domingo, 25 de outubro de 2026

Rascunhos: Tempos difíceis

Após mais um dia de trabalho Bia seguia de cabeça baixa de volta para casa. O seu olhar era de quem carregava consigo uma profunda tristeza, ninguém precisava conversar com ela para saber que estava infeliz. 

Não eram tempos fáceis para ela, tanto na vida pessoal como profissional. Na vida pessoal o casamento com Gustavo havia se tornado uma prisão. A cada dia ela se sentia mais infeliz sendo simplesmente uma dona de casa cuidando dos filhos e do marido. E contra a vontade deste decidiu voltar para sala de aula. E tal decisão contribuiu para que se acelerasse o fim do seu casamento com ele – um casamento que se mostrava por demais frágil, já há algum tempo.

Bia até que tentou – fez um esforço tremendo para viver uma vida feliz ao lado de Gustavo. Por isso que assim que se casaram e ela ficou grávida do primeiro filho, por exigência dele, deixou o vão do mutum - às aulas na escolinha do povoado para morar na capital. Depois de um tempo veio o segundo filho e Bia teve que se dedicar só a família. E por um tempo ela foi uma excelente dona de casa, admirada por muita gente. Mas para tanto ela teve que abrir mão de muita coisa, até que chegou num momento que ela não podia mais suportar a vida de casada ao lado de Gustavo e tomou a decisão que o magoara tanto.

A volta de Bia a sala de aula foi em um grande colégio público de Palmas. E não demorou muito para que ela se decepcionasse com a realidade do ensino por ali. A sua decepção não era com a profissão, mesmo sabendo o quanto o professor é desvalorizado no Brasil. A sua decepção era com o sistema educacional. 

Ela sentiu na carne – Todos sabem dos problemas da educação, no entanto ninguém se move para mudar, e o pior é que aqueles que se movem acabam sendo perseguidos.

Quando Bia fazia este desabafo lembrava não só da experiência que estava vivendo naquela escola, mas também da experiência que tivera no vão do mutum – quando chegou naquele povoado acreditava que iria fazer uma revolução, mas logo se viu isolada e perseguida pelas elites locais e até mesmo pelos próprios colegas de profissão. 

Mesmo diante dessa realidade difícil, Bia não desistiu e continuou tentando conscientizar a comunidade campesina para que se organizasse e lutasse pelos seus direitos. Mas todos os esforços que fazia pareciam ser em vão. Ninguém parecia disposto a mover uma palha para que melhorasse o mínimo possível ás condições de ensino naquele lugar. Até que ela foi obrigada, por pressão do marido a deixar o vão do mutum e ir morar na capital.

Mesmo com todas as dificuldades que enfrentara no vão do mutum, ali foi o único lugar que ela sentiu prazer em dar aula. Que ela sentiu orgulho de ser professora. Que ela sentiu que estava contribuindo minimamente para melhorar a vida das pessoas. Agora, naquela escola em Palmas, todos estes sentimentos estavam sendo perdidos.

Ela que outrora fora urbana em demasia, não estava se dando bem naquela escola da capital.

- O sistema educacional aqui na cidade é mais degenerado do que no campo, os profissionais mais acomodados, e os alunos mais revoltados. Dizia Bia para um amigo

Bia se lembrava de uma conversa que tivera com Camilo sobre uns alunos revoltados que ela tinha no colégio de Cachoeira de todos os santos.

- Olha menina, eu não acho que é ruim ter alunos rebeldes, desde que essa rebeldia não seja desperdiçada em questões fúteis. Aí cabe vocês professores conscientizá-los para que essa rebeldia não vire vandalismo.

Bia se lembra que naquela oportunidade não gostou muito do comentário de Camilo. Achou que ele estava tomando partido dos alunos em vez de apoiá-la. Aliás, ela notava que Camilo sempre assumia essa postura que não lhe agradava nem um pouco. Porém com o tempo ela foi percebendo que as críticas dele eram corretas.

E Bia tentou mais uma vez tal como fizera no vão do mutum organizar algum movimento na sua nova escola, no entanto logo foi abafada pelos seus próprios colegas professores, que acomodados não tinham nenhuma disposição para lutar para fazer alguma mudança por ali.  E ela então começou a se questionar novamente se valia a pena o sacrifício. Bia buscou de todas as formas resistir aos ataques que sofria, procurava superar as barreiras que surgiam no seu caminho. Mas a cada dia sentia-se mais isolada e incapaz de continuar resistindo.

Nesse período de sua vida o Camilo passou a estar mais presente no seu pensamento – hora e outra ela se lembrava do entusiasmo de Camilo com a educação, da forma com que ele falava da importância da educação para transformação da sociedade em que vivemos. 

- Para um Brasil diferente, uma educação decente. Dizia ele sorrindo

No entanto, o que era muito bonito de se dizer, um ótimo slogan para campanha eleitoral, era difícil de realizar.

- Se o Camilo visse essa realidade ia perceber que não é tão fácil assim mudar, sobretudo quando os principais interessados nessa mudança cruzam os braços, e ainda pior, acabam trabalhando contra aqueles que querem mudar. Dizia Bia baixando as armas 

Ela então seguiu até a escola onde dava aula e oficializou o pedido de demissão. Não podia continuar naquele espaço onde se sentia extremamente infeliz, não era justo com ela e muito menos com seus alunos. Pois por mais amor que ela tinha por sua profissão, não podia estar ali infeliz como estava.

- Ora, qual a qualidade da formação que eu posso dar para esses jovens, com a falta de motivação que estou? Não, não é justo comigo e nem com eles, sobretudo.

- Agora você vai voltar a ser simplesmente dona de casa Bia? Cuidar de casa, dos filhos e do marido?

- Jamais. O meu casamento acabou há muito tempo e não tem mais volta. Sinceramente não sei o que fazer ou o que quero, só tenho plena certeza do que não quero. Por enquanto o que vou fazer é deixar as crianças sob a responsabilidade do Gustavo, pois ele tem mais condição de criá-los. Vou jogar uma mochila nas costas e sair por aí sem destino.

- Você só pode estar ficando louca.

- Bom, não é a primeira vez que ganho esse tipo de elogios. O que sei é que sou muito jovem para viver infeliz. De abrir mão dos meus sonhos para viver uma vidinha medíocre como dona de casa cuidando de filhos e do marido ou numa sala de aula falando para as paredes.

E assim Bia fez – jogou tudo para o alto e foi em busca de uma nova vida. Uma nova vida que ela ainda não sabia bem como seria. Ela só esperava que fosse bem diferente da que ela vivera nestes últimos dez anos.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Comentários acerca do 2º turno das eleições no Tocantins em 2026

1- Não houve surpresa em relação aos candidatos eleitos para compor a assembleia legislativa do Tocantins assim como os nomes  eleitos para o congresso nacional (câmara dos deputados e senado). Também não houve surpresa quanto aos candidatos que seguiram para disputa do segundo turno: Dorinha (União Brasil) e Vicentinho (PSDB) ao governo do Tocantins. Lula (PT) e Flávio (PL) à Presidência da República. Inclusive o fato de ter segundo turno - o que alguns analistas diziam que não aconteceria;

2- Quem ganhou o primeiro turno hipoteticamente sai na frente no segundo turno. Mas isso não significa que a vitória está garantida. Sobretudo quando a distância não é inalcançável. Ainda mais levando em consideração os dados do primeiro turno como abstenções e votos em branco. Quando esse número é significativo, quem está atrás deve ter esse eleitorado como foco. Sobretudo porque é extremamente difícil virar voto (Isso vale especialmente para a disputa pela presidência da república);

3- Na disputa regional percebemos uma movimentação no sentido de buscar apoios de líderes políticos e parlamentares eleitos. Nesse sentido Dorinha não perdeu tempo em assumir, aquilo que omitira no primeiro turno - o apoio a candidatura de Flávio Bolsonaro - que teve uma vantagem significativa em relação ao Lula no Tocantins, sobretudo nos grandes municípios. Vicentinho, preterido por Flávio, mirou em nomes descontentes do grupo de Dorinha após o resultado do primeiro turno. Esse foi o caso por exemplo do Eli Borges - que mesmo não sendo eleito teve uma votação expressiva para o senado;

4- Na disputa nacional o movimento tem sido distinto entre os dois nomes que estão na disputa. Lula tem focado nos indecisos e naqueles que não foram votar no primeiro turno, que segundo pesquisas a maioria tende a votar no candidato petista. Flávio por sua vez busca manter a vantagem do primeiro turno - ampliando-a a partir da adesão de partidos do centro e a bancada de extrema direita eleita para o congresso nacional;

5- Qual estratégia se sagrará vitoriosa eleitoralmente? Não cometerei o erro de alguns comentaristas políticos que buscam adivinhar o resultado. Por outro lado, não tem como irmos contra o que a realidade nos fornece. E o que a realidade tem nos revelado é que há por parte do eleitorado um sentimento de mudança. E quem tem incorporado esse sentimento de mudança é Vicentinho a nível regional e Flávio a nível nacional. 

6- Não há capacidade crítica por parte do eleitorado de entender que nem toda mudança é para melhor.

7 - A nível nacional é até justificável o sentimento de mudança. Ao longo do atual mandato, Lula teve que lidar com um índice de reprovação  maior do que o de aprovação. Sem falar no seu desgaste como  líder que está na vida pública há décadas - estando no seu terceiro mandato e buscando um quarto. Apesar de muitos anos na vida pública, Flávio é jovem, e com a força do capital político do seu pai (Jair Bolsonaro) tornou-se uma alternativa real para milhares de pessoas que acreditam que o Lula já deu o que tinha que dar.

8- A nível regional esse sentimento de mudança não nos parece justificável. O governador Wanderlei Barbosa, que é o principal cabo eleitoral de Dorinha, tem um mandato à frente do executivo estadual com uma aprovação maior que a rejeição. Logo uma candidatura que se apresenta como continuidade a uma gestão bem avaliada deveria ser a favorita, não?! Me parece que há um elemento aí que ninguém está observando, sobretudo com as adesões à candidatura do Vicentinho após o resultado do primeiro turno.

09- Dorinha e Vicentinho são do mesmo espectro político - ambos se declaram de direita. Ambos dizem apoiar e votar em Flávio Bolsonaro. O programa de governo de ambos é praticamente o mesmo. Ambos nunca exerceram o cargo de governador/governadora. Qual a diferença então? Porque há um movimento não só por parte do eleitorado mas de lideranças políticas e parlamentares, inclusive nomes que foram eleitos no primeiro turno na chapa da Dorinha rumo a candidatura do Vicentinho? Isso me cheira a machismo.

10- Ao observar todo esse movimento lembrei de um comentário que uma colega fez ainda no início da campanha. Ela disse que se a eleição fosse para o segundo turno todos esses homens se uniriam e não deixariam a Dorinha ganhar. Não dei muito crédito a essa declaração pois com a força do governo Wanderlei via o favoritismo da senadora mesmo com um segundo turno. Mas um colega esses dias me levantou o questionamento: E se o próprio Wanderlei estiver contribuindo para a vitória do Vicentinho?

11- Para concluir, estamos a poucos dias das eleições. Essa é a eleição mais importante desde a redemocratização, sobretudo no que diz respeito ao embate nacional. Não escondo o meu posicionamento em defesa do Estado democrático de direito e de condições dignas de vida para todos. Por isso vou de Lula (13). Quanto ao contexto regional se votar na Dorinha (44) significa ir contra o machismo, ainda que ela seja de direita, que seja então.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Teresa, a filósofa e a Educação sexual na Escola

De tempos em tempos nos deparamos com uma notícia que dá conta de denúncias de abuso sexual envolvendo um lider religioso. Aproveitando da sua condição de guia espiritual que construiu uma relação de confiança com a vítima (que passa por um momento de fragilidade), o crime é cometido com a esperança que nunca venha a luz - que o diga o Médium João de Deus, Bispos, Padres, Pastores e Pais de Santo. Muitos de fato não veem a luz, pois nem todas as vítimas tomam consciência do abuso a não ser quando se afastam do abusador e aquilo começa a afetá-la de tal forma que é impossível guardar só para si. Será que se houvesse educação sexual nas escolas muitos casos não seriam evitados? Se sim. Porque há tanta resistência de setores na sociedade contrario a isso?

Recentemente li um livro que me fez ficar pensando nesse problema. Trata-se do romance do século XVIII, Teresa, filósofa, de autoria anônima. Na história uma jovem (Teresa) narra a descoberta da sua sexualidade num ambiente aparentemente conservador - aparentemente - o espantoso é perceber que a narrativa supostamente ficcional não é muito diferente do que acontece atualmente. O ponto de partida da narrativa é inclusive o caso do abuso sexual cometido por um grande lider religioso - o Padre Jean-Baptiste Girard contra a jovem devota Catherine Cadière.

A narrativa descreve cenas eróticas o que me fez ao terminar a leitura achar que a obra seria para maiores (18+). No entanto, ao mesmo tempo, passei a achar que não. Foi a partir daí que surgiu a questão da educação sexual, como uma forma da mulher tomar consciência da sua sexualidade e se defender de abusadores. Pois se há algo que não podemos reprimir, e o romance é muito feliz nesse sentido, é a nossa sexualidade. 

Nessa linha é importante destacar o que diz Sigmund Freud em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905): "O saber popular cria uma imagem precisa da natureza e das propriedades da pulsão sexual. Supõe-se que ela falta na infância, desperta por ocasião do processo de maturação da puberdade e se exprime nas manifestações de atração irresistível que um sexo exerce sobre o outro; seu objetivo seria a união sexual ou, pelo menos, as ações que levam a ela. Temos, porém, todas as razões para ver nessa imagem um retrato bastante infiel da realidade."

Percebemos isso sobretudo no início da narrativa da Teresa quando ainda criança ela começa a sentir pulsão sexual. Mas sua mãe ao invés de orientá-la quanto aquele fenômeno, decide mandá-la para um convento onde será orientada por um discurso fantasioso a reprimir sua sexualidade. 

Desde muy niña sólo oí hablar de amor a la virtud y horror al vicio. «No serás feliz —me decían— si no practicas las virtudes cristianas; todo cuanto se aparta de ellas es el vicio; el vicio atrae el desprecio general, y el desprecio engendra vergüenzas y remordimientos.» Persuadida de la solidez de estas lecciones, procuré ajustar a ellas mi vida, hasta la edad de veinticinco años. Vemos cómo me fue con tales normas. (Desde muito pequena só ouvi falar de amor à virtude e horror ao vício. «Não serás feliz — me diziam — se não praticares as virtudes cristãs; tudo o que se afasta delas é o vício; o vício atrai o desprezo geral, e o desprezo gera vergonhas e remorsos.» Convencida da solidez dessas lições, procurei ajustar minha vida a elas até a idade de vinte e cinco anos. Vemos como me saí com tais normas).

O trecho acima é do romance Teresa, filósofa (edição em espanhol), no qual ao iniciar sua narrativa, ela fala ao seu interlocutor quais foram os princípios que aprendeu na infância que lhe guiaram até os 25 anos. E evidencia o que falamos anteriormente seguindo Freud. No trecho ela diz que aprendeu que devia cultivar as virtudes cristãs e rechaçar os vícios. Quem conhece um pouco do cristianismo sabe que temos aí uma boa dose de platonismo - que consiste na exaltação do mundo das ideias (alma) e a condenação do mundo dos fenômenos (corpo).

"Enquanto tivermos o corpo e a nossa alma estiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto dos nossos desejos, ou seja, a verdade. Pois o corpo nos impõe mil exigências pelo sustento de sua vida [...] enche-nos de amores, desejos, medos e toda sorte de ilusões."

O trecho acima não é de um sermão religioso, mas do nosso querido Platão no Fédon. É contra essa filosofia que Nietzsche irá se sublevar como podemos ver num trecho de Além do Bem e do Mal.

"Não sejamos ingratos para com ele [o erro platônico], embora se deva admitir que o pior, mais duradouro e mais perigoso dos erros até hoje cometidos foi um erro de dogmático, a saber: a invenção de Platão sobre o Espírito Puro e o Bem em Si. Mas agora que ele foi superado, agora que a Europa respira aliviada deste pesadelo [...] falar do Espírito e do Bem como fez Platão não significaria inverter a verdade e negar a própria perspectiva, a condição fundamental de toda a vida? [...] Pois o cristianismo é o platonismo para o 'povo'."

Ao longo da narrativa Teresa vai nos revelando como sua visão acerca da sexualidade vai mudando. Sobretudo quando descobre o que acontecia na vida privada daqueles que diziam ser os guias (religiosos) das práticas virtuosas. E ao final ela se convence que reprimir seus desejos não é agradar a Deus. A partir de então podemos dizer que ela passou a existir de fato: “Todo es obra de Dios: Él nos inspira el deseo de comer, de beber y de gozar de todos los placeres.” (Tudo é obra de Deus: Ele nos inspira o desejo de comer, de beber e de desfrutar de todos os prazeres)

Nesse contexto, vale questionar a quem interessa projetos de lei como o de N.º 4.844, DE 2023, de autoria do Deputado Rodolfo Nogueira que se aprovado proibiria “a educação sexual nas escolas de educação básica”. Entendendo como “educação sexual toda e qualquer atividade de ensino, orientação ou informação que trate de temas relacionados à sexualidade, incluindo: Aspectos biológicos: o desenvolvimento do corpo e das funções sexuais; Aspectos psicológicos: as emoções e os sentimentos relacionados à sexualidade; Aspectos sociais: as relações interpessoais e os papéis de gênero; Aspectos éticos: os valores e os direitos relacionados à sexualidade.” E ainda determinando que “a escola não poderá ministrar aulas de educação sexual, independentemente do consentimento dos pais ou responsáveis legais.”

Negar o que faz parte da natureza humana não nos parece o melhor caminho para proteger a criança e o adolescente. Pelo contrário, mantê-lo na ignorância contribui para que se tornem presas fáceis de abusadores. Ressalto porém que a educação sexual deve ser ministrada por especialistas que certamente saberão o que trabalhar e como trabalhar determinados objetos de conhecimento de acordo com cada faixa etária.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

sábado, 10 de outubro de 2026

Crônica: No eixão ou é o Brasil!

Peguei o eixão em direção ao centro. O movimento me pareceu normal levando em consideração que era feriado. Pelo que pude perceber era horário de troca de turno de trabalhadores do comércio de alimentos (havia muitos deles uniformizados) que trabalham na escala 6x1 - para esses não há sábado, domingo e feriado. Mas o que me chamou atenção mesmo foi um senhor com os seus 70 anos com uma camisa vermelha, um adesivo da candidatura do Lula para Presidente no peito e um chapéu do PT. Pensei comigo - eis alguém de coragem. Sobretudo diante do fato de que estamos numa das cidades mais bolsonarista do Brasil.

O ônibus seguia colhendo gente pelo caminho - o povo da periferia que vende sua força de trabalho repondo mercadorias nas prateleiras do comércio varejista, servindo os clientes nas padarias, açougues e nos caixas do centro. Muitos deles jovens. Não pude deixar de lembrar de mim mesmo quando terminei o ensino médio e tive como primeiro trabalho de carteira assinada reposição de mercadoria num grande supermercado na capital goiana. Eu também trabalhava na escala 6x1 e pegava coletivos lotados todos os dias da semana. Odiava ter que trabalhar feriados, odiava trabalhar sábado e domingo. Sobretudo porque era um trabalho que não gostava, que fazia pela sobrevivência.

Entre os jovens trabalhadores naquele ônibus um me chamou atenção. Pelo seu uniforme provavelmente trabalhava no setor de frios e laticínios. Estava com uma latinha de cerveja na mão. Pelo seu comportamento, aquela não era a única que havia bebido. Fiquei pensando se estava voltando ou indo para o trabalho. Pois se estivesse indo naquelas condições era demissão na certa (há não ser que estivesse fingindo a embriaguez). Voltando do trabalho não me pareceu lógico. Pois geralmente alguém não vem do centro trabalhar no comércio na região sul, a não ser que seja o dono do comércio. Ou só se fosse um desses milionários excêntricos que estava fazendo uma experiência e não tinha suportado a jornada. 

O ônibus estava lotado. Em um dado momento ele começou a cantar alto:

Do you have the time to listen to me whine
About nothing and everything all at once?
I am one of those
Melodramatic fools
Neurotic to the bone
No doubt about it

Reconheci imediatamente a música (basket case, do Green Day) sua voz era péssima, seu inglês mais ainda. Não pude deixar de sorrir discretamente. Ele certamente tinha consciência do que estava cantando. Se não posso dizer que a letra casava muito bem com o estado de espírito que ele parecia estar. Seria o trabalho? A vida pessoal? O momento político do país? Não, eu não tinha tempo para ouvi-lo choramingar e descobrir o que era.

O senhor com o boné do PT e o adesivo do Lula me perguntou se a estação Krahô estava distante. Respondi que não. Ele então disse que desceria lá e começou a se deslocar para mais próximo da porta com a ajuda de uma moleta. Durante o trajeto até ali ele manteve um semblante fechado olhando para o horizonte. Talvez fosse uma defesa para evitar provocações. Talvez estivesse preocupado com o futuro - imagino o quanto não é difícil um governo de extrema direita para um senhor aposentado ou pior, que depende de um benefício de prestação continuada (BPC) para sobreviver. Não sei se era o caso dele. Sei que é o caso de tantos outros. Sobretudo daqueles trabalhadores da periferia se deslocando para os seus trabalhos. Quando ele se levantou em direção a porta lhe dei um tapa no ombro e disse: - vamos virar. Ele sorriu e respondeu: - sim, vamos. No mesmo ponto que ele desceu, subiu um senhor mais ou menos com a mesma idade com uma camiseta amarela e os dizeres: Tocantins com Flávio Bolsonaro. Pensei comigo: Pode isso? Ele pediu o lugar preferencial que era ocupado por uma jovem trabalhadora e foi tirar um cochilo.

Enquanto isso, o nosso jovem embriagado sentou na poltrona ocupada outrora pelo senhor com o boné do PT e o adesivo do Lula. E passou a discutir com alguém pelo celular. Logo pude perceber que a conversa era sobre política, mais especificamente sobre uma pesquisa que não compreendi do que se tratava. Sei que ele questionava a pesquisa apelando para o IBGE. Pensei comigo - se ele está apelando para o IBGE, não é um bolsominion. A certeza veio quando ele gritou - fascista. Imaginei ele chegando no trabalho, sendo chamado atenção pelo patrão e metendo o dedo na cara dele e falando: - fique com o seu trabalho de merda, seu fascista.

O ônibus chegou ao ponto que eu iria descer. Desci. Muitos também desceram ao longo do caminho. O ônibus continuou cheio. Seguia nele o velho bolsonarista tirando o seu cochilo, o jovem revoltado e tantos outros apáticos - seguindo como gado para o seu trabalho - sem muita preocupação com o país que teremos nos próximos anos se hegemonia da extrema direita se consolidar com a eleição do seu candidato a presidente.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O nome Moisés Avelino na história do Tocantins

Durante uma visita ao museu Palacinho com estudantes do Ensino Médio do Colégio Esportivo Cívico Militar Santa Rita de Cássia, um comentário de um estudante questionando por que se falava tanto do Governador José Wilson Siqueira Campos, durante a exposição do guia (um professor de história), me deixou reflexivo. O guia tentou justificar que pelo fato de que aquele lugar havia sido construído pelo Siqueira nos primórdios da construção do que seria a capital definitiva do mais novo estado da federação. E a partir dali, com uma visão privilegiada das obras em desenvolvimento, governou o Tocantins. Não sei se essa explicação convenceu o estudante. Mas a mim não, sobretudo porque alarguei o meu olhar para além daquele espaço e percebi que o mesmo se repete em outros espaços públicos.
É inegável a relevância política do José Wilson Siqueira Campos na emancipação e desenvolvimento do Tocantins. Mas e outros personagens que inclusive chefiaram o executivo estadual? Não deixaram nenhum legado que não merece sequer uma menção? E ainda que não tenham deixado nenhum legado, só o fato de terem ocupado um cargo público a história não poderia ignorá-los. Aí então fiquei refletindo sobre um possível apagamento de determinados personagens na história oficial do Tocantins - entre esses nomes me veio à memória o do Governador Moisés Avelino.

Moisés Avelino (Médico e Empresário) foi o segundo governador do Tocantins - cargo que ocupou após um feito notável - derrotar o grupo político do José Wilson Siqueira Campos representado pela candidatura do Moisés Abraão.  Tal feito não foi obra do acaso. Avelino era um líder político com história no então norte goiano . Já havia sido eleito prefeito de Paraíso, administrando-a por dois mandatos consecutivos (1983/1988). Também foi presidente da Associação dos Municípios do Vale do Araguaia e Tocantins (1985-1987) e da Coopernorte-GO (1987-1988) - Cooperativa dos Produtores Rurais do Norte. O que o levou a ser eleito para Câmara dos Deputados (1989 e 1991). Ou seja, quando eleito para governar o Tocantins (1991-1994), Avelino já era uma liderança política com experiência de gestão e uma forte influência no setor da economia mais importante do Tocantins - o agronegócio. A sua gestão à frente do executivo estadual ficou para a história de forma bastante estigmatizada. Ainda mais com o triunfo do José Wilson Siqueira Campos na eleição que o sucederia (1994). Ao assumir o governo novamente Siqueira Campos construiu uma poderosa organização política (União do Tocantins) de inspiração oligarca, deixando pouco espaço para oposição. Reeleito em 1998, o Tocantins, politicamente, acabou sendo forjado a imagem e semelhança do “seu criador”. Diante disso é compreensivo por que o período de 1991 a 1994 (período em que Avelino esteve à frente do executivo estadual) é praticamente apagado da história do Tocantins.

Se olharmos para o período histórico em que Moisés Avelino esteve no governo do Tocantins, digamos que ele não pegou uma conjuntura favorável. Se não bastasse os desafios de administrar um estado em formação é importante lembrar que a nível nacional o Brasil sentia na pele o fracasso dos planos econômicos do então Governo Collor que o levaria ao impeachment. Mesmo assim aponta-se que o governo Moisés Avelino consolidou a política administrativa do Tocantins, realizou mais de 2 mil obras e atuou fortemente na interiorização de serviços básicos. No entanto, na eleição de 1998, quando Avelino tenta retornar ao governo enfrentando o candidato à reeleição José Wilson Siqueira Campos, o resultado mostra que a imagem do seu governo por parte da população não era positiva, tanto que a vitória do Siqueira foi de 61,65%. Anos depois retornou a disputar cargos políticos sendo eleito para Câmara dos Deputados (2007-2011) e a Prefeito de Paraíso (2013-2020) por mais dois mandatos consecutivos.

Na disputa eleitoral de 2026 o seu nome voltou a ser lembrado pelo Deputado Federal Vicentinho Júnior (PSDB) - candidato ao governo do Tocantins pela oposição. Com apoio da família de Avelino, o candidato tucano exaltou a figura do segundo homem a governar o Tocantins. Lembrando o feito que o levou ao governo - o qual pretende repetir - para tanto será necessário derrotar Dorinha (União Brasil) no 2º turno.

Independente da vitória ou não de um político que reconheça o legado do Governador Moisés Avelino (sobretudo depois da sua morte, não sendo portanto mais uma ameaça política), a tendência é que no decorrer dos anos  a história do Tocantins não só registre a sua existência como também os seus feitos - não que tenha sido algo extraordinário esses feitos mas é importante - e o que se espera numa democracia. Assim como é importante registrar o papel desempenhado por outros nomes que fazem parte da história do Tocantins. Pois se não nos cabe questionar que história do Tocantins estamos ensinando? Óbvio que compreendemos que por ser muito jovem é difícil uma história do Tocantins com o distanciamento necessário para que não seja tão partidarizada. De todo modo devemos fazer um esforço nesse sentido. Sobretudo se se faz história numa perspectiva científica.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Mais uma vez sobre as eleições ou em quem não votar no próximo dia 04 de outubro

Estamos nos aproximando do primeiro turno das eleições que ocorreram no domingo, 04 de outubro de 2026. Com o processo eletrônico de votação não demorara para sabermos o resultado. Como não há segundo turno para os cargos proporcionais (deputados estaduais e federais) e para senador, já no primeiro turno saberemos qual será a  composição do parlamento federal e dos estaduais. Já a eleição para os cargos majoritários (Presidente e Governador) a possibilidade de segundo turno parece incontornável. Dito isso, nosso objeto aqui será a eleição para o parlamento, sobretudo o congresso nacional (Deputado Federal e Senador da República), dando ênfase ao Estado do Tocantins. Faço isso partindo da compreensão de que o filósofo Paulo Arantes está correto quando chama atenção para importância da eleição de um parlamento progressista como condição sine qua non para o avanço de pautas que favoreçam a classe trabalhadora.

A atual legislatura eleita em 2022 entrará para a história como um dos piores parlamento de nossa história. Não à toa que foi denominada pelas ruas de congresso inimigo do povo. E de fato quando analisamos o legado que esses parlamentares irão deixar essa pecha não é nem um pouco injusta. Não vou aqui nem lembrar do nível de debate que presenciamos ao longo desses quatro anos tanto no plenário como nas comissões. Qualquer criatura que tem o mínimo de senso não pode achar normal os embates de baixo nível protagonizados pelo parlamento brasileiro nestes últimos anos. Não é possível que alguém que tenha o mínimo de senso se sinta representado por essa corja - uma corja que coloca qualquer governo como seu refém. Por isso que muitos nem aderem a um candidato ou candidata a presidente. Pois sabem que independente de quem ganhar, este terá que ceder espaço em troca de governabilidade. É por exemplo em nome da governabilidade que o Governo Lula não fez nada para acabar com a farra das emendas parlamentares - instrumento pelo qual o parlamento sequestrou o orçamento do executivo e usam para se manter no poder a qualquer custo. 

Para aqueles que têm memória curta é importante recordarmos alguns dos legados do atual parlamento brasileiro. O primeiro é o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) nº 3, de 2021 - conhecido como PEC da Blindagem ou PEC da Vergonha. De acordo com a proposta o objetivo seria “restringir investigações e processos criminais contra deputados e senadores, exigindo aval do Congresso para ações do Supremo Tribunal Federal (STF)”. Ou seja, um parlamentar suspeito de praticar algum crime só poderia ser investigado se seus pares assim autorizassem. O que dificilmente aconteceria sobretudo se esse parlamentar tivesse força política no congresso. Ou ainda se pudesse puxar consigo outros tantos. Enfim, uma vergonha que só não avançou devido a uma grande mobilização popular que tomou as ruas do país. Mas nada garante que, dependendo da conjuntura política, tal proposta volte à pauta.

Abro um parêntese aqui para lembrar que os 8 parlamentares representantes do Tocantins na Câmara dos Deputados votaram favorável à PEC da Blindagem. Eis os nomes deles caso não se recordem: Toinho Andrade (Republicanos), Vicentinho Júnior (Progressista/PSDB), Alexandre Guimarães (Republicanos/MDB), Carlos Gaguim (União Brasil), Ricardo Ayres (Republicanos), Filipe Martins (PL), Eli Borges (PL), Tiago Dimas (Pode). Todos eles são candidatos nesta eleição, nem todos à reeleição - É o caso do Toninho que disputa uma cadeira na Assembleia Legislativa do Tocantins, Gaguim, Eli e Alexandre disputam as duas vagas do Tocantins para o Senado Federal. E Vicentinho disputa o governo estadual. Independente a qual cargo disputam são nomes que não merecem o voto do campo progressista. 

Não podemos deixar também de lembrar da PEC do fim da escala 6x1 (221/2019) que está travada no Senado Federal e dificilmente será aprovada se colocada em votação após as eleições - e é exatamente essa estratégia do Presidente do Senado Federal - Davi Alcolumbre. Quando o projeto estava sendo discutido na Câmara dos Deputados é importante lembrar o posicionamento dos seguintes representantes do Tocantins (Alexandre Guimarães, Eli Borges, Antônio Andrade e Filipe Martins) que assinaram uma PEC paralela que pretendia protelar o fim da escala 6x1. Depois tiveram que recuar diante da vitória irreversível da proposta na Câmara e, certamente, pelo cálculo eleitoral que fizeram. O mesmo vale para o posicionamento favorável dos senadores Eduardo Gomes e Dorinha - que também não merecem o voto do campo progressista. 

Ora, não tem lógica votar num candidato ou candidata progressista para presidente ou governador e votar num candidato a deputado estadual, deputado federal e senadores com uma linha diferente. Seria compreensível se a política fosse voltada para a busca do bem comum. Mas depois de Maquiavel não é possível mais alimentarmos esse tipo de ilusão. O pior é continuar elegendo quem nós temos consciência do que tem a oferecer. Nesse sentido, além dos nomes citados anteriormente, nomes como Janad Valcari, Lucas Campelo, Luana Nunes, Jair Farias, Professor Fábio, Alfredo Júnior, Sandoval Cardoso, Coronel Barbosa não merecem o voto progressista.

Enfim, nessa eleição mais do que qualquer outra, será extremamente estratégico eleger um parlamento que esteja alinhado com as pautas do movimento popular. Pois dependendo da composição que teremos, mesmo com a possível reeleição do Presidente Lula, continuaremos refém de um parlamento que está mais preocupado em manter os privilégios de uma elite branca do que com a melhoria das condições de vida do povo trabalhador.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Quando a leitura finaliza

Quando terminei a leitura de Crime e Castigo (Fiódor Dostoiévski) fiquei alguns dias sentindo falta daquele ambiente, daqueles personagens. Como estavam? Questionava-me como se eles existissem de fato. Dias depois estava submerso em outra leitura, agora os Capitães da Areia (Jorge Amado). Quando terminei a leitura novamente me peguei sentindo falta dos lugares e personagens retratados naquelas páginas. Eu sempre fui impactado pelas leituras que faço. Mas ultimamente isso tem sido mais forte. Lembro que quando li Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Marques) a Macondo dos primeiros tempos me afetou profundamente. Estive pensando nisso e de repente percebi que o meu encantamento por Macondo e seus personagens está no fato de que eles lembram muito do lugar onde cresci e das pessoas que me cercavam. 

Há personagens que não me saem da memória. Hora e outra penso nelas. Imagino como estaria o Bentinho (Dom Casmurro, Machado de Assis). Questiono-me se ele não teria cometido uma injustiça contra a Capitu. Lembro também de Rubião (Quincas Borba, Machado de Assis) e fiquei refletindo sobre o seu fim. Se fosse diferente teria mexido tanto comigo? E o Fabiano de Vidas Secas (Graciliano Ramos), por onde anda? Sinhá Vitória e os meninos sem nome. Em Até amanhã, camaradas (Manuel Tiago) me recordo do Paulo e dos seus companheiros se dedicando e se sacrificando pela construção da luta do proletariado. Dom Quixote (Miguel de Cervantes) e Viramundo (Fernando Sabino), figuras trágicas. 

Nesses anos todos de leitura foram tantos livros, tantas histórias, tantos lugares, tantos personagens. Acredito que eles contribuíram em alguma medida para que me tornasse o que sou hoje. Sou um ser um tanto solitário. Não gosto de sair de casa (odeio viagens). Não gosto de me relacionar na intimidade com muitas pessoas (no meu círculo íntimo de amizades há pouquíssimas pessoas). 

A leitura e a escrita são o meu refúgio. Viajo pelos lugares que as páginas me apresentam. Conheço personagens admiráveis - com seus defeitos e qualidades - compartilho de suas dores e alegrias. E aprendo com eles. Compartilho as minhas dores e alegrias com os personagens que crio. Alguns poderiam dizer que eu deveria deixar os livros de lado e ir viver. Quem disse que eu não vivo? A compreensão do que é viver para mim é estar bem comigo mesmo. Com as escolhas que faço. E em relação a isso não tenho remorsos e nem ressentimentos. Tudo aconteceu como tinha que acontecer. Como o episódio que mudou a vida do Raskolnikov em Crime e Castigo. A morte de Dora em Capitães da Areia. A solidão do Aureliano Buendía em Cem anos de solidão ou o fim de Bentinho e Capitu.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.