Como já adiantamos nas linhas acima, Fernando Sabino é mineiro de Belo Horizonte - cidade onde nasceu nos idos de 1923. Além de escritor, atuou como jornalista e editor. Entre suas obras o romance O grande Mentecapto (publicado em 1979) se destaca. Nele temos uma espécie de biografia de Geraldo Boaventura - nascido no interior de Minas Gerais (na pequena Rio Acima) - e que ganha o mundo (Minas Gerais) vivendo aventuras à la Dom Quixote de la Mancha. A sua ingenuidade o coloca em situações difíceis. Mas ele consegue superar e seguir o seu caminho - sem destino - a não ser aquele que é o destino de todos nós - a morte. Aliás, é a morte de um colega ainda na infância que vai marcar profundamente o estado de espírito de Geraldo. A partir desse episódio trágico nosso personagem extrovertido torna-se introspectivo. Provavelmente sentia culpa pela morte de Pingolinha que acreditava poder repetir o feito de Geraldo de ter parado o trem. Esse sentimento de culpa talvez também tenha o levado a se tornar Padre - além do fato que ao decidir entrar para o seminário deixaria a casa dos pais onde não era tão querido. Mas o sacerdócio não era para ele. Alguns acontecimentos alheios à sua vontade levaram a sua expulsão do seminário. E a partir dali tornou-se um ser sem lugar nenhum, ganhando o apelido de Viramundo.
Não sei o que levou Fernando Sabino a colocar como título do romance O grande Mentecapto. Me pareceu não fazer muito sentido. Ainda que mentecapto segundo os dicionários é “aquele que não possui nem utiliza a razão; mentalmente desorganizado; sem juízo; maluco.” E ao longo da sua narrativa o autor busca enfatizar a possível insanidade de Viramundo. Não ousou contradizer, afinal de contas o criador do personagem é o autor. Mas fundamentado no que o próprio autor escreve sobre o personagem, sobretudo na parte final, não estamos diante de um grande mentecapto. Talvez o sentido de grande no romance não esteja relacionado a grandeza mas a valor. Mas enfim.
Outro aspecto que gostaria de chamar atenção na obra é uma espécie de homenagem a Minas Gerais. Viramundo anda por várias cidades mineiras e nessas andanças o autor vai nos apresentando a cultura local e personalidades dessas localidades. Há uma enorme referência de autores e suas obras - Viramundo é um apreciador de poesia, sobretudo os poemas do Alphonsus de Guimaraens. Viramundo também ama a liberdade e não gosta de injustiças. Encontra pelo caminho alguns que iram tirar proveito da sua ingenuidade. Por outro lado também será acolhido por outros tantos.
“Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu, índio, cigano, santo, poeta, mendigo e débil mental, Viramundo! que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza de sua loucura.”
No trecho acima podemos ter uma noção da prosa do Fernando Sabino. E é um trecho também em que o narrador se identifica com o personagem - um personagem que talvez seja a síntese do povo brasileiro - que vai se forjando através das injustiças, resiste mas acaba tendo um final trágico.
“O raio que coriscou na sua cabeça naquele instante, dando-lhe uma fulminante consciência da iniquidade que prevalece neste mundo, foi demais para a sua inocência, matou o menino que ele trazia dentro de si. Matou o menino.”
Em um contexto em que a injustiça impera, como por exemplo, quando a polícia assassina o cego Elias (amigo de Viramundo), assumir nossa loucura talvez seja a decisão mais sábia possível. Diante disso nos cabe concluir citando a balada do louco (Arnaldo Baptista / Rita Lee Jones de Carvalho / Roger Ranson) e recomendando a leitura das aventuras do Geraldo Viramundo: Mas louco é quem me diz/E não é feliz, não é feliz/Eu juro que é melhor/Não ser o normal/Se eu posso pensar que Deus sou eu.
Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).






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