terça-feira, 15 de setembro de 2026

Machado: O amor e outras afecções em contos fluminenses

Uma das coisas que me encanta nos escritos do Machado de Assis não é o que ele diz mas como ele diz. Ou seja, mais interessante do que suas estórias e personagens é a sua escrita. Ainda que suas estórias e personagens nos proporcione importantes reflexões filosóficas e nos ajude a compreender a nossa formação enquanto nação brasileira. Em contos fluminenses (1870) temos tudo isso a partir de estórias que retratam a vida privada no Rio de Janeiro do século XIX. Um aspecto interessante das narrativas é acerca dos afetos que circulam nesse ambiente. E como eles influenciam nos destinos dos personagens.

O primeiro afeto que salta aos olhos durante a narrativa é o amor. Machado parece compreender o amor segundo a tradição grega, sobretudo de inspiração platônica, como uma falta. O amante busca no objeto amado aquilo que lhe falta. Ao ponto de o amado se tornar o sentido da existência do amante. Parece trágico, não?! E é. Quantas pessoas ao longo da história não tiraram a própria vida pelo fato do objeto do seu amor não se realizar. O conto Frei Simão é um exemplo nesse sentido. Ele não chega a tirar a própria vida. Mas é afetado por uma tristeza tão profunda que acaba não tendo outro destino. Naquele período não se falava em depressão. Mas nos dias atuais seria disso que diagnosticariam o jovem Frei. Em Miss Dollar e Linha Reta e Linha Curva acontece o contrário. O amante conquista o amor do amado. Não sem uma boa dose de sofrimento. O sofrimento aqui advém sobretudo pelo fato de que o amado nesse caso já tinha tido experiências anteriores (eram viúvas). Certamente nesse caso o medo está presente. O medo do que diria a sociedade. O medo de ser usada por um dom juan - o que de fato aconteceu em Confissões de uma viúva moça. 

“Mas aquilo que o espírito do homem não vence, há de vencê-lo o tempo, a quem cabe final razão. O tempo convenceu Margarida de que a sua suspeita era gratuita; e, coincidindo com ele o coração, veio a tornar-se efetivo o casamento apenas celebrado.”

O trecho acima é do conto Miss Dollar. E trás um elemento importante que faz com que o amado corresponda a expectativa do amante - o tempo. Há uma definição bem interessante do que é o tempo no conto Linha Reta e Linha Curva.

“- Três meses, três minutos! Eis toda a verdade da vida. Se os pusessem sobre uma grelha, como São Lourenço, cinco minutos eram cinco meses. E ainda se fala em tempo! Há lá tempo! O tempo está nas nossas impressões. Há meses para os infelizes e minutos para os venturosos!”

Ou seja, o tempo é abstrato. O que para alguns é tempo demais para outros é tempo de menos. Para o amante que ainda não possui o objeto amado o tempo anda lentamente. Quando está em posse do objeto amado a perspectiva muda. O tempo é portanto a sucessão dos acontecimentos. Fazendo uma leitura espinosana, mais do que a duração de um momento. É o quanto esse momento nos afeta com determinada afecção. Se aquele momento nos afeta de tristeza a impressão acerca do tempo é uma. Se nos afeta de alegria, a impressão é outra.

Ainda seguindo uma leitura espinosana da obra machadiana. Sobretudo no conto Linha Reta e Linha Curva. Percebemos como os afetos se transformam. Nesse conto temos Tito - jovem que diz ser indiferente ao amor. Incapaz de amar quem quer que seja. Deixando claro que isso se dá não por que não ver as mulheres dignas do seu amor. Mas porque nasceu assim. 

“Note bem, não por elas, é por mim. Acredito que todas as mulheres sejam credoras da minha adoração; mas eu é que sou feito de modo que nada mais lhes posso conceder do que uma estima desinteressada.”

Por mais que Tito tente evidenciar que não despreza as mulheres. Num determinado momento diz preferir um jogo de carta ao amor de uma mulher. O que provoca indignação em Emília - que decide conquistá-lo para vingar o sexo feminino de tamanho desprezo.

“- Lembra-me um do mesmo gênero que este - disse Emília -. Foi já há tempos. Andava sempre a gabar-se da sua isenção. Dizia que todas as mulheres eram para ele vasos da China: admirava-as e nada mais. Coitado! Caiu em menos de um mês. Adelaide, vi-o beijar-me a ponta dos sapatos... depois do quê, desprezei-o.”

Não vou aqui dar spoiler do que acontecerá tirando de você camarada o prazer de descobrir por meio da leitura do conto. Mas ao ler você perceberá o seguinte movimento - a substituição ou transformação de afetos. Você perceberá, numa linha do que diz Espinosa, que não podemos fugir daquilo que a natureza determina. No entanto, se usarmos a razão podemos perseverar numa determinada direção.

Em contos fluminenses (1870), temos mais uma amostra desse ser extraordinário que foi Machado de Assis. Ao final de cada conto, ao mesmo tempo que o leitor é tomado de alegria, também é afetado pela tristeza por que chegou ao fim.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT). 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Eleições de 2026 no Tocantins: As pesquisas e as disputas

Comecemos por falar das famigeradas pesquisas eleitorais. Cada vez que é divulgada gera toda uma discussão. Até que ponto podemos confiar no quadro apresentado? Sobretudo porque o histórico é mais ou menos das previsões meteorológicas nos seus primórdios. Óbvio que quem está na frente na pesquisa divulgada vai aproveitar para fazer aquela mídia e, quem sabe, conquistar votos indecisos. Já quem está atrás ignora na esperança de que surja alguma que lhe favoreça.

Como pode pesquisas realizadas no mesmo período, no mesmo território chegar a resultados distintos? Será se são feitas com rigor científico ou de acordo com o gosto do cliente? Há que se levar em consideração que o objeto em análise é o ser humano que não é estático como uma pedra. Por isso é importante, para quem quiser fazer uma análise séria da conjuntura, observar todos os dados que a pesquisa fornece. Sobretudo aqueles que não são importantes à primeira vista. Nessa linha quanto às pesquisas feitas no Tocantins observamos algo que os analistas políticos não levaram em consideração e que na minha visão é importante - a distância entre o primeiro e o segundo colocado. As pesquisas divulgadas têm divergido quanto a quem está na frente da disputa, mas em relação à distância de um para outro não. Logo podemos afirmar que por mais questionáveis que sejam as pesquisas. Elas apontam para um inevitável 2º turno. Já havíamos falado dessa possibilidade durante a pré-campanha. Mas agora esse cenário parece irreversível. Parece também que não há espaço para uma terceira via, tanto ao governo estadual quanto ao federal. Já em relação à disputa pelo senado, que necessariamente será decidida no primeiro turno, o questionamento é saber quem se beneficiará com uma disputa entre tantas candidaturas competitivas - temos, por enquanto, uma disputa totalmente em aberto.

Diante de tudo isso, o cenário é o seguinte: teremos um resultado apertado tanto na corrida pelas duas cadeiras em disputa ao Senado, ao Governo Estadual e à Presidência da República. E é com esse cenário que a campanha tem tomado as ruas com os candidatos buscando unir o máximo de gente possível para mostrar força e atrair os indecisos. No interior, a estratégia mais vitoriosa é obter o apoio de quem está na Prefeitura e Câmaras de Vereadores - estes com toda a sua influência política garantiram não apenas um palanque, mas também muitos votos. Como contrapartida, esses líderes municipais terão apoios nas eleições municipais que ocorrerão futuramente. Na capital também não é tão diferente. O prefeito Eduardo Siqueira Campos já deixou claro que será candidato à reeleição e certamente espera contar com o apoio daqueles que está apoiando.

No Tocantins os dois candidatos que polarizam a disputa ao Governo do Estado, Dorinha e Vicentinho, têm focado suas campanhas em apresentar propostas para os problemas regionais, sobretudo com foco na melhoria dos serviços públicos (saúde, educação, segurança pública, melhoria da infraestrutura e valorização salarial dos servidores). Evitam claramente se posicionar em relação à disputa nacional. Talvez sejam obrigados num segundo turno. Laurez, que não tem muito a perder, aposta numa ligação com a candidatura do Presidente Lula à reeleição, mesmo sendo de um partido que tem a candidatura do Ronaldo Caiado (PSD). No entanto, historicamente, o Tocantinense e o brasileiro no geral não seguem uma lógica partidária ou ideológica na hora de votar. Votam num deputado estadual de uma coligação, num deputado federal de outra, num senador de outra e daí por diante. O que o move, no geral, é o pragmatismo político. 

Em relação a disputa nacional o Partido dos Trabalhadores (PT) tem conseguido levar a melhor nas disputas eleitorais no Tocantins, mesmo quando o candidato do partido não era o Lula. E o que as pesquisas apontam na atual conjuntura é de que não será diferente. No entanto nos grandes municípios a tendência é outra. Diante disso, essa vantagem não será tão grande. E não refletirá na eleição de candidatos petistas ao parlamento estadual e federal. No entanto, há uma novidade esse ano que devemos avaliar depois a sua efetividade - o movimento capitaneado pela Kátia Abreu - responsável por coordenar a campanha à reeleição do candidato petista à presidência da república. O candidato bolsonarista por sua vez se apoia nas igrejas evangélicas que tem uma influência considerável na política tocantinense - uma influência crescente.

O papel de coordenadora da campanha à reeleição do Presidente Lula dá a oportunidade da Kátia Abreu a voltar a ter alguma relevância na política estadual. Caso o presidente seja reeleito é de se imaginar que ela pessoalmente, mais do que o próprio PT, será a grande vitoriosa. Tendo um papel importante na indicação de nomes para os cargos nos órgãos federais no Tocantins. E inclusive podendo assumir alguma função na esfera federal. 

Concluímos ressaltando que quanto mais próximo chegarmos da eleição mais tensionado ficará a disputa. Já observamos alguns ataques diretos entre as partidas em contenda. Sem falar do espectro da corrupção que é uma ameaça permanente. A bola da vez é o caso do banco master. Em que medida esse escândalo poderá impactar campanhas de norte a sul do Brasil? Aguardemos.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

sábado, 5 de setembro de 2026

Conto: Paixão proibida

De todas as mulheres dessa cidade por que fui logo me apaixonar por ela?! Mas como eu poderia resistir aquela boca, aquele sorriso, aquele olhar. Foda-se se era casada. Valia a pena viver perigosamente ao lado dela. Dizem que os frutos proibidos são mais gostosos. Não sei, não. Não era nada agradável pensar que a qualquer momento poderíamos ser surpreendidos pelo marido dela. E conhecendo lhe a fama. Provavelmente não estaria aqui contando essa experiência.

Eu juro que tentava resistir. Prometia para mim mesmo que não sairia com ela novamente. Mas quando ela surgia com aquele olhar diante de mim. Não conseguia mais pensar em nada se não em tê-la nos meus braços. E assim nos entregavamos a paixão dos nossos corpos. Depois como se depertassemos de um transe nos despediamos como se tivesse sido a última vez. Mas o fato é que não conseguíamos ficar muito tempo longe um do outro.

Não que ela me amasse, não tinha ilusão quanto a isso. Ela queria apenas viver uma aventura fora do casamento. Se não fosse comigo, seria com outro. Para minha sorte, ou azar, não sei, foi comigo.

Por mais que fôssemos discretos, havia comentários. E se esses comentários chegasse ao ouvido do marido dela, ele certamente pensaria: - onde há fumaça. Há fogo. E iria investigar. Isso nos deixava mais cautelosos ainda. Ficávamos um período distante um do outro, mas acabavamos nos encontrando. E quando nos encontrávamos, acabavamos na cama.

No meu quarto, alta madrugada, sob a luz do cigarro dela. No toca discos Janis Joplin ou Amy Winehouse. Ninguém ousaria imaginar o que estava acontecendo naquela casa onde não existia muito movimento (onde vivia um ser um tanto solitário). Pelo menos era isso que achávamos. Ledo engano. Afinal de contas como dizem por essas bandas: - as paredes tem ouvidos.

Quando nos afastavamos eu procurava em outros corpos encontrar o prazer que tinha com ela. Mas ninguém chegava aos pés daquela mulher. Pelo contrário. Meu esforço para me afastar dela, acabava me tornando mais dependente dela. Estaria eu condenado aquela relação perigosa da qual o único fim possível era uma tragédia? Ora, por que diabos, com tantas mulheres nessa cidade fui logo me apaixonar por aquela. Mas também nenhuma das outras fazia o me coração bater acelerado como a bateria do Motorhead. Enquanto isso vou vivendo essa paixão proibida.

Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino-americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in roll. 

domingo, 30 de agosto de 2026

Poema: Que furacão!


Eu já tive um furacão 
em minha vida.
Que furacão!
Por ela perdia o sono,
delirava de paixão. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida.
Que furacão! 
Não se chamava Hilda,
mas roubou o meu coração. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida.
Que furacão. 
Tinha olhos de ressaca. 
Era pura tentação. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida. 
Que furacão. 
Entre os peitos uma flor de lótus 
símbolo de superação. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida.
Que furacão! 
Não teve reza que me salvasse,
cai em suas mãos. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida. 
Que furacão! 
Hoje estou liberto, 
a sete palmos no chão. 

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Hipóteses para a estagnação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) do Tocantins - 2026

No geral, foi com frustração que o Tocantins recebeu o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) a partir do resultado da prova do sistema de avaliação da educação básica (SAEB) aplicada em 2026 e dos dados do fluxo (entre eles aprovação e evasão), divulgado pelo Governo Federal. O resultado alcançado mostra uma estagnação no ensino médio (4,1), recuo de 0,1 nos anos finais do ensino fundamental (de 4,8 para 4,7) e um pequeno avanço de 0,4 nos anos iniciais do ensino fundamental (de 5,4 para 5,8). Se levarmos em consideração o investimento do Governo Estadual na educação, sobretudo nos dois últimos anos, a frustração é justificada.

É importante lembrar que entre 2024 e 2025 o governo deu posse para milhares de concursados aprovados no certame de 2023. Anteriormente a isso o governo pagou as progressões atrasadas reivindicadas pelos professores há anos. Construiu novas escolas e reformou outras tantas. Ampliou as escolas de tempo integral. Investiu em tecnologia adquirindo equipamentos tanto para professores como para os estudantes. Manteve uma política de formação continuada (com foco no IDEB) e valorização da carreira com a elaboração e aprovação de um novo PCCR (Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração), gratificação e premiação das boas práticas (Prêmio Escola que Transforma). Não menos importante foi o avanço de uma política de permanência estudantil com o presente, prof e o pé de meia (programa do governo federal). Diante disso uma pergunta se impõe: porque essa política de valorização da educação não refletiu num avanço significativo do IDEB no Tocantins?

Ora, um avanço significativo na qualidade da educação não se dá de uma hora para outra (de um ano para o outro). Da mesma forma os retrocessos. Peguemos, por exemplo, o resultado do município de Palmas que teve um recuo significativo. Alguns críticos se apressaram em colocar na conta da gestão do atual Prefeito (Eduardo Siqueira Campos) a responsabilidade pelo “fracasso”. Em que pese a péssima gestão em curso (não só na educação) colocar unicamente na conta do Eduardo é desonestidade. O IDEB não é reflexo de 01 ano de gestão. Pensei comigo ao ouvir algumas críticas - se o que foi construído ao longo de vários anos caiu tão rapidamente, então o que foi construído não era tão sólido assim. Eu chamo esse tipo de crítica seletiva de oportunista. Por que ela não vai a raiz do problema. Serve apenas como arma para atacar adversários políticos. Ainda mais no contexto em que estamos de disputa eleitoral.

Partamos do pressuposto de que o IDEB reflete exatamente o que são as escolas (o que nós que estamos em sala de aula de uma escola pública sabemos que não). Por que não avançamos? Segue algumas hipóteses:

  • A política educacional é planejada de cima para baixo sem a participação efetiva de quem está em sala de aula;
  • O planejamento não  leva em consideração a diversidade e especificidade de cada comunidade escolar;
  • Os professores são meros executores de um programa comprado de uma empresa privada (Soluções Modernas);
  • Excesso de burocracia tomando um precioso tempo do professor para que possa planejar e dar aulas;
  • Excesso de projetos no ambiente escolar;
  • Foco excessivo em Língua Portuguesa e Matemática;

Não é meu objetivo aqui fazer um estudo aprofundado. De modo que não irei destrinchar todas essas hipóteses. Deixo portanto como pontos para reflexão se quisermos começar a discutir seriamente esse problema. No entanto vou tecer algumas palavras a respeito da primeira hipótese (a política educacional é planejada de cima para baixo sem a participação efetiva de quem está em sala de aula) por que acredito que a partir dela derivam as demais. Um grupo de “iluminados” elaboram a política que deve ser implantada por todas as escolas - uma política que se materializa por meio de uma burocracia que não raramente leva ao adoecimento de quem está em sala de aula. Quando o resultado estabelecido não é alcançado adivinhem quem é o culpado? Lembro aqui das palavras do educador José Pacheco numa entrevista para a Revista Educação - “Enquanto a burocracia prevalecer em detrimento da pedagogia, os professores continuarão a ser considerados os ‘bodes expiatórios’ dos males do sistema.” Por enquanto não vemos uma perspectiva de mudança. Sobretudo porque não percebemos uma preocupação genuína por parte de quem comanda a educação em mudar essa realidade. E nem dos que estão no chão da escola em se rebelar.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Geraldo Viramundo - louco ou sábio?

Quando iniciei a leitura do O Grande Mentecapto (relato das aventuras e desventuras de Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações) do escritor mineiro Fernando Sabino, confesso que as primeiras impressões não foram boas. A estória parecia não ser interessante. O personagem principal menos ainda. E o pior era a escrita que fazia com que a leitura fosse pesarosa. Mas não abandonei e continuei lendo. Não gosto de abortar uma leitura, por mais pesarosa que ela seja para mim. Fiz isso uma vez com Tropas e Boiadas, do Hugo de Carvalho Ramos, e nunca mais retornei - quem sabe um dia. O meu estranhamento com a escrita do Fernando Sabino seria pela minha falta de familiaridade com a cultura mineira? Talvez. O fato é que tenho pouca leitura de autores mineiros, com exceção dos poemas do Drummond e da Adélia Prado que aprecio muito. Mas enfim, li o livro até o final. E a impressão final foi outra. Geraldo Viramundo entra na minha galeria de personagens inesquecíveis. Já o seu criador, certamente não é o melhor prosista que já li, mas  não deixa de ter sua relevância.

Como já adiantamos nas linhas acima, Fernando Sabino é mineiro de Belo Horizonte - cidade onde nasceu nos idos de 1923. Além de escritor, atuou como jornalista e editor. Entre suas obras o romance O grande Mentecapto (publicado em 1979) se destaca. Nele temos uma espécie de biografia de Geraldo Boaventura - nascido no interior de Minas Gerais (na pequena Rio Acima) - e que ganha o mundo (Minas Gerais) vivendo aventuras à la Dom Quixote de la Mancha. A sua ingenuidade o coloca em situações difíceis. Mas ele consegue superar e seguir o seu caminho - sem destino - a não ser aquele que é o destino de todos nós - a morte. Aliás, é a morte de um colega ainda na infância que vai marcar profundamente o estado de espírito de Geraldo. A partir desse episódio trágico nosso personagem extrovertido torna-se introspectivo. Provavelmente sentia culpa pela morte de Pingolinha que acreditava poder repetir o feito de Geraldo de ter parado o trem. Esse sentimento de culpa talvez também tenha o levado a se tornar Padre - além do fato que ao decidir entrar para o seminário deixaria a casa dos pais onde não era tão querido. Mas o sacerdócio não era para ele. Alguns acontecimentos alheios à sua vontade levaram a sua expulsão do seminário. E a partir dali tornou-se um ser sem lugar nenhum, ganhando o apelido de Viramundo.

Não sei o que levou Fernando Sabino a colocar como título do romance O grande Mentecapto. Me pareceu não fazer muito sentido. Ainda que mentecapto segundo os dicionários é “aquele que não possui nem utiliza a razão; mentalmente desorganizado; sem juízo; maluco.” E ao longo da sua narrativa o autor busca enfatizar a possível insanidade de Viramundo. Não ousou contradizer, afinal de contas o criador do personagem é o autor. Mas fundamentado no que o próprio autor escreve sobre o personagem, sobretudo na parte final, não estamos diante de um grande mentecapto. Talvez o sentido de grande no romance não esteja relacionado a grandeza mas a valor. Mas enfim.

Outro aspecto que gostaria de chamar atenção na obra é uma espécie de homenagem a Minas Gerais. Viramundo anda por várias cidades mineiras e nessas andanças o autor vai nos apresentando a cultura local e personalidades dessas localidades. Há uma enorme referência de autores e suas obras - Viramundo é um apreciador de poesia, sobretudo os poemas do Alphonsus de Guimaraens. Viramundo também ama a liberdade e não gosta de injustiças. Encontra pelo caminho alguns que iram tirar proveito da sua ingenuidade. Por outro lado também será acolhido por outros tantos.

“Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu, índio, cigano, santo, poeta, mendigo e débil mental, Viramundo! que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza de sua loucura.”

No trecho acima podemos ter uma noção da prosa do Fernando Sabino. E é um trecho também em que o narrador se identifica com o personagem - um personagem que talvez seja a síntese do povo brasileiro - que vai se forjando através das injustiças, resiste mas acaba tendo um final trágico. 

“O raio que coriscou na sua cabeça naquele instante, dando-lhe uma fulminante consciência da iniquidade que prevalece neste mundo, foi demais para a sua inocência, matou o menino que ele trazia dentro de si. Matou o menino.”

Em um contexto em que a injustiça impera, como por exemplo, quando a polícia assassina o cego Elias (amigo de Viramundo), assumir nossa loucura talvez seja a decisão mais sábia possível. Diante disso nos cabe concluir citando a balada do louco (Arnaldo Baptista / Rita Lee Jones de Carvalho / Roger Ranson) e recomendando a leitura das aventuras do Geraldo Viramundo: Mas louco é quem me diz/E não é feliz, não é feliz/Eu juro que é melhor/Não ser o normal/Se eu posso pensar que Deus sou eu.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).

sábado, 15 de agosto de 2026

Resenha: The Cloud of Unknowing, do Sepultura

E no final da caminhada o que resta? Orgulho do que fizemos ou arrependimento? Nossas escolhas foram coerentes? Ou nos curvamos ao status quo? Esses questionamentos são suscitados pelo EP The Cloud of Unknowing (2026), da banda brasileira de thrash metal - Sepultura.

Não. Eu não poderia deixar de escrever algumas linhas sobre o que foi anunciado como o último trabalho de inéditas antes do fim anunciado desse grupo que é um dos meus preferidos se tratando de rock in roll. No geral, o trabalho é uma amostra breve da potência criadora da banda com uma sonoridade técnica (mas não menos pesada) e letras filosóficas - tanto numa perspectiva existencialista como de crítica social - que caracterizam a fase Derrick Green. Ao final da audição fica um gosto de: mais uma dose, por favor! Se caso quisessem certamente teríamos um álbum no nível dos anteriores. Com novos elementos que mostram que a banda está sempre evoluindo criativamente.

The Cloud of Unknowing (2026), traz quatro canções inéditas. Sendo este o primeiro registro discográfico com Greysson Nekrutman na bateria. E pelos elementos do jazz fica evidente que ele não só tocou, mas contribuiu com as composições - que de acordo com Andreas Kisser ocorreu de forma espontânea - sem pressão. Esse clima certamente corroborou para que gravassem a primeira balada da banda - perseguida há algum tempo.

Abrindo o ep. temos All Souls Rising (Todas as Almas Ascendendo) que começa num ritmo avassalador. Para em seguida ser cortado abruptamente por um som de cordas. Depois vem o refrão pesadíssimo. Para em seguida retomar a velocidade. A letra foi inspirada num livro sobre a revolução haitiana escrito por Madison Smartt Bell. E critica o fato das pessoas se corromperem em troca de dinheiro - jogando um jogo que sacrifica milhares. Contra esse estado de coisas o Sepultura nos conclamar a resistir e lutar:

Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)/All souls are rising - Todas as almas estão ascendendo/Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)/Until the end - Até o fim/Let's fight (this fight) Vamos lutar (essa luta)/We stand united - Estamos unidos/Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)...

Esse refrão merece se transformar em palavra de ordem nas manifestações em defesa do povo preto, que tanto nos Estados Unidos como no Brasil (e em outras partes do globo) são os alvos preferenciais das forças de segurança em nome da classe dominante. Essa canção também nos instiga a olharmos para o Haiti - país pioneiro na luta contra a escravidão que hoje está subjugado pela violência alimentada pelas grandes potências.

Em seguida vem a canção que para mim deveria fechar o ep. Trata-se da balada Beyond the Dream (Além do Sonho) - que soa como uma carta de despedida onde eles olham para o passado com orgulho daquilo que construíram. Aceitam o fim inevitável como parte de um processo para torná-los imortais. Pois afinal de contas a banda vai chegar ao fim mas não deixar de existir.

Looking out the blurry window - Olhando pela janela embaçada/Wondering how we got this far - Me perguntando como chegamos tão longe/Bleeding out we feel the nightfall - Sangrando, sentimos a noite cair - The future was never so clear -  O futuro nunca foi tão claro

Belo, não?! Uma reflexão que vale para todos nós. Até onde conseguimos ir? No caso deles, estamos falando de um patrimônio artístico brasileiro mais conhecido no mundo. O que enfrentamos para alcançar o que alcançamos? Do que não tivemos que abrir mão? Não tenho dúvida que o Andreas seria capaz de abrir mão de muitos shows para ter vivido mais com sua amada esposa (Patrícia) levada pelo câncer. São escolhas que fazemos e não devemos nos arrepender pois era o que acreditávamos ser correto naquele momento. Sobretudo quando achávamos que nunca morreríamos.

Só por essa música o ep já valeria a pena vir à luz. Mas ainda temos  a pesada Sacred Books em que o vocal gutural do Derrick Green volta à cena para criticar a contemporaneidade onde vislumbramos o que Franco Bifo Berardi denuncia no seu Pensar após Gaza - ensaios sobre a ferocidade e o fim do humano (2025).

Seeking truth in a world of lies - Buscando a verdade em um mundo de mentiras/Seeking truth in this web of cries - Buscando a verdade nesta teia de gritos/Seeking truth in their sacred books - Buscando a verdade em seus livros sagrados/World of lies - Mundo de mentiras

Temos aí uma temática já trabalhada outras vezes pela banda como a questão da verdade e a alienação ao que o indivíduo é submetido num mundo cada vez mais dominado pela máquina (computadores) e fanáticos religiosos (nem sempre de uma religião tal como compreendemos).

Para finalizar temos the place (O Lugar) - e que música é the place que na sua introdução nos lembra uma bossa nova. Isso mesmo, bossa nova que depois vira um thrash metal daqueles que ninguém consegue ficar sem bater cabeça. Nesta canção também temos elementos dos trabalhos anteriores. A música começa com uma sonoridade que lembra uma balada, inclusive com Derrick Green cantando com um vocal limpo, para em seguida explodir. E essa sonoridade tem tudo haver com a história que eles estão contando - sim, é uma história - de um imigrante que deixa sua terra em busca de uma vida melhor em outro lugar, não muito diferentes de tantas histórias reais que conhecemos. E ao chegar nesse lugar vai se transformando ao ponto de esquecer suas raízes e se tornar uma figura deplorável. 

All I want is a place to live - Tudo que quero é um lugar para viver/And plant the seeds to grow my roots - E plantar as sementes para fazer minhas raízes crescerem/We just want the same - Nós só queremos o mesmo?/Not long ago, you were struggling - Você esteve passando dificuldade há pouco tempo atrás/And I don't know what happened to your empathy - E eu não sei o que aconteceu com a sua empatia/Don't you feel ashamed? - Você não sente vergonha?

Sabemos bem qual é esse lugar. Quem ai não viu no período das eleições estadunidenses imigrantes defendendo o então candidato Donald Trump mesmo com sua posição clara contra imigrantes.

Take a look at catastrophe - Olhe para a catástrofe/Embrace the world that's not for me - Eu abraço o mundo que não foi feito para mim/Add the fuel to ignite the flames - Joguei o combustível para alimentar as chamas/This fire keeps burning on - A chama continua queimando/Feel the grip of insanity - Sinta o aperto da insanidade/As the fear drives humanity - Enquanto o medo controla a humanidade/See, tyrants won't show their face - Veja, os tiranos não mostram o rosto/Can't hide their face - Mas não podem escondê-lo/Can't hide their face - Mas não podem escondê-lo/Know who you are - Saiba quem você é/Know who you are - Saiba quem você é/It's what we call a coward - É o que chamamos de covarde.

Não há mais nada o que dizer. Esse trecho fala por si só. Mas ainda há algo a dizer. The Cloud of Unknowing é um trabalho e tanto. Digno do que o Sepultura fez em toda a sua trajetória. Por tanto ouça a todo volume.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.