quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Sepultura: A era Derrick Green

Dizem que se não tivesse acontecido a saída do Max Cavalera eles (Sepultura) teriam a popularidade do Metallica. Será? Nunca saberemos. Mas o que sabemos pelos discos que gravaram juntos e os registros dos shows é que Max Cavalera (vocal e guitarra), Igor Cavalera (Bateria), Paulo Xisto Jr. (Contrabaixo) e Andreas Kisser (Guitarra) tinham uma química que permitiu que fizessem algo extraordinário. É importante destacar que isso não se deu da noite para o dia. Mas como resultado de uma caminhada marcada pela resistência e perseverança. É aí que encontramos a explicação por que a banda sobreviveu mesmo com tudo parecendo contra. A chegada de um novo vocalista (Derrick Green) e a ousadia de não se tornar uma banda cover de si mesmo possibilitou ao grupo fazer do extraordinário sua marca. 

Quem minimamente entende de música não pode falar da mudança da era Max para a era Derrick numa perspectiva de melhor para pior ou pior para melhor. É até compreensível que se goste mais de uma do que de outra. Mas o fato é que ambas são extraordinárias -  distintas por um lado, mas preservando uma identidade sonora a ponto de quando você ouve um som deles sabe que se trata do Sepultura.

Eu já escrevi certa vez que quando conheci e depois me tornei fã da banda, Green era o vocalista. Também falei que a saída do Igor Cavalera mexeu mais comigo do que a do Max. Mesmo assim não deixei de acompanhar o Sepultura, com um interesse especial sobretudo pelo que eles estavam produzindo no momento. Óbvio, sem desprezar o passado da banda. Mas os álbuns que mais ouvi certamente são os produzidos e lançados na era Derrick Green, talvez a exceção seja o Roots. Eu teria uma enorme dificuldade se alguém me pedisse para eleger um preferido pois em todos, corroborando com o que disse o pessoal do Tenho Mais Discos que Amigos de que a banda nunca lançou um disco ruim, há verdadeiros clássicos. E é isso que pretendo fazer nas próximas linhas. Indicar as canções da era Derrick Green que, para mim, merecem o status de clássicos. São muitas, mas decidi escolher apenas 10. Com 1 de cada álbum. Algo que me encanta nessas composições são sobretudo suas execuções ao vivo. Tornando-as ainda mais poderosas. Imagino o ressentimento daqueles que achavam que a banda iria acabar (vão parar agora por que decidiram assim). O quanto deve doer na alma dessas pessoas vendo os discos lançados e os shows lotados em toda parte do mundo com gente de todas as idades cantando a pleno pulmões e pulando. Há alguns registros memoráveis, como um show em 2011, com Jean Dolabella na bateria, no Wacker. Mas isso fica para um próximo texto que certamente irei escrever. Por enquanto, vamos as músicas prometidas.

A primeira, e a que mais gosto, é a Kairos, presente no disco homônimo (Kairos) lançado em 2011. Com uma letra que de certa forma retrata o dna da banda. Para quem não sabe kairos é uma palavra de origem grega que se refere ao tempo numa perspectiva não cronológica, o momento certo. E é isso que a letra aborda, uma das frases emblemáticas é: Now we trespass the line of time (Agora transgredimos a linha do tempo). Ou seja, não estamos mais limitados a uma temporalidade. Soubemos aproveitar o momento e nos tornamos imbatíveis. O destaque do ponto musical fica por conta dos riffs de guitarra do Andreas Kisser e das viradas de bateria do Jean Dolabella. E o contrabaixo do Paulo Xisto como sempre preenchendo as lacunas magistralmente.

A segunda é do primeiro álbum (Against) lançado com o Derrick Green nos vocais, trata-se da Choke que fala sobre um indivíduo em decomposição. O riff de guitarra na abertura acompanhado pela bateria groovada sob o comando do Igor Cavalera é matador. Na mesma linha da canção anterior há mudanças de ritmos ao longo da canção, com o refrão a se repetir: Choke, Choke, Choke (Sufoque, Sufoque, Sufoque). 

A terceira está no álbum Nation (2001), trata-se de Sepulnation que nada mais é do que uma celebração dos seus fãs que tornaram quem o Sepultura é - resistindo a tudo e todos para continuar relevante no cenário da música pesada mundial:  A Nation - A Nation (Uma nação - uma nação), A Struggle - A Struggle (Uma batalha - uma batalha), A Weapon - A Weapon (Uma arma - uma arma), Our Music!!! (Nossa música!), One Mantra - One Mantra (Um mantra - um mantra), One Prayer- One Prayer (Uma prece - uma prece), One Belief - One Belief (Uma crença - uma crença), All Gods!!! (Todos os deuses!). O ritmo lembra as torcidas de futebol nos estádios, certamente Andreas, Igor e Paulo apaixonados por futebol como são tiveram essa inspiração.

A quarta está no Roorback, álbum lançado em 2003. Trata-se de corrupted. A música começa com um riff de guitarra cortante, aí entra a bateria e o contrabaixo. O ritmo vai aumentando aos poucos como só o Sepultura sabe fazer. Enquanto o Derrick Green vocifera frases como Your world, is ill (seu mundo está doente) e War news, war secrets, war lies, war motives (Notícias de guerra, segredos de guerra, mentiras de guerra, motivos de guerra) é uma punkada que não te dá tempo para respirar.

A quinta está no A-lex, álbum inspirado no livro "Laranja Mecânica" (A Clockwork Orange) do autor britânico Anthony Burgess (que também foi adaptado para o cinema), lançado em 2009. Trata-se de The Treatment. A letra fala de alguém que está enlouquecendo. Para mim é uma das melhores letras compostas pela banda. Entre os versos que encontramos destacaria: Just a creature with no limit (Sou uma criatura sem limite), I've llost all moral choice (Perdi toda a escolha moral) e My blood is cold (O meu sangue é frio), I've lost my heart and soul (Perdi a minha alma e coração), My blood is cold (O meu sangue é frio), Where is my own free will? (Onde está a minha vontade própria?). O ritmo e a melodia criada pela guitarra, pelo contrabaixo e a bateria nos faz sentir essa angústia de alguém que está se perdendo de si.

A sexta é do aclamado quadra (2020). Trata-se da canção Guardian of Earth. Na qual a letra fala da questão ambiental. Ressaltando o papel dos povos indígenas e ambientalistas como guardiães da natureza. A música inicia com Andreas Kisser no violão, em seguida entra a bateria num ritmo que lembra um chamado para guerra. Em seguida começa a porrada com Derrick Green gritando versos como: The fight has started again (A luta começou de novo), The blood is staining our hands (O sangue está manchando nossas mãos), Selfish desires (Desejos egoístas), Commence the killing again (Começam a matança novamente). Há um solo de guitarra matador. E no canal da banda no youtube temos um clipe belíssimo que já alcançou quase 2 milhões de visualizações.

Em sétimo lugar trago uma do também aclamado Machine Messiah (2017). Trata-se da canção Phantom Self que tem como temática a transformação do ser humano em máquina pelo uso excessivo de aparelhos eletrônicos (celular). Com uma percussão de maracatu na abertura seguida por um diálogo entre guitarra e bateria. A mudança de velocidade que caracteriza a banda. E um violino cortante que agrega sobremaneira a composição que tem versos como: Lost my mind (Perdi minha cabeça), It's gone, that life (Aquela vida se foi), Lost, I've been looking for myself (Perdido, estive procurando por mim mesmo). O clipe dessa canção no youtube já ultrapassou 2 milhões de visualizações. 

Em oitavo lugar trago uma canção do último álbum gravado com o Igor Cavalera na Bateria - o Dante XXI (2006) - também inspirado numa obra literária - A Divina Comédia do Dante Alighieri. Trata-se da canção Convicted in Life. A canção fala de alguém condenado em vida com versos como: Abandon all hope he who enter here (Abandone toda a esperança aquele que entra aqui), Eternal pain that runs among the lost (Eterna dor que corre entre os perdidos), It's the fiction of life (É a ficção da vida), What you are is what you live (O que você é o que você vive)... A abertura com a bateria é marcante. O que vem em seguida é um soco no estômago. 

Chegamos a nona canção que trouxemos do The Mediator… (2013). Trata-se da Manipulation of Tragedy. A bateria do Eloy Casagrande na abertura e o acompanhamento do contrabaixo do Paulo Xisto é de glorificar com as mãos para o alto. O refrão é marcante: Worship, worship, bow down (Veneração, veneração, curve-se), Worship, worship, bow down (Veneração, veneração, curve-se)... O recado aqui é: a manipulação serve à dominação. Num contexto em que estamos reféns das fake news essa reflexão é importantíssima.

Para fechar as dez canções prometidas vou trazer uma de um disco que já falamos, o primeiro gravado pelo Derrick Green (Against). Trata-se da Hastred Aside. A versão no Against é muito boa. Mas a gravada nas sessões do Sepulquarta com a Fernanda Lira, Mayara Puertas e Angélica Burns dividindo os vocais com o Green é ainda mais matadora. A mensagem da canção é um recado para aqueles que tentaram destruir a banda. Cannot divide - Cannot divide - Cannot divide (Não é possível dividir - Não é possível dividir - Não é possível dividir), No!!! (Não!!!). O ritmo já começa alucinante com um riff de guitarra que se repete seguido pela bateria e o contrabaixo. Mais um soco no estômago.

Havia prometido dez canções de pelo menos 01 de cada álbum lançado. No entanto, não poderia deixar de falar do EP (The Cloud of Unknowing) de despedida da banda, gravado com o Greyson Nekrutman na bateria. O trabalho traz quatro faixas inéditas que mostram a potência criativa da banda. Eu escolheria facilmente as quatro. Mas mantendo a linha anterior vou citar The place (que em determinados momentos lembra uma bossa nova) e traz na sua letra uma crítica ao processo de alienação que um imigrante sofre ao ponto de defender os seus algozes. Poderíamos aqui lembrar, a partir de Espinoza, a relação entre esperança e medo. Também poderíamos recorrer ao Bifo e a sua análise acerca da ferocidade e o fim do humano. Mas enfim. As the fear drives humanity (Enquanto o medo controla a humanidade)/See, tyrants won't show their face (Veja, os tiranos não mostram o rosto)/Can't hide their face (Mas não podem escondê-lo)/Can't hide their face (Mas não podem escondê-lo). A segunda é a definida como a primeira balada da banda - uma ambição seguida há algum tempo. Trata-se de Beyond The Dream que poderia ser definido como uma carta de despedida ou um até breve: Looking out the blurry window (Olhando pela janela embaçada)/Wondering how we got this far (Me perguntando como chegamos tão longe)/Bleeding out we feel the nightfall (Sangrando, sentimos a noite cair)/The future was never so clear (O futuro nunca foi tão claro).

Poderia continuar aqui falando de outras tantas composições potentes que a banda compôs com o Derrick Green. Só para mencionar algumas: Reza (Against) com a participação do João Gordo do Ratos de Porão, Border Wars (Nation), Mind War (Roorback), Ostia (Dante XXI), What I Do (A-Lex), Spectrum, Relentless e Dialog (Kairos), Vatican (Mediator…), Machine Messiah, Iceberg Dances e Resistant Parasites (Machine Messiah), Isolation, Means To An End, Agony of Defeat (Quadra) e All Souls Rising (The Cloud of Unknowing). Mas fiquemos por aqui. Essa amostra é mais do que o suficiente para mostrar a potência da chamada era Derrick Green no Sepultura. Não tenho dúvida que com o passar dos anos esse reconhecimento será cada vez maior - quando a análise desse legado já não for contaminado pela paixão. Por fim, se a banda chegou onde chegou. Seja na era Derrick Green ou Marx deve em grande medida a uma base poderosa que tem na figura do Andreas Kisser (Guitarrista e Compositor) uma grande mente criativa. Vale mencionar o competente trabalho do Paulo Xisto (Contrabaixo) que cresceu bastante sobretudo nos últimos álbuns e por fim os bateristas que passaram pela banda (Jean, Eloy e Greyson) deixando suas marcas, mas respeitando a linha criada pelo Igor Cavalera.

Ps: A ideia de escrever os clássicos da era Derrick Green no Sepultura me ocorreu em janeiro de 2026. E foi nesse mês que escrevi a primeira versão do texto. Com o anúncio do EP (The Cloud of Unknowing) de despedida decidi segurar a publicação. Daí veio o lançamento e achei que deveria incorporá-lo. E assim o fiz. Veio então o anúncio de que a banda faria uma apresentação especial no Rock in Rio com canções da era Derrick Green. A partir daí minha ideia era publicar o texto antes da apresentação. Mas acabei não publicando. Então veio a apresentação da banda no festival e foi um sucesso, coincidentemente a maioria das músicas executadas na apresentação são citadas no texto. É portanto uma validação do que foi escrito.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Leituras: Metafísica dos Costumes, Immanuel Kant

Quando peguei a Metafísica dos Costumes (1797), de Immanuel Kant para ler, não pude deixar de lembrar de uma fala do Filósofo e Professor Clóvis de Barros num evento em que ele ressalta que ler determinadas páginas da obra kantiana é a oportunidade de termos uma experiência com um texto difícil. E olha que dizem que esse não é o mais difícil que Kant escreveu. Tem uma tal de Crítica da Razão Pura (1781) que não é para qualquer um. Como um desdobramento da sua filosofia metafísica dos costumes também não é para qualquer um. Ainda que sobretudo a segunda parte seja, digamos, mais tragável por trabalhar a questão da moral a partir de uma perspectiva prática. Mas não é inacessível, desde que a leitora e o leitor esteja disposto a enfrentar um texto difícil. Como diz o Clóvis de Barros - se o cara escreveu, você só tem que ler e compreender. Tudo bem, não é tão simples assim.

Immanuel Kant é um dos nomes mais celebrados da história da filosofia. Nascido em Königsberg, no Reino da Prússia (atual cidade de Kaliningrado, na Rússia) em 22 de abril de 1724, nos legou uma das principais contribuições da Filosofia Moderna tanto no campo da teoria do conhecimento, na ética, na estética e na política. Em linhas breves com o seu criticismo, tal como é conhecida, faz uma revolução ao mover o foco do conhecimento do objeto para o sujeito. Kant dirá que não é possível conhecer a coisa em si, mas aquilo que aparece (o fenômeno). Ele propõe uma síntese entre racionalismo e empirismo pontuando a relação entre forma e matéria. Sendo que a primeira somos nós mesmos, já a segunda são as coisas em si. Para conhecer as coisas precisamos de formas a priori. Logo ele afirmará que o tempo e o espaço não existem como realidades externas mas são antes formas a priori que colocamos nas coisas. Compreender a metafísica dos costumes passa necessariamente pela compreensão do criticismo kantiano. Por isso, ainda que de forma breve, faço essa breve introdução.

De onde tirei essa compreensão do criticismo kantiano? Não, não foi lendo metafísica dos costumes. Foi a partir dos meus estudos para as aulas de filosofia no ensino médio - sim, sou professor de Filosofia com graduação, especialização e mestrado na área. Mas não se iluda, mesmo com essa formação não foi fácil a leitura. Não digo isso para que você desista, mas para que esteja preparado. E para que esteja preparado, lhe oriento a ler textos de comentadores que lhe darão chaves importantes para o que virá. 

A edição que li é da Folha de São Paulo com tradução do Edson Bini e traz um glossário que muito nos ajuda na compreensão do texto. Costumo dizer nas minhas aulas de Filosofia que todo filósofo ou filósofa tem uma identidade filosófica única por meio dos conceitos que elabora. Por exemplo, quando falamos em imperativo categórico. Outros pensadores podem até reproduzir, mas isso é Kant.

Vamos então à metafísica dos costumes, obra publicada pelo nosso filósofo em 1797. Posterior a livros como Crítica da Razão Pura (1781), Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica do Juízo (1790) - sua trilogia clássica. Na obra em questão o seu problema é a busca pelo fundamento da moral numa perspectiva universal. Divididos em duas partes, sendo que a primeira se dedica a reflexão acerca dos princípios da metafísica da doutrina do direito enquanto que a segunda reflete acerca dos primeiros princípios da metafísica da doutrina da virtude. Essas duas partes expressam uma preocupação de Kant com o fundamento de algo. E na obra em questão podemos dizer que é o dever.

“Através dos imperativos categóricos certas ações são permitidas ou proibidas, isto é, moralmente possíveis ou impossíveis, enquanto algumas delas ou seus opostos são moralmente necessários, ou seja, obrigatórios. Para estas ações, então, surge o conceito de dever, cuja observância ou violação está efetivamente ligada a um prazer ou desprazer” (2010, p.45-46).

O trecho acima reflete o que dizemos anteriormente acerca do fundamento da moral kantiana ser o dever. Por que devo agir de determinada forma e não de outra? Ora, eu sou livre para agir da maneira que me aprouver. Não é mesmo? Mas os demais também são. Não é mesmo? E aí é que está o ponto. Se todos somos livres para agir como bem entendermos o que não aconteceria se não houvesse algo para frear o nosso desejo, compreendido também pelo nosso filósofo como vontade. “O arbítrio humano , contudo, é uma escolha que, embora possa ser realmente afetada por impulsos, não pode ser determinada por estes” (2010, p. 44). É nesse contexto que entra a razão para frear esses impulsos. Podemos agir assim e assado, mas devemos agir assim e assado? É aí que entra a obrigação que para o nosso filósofo “é a necessidade de uma ação livre sob um imperativo categórico”. E o que seria esse imperativo? “Uma regra prática pela qual uma ação em si mesma contingente é tornada necessária”. (2010, p. 46). Um aspecto importante na perspectiva ética kantiana é a liberdade. Eu não ajo de determinada forma porque sou obrigado pelo um fator externo mas pela minha própria consciência. E aqui chegamos ao imperativo categórico que deve fundamentar essa ação: “age com base em uma máxima que pode também ter validade como lei universal”. Não vamos entrar aqui nas consequências e viabilidade dessa perspectiva. Mas não poderíamos deixar de apontar pelo menos para uma: não levar em consideração a diversidade sociocultural.

Não chegamos nem à introdução da primeira parte e deu para perceber a densidade da obra. Para Clóvis de Barros só as três primeiras páginas são suficientes (o que na verdade é uma provocação). Se você leu e compreendeu as três primeiras páginas, vale a pena chegar ao final da obra. Eu particularmente gostei bastante sobretudo da segunda parte onde encontramos trechos como:

“Todo ser humano tem um direito legítimo ao respeito de seus semelhantes e está, por sua vez, obrigado a respeitar todos os demais. A humanidade ela mesma é uma dignidade, pois um ser humano não pode ser usado meramente como um meio por qualquer ser humano (quer por outros quer, inclusive, por si mesmo), mas deve ser usado ao mesmo tempo com um fim. É precisamente nisso que sua dignidade (personalidade) consiste, pelo que ele se eleva acima de todos os outros seres do mundo que não seres humanos e, no entanto, podem ser usados e, assim, sobre todas as coisas” (2010, p. 206-207).

O problema desse discurso é que o ser humano na perspectiva kantiana é o homem branco europeu. Se considerarmos o ser humano em toda a sua diversidade seria inaceitável o que os europeus fizeram com os povos indígenas e africanos, por exemplo. Isso quer dizer que devemos rechaçar Kant totalmente? Evidentemente que não. Uma estratégia mais inteligente, creio eu, é se apropriar desse discurso radicalizando-o.

Para finalizar, na parte final da obra Kant fala sobre o ensino da ética a partir da compreensão de que não nascemos virtuosos. Ele diz que a virtude não só pode como deve ser ensinada. Destacando que a decisão para tanto deve ser tomada de forma imediata tendo em vista que podemos ceder ao vício tentando escapar dele. Já como ensinar, Kant defende uma perspectiva científica ou seja deve se desenvolver de modo sistemático tendo como método o diálogo: “O mestre, através de suas perguntas, norteia o curso de pensamento do seu jovem aluno, meramente lhe apresentando casos em que sua predisposição para certos conceitos se desenvolverá (o mestre é a parteira das ideias do aluno).” Não restringindo a isso pois senão seria um diálogo socrático. Para Kant não só o mestre deve fazer as perguntas mas deve criar as condições para que o estudante também elabore perguntas. Ele então defende que “o instrumento de ensino da doutrina  da virtude é uma catequese moral” que nada tem haver com catequese religiosa. E ele também salienta o meio experimental (técnico) que consiste no bom exemplo por parte do mestre. Ressaltando que para quem está em formação imitar outro consiste “a primeira determinação de sua vontade”. Logo, se o mestre não é exemplo o que ele está formando?

Preciso parar. Meu intuito era fazer algo mais objetivo, mas fui me empolgando e cheguei até aqui. Mas enfim, eis o fim. Leiam Kant, leiam Metafísica dos Costumes.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

domingo, 25 de outubro de 2026

Rascunhos: Tempos difíceis

Após mais um dia de trabalho Bia seguia de cabeça baixa de volta para casa. O seu olhar era de quem carregava consigo uma profunda tristeza, ninguém precisava conversar com ela para saber que estava infeliz. 

Não eram tempos fáceis para ela, tanto na vida pessoal como profissional. Na vida pessoal o casamento com Gustavo havia se tornado uma prisão. A cada dia ela se sentia mais infeliz sendo simplesmente uma dona de casa cuidando dos filhos e do marido. E contra a vontade deste decidiu voltar para sala de aula. E tal decisão contribuiu para que se acelerasse o fim do seu casamento com ele – um casamento que se mostrava por demais frágil, já há algum tempo.

Bia até que tentou – fez um esforço tremendo para viver uma vida feliz ao lado de Gustavo. Por isso que assim que se casaram e ela ficou grávida do primeiro filho, por exigência dele, deixou o vão do mutum - às aulas na escolinha do povoado para morar na capital. Depois de um tempo veio o segundo filho e Bia teve que se dedicar só a família. E por um tempo ela foi uma excelente dona de casa, admirada por muita gente. Mas para tanto ela teve que abrir mão de muita coisa, até que chegou num momento que ela não podia mais suportar a vida de casada ao lado de Gustavo e tomou a decisão que o magoara tanto.

A volta de Bia a sala de aula foi em um grande colégio público de Palmas. E não demorou muito para que ela se decepcionasse com a realidade do ensino por ali. A sua decepção não era com a profissão, mesmo sabendo o quanto o professor é desvalorizado no Brasil. A sua decepção era com o sistema educacional. 

Ela sentiu na carne – Todos sabem dos problemas da educação, no entanto ninguém se move para mudar, e o pior é que aqueles que se movem acabam sendo perseguidos.

Quando Bia fazia este desabafo lembrava não só da experiência que estava vivendo naquela escola, mas também da experiência que tivera no vão do mutum – quando chegou naquele povoado acreditava que iria fazer uma revolução, mas logo se viu isolada e perseguida pelas elites locais e até mesmo pelos próprios colegas de profissão. 

Mesmo diante dessa realidade difícil, Bia não desistiu e continuou tentando conscientizar a comunidade campesina para que se organizasse e lutasse pelos seus direitos. Mas todos os esforços que fazia pareciam ser em vão. Ninguém parecia disposto a mover uma palha para que melhorasse o mínimo possível ás condições de ensino naquele lugar. Até que ela foi obrigada, por pressão do marido a deixar o vão do mutum e ir morar na capital.

Mesmo com todas as dificuldades que enfrentara no vão do mutum, ali foi o único lugar que ela sentiu prazer em dar aula. Que ela sentiu orgulho de ser professora. Que ela sentiu que estava contribuindo minimamente para melhorar a vida das pessoas. Agora, naquela escola em Palmas, todos estes sentimentos estavam sendo perdidos.

Ela que outrora fora urbana em demasia, não estava se dando bem naquela escola da capital.

- O sistema educacional aqui na cidade é mais degenerado do que no campo, os profissionais mais acomodados, e os alunos mais revoltados. Dizia Bia para um amigo

Bia se lembrava de uma conversa que tivera com Camilo sobre uns alunos revoltados que ela tinha no colégio de Cachoeira de todos os santos.

- Olha menina, eu não acho que é ruim ter alunos rebeldes, desde que essa rebeldia não seja desperdiçada em questões fúteis. Aí cabe vocês professores conscientizá-los para que essa rebeldia não vire vandalismo.

Bia se lembra que naquela oportunidade não gostou muito do comentário de Camilo. Achou que ele estava tomando partido dos alunos em vez de apoiá-la. Aliás, ela notava que Camilo sempre assumia essa postura que não lhe agradava nem um pouco. Porém com o tempo ela foi percebendo que as críticas dele eram corretas.

E Bia tentou mais uma vez tal como fizera no vão do mutum organizar algum movimento na sua nova escola, no entanto logo foi abafada pelos seus próprios colegas professores, que acomodados não tinham nenhuma disposição para lutar para fazer alguma mudança por ali.  E ela então começou a se questionar novamente se valia a pena o sacrifício. Bia buscou de todas as formas resistir aos ataques que sofria, procurava superar as barreiras que surgiam no seu caminho. Mas a cada dia sentia-se mais isolada e incapaz de continuar resistindo.

Nesse período de sua vida o Camilo passou a estar mais presente no seu pensamento – hora e outra ela se lembrava do entusiasmo de Camilo com a educação, da forma com que ele falava da importância da educação para transformação da sociedade em que vivemos. 

- Para um Brasil diferente, uma educação decente. Dizia ele sorrindo

No entanto, o que era muito bonito de se dizer, um ótimo slogan para campanha eleitoral, era difícil de realizar.

- Se o Camilo visse essa realidade ia perceber que não é tão fácil assim mudar, sobretudo quando os principais interessados nessa mudança cruzam os braços, e ainda pior, acabam trabalhando contra aqueles que querem mudar. Dizia Bia baixando as armas 

Ela então seguiu até a escola onde dava aula e oficializou o pedido de demissão. Não podia continuar naquele espaço onde se sentia extremamente infeliz, não era justo com ela e muito menos com seus alunos. Pois por mais amor que ela tinha por sua profissão, não podia estar ali infeliz como estava.

- Ora, qual a qualidade da formação que eu posso dar para esses jovens, com a falta de motivação que estou? Não, não é justo comigo e nem com eles, sobretudo.

- Agora você vai voltar a ser simplesmente dona de casa Bia? Cuidar de casa, dos filhos e do marido?

- Jamais. O meu casamento acabou há muito tempo e não tem mais volta. Sinceramente não sei o que fazer ou o que quero, só tenho plena certeza do que não quero. Por enquanto o que vou fazer é deixar as crianças sob a responsabilidade do Gustavo, pois ele tem mais condição de criá-los. Vou jogar uma mochila nas costas e sair por aí sem destino.

- Você só pode estar ficando louca.

- Bom, não é a primeira vez que ganho esse tipo de elogios. O que sei é que sou muito jovem para viver infeliz. De abrir mão dos meus sonhos para viver uma vidinha medíocre como dona de casa cuidando de filhos e do marido ou numa sala de aula falando para as paredes.

E assim Bia fez – jogou tudo para o alto e foi em busca de uma nova vida. Uma nova vida que ela ainda não sabia bem como seria. Ela só esperava que fosse bem diferente da que ela vivera nestes últimos dez anos.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Comentários acerca do 2º turno das eleições no Tocantins em 2026

1- Não houve surpresa em relação aos candidatos eleitos para compor a assembleia legislativa do Tocantins assim como os nomes  eleitos para o congresso nacional (câmara dos deputados e senado). Também não houve surpresa quanto aos candidatos que seguiram para disputa do segundo turno: Dorinha (União Brasil) e Vicentinho (PSDB) ao governo do Tocantins. Lula (PT) e Flávio (PL) à Presidência da República. Inclusive o fato de ter segundo turno - o que alguns analistas diziam que não aconteceria;

2- Quem ganhou o primeiro turno hipoteticamente sai na frente no segundo turno. Mas isso não significa que a vitória está garantida. Sobretudo quando a distância não é inalcançável. Ainda mais levando em consideração os dados do primeiro turno como abstenções e votos em branco. Quando esse número é significativo, quem está atrás deve ter esse eleitorado como foco. Sobretudo porque é extremamente difícil virar voto (Isso vale especialmente para a disputa pela presidência da república);

3- Na disputa regional percebemos uma movimentação no sentido de buscar apoios de líderes políticos e parlamentares eleitos. Nesse sentido Dorinha não perdeu tempo em assumir, aquilo que omitira no primeiro turno - o apoio a candidatura de Flávio Bolsonaro - que teve uma vantagem significativa em relação ao Lula no Tocantins, sobretudo nos grandes municípios. Vicentinho, preterido por Flávio, mirou em nomes descontentes do grupo de Dorinha após o resultado do primeiro turno. Esse foi o caso por exemplo do Eli Borges - que mesmo não sendo eleito teve uma votação expressiva para o senado;

4- Na disputa nacional o movimento tem sido distinto entre os dois nomes que estão na disputa. Lula tem focado nos indecisos e naqueles que não foram votar no primeiro turno, que segundo pesquisas a maioria tende a votar no candidato petista. Flávio por sua vez busca manter a vantagem do primeiro turno - ampliando-a a partir da adesão de partidos do centro e a bancada de extrema direita eleita para o congresso nacional;

5- Qual estratégia se sagrará vitoriosa eleitoralmente? Não cometerei o erro de alguns comentaristas políticos que buscam adivinhar o resultado. Por outro lado, não tem como irmos contra o que a realidade nos fornece. E o que a realidade tem nos revelado é que há por parte do eleitorado um sentimento de mudança. E quem tem incorporado esse sentimento de mudança é Vicentinho a nível regional e Flávio a nível nacional. 

6- Não há capacidade crítica por parte do eleitorado de entender que nem toda mudança é para melhor.

7 - A nível nacional é até justificável o sentimento de mudança. Ao longo do atual mandato, Lula teve que lidar com um índice de reprovação  maior do que o de aprovação. Sem falar no seu desgaste como  líder que está na vida pública há décadas - estando no seu terceiro mandato e buscando um quarto. Apesar de muitos anos na vida pública, Flávio é jovem, e com a força do capital político do seu pai (Jair Bolsonaro) tornou-se uma alternativa real para milhares de pessoas que acreditam que o Lula já deu o que tinha que dar.

8- A nível regional esse sentimento de mudança não nos parece justificável. O governador Wanderlei Barbosa, que é o principal cabo eleitoral de Dorinha, tem um mandato à frente do executivo estadual com uma aprovação maior que a rejeição. Logo uma candidatura que se apresenta como continuidade a uma gestão bem avaliada deveria ser a favorita, não?! Me parece que há um elemento aí que ninguém está observando, sobretudo com as adesões à candidatura do Vicentinho após o resultado do primeiro turno.

09- Dorinha e Vicentinho são do mesmo espectro político - ambos se declaram de direita. Ambos dizem apoiar e votar em Flávio Bolsonaro. O programa de governo de ambos é praticamente o mesmo. Ambos nunca exerceram o cargo de governador/governadora. Qual a diferença então? Porque há um movimento não só por parte do eleitorado mas de lideranças políticas e parlamentares, inclusive nomes que foram eleitos no primeiro turno na chapa da Dorinha rumo a candidatura do Vicentinho? Isso me cheira a machismo.

10- Ao observar todo esse movimento lembrei de um comentário que uma colega fez ainda no início da campanha. Ela disse que se a eleição fosse para o segundo turno todos esses homens se uniriam e não deixariam a Dorinha ganhar. Não dei muito crédito a essa declaração pois com a força do governo Wanderlei via o favoritismo da senadora mesmo com um segundo turno. Mas um colega esses dias me levantou o questionamento: E se o próprio Wanderlei estiver contribuindo para a vitória do Vicentinho?

11- Para concluir, estamos a poucos dias das eleições. Essa é a eleição mais importante desde a redemocratização, sobretudo no que diz respeito ao embate nacional. Não escondo o meu posicionamento em defesa do Estado democrático de direito e de condições dignas de vida para todos. Por isso vou de Lula (13). Quanto ao contexto regional se votar na Dorinha (44) significa ir contra o machismo, ainda que ela seja de direita, que seja então.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Teresa, a filósofa e a Educação sexual na Escola

De tempos em tempos nos deparamos com uma notícia que dá conta de denúncias de abuso sexual envolvendo um lider religioso. Aproveitando da sua condição de guia espiritual que construiu uma relação de confiança com a vítima (que passa por um momento de fragilidade), o crime é cometido com a esperança que nunca venha a luz - que o diga o Médium João de Deus, Bispos, Padres, Pastores e Pais de Santo. Muitos de fato não veem a luz, pois nem todas as vítimas tomam consciência do abuso a não ser quando se afastam do abusador e aquilo começa a afetá-la de tal forma que é impossível guardar só para si. Será que se houvesse educação sexual nas escolas muitos casos não seriam evitados? Se sim. Porque há tanta resistência de setores na sociedade contrario a isso?

Recentemente li um livro que me fez ficar pensando nesse problema. Trata-se do romance do século XVIII, Teresa, filósofa, de autoria anônima. Na história uma jovem (Teresa) narra a descoberta da sua sexualidade num ambiente aparentemente conservador - aparentemente - o espantoso é perceber que a narrativa supostamente ficcional não é muito diferente do que acontece atualmente. O ponto de partida da narrativa é inclusive o caso do abuso sexual cometido por um grande lider religioso - o Padre Jean-Baptiste Girard contra a jovem devota Catherine Cadière.

A narrativa descreve cenas eróticas o que me fez ao terminar a leitura achar que a obra seria para maiores (18+). No entanto, ao mesmo tempo, passei a achar que não. Foi a partir daí que surgiu a questão da educação sexual, como uma forma da mulher tomar consciência da sua sexualidade e se defender de abusadores. Pois se há algo que não podemos reprimir, e o romance é muito feliz nesse sentido, é a nossa sexualidade. 

Nessa linha é importante destacar o que diz Sigmund Freud em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905): "O saber popular cria uma imagem precisa da natureza e das propriedades da pulsão sexual. Supõe-se que ela falta na infância, desperta por ocasião do processo de maturação da puberdade e se exprime nas manifestações de atração irresistível que um sexo exerce sobre o outro; seu objetivo seria a união sexual ou, pelo menos, as ações que levam a ela. Temos, porém, todas as razões para ver nessa imagem um retrato bastante infiel da realidade."

Percebemos isso sobretudo no início da narrativa da Teresa quando ainda criança ela começa a sentir pulsão sexual. Mas sua mãe ao invés de orientá-la quanto aquele fenômeno, decide mandá-la para um convento onde será orientada por um discurso fantasioso a reprimir sua sexualidade. 

Desde muy niña sólo oí hablar de amor a la virtud y horror al vicio. «No serás feliz —me decían— si no practicas las virtudes cristianas; todo cuanto se aparta de ellas es el vicio; el vicio atrae el desprecio general, y el desprecio engendra vergüenzas y remordimientos.» Persuadida de la solidez de estas lecciones, procuré ajustar a ellas mi vida, hasta la edad de veinticinco años. Vemos cómo me fue con tales normas. (Desde muito pequena só ouvi falar de amor à virtude e horror ao vício. «Não serás feliz — me diziam — se não praticares as virtudes cristãs; tudo o que se afasta delas é o vício; o vício atrai o desprezo geral, e o desprezo gera vergonhas e remorsos.» Convencida da solidez dessas lições, procurei ajustar minha vida a elas até a idade de vinte e cinco anos. Vemos como me saí com tais normas).

O trecho acima é do romance Teresa, filósofa (edição em espanhol), no qual ao iniciar sua narrativa, ela fala ao seu interlocutor quais foram os princípios que aprendeu na infância que lhe guiaram até os 25 anos. E evidencia o que falamos anteriormente seguindo Freud. No trecho ela diz que aprendeu que devia cultivar as virtudes cristãs e rechaçar os vícios. Quem conhece um pouco do cristianismo sabe que temos aí uma boa dose de platonismo - que consiste na exaltação do mundo das ideias (alma) e a condenação do mundo dos fenômenos (corpo).

"Enquanto tivermos o corpo e a nossa alma estiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto dos nossos desejos, ou seja, a verdade. Pois o corpo nos impõe mil exigências pelo sustento de sua vida [...] enche-nos de amores, desejos, medos e toda sorte de ilusões."

O trecho acima não é de um sermão religioso, mas do nosso querido Platão no Fédon. É contra essa filosofia que Nietzsche irá se sublevar como podemos ver num trecho de Além do Bem e do Mal.

"Não sejamos ingratos para com ele [o erro platônico], embora se deva admitir que o pior, mais duradouro e mais perigoso dos erros até hoje cometidos foi um erro de dogmático, a saber: a invenção de Platão sobre o Espírito Puro e o Bem em Si. Mas agora que ele foi superado, agora que a Europa respira aliviada deste pesadelo [...] falar do Espírito e do Bem como fez Platão não significaria inverter a verdade e negar a própria perspectiva, a condição fundamental de toda a vida? [...] Pois o cristianismo é o platonismo para o 'povo'."

Ao longo da narrativa Teresa vai nos revelando como sua visão acerca da sexualidade vai mudando. Sobretudo quando descobre o que acontecia na vida privada daqueles que diziam ser os guias (religiosos) das práticas virtuosas. E ao final ela se convence que reprimir seus desejos não é agradar a Deus. A partir de então podemos dizer que ela passou a existir de fato: “Todo es obra de Dios: Él nos inspira el deseo de comer, de beber y de gozar de todos los placeres.” (Tudo é obra de Deus: Ele nos inspira o desejo de comer, de beber e de desfrutar de todos os prazeres)

Nesse contexto, vale questionar a quem interessa projetos de lei como o de N.º 4.844, DE 2023, de autoria do Deputado Rodolfo Nogueira que se aprovado proibiria “a educação sexual nas escolas de educação básica”. Entendendo como “educação sexual toda e qualquer atividade de ensino, orientação ou informação que trate de temas relacionados à sexualidade, incluindo: Aspectos biológicos: o desenvolvimento do corpo e das funções sexuais; Aspectos psicológicos: as emoções e os sentimentos relacionados à sexualidade; Aspectos sociais: as relações interpessoais e os papéis de gênero; Aspectos éticos: os valores e os direitos relacionados à sexualidade.” E ainda determinando que “a escola não poderá ministrar aulas de educação sexual, independentemente do consentimento dos pais ou responsáveis legais.”

Negar o que faz parte da natureza humana não nos parece o melhor caminho para proteger a criança e o adolescente. Pelo contrário, mantê-lo na ignorância contribui para que se tornem presas fáceis de abusadores. Ressalto porém que a educação sexual deve ser ministrada por especialistas que certamente saberão o que trabalhar e como trabalhar determinados objetos de conhecimento de acordo com cada faixa etária.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

sábado, 10 de outubro de 2026

Crônica: No eixão ou é o Brasil!

Peguei o eixão em direção ao centro. O movimento me pareceu normal levando em consideração que era feriado. Pelo que pude perceber era horário de troca de turno de trabalhadores do comércio de alimentos (havia muitos deles uniformizados) que trabalham na escala 6x1 - para esses não há sábado, domingo e feriado. Mas o que me chamou atenção mesmo foi um senhor com os seus 70 anos com uma camisa vermelha, um adesivo da candidatura do Lula para Presidente no peito e um chapéu do PT. Pensei comigo - eis alguém de coragem. Sobretudo diante do fato de que estamos numa das cidades mais bolsonarista do Brasil.

O ônibus seguia colhendo gente pelo caminho - o povo da periferia que vende sua força de trabalho repondo mercadorias nas prateleiras do comércio varejista, servindo os clientes nas padarias, açougues e nos caixas do centro. Muitos deles jovens. Não pude deixar de lembrar de mim mesmo quando terminei o ensino médio e tive como primeiro trabalho de carteira assinada reposição de mercadoria num grande supermercado na capital goiana. Eu também trabalhava na escala 6x1 e pegava coletivos lotados todos os dias da semana. Odiava ter que trabalhar feriados, odiava trabalhar sábado e domingo. Sobretudo porque era um trabalho que não gostava, que fazia pela sobrevivência.

Entre os jovens trabalhadores naquele ônibus um me chamou atenção. Pelo seu uniforme provavelmente trabalhava no setor de frios e laticínios. Estava com uma latinha de cerveja na mão. Pelo seu comportamento, aquela não era a única que havia bebido. Fiquei pensando se estava voltando ou indo para o trabalho. Pois se estivesse indo naquelas condições era demissão na certa (há não ser que estivesse fingindo a embriaguez). Voltando do trabalho não me pareceu lógico. Pois geralmente alguém não vem do centro trabalhar no comércio na região sul, a não ser que seja o dono do comércio. Ou só se fosse um desses milionários excêntricos que estava fazendo uma experiência e não tinha suportado a jornada. 

O ônibus estava lotado. Em um dado momento ele começou a cantar alto:

Do you have the time to listen to me whine
About nothing and everything all at once?
I am one of those
Melodramatic fools
Neurotic to the bone
No doubt about it

Reconheci imediatamente a música (basket case, do Green Day) sua voz era péssima, seu inglês mais ainda. Não pude deixar de sorrir discretamente. Ele certamente tinha consciência do que estava cantando. Se não posso dizer que a letra casava muito bem com o estado de espírito que ele parecia estar. Seria o trabalho? A vida pessoal? O momento político do país? Não, eu não tinha tempo para ouvi-lo choramingar e descobrir o que era.

O senhor com o boné do PT e o adesivo do Lula me perguntou se a estação Krahô estava distante. Respondi que não. Ele então disse que desceria lá e começou a se deslocar para mais próximo da porta com a ajuda de uma moleta. Durante o trajeto até ali ele manteve um semblante fechado olhando para o horizonte. Talvez fosse uma defesa para evitar provocações. Talvez estivesse preocupado com o futuro - imagino o quanto não é difícil um governo de extrema direita para um senhor aposentado ou pior, que depende de um benefício de prestação continuada (BPC) para sobreviver. Não sei se era o caso dele. Sei que é o caso de tantos outros. Sobretudo daqueles trabalhadores da periferia se deslocando para os seus trabalhos. Quando ele se levantou em direção a porta lhe dei um tapa no ombro e disse: - vamos virar. Ele sorriu e respondeu: - sim, vamos. No mesmo ponto que ele desceu, subiu um senhor mais ou menos com a mesma idade com uma camiseta amarela e os dizeres: Tocantins com Flávio Bolsonaro. Pensei comigo: Pode isso? Ele pediu o lugar preferencial que era ocupado por uma jovem trabalhadora e foi tirar um cochilo.

Enquanto isso, o nosso jovem embriagado sentou na poltrona ocupada outrora pelo senhor com o boné do PT e o adesivo do Lula. E passou a discutir com alguém pelo celular. Logo pude perceber que a conversa era sobre política, mais especificamente sobre uma pesquisa que não compreendi do que se tratava. Sei que ele questionava a pesquisa apelando para o IBGE. Pensei comigo - se ele está apelando para o IBGE, não é um bolsominion. A certeza veio quando ele gritou - fascista. Imaginei ele chegando no trabalho, sendo chamado atenção pelo patrão e metendo o dedo na cara dele e falando: - fique com o seu trabalho de merda, seu fascista.

O ônibus chegou ao ponto que eu iria descer. Desci. Muitos também desceram ao longo do caminho. O ônibus continuou cheio. Seguia nele o velho bolsonarista tirando o seu cochilo, o jovem revoltado e tantos outros apáticos - seguindo como gado para o seu trabalho - sem muita preocupação com o país que teremos nos próximos anos se hegemonia da extrema direita se consolidar com a eleição do seu candidato a presidente.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O nome Moisés Avelino na história do Tocantins

Durante uma visita ao museu Palacinho com estudantes do Ensino Médio do Colégio Esportivo Cívico Militar Santa Rita de Cássia, um comentário de um estudante questionando por que se falava tanto do Governador José Wilson Siqueira Campos, durante a exposição do guia (um professor de história), me deixou reflexivo. O guia tentou justificar que pelo fato de que aquele lugar havia sido construído pelo Siqueira nos primórdios da construção do que seria a capital definitiva do mais novo estado da federação. E a partir dali, com uma visão privilegiada das obras em desenvolvimento, governou o Tocantins. Não sei se essa explicação convenceu o estudante. Mas a mim não, sobretudo porque alarguei o meu olhar para além daquele espaço e percebi que o mesmo se repete em outros espaços públicos.
É inegável a relevância política do José Wilson Siqueira Campos na emancipação e desenvolvimento do Tocantins. Mas e outros personagens que inclusive chefiaram o executivo estadual? Não deixaram nenhum legado que não merece sequer uma menção? E ainda que não tenham deixado nenhum legado, só o fato de terem ocupado um cargo público a história não poderia ignorá-los. Aí então fiquei refletindo sobre um possível apagamento de determinados personagens na história oficial do Tocantins - entre esses nomes me veio à memória o do Governador Moisés Avelino.

Moisés Avelino (Médico e Empresário) foi o segundo governador do Tocantins - cargo que ocupou após um feito notável - derrotar o grupo político do José Wilson Siqueira Campos representado pela candidatura do Moisés Abraão.  Tal feito não foi obra do acaso. Avelino era um líder político com história no então norte goiano . Já havia sido eleito prefeito de Paraíso, administrando-a por dois mandatos consecutivos (1983/1988). Também foi presidente da Associação dos Municípios do Vale do Araguaia e Tocantins (1985-1987) e da Coopernorte-GO (1987-1988) - Cooperativa dos Produtores Rurais do Norte. O que o levou a ser eleito para Câmara dos Deputados (1989 e 1991). Ou seja, quando eleito para governar o Tocantins (1991-1994), Avelino já era uma liderança política com experiência de gestão e uma forte influência no setor da economia mais importante do Tocantins - o agronegócio. A sua gestão à frente do executivo estadual ficou para a história de forma bastante estigmatizada. Ainda mais com o triunfo do José Wilson Siqueira Campos na eleição que o sucederia (1994). Ao assumir o governo novamente Siqueira Campos construiu uma poderosa organização política (União do Tocantins) de inspiração oligarca, deixando pouco espaço para oposição. Reeleito em 1998, o Tocantins, politicamente, acabou sendo forjado a imagem e semelhança do “seu criador”. Diante disso é compreensivo por que o período de 1991 a 1994 (período em que Avelino esteve à frente do executivo estadual) é praticamente apagado da história do Tocantins.

Se olharmos para o período histórico em que Moisés Avelino esteve no governo do Tocantins, digamos que ele não pegou uma conjuntura favorável. Se não bastasse os desafios de administrar um estado em formação é importante lembrar que a nível nacional o Brasil sentia na pele o fracasso dos planos econômicos do então Governo Collor que o levaria ao impeachment. Mesmo assim aponta-se que o governo Moisés Avelino consolidou a política administrativa do Tocantins, realizou mais de 2 mil obras e atuou fortemente na interiorização de serviços básicos. No entanto, na eleição de 1998, quando Avelino tenta retornar ao governo enfrentando o candidato à reeleição José Wilson Siqueira Campos, o resultado mostra que a imagem do seu governo por parte da população não era positiva, tanto que a vitória do Siqueira foi de 61,65%. Anos depois retornou a disputar cargos políticos sendo eleito para Câmara dos Deputados (2007-2011) e a Prefeito de Paraíso (2013-2020) por mais dois mandatos consecutivos.

Na disputa eleitoral de 2026 o seu nome voltou a ser lembrado pelo Deputado Federal Vicentinho Júnior (PSDB) - candidato ao governo do Tocantins pela oposição. Com apoio da família de Avelino, o candidato tucano exaltou a figura do segundo homem a governar o Tocantins. Lembrando o feito que o levou ao governo - o qual pretende repetir - para tanto será necessário derrotar Dorinha (União Brasil) no 2º turno.

Independente da vitória ou não de um político que reconheça o legado do Governador Moisés Avelino (sobretudo depois da sua morte, não sendo portanto mais uma ameaça política), a tendência é que no decorrer dos anos  a história do Tocantins não só registre a sua existência como também os seus feitos - não que tenha sido algo extraordinário esses feitos mas é importante - e o que se espera numa democracia. Assim como é importante registrar o papel desempenhado por outros nomes que fazem parte da história do Tocantins. Pois se não nos cabe questionar que história do Tocantins estamos ensinando? Óbvio que compreendemos que por ser muito jovem é difícil uma história do Tocantins com o distanciamento necessário para que não seja tão partidarizada. De todo modo devemos fazer um esforço nesse sentido. Sobretudo se se faz história numa perspectiva científica.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.