segunda-feira, 20 de abril de 2026

Comentários acerca da conjuntura política no Tocantins

Quando decido escrever sobre a conjuntura política no Tocantins fico com a impressão de que vou falar novamente o que já escrevi outras vezes. Isso porque a força hegemônica que comanda o poder nesse território é a mesma - e o seu modo operacional é o mesmo. Aparentemente alguém pode ver alguma novidade. Mas no fundo, utilizando uma frase escrita em outros tantos textos meus, é mais do mesmo.

Hegemonia da Direita

A direita continua sendo a força hegemônica. Tanto que entre os quatro principais nomes que lançaram pré-candidaturas todos são desse campo politico (Dorinha - União Brasil, Vicentinho - PSDB,  Laurez Moreira - PSD e Ataides Oliveira -  Novo). O mesmo pode ser dito dos pré-candidatos ao senado (Eduardo Gomes - PL, Irajá Abreu - PSD, Alexandre Guimarães - MDB, Gaguim - União Brasil, Eli Borges - Republicanos, Mauro Carlesse - PSD). De modo que só resta ao campo progressista vislumbrar alguma cadeira na Câmara dos deputados e na Assembléia Legislativa. 

Fragmentação Política 

Não é a primeira vez que  há uma fragmentação política refletida em várias pré-candidaturas ao governo. O que mostra a falta de uma liderança política capaz de construir consensos. Tal liderança era esperada do governador Wanderlei Barbosa. No entanto sua postura desde o seu retorno após o afastamento do cargo tem sido outra. 

Ressentimento 

O governador Wanderlei Barbosa tem atuado politicamente com ressentimento. Alguém que atua a partir desse lugar acredita que está sendo injustiçado. E a partir daí acaba se comportando de uma forma irracional - colocando o sentimento á frente da razão. E com isso suas decisões acabam surtindo um efeito contrário. Ao invés de aproximar,  afasta as pessoas. E isso leva a mais ressentimento. Nesse ciclo vicioso a única saída é fazer circular outros afetos. Ou se não o apoio do governador ao invés de um trunfo pode se tornar um peso difícil de carregar.

A quem interessa a fragmentação política 

Ainda há muito até as convenções partidárias. Mas ao que nos parece é irreversível que as pré-candidaturas postas ao governo recuem. Ainda que sabemos que no final das contas a disputa ficará entre duas. Até lá essas forças políticas precisam se questionar a quem interessa a fragmentação. Sobretudo quando o eleitorado tende a se engajar numa disputa polarizada entre duas forças. Talvez a resposta para essa pergunta só será possível após o pleito eleitoral.

A quem interessa a fragmentação política II

Nos parece que no que se refere a disputa pela cadeira de governador a fragmentação política favorece ao candidato mais bem colocado na intenção de votos. Que segundo as pesquisas sérias é a Senadora Dorinha (União Brasil) - que inclusive é a pré-candidata apoiada pelo governador Wanderlei - que tem um governo bem avaliado pela maioria da população que vive no Tocantins. Os demais pré-candidatos dividirão os votos da oposição e dos descontentes com o governo. Ou seja, não terão vida fácil, já que nos seus anos de governo Wanderlei praticamente não teve oposição. E as dissidências são mais por iniciativa do próprio governador do que do contrário. 

A quem interessa a fragmentação política III

Ainda sobre essa questão nos parece que a fragmentação política no que se refere a disputa pelas duas cadeiras no senado federal em disputa favorece a oposição. Lembram quando o Irajá Abreu  (PSD) foi eleito? Foi exatamente aproveitando uma disputa fragmentada em que ele saiu numa chapa encabeçada pelo Marlon Reis - que era uma terceira alternativa. Dessa vez o senador Irajá pode novamente ser eleito nesse contexto de fragmentação ou o Alexandre Guimarães. 

Um nome a ser observado

Comecei falando que não ha novidade na política tocantinense. Isso porque as novas figuras que surgem não apresentam nada de novo. Ou seja, o surgimento de novas figuras não significa uma mudança de paradigma. Esse é o caso do deputado federal Alexandre Guimarães que agora se lançará ao senado. Apesar disso é importante observarmos os seus movimentos. Para mim nessa pré-campanha ele é o grande vitorioso. A articulação com o deputado federal Vicentinho e sobretudo o ingresso do presidente do legislativo tocantinense (Amélio Caires) e a composição da chapa oposicionista encabeçada pelo Vicentinho é mérito do Alexandre Guimarães - que caso seja eleito, e essa possibilidade é real, certamente se colocará nas eleições futuras como candidato ao Palácio do Araguaia Governador José Wilson Siqueira Campos. 

Eduardo Gomes imbatível? 

Ao que nos parece há apenas uma vaga em disputa para o senado nas eleições desse ano. A outra acreditamos que só uma tragédia para tirar das mãos do senador Eduardo Gomes  (PL). Sobre isso não há muito  o que dizer. Só reconhecer o importante trabalho de base que ele faz nas prefeituras do interior. Ousaria dizer que ele será o candidato com mais apoio nas pequenas e médias cidades do Tocantins. E isso fará com que ele seja um campeão de votos. Isso independente do apoio do governador. 

Laurez ladeira abaixo

Aquele que pretendia se colocar como uma alternativa ao candidato ou candidata do Palácio Araguaia está indo de ladeira abaixo. Cíntia Ribeiro percebeu bem isso e, mesmo magoada com a perda do comando do PSDB no Tocantins,  decidiu continuar na legenda e consequemente apoiar o projeto capitaneado pelo Vicentinho, Amélio e Alexandre. Para mim o maior exemplo dessa bancarrota é a entrada do Carlesse na sua composição como futuro candidato ao senado. Não vou falar aqui da ficha corrida do ex-governador. Quem não o conhece que o compre.

Preciso finalizar

Dos nomes que estão postos ao que me parece o do Laurez é o que pode oferecer um palanque para o Presidente Lula no Tocantins. Sobretudo pela proximidade do Irajá com o petista. Por outro lado o PSD pretende bancar a candidatura do Ronaldo Caiado. Ou seja, temos um problema ai. Dorinha com Eduardo Gomes provavelmente deverá apoiar Flávio Bolsonaro. Ideologicamente Vicentinho Júnior certamente vai de Flávio Bolsonaro. Mas sua legenda tem pretensão de lançar o Ciro Gomes. Ataides do Novo, que só citei aqui por citar, já que politicamente no Tocantins ele é um nada. Também ideologicamente irá de Flávio Bolsonaro. Diante disso só resta ao presidente Lula contar com um palanque dos movimentos sociais. E ele terá. Mas será que esses movimentos terão força de não só elege-lo mas também de eleger nomes para a assembleia legislativa e para o congresso nacional?

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Periferia S.A, Segundas-feiras e o fim da Escala 6 X 1

Periferia S.A foi uma banda de punk rock paulista fundada pelo mesmo trio que criou a Ratos de Porão: João Carlos Molina Esteves - O Jão (Voz e Guitarra); Jarbas Alves - o Jabá (Contrabaixo); e o Roberto Masseti - Betinho (Bateria) nos idos de 2004. E durou até a morte do Jabá no final de 2023, deixando como legado uma pequena discografia composta por dois álbuns (Periferia S.A de 2005. E fé + fé = Fezes de 2014), que certamente merecem estar na listas dos clássicos do punk brasileiro. Entre muitas canções icônicas - segunda-feira, do álbum de 2005 é uma delas.

No geral as segundas-feiras não são bem vistas porque está relacionado a volta ao trabalho depois de um final de semana de descanso. E a canção retrata bem esse sentimento:

Segunda-feira é sempre uma bosta

Difícil acordar pra ir trabalhar

A falta de grana me tira da cama

Não sei se vou aguentar

Aqui o artista deixa evidente o seu descontentamento com a malfadada segunda-feira. Dizendo que o que faz encará-la é a falta de dinheiro. Ou seja, se você vende sua força de trabalho para sobreviver, não tem outra opção senão levantar e enfrentá-la.

Olho no espelho a desesperança

De trabalhar para sustentar a ganância

De um sistema que oprime e humilha

Destrói os seus sonhos e rouba sua vida

Nesse verso o artista nos faz entender que o seu descontentamento não é com a segunda-feira em si. Mas o que ela simboliza - trabalho. É só lembrar que a mesma é chamada de o primeiro dia útil da semana. Ou seja, só é considerado útil o dia em que você trabalha para sustentar o sistema. Aqui não temos como não lembrar da discussão a respeito da redução da jornada de trabalho para aqueles que estão submetidos a jornada 6x1 - é de fato uma jornada que rouba a vida dos trabalhadores com a família, com os amigos, com a comunidade. E como bem ressaltou Pepé Mujica “a vida não é só trabalhar. Tem que se deixar um bom capítulo para as loucuras que cada um tem. Você é livre quando gasta o tempo de sua vida com as coisas que te motivam”. Essas coisas certamente não são, para maioria da população, o trabalho.

Fim de semana eu vou pra balada

Tentar esquecer, desbaratinar

Certa como a morte ela vai estar lá

Na última estrofe da canção o artista descreve o comportamento da maioria dos brasileiros. Que o diga às redes sociais que são infestadas com o grito de alforria - sextou! No entanto é uma liberdade passageira já que “certa como a morte” a segunda-feira vai chegar novamente.

Não é fácil levantar numa segunda-feira para ir trabalhar cedo. Ainda mais se você está submetido a uma escala de trabalho 6x1 - acordar 5h da manhã para pegar um transporte coletivo superlotado, para chegar às 07h no trabalho. E ao final do dia retornar para casa seguindo o mesmo roteiro. 

Apesar de hoje viver outra realidade, já senti isso na pele. E creio no entanto que não é necessário ter passado por isso para ter a sensibilidade e defender o fim dessa escala.

Por outro lado é compreensível que haja resistência por parte de setores significativos do empresariado. Ora, quando foi que a classe trabalhadora ao longo da história conseguiu alguma conquista apelando para a sensibilidade das elites? Se dependesse disso ainda estaríamos no regime escravagista.

Diante disso não será surpresa se a proposta em discussão no congresso nacional for rejeitada, sobretudo pela composição atual do parlamento brasileiro. E o pior na minha análise não é nem esse parlamento rejeitar a proposta, mas sim um número expressivo de trabalhadores, incluindo aqueles que estão submetidos à escala 6x1, elegerem esses parlamentares.

Por isso, uma das tarefas fundamentais que se impõe para nós no contexto atual é reformar radicalmente o nosso parlamento por meio da eleição de figuras progressistas. Enquanto tivermos um congresso majoritariamente reacionário dificilmente veremos avançar pautas progressistas como o fim da escala 6x1 - ainda que essas pautas não apontem para a superação do modo de produção dominante.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

sábado, 11 de abril de 2026

Inesquecível

O dicionário define inesquecível como: um adjetivo que descreve algo ou alguém marcante, que não se apaga da memória ou que não pode ser esquecido. Refere-se a experiências, momentos ou pessoas memoráveis e dignas de lembrança duradoura. Na filosofia, sobretudo numa perspectiva fenomenológica, refere-se a algo, alguém ou algum momento que não se consegue esquecer, que permanece ativamente na memória e que impacta profundamente a consciência. Mas será que um único encontro é capaz de tamanho impacto? Você deseja novamente encontrar a responsável por impactar profundamente a sua consciência. Mas será que será tão intenso assim?

Falemos sobre o desejo. Gosto bastante da definição espinosana de que “o desejo é a própria essência do homem, enquanto esta é concebida como determinada, em virtude de uma dada afecção qualquer de si própria, a agir de alguma maneira”. Ou seja, é o que nos faz agir buscando aquilo que nos falta. É nessa linha que segue Marilena Chauí, que para tanto vai na etimologia da palavra desejo (desiderium) - que está no costume na antiguidade e na renascença de consultar os astros para saber o sentido do nosso destino. Chauí nos diz portanto que “o desejo é o sentimento da falta - aquilo que eu desejo é aquilo que me falta.” Mas como é que eu sei que aquela pessoa é o que me falta?

Foi num dia de semana à tarde que nos conhecemos. Algo havia me chamado atenção nela - uma tatuagem de escorpião na virilha - tatuagem me chama atenção. Não tenho muito interesse no significado - nem toda tatuagem tem um significado para quem tatua. Mas se antes do encontro eu tivesse pesquisado o significado da tatuagem teria encontrado o seguinte: A tatuagem de escorpião na virilha simboliza, principalmente, poder, sexualidade intensa, proteção e mistério. Devido à localização íntima e à natureza venenosa do animal, representa uma personalidade audaciosa, resiliente e uma defesa contra energias negativas. Também pode indicar forte conexão com o signo de Escorpião.

Isso me levaria necessariamente a investigar a mulher do signo de escorpião e encontraria o seguinte: é intensa, magnética, misteriosa e extremamente determinada. Conhecida por sua profundidade emocional e lealdade, ela valoriza a verdade e busca relações verdadeiras, sendo bastante ciumenta e possessiva. É independente, resiliente e possui uma intuição aguçada, desvendando segredos com facilidade.

Mas não fiz nada disso. Pois não acredito que possamos conhecer alguém a partir do que ela aparenta ou diz ser ou os outros digam que ela seja. Mas sim experienciando.

Quando vi-a não acreditei no que estava diante de mim - era uma menina - o sorriso era de quem estava reencontrando um velho conhecido. De modo que não pude deixar de perguntar: - a gente se conhece? Não, não nos conhecíamos. Talvez a alegria fosse pelo fato d'eu, aparentemente, fazer o tipo dela ou simplesmente era o seu jeito. O fato é que nos demos muito bem. Como sempre, eu estava bebendo cerveja, fumando palheiro  e ouvindo Guns n´ Roses. Ela não quis me fazer companhia - disse que estava tentando parar. Mas quando bebia disse que preferia cachaça. Eu disse que tinha. Mas ela não quis.

Ela tinha uma energia muito boa. Era muito linda. Muito espontânea. Muito tudo. Quis saber de onde ela era - Pará - ah, as mulheres do Pará estão sempre mexendo com minha cabeça. Me mostrou a sua playlist. Dançou rock doido para mim. Caralho, eu só queria sexo. E ela queria conquistar o meu amor. E conquistou. Se eu tivesse pesquisado sobre a tatuagem e o signo não teria me frustrado. Ela era realmente assim, ou pelo menos era assim naquela tarde. Desde então, desejo reencontrá-la. Não sei se será tão bom como foi. Mas pelo menos eu superaria esse desejo de tê-la de novo ainda que por uma tarde.

Não sei como começamos a falar sobre esse assunto. Ou melhor, sei. Sempre que bebemos juntos surgem assuntos aleatórios. Às vezes esses assuntos provocam boas discussões. E naquela tarde, ali na distribuidora do Colo, depois de algumas latinhas de cerveja, surgiu o questionamento acerca da palavra inesquecível. Enquanto eu apelei para filosofia, ele apelou para sua experiência de vida. Invejei-o. Pois enquanto a minha visão era teórica, a dele vinha da vivência. Uma não contradizia a outra, pelo contrário. Mas melhor do que saber é viver. Eu então senti inveja dele. Por outro lado, ao perceber o quanto aquele desejo de encontrar sua “escorpiana” lhe machucava, a inveja se esvaia.

Tentei convencê-lo, que do ponto de vista racional, era melhor não alimentar aquele desejo. Pois nada garante que ele encontre sua “escorpiana” paraense. E se encontra-lá nada garante que as coisas aconteçam conforme suas expectativas. Ainda que ela seja ela, e ele seja ele. Os tempos são outros. Ele não me deu ouvidos. O que posso fazer? Talvez o equivocado seja eu. Talvez eu que tenha que me aventurar mais e não pensar tanto, como aconselhava meu Vô chó.

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

domingo, 5 de abril de 2026

Literatura produzida no Tocantins: Anjos da Natureza, Fotolyricas do cerrado e Algibeira dos olhos

A cada ano percebemos um maior número de lançamentos de livros produzidos no Tocantins. Um dos fatores é certamente os editais públicos que possibilitam aos autores publicar suas obras. E o que percebemos é uma diversidade cada vez maior na produção literária que vai da poesia, prosa ficcional além de trabalhos científicos. O meu objetivo nas linhas a seguir é falar de três obras que li recentemente frutos desses editais públicos: Anjos da Natureza (2025), do Willian Borges; Fotolyricas do Cerrado (2025), da Angel Lima; e Algibeira dos Olhos (2024), do Tácio Pimenta. O primeiro numa linha fotojornalística acerca do trabalho de brigadistas que fazem um trabalho heroico de combate ao fogo, a segunda também utiliza a fotografia e a poesia para exaltar a beleza do cerrado. A terceira é um livro de poemas em torno do autoconhecimento e conhecimento.

Comecemos por esse último então. Na verdade, esse livro merecia uma resenha exclusiva. Mas deixemos essa tarefa para outros. Nas breves palavras que tenho a dizer sobre Algibeira dos Olhos (2024) é que temos uma bela obra. O próprio título já demonstra o que encontraremos ao longo das páginas. Ou seja, o olhar do poeta acerca de si, do mundo e da vida. Esse olhar é melhor compreendido quando sabemos da sua origem - a Bahia. Alargado por suas andanças que o trouxe ao Tocantins. O livro é organizado em capítulos intitulados apenas por um número romano (do I ao VII) que retratam diferentes fases, tendo como ponto de partida a infância.  Tendo a bênção de Osmar Casagrande Campos - figura consagrada na produção literária regional - como uma nova estrela no campo da poesia, Tácio Pimenta de fato demonstra grande domínio da linguagem poética - num estilo que lembra Pedro Tierra e Manoel de Barros. Seus versos não tem gosto de vinho tinto, está mais para um conhaque. O que isso significa? Não são versos rimados. Mas construídos como uma espécie de andaime. Numa prosa muitas vezes seca. Por fim, não poderia deixar de destacar as ilustrações ao longo da obra - a começar pela capa - a cargo do Álvaro Maia. As ilustrações engrandecem o livro sobremaneira - produzido com o melhor material disponível certamente - a edição é um primor. De modo que ouso afirmar que o autor não poupou recursos para entregar uma edição de encher os olhos a quem ama e aprecia o livro impresso.

Falemos agora sobre Fotolyricas do cerrado (2024), de autoria da Angel Lima - Goiana que reside em Palmas atuando no campo da fotografia. O livro traz fotografias do cerrado legendadas com poesia. A paisagem fotografada pela autora por si só já é uma verdadeira poesia. Quanto às palavras que as acompanham - é o olhar da fotógrafa/poeta. Com isso o nosso olhar é direcionado para o que a autora viu e sentiu ao fotografar tal elemento. Um exemplo para quem lê essas linhas é: na página 30 temos a fotografia de paus queimando. Na página 31 os seguintes versos: Calor atiça/lambe as chamas/cerrado teimoso. É uma leitura breve e prazerosa. Certamente daria uma bela exposição imersiva. Concluo dizendo que a leitura de Fotolyricas direciona o nosso olhar para a beleza que nos rodeia - beleza ameaçada por um modo de produção catastrófico.

Umas das expressões desse modo de produção catastrófico é certamente as queimadas provocadas pela ação humana que ano após ano afetam o bioma cerrado. É esse problema que chama atenção do tocantinense Willian Borges - fotógrafo e escritor. As fotografias neste livro, ao contrário da obra anterior, não são belas, mas tristes e trágicas como a da página 62 que retrata o cortejo do enterro de um brigadista morto em combate. Aliás, além da fotografia, outra parte importante do livro é a apresentação de uma breve biografia de brigadistas que morreram no combate ao fogo - herois invisíveis que sacrificaram suas vidas em defesa do cerrado. Anjos da Natureza pode ser dividido em três momentos. O primeiro é o autor/fotógrafo narrando sua experiência atuando nas brigadas de combate ao fogo e descrevendo momentos marcantes como o encontro com o Canastra. Num segundo momento temos homenagens aqueles que tombaram nessa batalha como o Ednelson Maciel com apenas 30 anos de idade. E o terceiro são as fotografias (não só dele). Lendo essa obra me veio à cabeça os versos de uma canção da banda punk - Cólera - Quem quer que mate à toa/Quem queima e corta/Florestas e reservas/Só pensa em lucrar/Mas isso é roubar.

Essas obras reafirmam a importância do poder público destinar recursos para fomentar a produção literária no nosso Tocantins. Obras como essas chegando nas escolas certamente contribuem para o fortalecimento da literatura produzida no Tocantins e na construção da literatura tocantinense. 

Por fim, um recado para quem produz literatura no Tocantins, estou à disposição para ler e escrever criticamente sobre sua obra (os interessados só me enviarem um exemplar do livro). É importante destacar o escrever criticamente, ou seja, não furtarei em dizer o que realmente penso, ainda que isso possa incomodar.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Poema: Esperança

 
Ouvir falar em algum lugar 
que ela voltou.
Trazendo em sua sacola 
doces versos de amor.

Também ouvir falar 
que ela quer me ver.
Que ela não aceitou 
a ideia de me perder.

Ela sempre esteve ao meu lado 
e por um tempo fomos felizes.
- Mais a vida da volta.
 Assim o vento me diz.

Se pelo menos ela soubesse 
o quanto sofri.
Saberia que não me perdeu,
mais sim eu que a perdi.

Pedro Ferreira Nunes - Goiânia - Goiás.  Inverno de 2005.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Pobre futebol tocantinense ou crônica da semifinal entre Capital versus Tocantinópolis no Tocantinense 2026

Para o Professor Raimundo

Quando pisei no estádio Nilton Santos para assistir o jogo de ida da semifinal do Campeonato de Futebol Tocantinense de 2026. Não teve como não recordar da minha infância na baixa preta em Miracema quando ia acompanhar os duelos do lendário Tocantins Esporte Clube (TEC) por esse mesmo campeonato. Quanto tempo eu não ia num estádio assistir um jogo de futebol.

A sensação que tive é que futebolisticamente paramos no tempo. Ou pior, regredimos. Pode ser nostalgia da minha parte, mas na minha infância, quando o Estado do Tocantins estava no início e a capital sequer tinha 10 anos de criação - e estava distante de se tornar o que é hoje - o Campeonato de Futebol Tocantinense era mais organizado e disputado. Lembro que nos jogos tanto que o MEC (Miracema Esportes Clube) como o TEC (Tocantins Esportes Clube) disputavam no estádio Castanheirão as arquibancadas lotavam. E quando havia jogos entre os dois, a torcida do time vitorioso saia em carreata pelas ruas da cidade. Em outras cidades do interior também não era diferente. Tocantinópolis, Araguaína, Gurupi e Porto Nacional sempre montaram bons times com torcidas apaixonadas. Quando os times de algumas dessas cidades iam jogar em Miracema era garantia de jogos pegados. Mesmo Palmas já viveu tempos melhores. 

Mas agora, numa tarde de sábado, num jogo de semifinal do principal campeonato de futebol profissional, ouso dizer que não haviam 500 testemunhas para presenciar a disputa entre o Capital (time de Palmas) e o Tocantinópolis (time da cidade de Tocantinópolis). E ouso dizer que 90% eram torcedores do “Verdão do Norte” - apelido dado ao time da antiga “Boa Vista do Padre João”. 

Num estádio com a capacidade de receber entre 10.000 e 12.000 torcedores - um público desses num jogo de semifinal de campeonato de futebol profissional não é só vergonhoso, mas mostra a falência da Federação Tocantinense de Futebol (FTF) comandada por Leomar Quintanilha desde a fundação da entidade em 1990.

Alguns poderiam dizer que a quantidade baixa de torcedores nesse jogo é porque o time da capital, o Capital, não tem uma grande torcida e classificou como a quarta força não tendo condições de superar o favorito Tocantinópolis. No entanto, um levantamento feito pelo Globo Esportes (GE) mostrou que mesmo no interior a média de espectadores nos estádios na primeira fase do campeonato foi baixa - em 28 jogos tivemos míseros 6.458 - uma média de pouco mais de 230 espectadores por jogo. Ouso dizer que há muito campeonato de futebol amador no Tocantins que mobiliza mais público.

Para o padrão do futebol profissional no Tocantins o estádio Nilton Santos me pareceu ótimo. A grama aparentemente estava um tapete. Mas ouvi um comentário de que com tanta chuva que estava tendo na capital não poderia ser diferente. Mas um amigo (Professor Raimundo - Torcedor do Verdão do Norte - que me convidou para ir ver o jogo) me chamou atenção para alguns pontos problemáticos do gramado. No entanto, nada que atrapalhasse o jogo - que, reconheçamos, foi bem disputado. Não fosse o apagão nos refletores que chegou até colocar em risco a continuidade da partida e uma briga após o apito final dos jogadores do Capital com o bandeirinha (que confesso não ter visto motivos para tanto), teria sido ainda melhor.

O Tocantinópolis com uma equipe mais experiente começou o jogo se impondo como se jogasse em casa. E não demorou para abrir o placar com um belo gol de uma jogada trabalhada que começou na ponta direita, passou pelo meio e uma finalização dentro da área. Com um gol tão cedo parecia que uma goleada era inevitável. Daí veio o apagão - triste retrato de como os dirigentes do futebol profissional tocantinense trata jogadores e público. Depois do apagão o Capital voltou melhor. Com uma marcação alta o gol de empate parecia inevitável. Porém num vacilo do goleiro do time da capital, que ao sair com os pés entregou a bola para o adversário - que fez um belo gol de longe com o goleiro fora da meta - a derrota tornava-se incontornável. O próprio técnico do Capital parecia mais preocupado em não tomar gols do que em buscar o empate. Mas suas mexidas no time fizeram efeito. E não sei se por acomodação do Tocantinópolis ou por mérito das mexidas no Capital, o fato é que o time voltou a jogar bem e a pressionar o verdão do norte até encontrar um belo gol. Tivesse mais tempo, provavelmente conseguiria o empate. Ou não né, meu?! Futebol é imprevisível. 

Apesar da nostalgia inicial, da tristeza diante dos problemas estruturais e da falta de pessoas honestas à frente do futebol tocantinense. Foi uma ótima experiência. Me diverti horrores com os comentários que os torcedores faziam aos jogadores - especialmente para o goleiro do Capital, sobretudo depois da falha. Comentei com o Professor Raimundo - isso aqui deve ser uma terapia para essa galera -  vim xingar os jogadores e o juiz. Me chamou atenção a diversidade do público - além de homens de meia idade, tinha muitas mulheres com crianças e um pessoal jovem. Houvesse mais profissionalismo por parte de quem dirige o futebol tocantinense certamente teríamos estádios mais cheios. Dinheiro ao que me parece não é problema. Muitos desses times do interior recebem uma boa grana das prefeituras. Além do incentivo do Governo Estadual, que disse ter passado em 2026, 3 milhões para os times de futebol da primeira divisão do campeonato estadual de futebol. Além disso, os clubes, que por exemplo, se classificam para competições nacionais recebem valores significativos.

No entanto, aqueles que gerem esses recursos são políticos ou pessoas ligadas a estes, que buscam seus próprios benefícios e não do futebol profissional no Tocantins. Enquanto isso permanecer a realidade é a que presenciamos no final da tarde e início da noite de sábado (14/03) no estádio Nilton Santos em Palmas. E que outros espectadores vivenciam em outros jogos tanto na capital como no interior.

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

domingo, 15 de março de 2026

Breve comentário sobre o Cinema Brasileiro

O que faz dos filmes Ainda estou aqui (Brasil, 2024) e O Agente Secreto (Brasil, 2025) obras dignas de tamanho reconhecimento internacional a ponto de serem indicados e conquistarem prêmios importantes do cinema internacional tal como o Oscar? Eles são superiores ao que até então se produziu no cinema nacional ou foram favorecidos pelo contexto atual?

É importante destacar que o cinema brasileiro sempre teve reconhecimento fora do país com premiação em festivais tradicionais como o de Cannes (França). E inclusive já teve filmes indicados ao Oscar (EUA), como por exemplo, O pagador de Promessas (1962), Central do Brasil (1998) e Cidade de Deus (2002) - que é certamente o prêmio mais festejado mundialmente. No entanto, com essas duas obras: o primeiro assinado por Walter Salles e o segundo por Kleber Mendonça. Conseguimos ultrapassar uma barreira que parecia intransponível. O que aconteceu para que isso ocorresse? Uma melhora na qualidade do que produzimos? Ou uma mudança de olhar na indústria cinematográfica e no público?

Quem começou assistir filmes brasileiros pela popularidade dos dois filmes citados acima pode acreditar na tese de melhora da qualidade. No entanto, quem aprecia o cinema nacional sabe que sempre tivemos produções de qualidade que não deixam a desejar a filmes produzidos em qualquer lugar do mundo, inclusive em Hollywood. Filmes que ousaria dizer até melhores que Ainda estou aqui e O agente Secreto. E se tais filmes não foram premiados com um Oscar não foi por falta de qualidade. Com isso não estou querendo diminuir os filmes do Walter Salles e do Kleber Mendonça. Pelo contrário. Meu objetivo é mostrar a qualidade do nosso cinema.

Nessa linha gostaria de citar algumas obras que na minha análise mereciam o mesmo reconhecimento. Se não, até mais. Entre eles destacaria três obras primas do nosso cinema nacional: O Padre e a Moça (1966) do Joaquim Pedro de Andrade. Dois córregos (1999) do Carlos Reichenbach. E O bicho de sete cabeças (2000) da Laís Bodanzky. Poderia indicar outros tantos como Cabra Marcado para morrer (1984) do Eduardo Coutinho. No coração dos Deuses (1999) do Geraldo Moraes e Feliz Natal (2008) do Selton Mello. Mas é o suficiente.

Diante disso, para nós fica evidente que o reconhecimento, por parte da crítica e do público internacional, dos filmes Ainda estou aqui e O agente secreto é reflexo de uma mudança de olhar na indústria cinematográfica, em especial a hollywoodiana. Basta ver que obras de outros países que antes ficavam restritas à categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar - disputam também a categoria de melhor filme. 

Num contexto ideal seria bom se não fosse necessário esse reconhecimento da indústria cinematográfica para valorizarmos nossos filmes. No entanto, não é esse o caso. Muita gente tem ido ao cinema ver esses filmes mais pelos holofotes em torno deles pelas indicações e conquistas de prêmios do que pela história que contam. Mas quem sabe isso não signifique uma mudança de paradigma. Sobretudo porque acredito que as conquistas tanto do Ainda Estou Aqui como de O Agente Secreto não são um ponto fora da curva. Pelo contrário. A tendência agora é o cinema brasileiro figurar cada vez mais nas premiações anuais. Pois o que não nos falta são talentos tanto na frente como atrás das câmeras. 

Acredito que o mesmo ocorrerá quando um escritor brasileiro conquistar o Nobel de literatura. É inaceitável que um país com tantos talentos literários nunca tenha ganhado um Nobel. Da mesma forma que era inaceitável que até então um filme brasileiro nunca houvesse conquistado um Oscar. Para mim, tanto num caso como no outro, só se justifica pelo olhar estereotipado que se tem do Brasil - muitas vezes reforçado por nós mesmos.

Falando em cinema e literatura me recordo de uma fala da escritora Lygia Fagundes Telles de que “o pior filme brasileiro é melhor do que o melhor filme americano” - essa declaração foi dada nos idos de 1996 e viralizou nos dias atuais pelas conquistas do O agente secreto e Ainda estou aqui. Não se trata de ufanismo de nossa autora. Mas de uma afirmação de alguém que reconhece a importância do cinema brasileiro, tal como a literatura, para o fortalecimento da nossa cultura.

O cinema brasileiro fala da nossa realidade - uma realidade que determinados setores gostariam que fossem apagados da nossa memória coletiva. Para esses setores é melhor irmos ao cinema se divertir com um filme estadunidense fantasioso do que assistir uma obra que nos provoca a pensar na nossa realidade.

As conquistas de Ainda Estou Aqui, do Walter Salles. E O Agente Secreto, do Kleber Mendonça, é mais do que o reconhecimento de duas obras cinematográficas brasileiras. É o reconhecimento do cinema brasileiro. Pois esses filmes jamais existiriam se não fosse o legado produzido por tanta gente que ao longo dos anos pavimentou o caminho para que as conquistas de hoje fosse possível. Se hoje não é fácil fazer cinema no Brasil, imagina quem ousou em décadas passadas quando a única certeza era a incerteza. Por isso as conquistas de hoje são tão celebradas por quem compreende que esse reconhecimento não é apenas individual. Mas fruto de uma tradição construída ao longo dos anos, por quem fez e faz o cinema brasileiro.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.