT NA GREVE GERAL: EM DEFESA DOS DIREITOS DOS SERVIDORES PÚBLICOS! Com megafone em punho anunciávamos – 28 de Abril é Greve no Brasil. E assim, aos poucos mais e mais pessoas foram se incorporando ao movimento que também recebia a solidariedade dos motoristas que por ali passavam seguindo rumo a BR – 153.

Os primeiros raios do sol da manhã chegaram trazendo consigo os primeiros ônibus. Logo pensamos, é agora que começará os questionamentos e as tentativas de furarem o piquete. Mas para nossa felicidade á maiorias dos ônibus que chegavam estavam completamente vazios. Apenas um ou outro estudante desavisado que não criou problema algum. Isso nos mostrou o quanto havia sido bem sucedido o trabalho de mobilização para greve geral realizado pelo comitê Reage UFT – um trabalho que começou ainda no início de abril e que realizou reuniões, assembleias e discussões com toda a comunidade acadêmica no sentido de convencê-la da importância de aderir a greve geral. E como fruto desse trabalho árduo não houve nenhuma resistência por parte de professores, estudantes, técnicos administrativos ou dos terceirizados no sentido de furar a greve geral na UFT.

O único problema que tivemos foi com dois servidores da Unitins que tentaram furar o piquete, já que para chegar ao campus Graciosa da Unitins é preciso passar pelo portão da UFT. Estes servidores chegaram a nos ameaçar. Mas logo foram convencidos do contrário. A maioria dos estudantes que chegavam nos ônibus eram da Unitins também. Mas em nenhum momento tentaram forçar a entrada, pelo contrário disseram que só estavam ali por que a direção da Unitins e seus professores haviam lhes obrigados a irem utilizando-se claramente da “prova” como instrumento de coerção.

O gozado é que esse professor que obrigou os seus estudantes a irem para aula e não participar da greve, pois se não perderiam a prova e levariam bomba, nos acusou de obrigar as pessoas a aderir ao movimento grevista. Ora, qual a moral de um sujeito desses que fazendo uso de sua autoridade tentou obrigar seus estudantes a boicotar o movimento grevista? Foi à mesma atitude de patrões que ameaçaram cortar o ponto de seus funcionários e dos governos de plantão que se utilizando das forças policiais reprimiu os manifestantes Brasil afora. No entanto não conseguiram impedir que a greve geral fosse realizada com êxito. Mas esse episódio também deve nos servir de lição para que na próxima façamos um trabalho de base na Unitins tal como fizemos na UFT e no IFTO.
Marcha Unificada das Centrais Sindicais e Movimentos Sociais na JK
O Sol estava alto, enquanto isso mais pessoas se somavam ao piquete na entrada do campus Palmas. As noticias que nos chegavam de outras partes eram animadoras – São Paulo e outros grandes centros estão parados. O interior do Tocantins também em luta – Porto Nacional, Araguaína, Gurupi, Tocantinópolis, Divinópolis, Miracema. Na avenida JK em frente ao Colégio São Francisco milhares de manifestantes se concentravam para marcha unificada.
Com o nosso primeiro objetivo cumprido ali no portão da UFT era o momento de se somar aos outros trabalhadores e organizações sociais na marcha unificada. E assim fizemos, saímos em comboio pelas ruas de Palmas até o local da concentração. Ao longo do caminho não pude deixar de notar o estacionamento do shopping vazio – o que nos trouxe grande felicidade. Vazio também estava o comercio na avenida JK e os ônibus que circulavam com um ou outro desavisado.
Era por volta das 09h da manhã quando a marcha partiu cortando á avenida JK em sentido ao palácio Araguaia. Eram milhares de trabalhadores de diversas categorias – com faixas, bandeiras e cartazes – professores, servidores gerais, trabalhadores sem teto, trabalhadores sem terra e a juventude. Aliás, era a juventude com seu fervor e entusiasmo – cantando, dançando, e gritando palavras de ordem que seguia na linha de frente. Estudantes, Professores e Técnicos Administrativos da UFT vinham em seguida com grande entusiasmo. Entusiasmo que ia aumentando com a incorporação cada vez maior de estudantes, professores e técnicos administrativos que haviam ido direto para a marcha. O que fez com que o bloco coordenado pelo comitê Reage UFT fosse um dos mais destacados na manifestação.

Enquanto a marcha seguia triunfante, um helicóptero da policia militar a mando do governador Marcelo Miranda (PMDB) nos provocava ameaçadoramente com agentes fortemente armados. Os policiais que acompanhavam do chão tentavam impedir que tomássemos toda a pista. Mas não tiveram êxito, as provocações por parte do aparelho repressivo só aumentou a nossa disposição. E assim a marcha seguiu. Seguiu firme até chegar ao seu destino final. E ali encerramos com um grande ato onde as diversas organizações presentes falaram contra as reformas do governo Temer, pediram por sua saída e conclamaram por eleições gerais já.
Algo que gostaríamos de destacar foi de fato o caráter unitário da manifestação em Palmas. Algo que eu particularmente ainda não havia visto. Centrais sindicais e movimentos sociais deixando de lado suas diferenças para marchar conjuntamente numa luta comum – sem brigas, sem disputa de ego para ver quem dirigia o movimento. CUT, UGT, Força Sindical, CTB, CSP-Conlutas, NCST. Além dos sindicatos, dos movimentos sociais, e da juventude trabalhadora. Me dei conta dessa unidade quando num dado momento uma camarada passou por mim com uma camisa da CUT, um chapéu da UGT e uma bandeira da CTB na mão.
Breve balanço
O principal objetivo de uma greve geral não é apenas colocar milhares de trabalhadores nas ruas. Mas sim atingir o bolso do capitalista, parar economicamente o país, e incomodar governos e patrões. E esse objetivo a greve do dia 28 de Abril alcançou inquestionavelmente. Ora, a mesma impressa que tenta desqualificar o movimento noticia que houve locais em que a queda das vendas no comercio chegou a 70%. Outro veiculo de comunicação aponta uma estimativa de perca de 5 bilhões de faturamento em todo o Brasil. As imagens do comercio com portas fechadas, ruas vazias e ônibus e metrôs parados falam por si só e é muito mais significativo do que milhares de pessoas com uma camisa da seleção brasileira de futebol num domingo a tarde caminhando como gado obedecendo a elite oligárquica que comanda o país.

Ao contrário de alguns camaradas, não me causa nenhuma indignação à cobertura da imprensa brasileira a cerca da greve geral. Muito pelo contrário, isso é um ótimo sintoma. Senti fortemente os ares de junho de 2013 quando as manifestações que começaram a crescer a cada dia obrigou a grande imprensa e os governos de plantão a mudar o discurso. Ora não é nenhuma surpresa a tentativa por parte do governo e da imprensa de desqualificar o movimento legitimo dos trabalhadores e, por conseguinte criminaliza-lo. Novamente vemos o discurso que tenta dividir os “bons manifestantes e os maus manifestantes”, como também uma linha de dar ênfase maior nos confrontos violentos. Tudo isso é um sintoma forte do abalo causado pela greve geral.
Ora, “dizei-me anêmicos e anões” desde quando se faz movimento grevista para agradar o patronato e o governo? Se faz greve justamente para incomodar. E o fato é que incomodamos, incomodamos e muito. E isso sim é democracia, como afirma o professor José Paulo Netto “quem quer democracia conversando do palácio com luva de pelica, na verdade nem quer conversar e nem quer democracia”.
Por fim é preciso destacar uma diferença da greve geral com as manifestações de junho de 2013. Agora temos uma direção política e esse fato abre uma grande perspectiva para o próximo período, logo não tenho duvida que uma próxima greve geral, á qual não devemos ter receio e nem devemos perder tempo em começar a articular, será muito maior e mais histórica do que essa greve. Sigamos sem vacilar nessa luta, hasta la victoria siempre!

*Coordenador do Centro Acadêmico de Filosofia da Universidade Federal do Tocantins, Membro do Comitê Reage UFT e militante do Coletivo José Porfírio.

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