A cada ano percebemos um maior número de lançamentos de livros produzidos no Tocantins. Um dos fatores é certamente os editais públicos que possibilitam aos autores publicar suas obras. E o que percebemos é uma diversidade cada vez maior na produção literária que vai da poesia, prosa ficcional além de trabalhos científicos. O meu objetivo nas linhas a seguir é falar de três obras que li recentemente frutos desses editais públicos: Anjos da Natureza (2025), do Willian Borges; Fotolyricas do Cerrado (2025), da Angel Lima; e Algibeira dos Olhos (2024), do Tácio Pimenta. O primeiro numa linha fotojornalística acerca do trabalho de brigadistas que fazem um trabalho heroico de combate ao fogo, a segunda também utiliza a fotografia e a poesia para exaltar a beleza do cerrado. A terceira é um livro de poemas em torno do autoconhecimento e conhecimento.
Comecemos por esse último então. Na verdade, esse livro merecia uma resenha exclusiva. Mas deixemos essa tarefa para outros. Nas breves palavras que tenho a dizer sobre Algibeira dos Olhos (2024) é que temos uma bela obra. O próprio título já demonstra o que encontraremos ao longo das páginas. Ou seja, o olhar do poeta acerca de si, do mundo e da vida. Esse olhar é melhor compreendido quando sabemos da sua origem - a Bahia. Alargado por suas andanças que o trouxe ao Tocantins. O livro é organizado em capítulos intitulados apenas por um número romano (do I ao VII) que retratam diferentes fases, tendo como ponto de partida a infância. Tendo a bênção de Osmar Casagrande Campos - figura consagrada na produção literária regional - como uma nova estrela no campo da poesia, Tácio Pimenta de fato demonstra grande domínio da linguagem poética - num estilo que lembra Pedro Tierra e Manoel de Barros. Seus versos não tem gosto de vinho tinto, está mais para um conhaque. O que isso significa? Não são versos rimados. Mas construídos como uma espécie de andaime. Numa prosa muitas vezes seca. Por fim, não poderia deixar de destacar as ilustrações ao longo da obra - a começar pela capa - a cargo do Álvaro Maia. As ilustrações engrandecem o livro sobremaneira - produzido com o melhor material disponível certamente - a edição é um primor. De modo que ouso afirmar que o autor não poupou recursos para entregar uma edição de encher os olhos a quem ama e aprecia o livro impresso.
Falemos agora sobre Fotolyricas do cerrado (2024), de autoria da Angel Lima - Goiana que reside em Palmas atuando no campo da fotografia. O livro traz fotografias do cerrado legendadas com poesia. A paisagem fotografada pela autora por si só já é uma verdadeira poesia. Quanto às palavras que as acompanham - é o olhar da fotógrafa/poeta. Com isso o nosso olhar é direcionado para o que a autora viu e sentiu ao fotografar tal elemento. Um exemplo para quem lê essas linhas é: na página 30 temos a fotografia de paus queimando. Na página 31 os seguintes versos: Calor atiça/lambe as chamas/cerrado teimoso. É uma leitura breve e prazerosa. Certamente daria uma bela exposição imersiva. Concluo dizendo que a leitura de Fotolyricas direciona o nosso olhar para a beleza que nos rodeia - beleza ameaçada por um modo de produção catastrófico.
Umas das expressões desse modo de produção catastrófico é certamente as queimadas provocadas pela ação humana que ano após ano afetam o bioma cerrado. É esse problema que chama atenção do tocantinense Willian Borges - fotógrafo e escritor. As fotografias neste livro, ao contrário da obra anterior, não são belas, mas tristes e trágicas como a da página 62 que retrata o cortejo do enterro de um brigadista morto em combate. Aliás, além da fotografia, outra parte importante do livro é a apresentação de uma breve biografia de brigadistas que morreram no combate ao fogo - herois invisíveis que sacrificaram suas vidas em defesa do cerrado. Anjos da Natureza pode ser dividido em três momentos. O primeiro é o autor/fotógrafo narrando sua experiência atuando nas brigadas de combate ao fogo e descrevendo momentos marcantes como o encontro com o Canastra. Num segundo momento temos homenagens aqueles que tombaram nessa batalha como o Ednelson Maciel com apenas 30 anos de idade. E o terceiro são as fotografias (não só dele). Lendo essa obra me veio à cabeça os versos de uma canção da banda punk - Cólera - Quem quer que mate à toa/Quem queima e corta/Florestas e reservas/Só pensa em lucrar/Mas isso é roubar.
Essas obras reafirmam a importância do poder público destinar recursos para fomentar a produção literária no nosso Tocantins. Obras como essas chegando nas escolas certamente contribuem para o fortalecimento da literatura produzida no Tocantins e na construção da literatura tocantinense.
Por fim, um recado para quem produz literatura no Tocantins, estou à disposição para ler e escrever criticamente sobre sua obra (os interessados só me enviarem um exemplar do livro). É importante destacar o escrever criticamente, ou seja, não furtarei em dizer o que realmente penso, ainda que isso possa incomodar.
Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.
