Falha crítica é o registro de uma banda no seu auge. Com letras afiadas que denunciam a ordem dominante marcada pela violência do Estado, sobretudo pelo seu braço armado - a polícia. O avanço da ultradireita e o discurso neoliberal de empreendedorismo de si. As músicas trazem o dna da banda fortemente influenciada pelo thrash, punk e hardcore - guitarra, contrabaixo e bateria complementam um ao outro entregando um som pesado e veloz. E para fechar temos o vocal raivoso do Leeo. Ao todo temos 27 minutos de punkada.
Abrindo o álbum eles apresentam “operação morre e cala a boca” onde denunciam as operações policiais em comunidades que, historicamente, deixam rastro de sangue. E um dos aspectos que mais chama atenção em episódios, como por exemplo o que aconteceu no Rio de Janeiro (operação contenção) em outubro de 2025 - que deixou 122 mortos - é o apoio por parte significativa da população.
Classe média enfeitiçada/Por um suposto heroísmo/Vão pedir mais segurança/Só não vão te incluir/na cancela do seu condomínio.
Com a justificativa de combate ao crime, sobretudo de drogas e armas. O que se vê nessas operações é a violação dos direitos humanos, por meio de torturas e assassinatos.
Isso não é operação/Apreensão de droga e arma/É tortura e assassinato/Pra população inteira.
Ao escolher abrir com essa canção é como se a banda iniciasse com uma voadora. Acelerando a mil por hora. Em seguida dão uma desacelerada. Para novamente acelerar. E nesse ritmo se segue as canções subsequentes.
Em “murro em ponto de faca” é uma música, a priori, com um tom pessimista.
Murro em ponta de faca/Acreditar que tudo isso um dia vai ser melhor
Na verdade, trata-se de uma crítica à ideia de que o capitalismo pode ser reformado tornando-se mais humano. A letra nos lembra de que para a classe dominante o que interessa é manter os seus privilégios. E o que for necessário fazer para manter esse privilégio será feito. Incluindo patrocinar genocídios como em Gaza.
Na sequência temos, a minha preferida, plano infalível. A letra denuncia o discurso neoliberal de que devemos abrir mão dos direitos trabalhistas e se transformar em empreendedor. O ritmo mais contido evidencia a letra que é maravilhosa do início ao fim.
Seu plano infalível não pode mais esperar/Não vai ter mais pobre, só vai ter empreendedor/Vão abrir um negócio e suas vidas vão mudar/Dinheiro pra caralho, todo mundo tem empresa
É um retrato muito perfeito dos dias que estamos vivendo. Com esse discurso sendo introduzido estrategicamente no currículo da educação básica. Alguns filósofos há algum tempo chamam atenção para um projeto de dominação que transforma a liberdade no instrumento de dominação. Entre tantos, Marcuse certamente é um pioneiro ao chamar atenção para uma racionalidade tecnológica se sobrepondo à racionalidade humana. Uma racionalidade que introjeta nos indivíduos um comportamento conformista - de que não existe alternativa. Até porque o problema não é com o modo de produção hegemônico. Mas sim com os indivíduos. Se você se esforçar, trabalhar, trabalhar e trabalhar sem questionar vai conseguir tudo que almeja. E aqueles que não se adaptarem devem morrer. Pois afinal de contas a morte é o destino de todos nós.
Ninguém mais mora na rua, todo mundo tem mansão/Nada vai ser público pois todos tem dinheiro/Ninguém mais é empregado, ninguém mais bate cartão/É urgente por esse plano pra funcionar
A letra de plano infalível é tão rica que poderia facilmente virar um artigo acadêmico. No entanto, precisamos seguir não sem antes falar do recado final quando a banda fala das consequências desse plano para nós:
Desgraçado, nossa história no seu plano acaba assim: Eu te mato, você morre e o que eu produzir pego tudo pra mim.
Em seguida temos amanhã eu faço, com uma temática que aborda o discurso do dever. Você deve fazer isso, você deve fazer aquilo. Do ponto de vista musical há um solo de guitarra bem interessante. Na sequência temos a velocíssima calma, caralho onde o alvo é a internet utilizada para fazer com que consumamos cada vez mais. E quanto mais consumimos mais enchemos o bolso de dinheiro das elites:
Muito acesso e propaganda é que faz dinheiro entrar/Todo mundo ajudando a doença se espalhar
Na sequência temos, para mim, a segunda melhor canção do álbum, liberdade eliminando o mundo. O foco da crítica aqui é a política imperialista estadunidense que usa o discurso de libertação para invadir países periféricos, se apropriar das riquezas e colocar aliados no poder.
Essa é a retribuição desses cara com o mundo aos seus pés/Te acham um latino imundo e te condenam a trabalhar até morrer/Olha os gringo e se compara, confiante assim só eles podem ser/Todos nascem enrolados na mesma bandeira pra se proteger
Diante disso não podemos deixar de comentar que há grupos políticos na américa latina, que se dizem patriotas, com uma postura subserviente e entreguista ao atual ocupante da cadeira de presidente dos Estados Unidos da América - Donald Trump. Chegando ao ponto de defender a intervenção do governo estadunidense nos seus próprios países. Ao fazerem isso fica evidente quais interesses defendem
Em época de festas vem com discurso de empatia/Enquanto matam de fome e bombardeiam meio mundo/Só exportam medo e ódio invadindo país pobre/Faz temer o terrorismo e metem o terror em tudo
Em nunca foi tão justo, eles retomam a velocidade máxima para denunciar a apatia do Estado frente aos problemas sociais. A não ser na repressão aqueles que ousam questionar como por exemplo os movimentos de sem terra e sem teto.
Família indefesa/Nas mãos não tinham nada/Mirando em suas costas/Servir e proteger
A violência e repressão também é o tema da próxima canção: um de life - onde clamam para que a classe trabalhadora resista. Inclusive se armando. Algo que eu particularmente defendo. Pois chega um momento que não dá para se defender da violência com discurso.
Nazistas não foram mortos por papéis/Nem por assinaturas nem por reuniões/Classe trabalhadora livre de grilhões/É uma classe educada e armada!
Na sequência temos outra velocíssima (200gr de PMA), 52 segundos, de fúria destinada a direita liberal defensora da meritocracia entre outros. Depois é a vez de, imperativo, onde se levantam contra o conformismo. Depois temos é proibido ser pobre - um som que me lembrou a Ratos de Porão - com um refrão pegajoso: É proibido/Proibido ser pobre. A seguinte é a viral onde criticam um discurso de sucesso que só vinga no meio digital. Depois é a vez da penúltima, e mais longa canção do álbum (3 minutos e 12 segundos). Trata-se de Estado terminal.
Pulmão fraco, desespero/O sangue em minhas veias corrompido por veneno/Ninguém mais vai me encarar/Esgotadas as tentativas, falha crítica iminente/Olhar morto, decadente, adiando o inevitável
A priori estão falando de um indivíduo. Mas adiante a critica fica mais clara a quem se referem:
Em estado terminal a sentença está dada/Esse é o ponto final. Deixo meu legado/Fecho os olhos, um clarão/Serei superado antes da minha explosão atômica/que eu guardei para o fim da civilização
Aqui não é o indivíduo mas o Estado-nação. Ou pelo menos a ideia que prevaleceu até os nossos dias. Eles concluem anunciando o fim desse ser em estado terminal questionando se outros resistiram. Aqui poderíamos relacionar com a banda que tempo depois decidiu parar - não resistiu ao sistema perverso que eles denunciaram. Na canção que fecha o álbum (serviu de aprendizado) a relação com o fim da banda é ainda mais propício.
Lembre um terço da sua vida você trabalhou e odiou/Mas serviu de aprendizado/Pense em cada otário que enriqueceu e te humilhou/Pra servir de aprendizado
Espero que eles retornem. Ainda tem muito a nos oferecer como arma para suportar a realidade que vivemos. Enquanto isso ouçamos não só falha crítica, mas toda a sua discografia. Para finalizar não poderia deixar de falar do nome escolhido para o álbum. Sobretudo porque ele remete a crítica do Herbert Marcuse a ideologia da sociedade contemporânea quando ele fala da substituição da racionalidade humana pela racionalidade tecnológica, caracterizada pela ausência da crítica. E acredito que isso vai de encontro a mensagem da banda nesse álbum. Quando perdemos a nossa capacidade de crítica, que em última análise é o que faz de nós o que somos, deixamos de ser nos transformamos em coisa.
Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.





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