Quando ele começou a analisar a geladeira não demorou para apontar o problema. E o seu diagnóstico não foi bom: se o conserto não for feito além de perder a geladeira ainda corre o risco de acontecer uma explosão e o incêndio poderá se espalhar por toda a casa. Eu não entendia nada de consertos de eletrodomésticos, minha mãe muito menos. De modo que o que ele falasse não teríamos como contestar. Esperar um outro diagnóstico? Teríamos tempo? O fato é que depois daquele diagnóstico ficamos bastante assustados. Ora estávamos com uma bomba que a qualquer momento poderia explodir. Logo buscamos saber do preço. E se havia possibilidade de parcelamento. Não era muito caro, ainda mais dividido em duas vezes. Ele fez ainda mais barato se caso pagássemos à vista. Olhei para minha mãe, tínhamos alguma reserva. Poderíamos pagar o serviço à vista e evitar um problema maior.
Ele então pegou as ferramentas e realizou o conserto. Pagamos. Quando ele ia saindo pediu para que o seu ajudante o aguardasse no carro que queria conversar a sós comigo e minha mãe. Pelo olhar que trocamos eu e minha mãe fizemos o mesmo questionamento: - o que seria?
- É o seguinte. Começou ele se dirigindo a minha mãe.
- Alguém fez um trabalho para o seu filho. A ex-mulher dele pegou uma camisa dele e enterrou no cemitério. Enquanto essa camisa não for desenterrada seu filho não vai sair do lugar. Se vocês me pagarem, digo o local onde ela foi enterrada. Daí vocês vão lá desenterra a camisa. E garanto que a partir daí a vida do seu filho começará a andar pra frente.
Eu e minha mãe trocamos olhares novamente e respondemos no mesmo momento: - Não. Essa reação ele certamente não esperava. Não demos nenhuma explicação, apenas dissemos não. Ele não insistiu. Apenas se despediu pedindo desculpa por qualquer coisa. Dissemos que não precisava pedir desculpas. Ele certamente deve ter ficado questionando o porquê de termos recusado os seus serviços de vidente. Será que não tinha acertado a história? Será que as aparências ou informações que recebera eram falhas? Jamais saberemos o que pensou e quais perguntas se fez. Pois o fato é que nunca mais voltamos a vê-lo.
Assim que ele foi embora minha mãe comentou: - Pedro, esse cara é um charlatão. A gente jogou o nosso dinheiro fora. Ele nos enrolou e nem deve ter consertado a geladeira. Eu tive o mesmo pensamento de minha mãe. Sim, tínhamos sido enganados. E como descobrimos? Pelo seu trabalho de vidente. Assim que ele falou em ex-mulher minha, eu e minha mãe já sabíamos que era mentira, pois eu nunca havia sido casado. E apesar da minha aparência de mendigo não estava tão estagnado como ele podia imaginar. E se estava morando com minha mãe não era por necessidade, mas por opção.
Depois ficamos nos questionando de onde ele poderia ter saído com aquela estória. Provavelmente o seu golpe havia errado de casa - tinha sido mal informado. Talvez tenha pensado que eu fosse o João - meu irmão que morava conosco e já tinha sido casado. Ou talvez seja uma estória que ele anda contando aí interior afora por onde presta os seus serviços. Certamente o que não faltam são pessoas supersticiosas que se deixam enganar.
Se ele não tivesse falado em uma suposta ex-mulher minha, provavelmente teria conseguido impressionar minha mãe. Ou talvez se tivesse dado a sorte de ser o meu irmão e não eu naquele momento a sua sorte teria sido outra. Mas comigo - um racionalista em demasia, sobretudo a partir do estudo sistemático da filosofia - inclusive naquele período estava cursando a graduação em filosofia, estudando pensadores como o Baruch Espinosa - filósofo holandês que fez da sua filosofia uma trincheira de resistência ao pensamento supersticioso - que segundo ele, torna os indivíduos presas fáceis para líderes manipuladores. Espinosa diz que a superstição surge de dois afetos, a saber: o medo e a esperança - dois afetos ligados à incerteza - que faz com que os indivíduos se agarrem a superstições que prometem a solução dos seus problemas. Esse não é o meu caso. Por isso não deu muito certo para o evidente.
Quanto à geladeira. Logo o vazamento voltou (ou seja, como técnico em refrigeração ele também não era grande coisa). Mas nada que provocasse uma explosão ou coisa do tipo. Depois de um tempo quando estávamos em melhores condições compramos uma nova - maior e melhor. Maria Lúcia (minha mãe) dizia que o sonho dela era ter uma geladeira grande onde ela pudesse entupir de coisa para quando os meus irmãos viessem de Goiânia. A geladeira velha, vendemos baratinho. E ainda serviu muito tempo para a nova família. E talvez ainda hoje sirva como canteiro. Já o vidente se a morte não o encontrou deve estar por aí procurando algum trouxa que caia nos seus golpes.
Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.




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