quinta-feira, 5 de março de 2026

O filme Manas e a violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil

Imagina a situação: você descobre que um familiar muito próximo seu está abusando sexualmente de uma criança. O que você faria? Costumo propor esse exercício quando estou trabalhando ética nas aulas de Filosofia. Apesar de ser uma situação hipotética não é distante da nossa realidade. Pelo contrário. É isso que retrata o filme Manas (2024) dirigido por Marianna Brennand.

Em Manas (2024) somos levados ao interior do Pará, mais especificamente a uma casa de uma família ribeirinha que sobrevive da pesca, da caça e da coleta. Entre os membros desta família destaca-se Marcielle (interpretada por Jamilli Correa) que está numa transição da infância para a adolescência. Apesar da simplicidade, aparentemente estamos numa casa em que o amor impera. No cuidado do pai (interpretado brilhantemente pelo Rômulo Braga) em garantir o alimento na mesa. No cuidado com a casa por parte mãe (interpretada pela Fátima Macedo), ainda que esta carrega um olhar de alguém que sofre. E é pelo comportamento desta que percebemos algo no ar. Sobretudo no início quando conversando com Marcielle sugere a esta tomar o mesmo destino de sua irmã mais velha que conheceu alguém que a levou dali lhe dando uma vida melhor. É compreensível que uma mãe queira que seus filhos tenham uma vida melhor do que a deles. Ainda mais quando vivem num lugar em que as possibilidades não são muitas. Mas no decorrer da narrativa perceberemos que a preocupação de Danielle, a mãe, é outra.

A narrativa vai se desenvolvendo no ritmo da vida no interior, sem pressa. No entanto, aquele ambiente de normalidade vai aos poucos se degradando ao ponto de parecer estarmos assistindo um filme de suspense. Sabemos que algo irá acontecer, mas quando e como é uma incógnita. Durante toda narrativa somos atravessados pela expectativa. E isso é mérito tanto da direção da Marianna Brennand como da equipe de roteirista composta por: por Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marianna Brennand, Antonia Pellegrino, Camila Agustini e Carolina Benevides. A fotografia do Pierre de Kerchove. A interpretação impecável do trio: Rômulo Braga, Fátima Macedo e Jamily Correa.

Além da expectativa acerca do que virá. Há também o incômodo - o incomodo em ver o que está acontecendo - o abuso sexual de uma criança - sem que ninguém ousa levantar a voz para dizer não. No decorrer da narrativa vamos compreendendo que são pessoas submetidas a um ciclo de violência - que por mais que lhes incomodam não veem alternativas.

E o que mais dói não é o que se passa no filme em si. Mas em saber que aquilo está acontecendo nesse exato momento em uma casa. E a reação tanto dos familiares como da comunidade é de cruzar os braços - ignorar. Quando faço o tipo de provocação que falei no início nas minhas aulas de filosofia sobre ética, a resposta é sempre a mesma: denunciaria. Mas na prática sabemos que nem sempre isso acontece.

No filme Manas (2024), por exemplo, o abuso de Marcielle é descoberto por uma policial atenta (Aretha, interpretada pela Dira Paes). No entanto, o desenrolar da trama nos faz questionar sobre o papel do Estado. Não sei se foi intencional mas o que ficou foi, apesar do trabalho da Aretha, não se pode confiar no Estado - Marcilio (Rômulo Braga) continua solto e a jovem Marcielle tem que voltar para casa do abusador. A narrativa não acaba por aí. O que acontecerá em seguida não deixa de nos surpreender. Por outro lado, sabemos que o desfecho não condiz com a realidade - a realidade é que quando esses abusadores não são punidos pela justiça continuam a cometer seus crimes. Mas estamos falando de uma obra de arte e como obra de arte, que chama atenção para problemas que nos negamos a ver no dia a dia, cumpriu muito bem o seu papel.

Quanto a nós o que estamos fazendo para combater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes? Sabemos que há campanhas nesse sentido. Incluindo um dia específico no calendário (o 18 de maio) dedicado ao combate desse crime nefasto. Entre as ações a deflagração de operações das forças policiais é uma delas. Mas no interior me parece que ainda há muito tabu em torno dessa questão. Pelo contrário, há uma espécie de silêncio cúmplice. Assim como no filme percebemos que algo anormal está acontecendo. Mas preferimos fingir que não estamos vendo para não criar inimizades. Medidas como o da Câmaras dos Deputados que “aprovou projeto que cancela diretrizes sobre aborto em crianças e adolescentes vítimas de estupro” não contribui com esse combate. Pelo contrário. Ao invés de acolhimento da vítima, o que percebemos é um movimento para desacreditá-la e puni-la. 

Isso não é retratado no filme. Mas já pensou se a jovem Marcielle ficasse grávida do seu abusador? Que alternativa ela teria se não levar a gravidez adiante e ter um filho que talvez também se tornasse vitima de abuso sexual. Enfim, estamos diante de um problema que não é distante na nossa realidade. E o filme Manas (2024), como uma obra de arte engajada nos lembra disso.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

domingo, 1 de março de 2026

Conto: - Que merda é essa?!

Essa era a frase mais dita naquela pequena cidade quando se passava em frente um velho galpão e se ouvia aquela barulheira vindo de dentro. Não, não era uma obra em andamento, eram quatro amigos que diziam estar fazendo música. 

A bateria dava o ritmo, o baixo um tanto desafinado segurava o compaço, a guitarra disparava riffs nervosos e uma voz – que parecia possuída por um demônio – vomitava palavras:

“Sem trabalho e educação, 

sem terra e sem pão, 

no campo a devastação, 

no congresso só ladrão.

O povo a mendigar, 

o governo a roubar,

mas todo mundo acreditando:

- um dia vai melhorar”.

Os quatro amigos tinham consciência que não teriam muita receptividade por ali. E nem em outros cantos daquele estado dominado pelo forró e pelo sertanejo. Mas eles não importavam, estavam por demais felizes por terem conseguido montar a tão sonhada banda de rock que eles sempre sonharam montar. 

Não foi fácil conseguir os instrumentos, ainda que usados. Aprender a tocar também não estava sendo, e talvez já mais aprendecem. As composições não tinham lá grande originalidade. Mas apesar dessas questões, não podia se negar uma coisa – eles tinham atitude Rock in roll – e conseguiam contagiar quando tocavam.

“Menininha bonitinha,

cuidado não ande só.

Que os caras lá da área, 

tão tudo cheios do pó...”.

Tudo começou quando eles viram aquela banda gringa tocando na TV. Não entendiam nada do que estavam cantando, mais a energia que passavam era contagiante – sim, aquilo era Rock in roll – não o que eles ouviam nas rádios comerciais e na TV aberta. Foi então que Ícaro comentou:

- E se montassemos uma banda de rock?

- Uma banda de rock? 

- Sim. Por que não?!

- Seria massa. 

- Sim, seria. Todos concordaram – Ícaro e seus amigos – Nicolas, Pedro Henrique – o PH e a Sophia. 

A amizade deles nasceu nos corredores do Colégio Estadual quando descobriram que apressiavam as mesmas coisas numa cidade dominada por uma cultura demasiadamente conservadora. E estarem juntos era uma forma de cultivar essas coisas que não eram muito bem vistas pela cultura dominante do local. 

- E se montassemos uma banda de rock quem faria o que? Questionou Sophia.

- Eu queria ser o guitarrista. Respondeu Ícaro. 

- Ah, eu queria tocar bateria. Disse Nicolas.

- Eu podia ficar com o baixo. Respondeu Sophia.

- E o vocalista? Sobrou para o PH. Disse Ícaro.

- Eu, vocalista? Com essa voz? Eu não canto nem no banheiro. Respondeu PH.

- Ah, PH não atrapalha a nossa viagem. Topa vai? Disse Sophia.

- Tá bom. Eu canto então. 

- Pronto. Agora precisamos de um nome para banda. 

- Vocês estão loucos? Nós não temos instrumentos e muito menos sabemos tocar. E ainda se tivéssemos e se soubéssemos tocar. Aonde encontrariamos um lugar que nos deixariam tocar e para que público? 

- Calma, calma. Um passo de cada vez. Já temos a banda, agora precisamos de um nome. Depois vemos o restante.

- Uma banda sem instrumentos não existe. Por tanto não temos banda. Temos a ideia de uma banda.

- PH, tú é chato ahn meu. Vamos pensar então na ideia de um nome para nossa ideia de banda.

- Chato não. Realista. Mas tudo bem. Vamos viajar nessa ideia. Vamos pensar num nome original. Pois já que é para ter uma banda de rock vamos criar uma banda com uma identidade própria. Inclusive com composições próprias. 

- É assim que se fala PH. Concordo. Alguém tem alguma ideia de nome? Falou Ícaro. 

Muitas ideias vieram. Mas nenhuma que agradece á todos. E o que a princípio parecia que seria uma tarefa fácil logo se mostrou bastante difícil. Talvez até mais difícil do que arranjar os instrumentos – Nicolas descobriu no depósito do colégio uns instrumentos de fanfarra abandonados. A partir daí foi só usar a criatividade para improvisar uma bateria. Com isso a turma se animou e o que a princípio era sonho começou se tornar realidade. 

- Ouvi dizer que fulano de tal tem uma guitarra velha. Quem sabe ele não passa ela pra gente?! Disse PH, que agora era um dos mais entusiasmado – ensaiava performance no banheiro e já começará a rabiscar umas ideias de letras para as músicas.

- Beleza. Vou falar com ele já. Respondeu Ícaro. 

- Bom. Se conseguirmos a guitarra ficará faltando só o contrabaixo. Pois caixa amplificadora e microfone a gente consegue no Colégio. Disse Nicolas.

- Mas a gente já pode começar ensaiar. Será que a diretora libera o Colégio para fazermos isso? Ou então deixa a gente tirar as coisas de lá? Disse PH.

- A princípio acho que ela deixa. Depois que ver e ouvir o som que estamos querendo fazer, não sei. Respondeu Nicolas sorrindo. 

Os ensaios se quer haviam começado, e Nicolas já mostrava ter um talento especial para tocar bateria. Absorvia e reproduzia de uma maneira invejável os sons que ouvia mesmo com uma bateria improvisada. O mesmo não se podia dizer de Ícaro com sua guitarra e Sophia com o contrabaixo – que conseguira emprestado de um primo que tocava na banda da igreja.

Já o Pedro Henrique. Bem o PH não se podia dizer  que o que ele fazia era cantar, mas vomitar palavras numa velocidade que muitas vezes se tornava impossível de entender o que ele estava dizendo. O seu estilo de cantar de forma veloz exigia que os instrumentos também seguissem  a toada. E dessa mistura louca surgiu um som sujo e veloz, já mais visto naquele local. A partir daí não é difícil imaginar a receptividade que tiveram. 

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A construção de uma educação para além do capital em Marcuse e Mészáros

Uma primeira questão que vem à tona é se é possível vislumbrar uma educação para além do capital nos marcos do que propõem Mészáros, numa sociedade unidimensional como a apontada por Marcuse, marcada pelo domínio tecnológico em que a cultura, a política e a economia se fundiram num sistema que rejeita todas as alternativas históricas, inclusive educacionais. 

Predomina uma sociedade sem oposição, contida em seus processos de transformação social sob o jugo da própria razão dominante que reprime o todo e utiliza a liberdade como um poderoso instrumento de dominação. Os indivíduos alienados estão dispostos a abrir mão de suas liberdades em troca das falsas necessidades que acentuam o problema.

Ora, “os controles tecnológicos parece serem a própria personificação da Razão para o bem de todos os grupos e interesses sociais – a tal ponto que toda contradição parece irracional e toda ação contrária parece impossível” (MARCUSE, 1973, p. 30). Diante dessa poderosa constatação é possível vislumbrar uma educação para além do capital que supere a autoalienação do trabalho? Considerando um cenário em que o próprio conceito de alienação pode ser questionado quando os indivíduos se identificam com a existência que lhes é imposta e com o nível de satisfação ilusória prometida pelo sistema, uma educação para além do capital parece bem distante da realidade. 

O domínio do capital parece tão evidente, sobretudo nesse estágio de avanço tecnológico – avanço que ainda não alcançou seu ápice. Quando analisamos as reformas que aconteceram no âmbito educacional nas últimas décadas, parece que estamos caminhando na contramão de uma perspectiva histórica de mudança radical na educação. 

Dantas (2016) critica a perspectiva de uma educação para além do capital defendida por Mészáros ao salientar que ele é pouco concreto e quando se aproxima da educação para além do capital se torna abstrato, evasivo, isto é, salta para esfera abstrato-filosófica. A crítica é taxativa em dizer que o texto do filósofo húngaro tanto do ponto de vista político quanto programático é impotente para lutar pela construção de uma educação para além do capital.

Dantas não está em desacordo com a perspectiva de uma educação para além do capital, mas em como essa perspectiva se concretizaria, pois Mészáros apresenta o problema de forma muito abstrata. Tal crítica em certa medida parte da falta de compreensão de que a obra de Mészáros, em última instância, é uma obra filosófica e não um programa de ação política. Ainda que aponte para a necessidade da ação política para transformar o que está posto.

Para Jinkings (2008) Mészáros se propõem a refletir acerca dos seguintes problemas: qual o papel da educação na construção de um outro mundo possível? Como construir uma educação cuja principal referência seja o ser humano? Como se constitui uma educação que realize as transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias? E para responder essas questões ele busca se fundamentar numa tradição do pensamento filosófico. Logo, é natural que sejam pensados conceitos filosóficos que fundamentam essa concepção de educação para além do capital. Ele, portanto não se reduz a pensar a educação do ponto de vista de uma perspectiva de luta política ou pedagógica.

Senkevics (2012) também critica a ideia de uma educação para além do capital proposta por Mészáros ao apontar que “é difícil imaginar, por exemplo, uma educação pública universalizada que seja ‘subversiva’, por uma razão óbvia: sendo financiada, mantida e organizada pelo Estado, a educação pública jamais implantaria um programa que não estivesse de acordo com as diretrizes estatais” (SENKEVICS, 2012, s/p). Mas é justamente por isso que Mészáros apresenta uma concepção abrangente de educação, por não acreditar numa educação formal dentro dos limites do capital, tal como Marcuse. Em nenhum momento, ao abordar uma concepção de educação para além do capital, Mészáros faz qualquer tipo de afirmação nesse sentido que sugere Senkevics. 

A crítica de Senkevics (2012) vai na linha da crítica apresentada por Dantas (2016), - são decorrentes da falta de compreensão do problema que Mészáros está se propondo a refletir. Pinassi (2015, p. 97), uma das principais especialistas na obra de Mészáros no Brasil, diz que não se deve esperar da obra do filósofo húngaro “respostas prontas nem receitas de orientação revolucionária, mas uma convocação urgente para responsabilidade que os homens têm de assumir, na condição efetiva de sujeitos sociais, o comando da sua própria história”. 

Apesar de parecer uma obra simples, comparada por Sader (2002) ao Manifesto do Partido Comunista, escrito por Marx e Engels, de fato A Educação para além do capital tem essa verve literária. O autor trabalha com vários conceitos filosóficos que exige do leitor uma leitura mais aprofundada da sua obra. Pois são conceitos melhor desenvolvidos em outros dos seus escritos, entre eles destacamos a questão da práxis. Para Maar (2015), sem entender o que o filósofo húngaro entende por práxis dificilmente compreenderemos suas reflexões. Nessa linha o autor diz o seguinte,

a compreensão adequada da práxis e suas mediações é decisiva. Exige-se em sua apreensão uma compreensão do nexo dialético entre sujeito e objeto que caracteriza a produção da vida dos homens pelos homens. Não se trata de um sujeito dado a efetivar uma prática já idealizada, mas de uma relação de formação reciproca entre objeto e sujeito da atividade constituinte e formadora. (MAAR, 2015, s/n)

Nesse contexto a educação desempenha um papel fundamental – educação numa perspectiva libertadora – como instrumento para emancipação social. Nas palavras de Maar (2015) “como ‘transcendência positiva da autoalienação’, expressaria concretamente essa mudança, como trabalho formativo tendo em vista a totalidade social, para além do estrito e estreito âmbito da ordem vigente do plano da configuração da práxis”. Compreender a perspectiva para construção de uma educação para além do capital perpassa pelo entendimento do pensamento do autor, que não é um pensamento reducionista ou um receituário do que deve ser feito. Nesse sentido, de acordo com Maar (2015, s/p) 

a dialética entre necessidade e contingência constitui o problema central e as contribuições teóricas a serem levadas em conta na sua elucidação são particularmente duas: distinção entre mediações de primeira ordem e de segunda ordem, e distinção entre metabolismo social e produção [....] De um lado, trata-se de conceituação que quanto ao seu conteúdo teoricamente exposto, somente se realizam em concretudes particulares. De outro, são realidades empíricas somente distinguíveis e relevantes na prática quando postas em seu contexto mediante a sua apreensão teórica. 

É nesse contexto que se vislumbra a construção de uma educação para além do capital. Aliás, não só vislumbrar, como afirmar a sua necessidade como resistência ao avanço do domínio da racionalidade tecnológica na busca pela construção de uma sociedade unidimensional. Mészáros não é ingênuo ao defender uma educação para além do capital nessa sociedade cada vez mais dominada pelo capital. Ele tem consciência que as perspectivas não são favoráveis – que não ocorrerá do dia para noite. Por isso que ele ressalta se tratar de um trabalho cotidiano que leve “a transformação social emancipadora radical requerida”. Uma transformação que “é inconcebível sem uma concreta e ativa contribuição da educação no seu sentido amplo”. Uma educação que “não pode funcionar suspensa no ar. Ela pode e deve ser articulada adequadamente e redefinida constantemente no seu inter-relacionamento dialético com as condições cambiantes e as necessidades da transformação social emancipadora e progressiva em curso”. (MÉSZÁROS, 2008, pp. 76-77). Seguindo essa linha Jinkings (2008, p. 13) ressalta,

em Mészáros, educar não é a mera transferência de conhecimentos, mas sim conscientização e testemunho de vida. É construir, libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a história é um campo aberto de possibilidades. Esse é o sentido de se falar de uma educação para além do capital: educar para além do capital implica pensar uma sociedade para além do capital. 

A partir dessa afirmação podemos compreender o quanto é difícil vislumbrar a construção de uma educação para além do capital. Por que pensá-la necessariamente nos impõe como pode ser a sua construção. O problema é como romper a unidimensionalidade que parece capaz de conter a transformação social?

Isso é justamente o que pretende a perspectiva capitalista – impor uma ordem hegemônica onde não é possível vislumbrar qualquer tipo de alternativa a essa ordem. Para Mészáros (2008) isso se dá, sobretudo quando excluímos a possibilidade de mudança estrutural a priori. Qualquer perspectiva de mudança só é aceita desde que se limite aos padrões do capital. Desse modo, é inaceitável dentro da lógica do capital falar em uma educação para além do capital. Portanto, abandonar a perspectiva de construção de uma educação para além do capital e, por conseguinte, uma sociedade para além do capital é aceitar o triunfo da sociedade unidimensional. Da mesma forma, abandonar a perspectiva de uma educação para além do capital é aceitar a desumanização do ser humano.

Pedro Ferreira Nunes. In UMA REFLEXÃO SOBRE A REFORMA DO ENSINO MÉDIO A PARTIR DE MARCUSE E MÉSZÁROS. Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação a Filosofia. UFT.  Palmas-TO. 2019.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Relato sobre os projetos de incentivo à leitura promovido pela Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas em Parceria com a Biblioteca Escolar do Cemil Santa Rita de Cássia

A aquisição da competência leitora é fundamental para que o estudante tenha um bom desempenho em todas as áreas do conhecimento. Por isso, a escola como um todo precisa contribuir para o seu desenvolvimento. É nesse sentido que a Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, em parceria com a Biblioteca Escolar, promove o projeto Vamos ler! e outras ações de incentivo à leitura a partir do acervo que o Cemil Santa Rita de Cássia possui. 

O projeto Vamos Ler!

Consiste na indicação de obras literárias para serem lidas semestralmente pelos estudantes. Além do acompanhamento, orientação e o desenvolvimento de dinâmicas para que a leitura seja mais proveitosa. Nessa linha a Coordenação Pedagógica da Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas fez uma pré-seleção, a partir do acervo de livros disponível na biblioteca escolar, das seguintes obras para o Ensino Fundamental: Uma história possível (María Baranda), Contos indígenas brasileiros (Daniel Munduruku), Boa Companhia - contos (Vários autores), A revolução dos bichos (George Orwell). E para o Ensino Médio as seguintes obras: Vidas Secas (Graciliano Ramos), Becos da Memória (Conceição Evaristo), O quinze (Rachel de Queiroz) e Quincas Borba (Machado de Assis). O critério usado para a pré-seleção das obras foi  ajudar na discussão sobre questão racial e de gênero na sala de aula. O passo seguinte foi, durante o planejamento coletivo da área de humanas, a definição das quatro obras a serem trabalhadas durante o ano (duas no ensino fundamental e duas no ensino médio, sendo uma para cada ano/série em cada semestre). Diante disso os professores da área de humanas decidiram que para o Ensino Fundamental as obras trabalhadas seriam: Uma história possível (María Baranda) e A revolução dos bichos (George Orwell). Já para o Ensino Médio as obras trabalhadas seriam: Vidas Secas (Graciliano Ramos) e Quincas Borba (Machado de Assis).

Como as obras foram trabalhadas

O ponto de partida foi a divulgação das obras, incentivando os estudantes a lê-las. O segundo movimento foi a leitura comentada das obras em sala de aula ou na biblioteca. O terceiro movimento foi trabalhar trechos das obras relacionando com os objetos de conhecimento dos componentes curriculares de Filosofia, Geografia, História e Sociologia. E o último movimento foi a realização de um quiz literário das obras durante o dia D da leitura.

Outras ações de leitura

Compreender o olhar da Filosofia e das Ciências Sociais (Geografia, História e Sociologia), passa necessariamente pela leitura de textos filosóficos e científicos que exigem um nível de leitura mais aprofundado. Por isso não é possível avançar com o ensino da Filosofia, Geografia, História e Sociologia sem leitura. Ainda que de trechos, resumos ou mapas conceituais tendo em vista que a carga-horária não nos permite ir muito além. Nesse sentido foram trabalhados durante as aulas várias leituras. Destacaríamos em especial a coleção do projeto Poder Afro, disponível na biblioteca escolar, composta por obras que abordam a história e condição dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas.

Resultados Alcançados

As leituras foram fundamentais para que os estudantes tivessem um melhor aproveitamento na compreensão dos objetos de conhecimento trabalhados nas aulas e a partir daí pudessem desenvolver as competências e habilidades da área como por exemplo “analisar processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional e mundial em diferentes tempos, a partir da pluralidade de procedimentos epistemológicos, científicos e tecnológicos. Desse modo a compreender e posicionar-se criticamente em relação a eles, considerando diferentes pontos de vista. Tomando decisões baseadas em argumentos e fontes de natureza científica.”  Percebemos avanços nesses sentidos nas atividades desenvolvidas em sala de aula bem como em exames externos como o EXATO/UFT e o ENEM.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Crônica: Exaltação a paciência

Sou um apreciador de artes marciais, entre tantas o boxe é certamente a que mais me agrada. Ao contrário de outras lutas, acredito que o boxe exige do lutador uma virtude não tão presente em outras artes marciais - a paciência. Um bom pugilista deve estar preparado para resistir a todos os rounds. Ainda que tenha como horizonte um nocaute. É também a expectativa do público - um nocaute. Ao invés de apreciar a luta. O atleta por sua vez pode procurar satisfazer o público e acaba ficando vulnerável, pois como dizem, a pressa é inimiga da perfeição - a perfeição no boxe é o nocaute. O bom pugilista sabe que um nocaute precisa ser construído com paciência. A mesma paciência que um ceramista precisa para moldar uma determinada peça. Aliás, vejo que há muita similaridade entre uma luta de boxe e o trabalho de um artesão. A luta do artesão é com uma matéria que ele tenta moldar transformando numa obra de arte. Já a obra de arte do pugilista é um nocaute construído durante o combate com outro pugilista.

Essas questões me ocorreram ao assistir a luta de boxe entre os pugilistas Anthony Joshua e Jake Paul, provocado por análises de comentaristas esportivos acerca do combate. Entre essas análises as que mais me chamaram atenção foi a de que apesar do nocaute, Paul teria saído vitorioso por ter resistido 6 rounds contra um campeão mundial ainda na ativa. Dito isso é importante saber, caso você não saiba, quem é Jake Paul - uma figura (Estadunidense) que ganhou fama com a internet e de repente decidiu se tornar um pugilista. Promovendo lutas midiáticas envolvendo milhões de dólares com atletas e ex-atletas do mundo da luta como Anderson Silva e Mike Tyson. Joshua por sua vez é um atleta profissional (britânico) com vários títulos na categoria dos pesos-pesados. Diante disso é de se imaginar que os prognósticos seriam um atropelo do pugilista britânico na luta. Ainda que Paul tenha tido êxito em combates anteriores.

No final das contas foi o que aconteceu, ainda que o nocaute não tenha ocorrido com a rapidez que torcedores e comentaristas esperavam.

Ao ver e rever a luta fiquei me questionando se o fato de ter sido nocauteado só no sexto round fez do Jake Paul um vitorioso. O que percebemos durante a luta lembra um náufrago à deriva no mar buscando se agarrar em algo para sobreviver. Do outro lado temos alguém se divertindo. Como Sócrates quando por meio do diálogo levava os seus interlocutores sabichões a reconhecer sua ignorância. Ou um ceramista que vai moldando o barro para que ganhe a forma que ele queira. No final dizer que quem sobreviveu a 6 rounds apanhando miseravelmente foi o vitorioso é não entender a beleza de uma vitória construída com paciência.

Na filosofia a paciência é considerada uma virtude. Espinosa, por exemplo, exalta-a como um atributo da razão. Ele a define como um poder de ânimo que aumenta a nossa capacidade de resistir a afetos que diminui a nossa potência de agir, como por exemplo a ira. Joshua enfrentou o seu oponente com um sorriso no rosto. Consciente de que mais importante do que vencer é como vencer - apreciando cada segundo de um processo com um fim previsível. Ainda que não tivesse nocauteado a vitória de Joshua seria inconteste. Mas a sua paciência nos brindou com um nocaute perfeito. Ninguém melhor que o próprio Paul definiu esse nocaute - ao cair no chão a sua reação foi a mesma expressão de quando estamos diante de uma obra de arte bela. Na sua cabeça certamente passou: é, é isso que é ser um pugilista de verdade. Eu sou um medíocre.

Ao final a vitória, por nocaute, do Anthony Joshua não foi apenas uma vitória do Anthony Joshua. Mas uma vitória do boxe profissional. Foi uma vitória de todos nós que sabemos que as conquistas não caem do céu. Quantos de nós, sobretudo os que atuamos na sala de aula, não encontramos estudantes que acreditam que vão conseguir as coisas sem esforço. Quanto de nós não encontramos no dia a dia pessoas que acreditam que podem ser o que quiserem ser sem estudo. Lembro de uma conversa que tive certa vez com uma colega professora que dividia comigo as aulas do componente curricular de projeto de vida. Ela dizia não entender o porque os estudantes abandonavam tão rapidamente aquilo que diziam querer. Para mim a questão era simples. Porque para conseguir era necessário muito estudo e dedicação. 

Ora, não basta dizer que quer ser um médico, é preciso trabalhar para que isso se concretize. Não basta dizer que quer ser um pugilista campeão. É preciso trabalhar nesse sentido. E nessa caminhada não é possível pular etapas. Há que se estudar muito. Saber agir com paciência para que aquilo que é almejado possa ser alcançado. Ter paciência não é ficar esperando que as coisas aconteçam. Na linha do que ressalta Espinosa estamos falando de uma virtude ativa. Ou seja, eu preciso agir com paciência, mas agir. 

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Crônica: Oh meu velho indivisível…

 Em memória do meu avô, Graciliano Carreiro


A frase acima é da canção clássica Avôhai do cantor paraibano Zé Ramalho - uma canção que sempre me remeteu ao meu avô Graciliano Carreiro - conhecido pelo apelido de Chó - que nos deixou recentemente numa manhã de segunda-feira - a primeira do mês de fevereiro de 2026. Um acontecimento daqueles que mexe significativamente com a gente. Mesmo sabendo que esse horizonte é incontornável para todos nós. Sobretudo à medida que os anos avançam. Ora, como não sentir a partida de alguém querido?! Ainda mais quando essa pessoa tem uma importância significativa no sujeito que nos tornamos.
Agora nos resta a memória de uma figura que deixa como maior legado a simplicidade, o amor pela família, pelos animais e pela terra. E que memórias. Meu avô tinha uma personalidade única - tentava passar um ar severo para esconder um coração gigante. Adorava anedotas - tinha um humor afiadíssimo. Não me esqueço de um episódio em que certa vez indo para o rio acompanhado de algumas pessoas, entre elas um evangélico que “ia pregando a palavra de Deus”. Ao passar por uma ponte improvisada disse ao “crente” para tomar cuidado se não ele ia para o céu mas para o céu da boca do jacaré. Era o jeito carinhoso dele mandar o pregador calar a boca. Outra de suas histórias era de que quando mais jovem e começava formar um temporal ele atirava para o céu com sua bucheira. Quando começava a trovejar dizia que São Pedro estava batendo nos couros velhos.
Nunca fui muito de conversar com meu avô. Saber da sua origem, de onde vinha sua família. Como chegara ali. Como conhecera minha avó. Qual era a sua visão política? Qual sua religião? Sua filosofia de vida. Mas observando suas atitudes era possível perceber muita coisa. A primeira é que ele não tinha religião. Ainda que acreditasse em Deus. Nutria uma antipatia pelos protestantes (neopentecostais). Aproximava-se mais do catolicismo. Não era muito de sair de sua chácara. Sobretudo à medida que os anos avançavam. Se alguma vez foi viciado em bebidas alcoólicas e tabaco conseguiu dominar o vício. Nunca o vi fumando e quando bebia era extremamente controlado. Era de uma simplicidade admirável - tinha recursos (terra e gado) com os quais poderia morar numa mansão e ter mais de um carro. Mas morava numa casa simples. E nunca teve um carro ou uma moto. Não era nem um pouco vaidoso. Até quando pode, cuidou do seu gado, dos seus gatos e cachorros. Manteve as áreas verdes de sua chácara - especialmente os brejos de buriti.
Não eram poucos os que o criticavam por não se desfazer dos gados e de alguns hectares de terra para ter uma “vida melhor”. Geralmente a visão de uma vida melhor para essas pessoas se resume a ter um carro e poder ostentar coisas diversas, como uma determinada bebida, uma determinada roupa, um determinado relógio, um determinado lugar. Meu avô era um camponês - e como um camponês a terra não era só um bem material. Assim como o seu gado. Que importa o que os herdeiros farão com o que ele deixou. Nada apagará o que ele construiu ali - uma família grande, juntamente com minha avó, e mesmo sem ter uma vida pública ativa conquistou o respeito e a admiração das pessoas daquele território (Miracema).
Das memórias que tenho com ele, uma é especial - de quando no recesso escolar de dezembro/janeiro ia para chácara ajudá-lo a plantar capim para o gado. Era um trabalho duro. Ao final ele me dava uma grana com o qual minha mãe comprava o meu material escolar e roupas.
Eu poderia ter convivido muito mais com meu avô - ouvir suas histórias. Mas assim como ele não sou muito de sair de casa. E à medida que a idade vai avançando o desejo de se isolar numa chacarazinha é cada vez maior. Também assim como ele, busco cultivar uma vida sem ostentação - a não ser as minhas leituras. Eu nunca havia parado para pensar no quanto me pareço com ele.
Eu não fui criado pelo meu avô, tal como o personagem da canção Avôhai apresentado pelo Zé Ramalho (homenageando o seu avô materno que o criou como filho após a morte do seu pai). Mas o fato é que para todos os seus netos ele foi mais do que um avô. Sempre que nos encontrávamos ele fazia questão de perguntar por todos os meus irmãos e saber como estavam. Nem sempre ouvia o que gostaria. Pois humanos demasiado humanos que somos, falhamos. No fundo ele entendia e respeitava.
Nos últimos anos de vida de minha mãe ela sempre ia cuidar dele e de minha avó. E quando de lá chegava me passava um conselho dele - para que eu não pensasse muito pois se não iria enlouquecer. Confesso que não ligava para o conselho. Sobretudo pela minha formação acadêmica e profissão que escolhi. Mas hoje entendo o que ele queria dizer - ele queria dizer para eu não deixar de viver - de festar, namorar e transar. Coisas que ele deve ter feito muito na sua juventude. “Meu velho e indivisível (Avôhai)”.

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Poema: Malthus e Hilda

 

Na rua das camélias

o encontro aconteceu.

entre dois jovens aprisionados

a fé e aos dogmas seus.


Ele um religioso

considerado um santo.

Ela uma prostituta

considerada um demônio.


O amor entre eles nasceu

contra o status quo.

libertando da prisão moral

os amantes como nós.


Tudo que é feito por amor

está acima do bem e do mal.

sentenciou Nietzsche

comprovou nosso casal.


Foram felizes para sempre?

quem pode dizer.

Malthus e Hilda

eu e você.


“O pra sempre, sempre acaba”

lembra da nossa canção?

Mas algo sempre fica

tatuado no coração.


Quando penso em Malthus e Hilda

lembro de nós.

Hoje só restam as lembranças

ah, minha amiga, como doi.


Mas não me arrependo

tinha que ser assim.

Brindemos ao amor

Celebremos o fim.


Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.