terça-feira, 25 de agosto de 2026

Hipóteses para a estagnação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) do Tocantins - 2026

No geral, foi com frustração que o Tocantins recebeu o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) a partir do resultado da prova do sistema de avaliação da educação básica (SAEB) aplicada em 2026 e dos dados do fluxo (entre eles aprovação e evasão), divulgado pelo Governo Federal. O resultado alcançado mostra uma estagnação no ensino médio (4,1), recuo de 0,1 nos anos finais do ensino fundamental (de 4,8 para 4,7) e um pequeno avanço de 0,4 nos anos iniciais do ensino fundamental (de 5,4 para 5,8). Se levarmos em consideração o investimento do Governo Estadual na educação, sobretudo nos dois últimos anos, a frustração é justificada.

É importante lembrar que entre 2024 e 2025 o governo deu posse para milhares de concursados aprovados no certame de 2023. Anteriormente a isso o governo pagou as progressões atrasadas reivindicadas pelos professores há anos. Construiu novas escolas e reformou outras tantas. Ampliou as escolas de tempo integral. Investiu em tecnologia adquirindo equipamentos tanto para professores como para os estudantes. Manteve uma política de formação continuada (com foco no IDEB) e valorização da carreira com a elaboração e aprovação de um novo PCCR (Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração), gratificação e premiação das boas práticas (Prêmio Escola que Transforma). Não menos importante foi o avanço de uma política de permanência estudantil com o presente, prof e o pé de meia (programa do governo federal). Diante disso uma pergunta se impõe: porque essa política de valorização da educação não refletiu num avanço significativo do IDEB no Tocantins?

Ora, um avanço significativo na qualidade da educação não se dá de uma hora para outra (de um ano para o outro). Da mesma forma os retrocessos. Peguemos, por exemplo, o resultado do município de Palmas que teve um recuo significativo. Alguns críticos se apressaram em colocar na conta da gestão do atual Prefeito (Eduardo Siqueira Campos) a responsabilidade pelo “fracasso”. Em que pese a péssima gestão em curso (não só na educação) colocar unicamente na conta do Eduardo é desonestidade. O IDEB não é reflexo de 01 ano de gestão. Pensei comigo ao ouvir algumas críticas - se o que foi construído ao longo de vários anos caiu tão rapidamente, então o que foi construído não era tão sólido assim. Eu chamo esse tipo de crítica seletiva de oportunista. Por que ela não vai a raiz do problema. Serve apenas como arma para atacar adversários políticos. Ainda mais no contexto em que estamos de disputa eleitoral.

Partamos do pressuposto de que o IDEB reflete exatamente o que são as escolas (o que nós que estamos em sala de aula de uma escola pública sabemos que não). Por que não avançamos? Segue algumas hipóteses:

  • A política educacional é planejada de cima para baixo sem a participação efetiva de quem está em sala de aula;
  • O planejamento não  leva em consideração a diversidade e especificidade de cada comunidade escolar;
  • Os professores são meros executores de um programa comprado de uma empresa privada (Soluções Modernas);
  • Excesso de burocracia tomando um precioso tempo do professor para que possa planejar e dar aulas;
  • Excesso de projetos no ambiente escolar;
  • Foco excessivo em Língua Portuguesa e Matemática;

Não é meu objetivo aqui fazer um estudo aprofundado. De modo que não irei destrinchar todas essas hipóteses. Deixo portanto como pontos para reflexão se quisermos começar a discutir seriamente esse problema. No entanto vou tecer algumas palavras a respeito da primeira hipótese (a política educacional é planejada de cima para baixo sem a participação efetiva de quem está em sala de aula) por que acredito que a partir dela derivam as demais. Um grupo de “iluminados” elaboram a política que deve ser implantada por todas as escolas - uma política que se materializa por meio de uma burocracia que não raramente leva ao adoecimento de quem está em sala de aula. Quando o resultado estabelecido não é alcançado adivinhem quem é o culpado? Lembro aqui das palavras do educador José Pacheco numa entrevista para a Revista Educação - “Enquanto a burocracia prevalecer em detrimento da pedagogia, os professores continuarão a ser considerados os ‘bodes expiatórios’ dos males do sistema.” Por enquanto não vemos uma perspectiva de mudança. Sobretudo porque não percebemos uma preocupação genuína por parte de quem comanda a educação em mudar essa realidade. E nem dos que estão no chão da escola em se rebelar.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Geraldo Viramundo - louco ou sábio?

Quando iniciei a leitura do O Grande Mentecapto (relato das aventuras e desventuras de Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações) do escritor mineiro Fernando Sabino, confesso que as primeiras impressões não foram boas. A estória parecia não ser interessante. O personagem principal menos ainda. E o pior era a escrita que fazia com que a leitura fosse pesarosa. Mas não abandonei e continuei lendo. Não gosto de abortar uma leitura, por mais pesarosa que ela seja para mim. Fiz isso uma vez com Tropas e Boiadas, do Hugo de Carvalho Ramos, e nunca mais retornei - quem sabe um dia. O meu estranhamento com a escrita do Fernando Sabino seria pela minha falta de familiaridade com a cultura mineira? Talvez. O fato é que tenho pouca leitura de autores mineiros, com exceção dos poemas do Drummond e da Adélia Prado que aprecio muito. Mas enfim, li o livro até o final. E a impressão final foi outra. Geraldo Viramundo entra na minha galeria de personagens inesquecíveis. Já o seu criador, certamente não é o melhor prosista que já li, mas  não deixa de ter sua relevância.

Como já adiantamos nas linhas acima, Fernando Sabino é mineiro de Belo Horizonte - cidade onde nasceu nos idos de 1923. Além de escritor, atuou como jornalista e editor. Entre suas obras o romance O grande Mentecapto (publicado em 1979) se destaca. Nele temos uma espécie de biografia de Geraldo Boaventura - nascido no interior de Minas Gerais (na pequena Rio Acima) - e que ganha o mundo (Minas Gerais) vivendo aventuras à la Dom Quixote de la Mancha. A sua ingenuidade o coloca em situações difíceis. Mas ele consegue superar e seguir o seu caminho - sem destino - a não ser aquele que é o destino de todos nós - a morte. Aliás, é a morte de um colega ainda na infância que vai marcar profundamente o estado de espírito de Geraldo. A partir desse episódio trágico nosso personagem extrovertido torna-se introspectivo. Provavelmente sentia culpa pela morte de Pingolinha que acreditava poder repetir o feito de Geraldo de ter parado o trem. Esse sentimento de culpa talvez também tenha o levado a se tornar Padre - além do fato que ao decidir entrar para o seminário deixaria a casa dos pais onde não era tão querido. Mas o sacerdócio não era para ele. Alguns acontecimentos alheios à sua vontade levaram a sua expulsão do seminário. E a partir dali tornou-se um ser sem lugar nenhum, ganhando o apelido de Viramundo.

Não sei o que levou Fernando Sabino a colocar como título do romance O grande Mentecapto. Me pareceu não fazer muito sentido. Ainda que mentecapto segundo os dicionários é “aquele que não possui nem utiliza a razão; mentalmente desorganizado; sem juízo; maluco.” E ao longo da sua narrativa o autor busca enfatizar a possível insanidade de Viramundo. Não ousou contradizer, afinal de contas o criador do personagem é o autor. Mas fundamentado no que o próprio autor escreve sobre o personagem, sobretudo na parte final, não estamos diante de um grande mentecapto. Talvez o sentido de grande no romance não esteja relacionado a grandeza mas a valor. Mas enfim.

Outro aspecto que gostaria de chamar atenção na obra é uma espécie de homenagem a Minas Gerais. Viramundo anda por várias cidades mineiras e nessas andanças o autor vai nos apresentando a cultura local e personalidades dessas localidades. Há uma enorme referência de autores e suas obras - Viramundo é um apreciador de poesia, sobretudo os poemas do Alphonsus de Guimaraens. Viramundo também ama a liberdade e não gosta de injustiças. Encontra pelo caminho alguns que iram tirar proveito da sua ingenuidade. Por outro lado também será acolhido por outros tantos.

“Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu, índio, cigano, santo, poeta, mendigo e débil mental, Viramundo! que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza de sua loucura.”

No trecho acima podemos ter uma noção da prosa do Fernando Sabino. E é um trecho também em que o narrador se identifica com o personagem - um personagem que talvez seja a síntese do povo brasileiro - que vai se forjando através das injustiças, resiste mas acaba tendo um final trágico. 

“O raio que coriscou na sua cabeça naquele instante, dando-lhe uma fulminante consciência da iniquidade que prevalece neste mundo, foi demais para a sua inocência, matou o menino que ele trazia dentro de si. Matou o menino.”

Em um contexto em que a injustiça impera, como por exemplo, quando a polícia assassina o cego Elias (amigo de Viramundo), assumir nossa loucura talvez seja a decisão mais sábia possível. Diante disso nos cabe concluir citando a balada do louco (Arnaldo Baptista / Rita Lee Jones de Carvalho / Roger Ranson) e recomendando a leitura das aventuras do Geraldo Viramundo: Mas louco é quem me diz/E não é feliz, não é feliz/Eu juro que é melhor/Não ser o normal/Se eu posso pensar que Deus sou eu.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).

sábado, 15 de agosto de 2026

Resenha: The Cloud of Unknowing, do Sepultura

E no final da caminhada o que resta? Orgulho do que fizemos ou arrependimento? Nossas escolhas foram coerentes? Ou nos curvamos ao status quo? Esses questionamentos são suscitados pelo EP The Cloud of Unknowing (2026), da banda brasileira de thrash metal - Sepultura.

Não. Eu não poderia deixar de escrever algumas linhas sobre o que foi anunciado como o último trabalho de inéditas antes do fim anunciado desse grupo que é um dos meus preferidos se tratando de rock in roll. No geral, o trabalho é uma amostra breve da potência criadora da banda com uma sonoridade técnica (mas não menos pesada) e letras filosóficas - tanto numa perspectiva existencialista como de crítica social - que caracterizam a fase Derrick Green. Ao final da audição fica um gosto de: mais uma dose, por favor! Se caso quisessem certamente teríamos um álbum no nível dos anteriores. Com novos elementos que mostram que a banda está sempre evoluindo criativamente.

The Cloud of Unknowing (2026), traz quatro canções inéditas. Sendo este o primeiro registro discográfico com Greysson Nekrutman na bateria. E pelos elementos do jazz fica evidente que ele não só tocou, mas contribuiu com as composições - que de acordo com Andreas Kisser ocorreu de forma espontânea - sem pressão. Esse clima certamente corroborou para que gravassem a primeira balada da banda - perseguida há algum tempo.

Abrindo o ep. temos All Souls Rising (Todas as Almas Ascendendo) que começa num ritmo avassalador. Para em seguida ser cortado abruptamente por um som de cordas. Depois vem o refrão pesadíssimo. Para em seguida retomar a velocidade. A letra foi inspirada num livro sobre a revolução haitiana escrito por Madison Smartt Bell. E critica o fato das pessoas se corromperem em troca de dinheiro - jogando um jogo que sacrifica milhares. Contra esse estado de coisas o Sepultura nos conclamar a resistir e lutar:

Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)/All souls are rising - Todas as almas estão ascendendo/Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)/Until the end - Até o fim/Let's fight (this fight) Vamos lutar (essa luta)/We stand united - Estamos unidos/Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)...

Esse refrão merece se transformar em palavra de ordem nas manifestações em defesa do povo preto, que tanto nos Estados Unidos como no Brasil (e em outras partes do globo) são os alvos preferenciais das forças de segurança em nome da classe dominante. Essa canção também nos instiga a olharmos para o Haiti - país pioneiro na luta contra a escravidão que hoje está subjugado pela violência alimentada pelas grandes potências.

Em seguida vem a canção que para mim deveria fechar o ep. Trata-se da balada Beyond the Dream (Além do Sonho) - que soa como uma carta de despedida onde eles olham para o passado com orgulho daquilo que construíram. Aceitam o fim inevitável como parte de um processo para torná-los imortais. Pois afinal de contas a banda vai chegar ao fim mas não deixar de existir.

Looking out the blurry window - Olhando pela janela embaçada/Wondering how we got this far - Me perguntando como chegamos tão longe/Bleeding out we feel the nightfall - Sangrando, sentimos a noite cair - The future was never so clear -  O futuro nunca foi tão claro

Belo, não?! Uma reflexão que vale para todos nós. Até onde conseguimos ir? No caso deles, estamos falando de um patrimônio artístico brasileiro mais conhecido no mundo. O que enfrentamos para alcançar o que alcançamos? Do que não tivemos que abrir mão? Não tenho dúvida que o Andreas seria capaz de abrir mão de muitos shows para ter vivido mais com sua amada esposa (Patrícia) levada pelo câncer. São escolhas que fazemos e não devemos nos arrepender pois era o que acreditávamos ser correto naquele momento. Sobretudo quando achávamos que nunca morreríamos.

Só por essa música o ep já valeria a pena vir à luz. Mas ainda temos  a pesada Sacred Books em que o vocal gutural do Derrick Green volta à cena para criticar a contemporaneidade onde vislumbramos o que Franco Bifo Berardi denuncia no seu Pensar após Gaza - ensaios sobre a ferocidade e o fim do humano (2025).

Seeking truth in a world of lies - Buscando a verdade em um mundo de mentiras/Seeking truth in this web of cries - Buscando a verdade nesta teia de gritos/Seeking truth in their sacred books - Buscando a verdade em seus livros sagrados/World of lies - Mundo de mentiras

Temos aí uma temática já trabalhada outras vezes pela banda como a questão da verdade e a alienação ao que o indivíduo é submetido num mundo cada vez mais dominado pela máquina (computadores) e fanáticos religiosos (nem sempre de uma religião tal como compreendemos).

Para finalizar temos the place (O Lugar) - e que música é the place que na sua introdução nos lembra uma bossa nova. Isso mesmo, bossa nova que depois vira um thrash metal daqueles que ninguém consegue ficar sem bater cabeça. Nesta canção também temos elementos dos trabalhos anteriores. A música começa com uma sonoridade que lembra uma balada, inclusive com Derrick Green cantando com um vocal limpo, para em seguida explodir. E essa sonoridade tem tudo haver com a história que eles estão contando - sim, é uma história - de um imigrante que deixa sua terra em busca de uma vida melhor em outro lugar, não muito diferentes de tantas histórias reais que conhecemos. E ao chegar nesse lugar vai se transformando ao ponto de esquecer suas raízes e se tornar uma figura deplorável. 

All I want is a place to live - Tudo que quero é um lugar para viver/And plant the seeds to grow my roots - E plantar as sementes para fazer minhas raízes crescerem/We just want the same - Nós só queremos o mesmo?/Not long ago, you were struggling - Você esteve passando dificuldade há pouco tempo atrás/And I don't know what happened to your empathy - E eu não sei o que aconteceu com a sua empatia/Don't you feel ashamed? - Você não sente vergonha?

Sabemos bem qual é esse lugar. Quem ai não viu no período das eleições estadunidenses imigrantes defendendo o então candidato Donald Trump mesmo com sua posição clara contra imigrantes.

Take a look at catastrophe - Olhe para a catástrofe/Embrace the world that's not for me - Eu abraço o mundo que não foi feito para mim/Add the fuel to ignite the flames - Joguei o combustível para alimentar as chamas/This fire keeps burning on - A chama continua queimando/Feel the grip of insanity - Sinta o aperto da insanidade/As the fear drives humanity - Enquanto o medo controla a humanidade/See, tyrants won't show their face - Veja, os tiranos não mostram o rosto/Can't hide their face - Mas não podem escondê-lo/Can't hide their face - Mas não podem escondê-lo/Know who you are - Saiba quem você é/Know who you are - Saiba quem você é/It's what we call a coward - É o que chamamos de covarde.

Não há mais nada o que dizer. Esse trecho fala por si só. Mas ainda há algo a dizer. The Cloud of Unknowing é um trabalho e tanto. Digno do que o Sepultura fez em toda a sua trajetória. Por tanto ouça a todo volume.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O PSOL e o único candidato da esquerda ao governo do Tocantins?!

Witer Naves
Desde o seu surgimento o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em 2004, a partir de um movimento de parlamentares do Partidos dos Trabalhadores (PT), descontentes com o Governo Lula, contou com um grupo de militantes no Tocantins. E desde então o partido tem estado presente na política tocantinense, ainda que com pouca relevância, tanto no movimento social como nas disputas eleitorais. Em parte, a pouca expressão do PSOL no Tocantins se dá pelo contexto difícil de militância para esquerda, sobretudo no interior. O Tocantins é dominado pela direita tradicional. E mesmo uma esquerda mais popular como o PT não consegue fazer frente a essas forças. Por outro lado os dirigentes que estão à frente do partido não conseguem desenvolver uma política organizativa que fortaleça uma agremiação que a nível nacional tem uma atuação de destaque - tanto no movimento social como no parlamento. Essa realidade pode mudar agora nessas eleições (2026)? Onde o partido lançou a candidatura do Professor e Geógrafo Witer Naves.

Sempre que reflito sobre partidos de esquerda me lembro da definição do que deve ser o partido no romance Até, amanhã camaradas, do autor português Manuel Tiago. 

"Para que serve o Partido? Qual a sua missão? Cumpre-a ou não a cumpre? O Partido não é um fim em si. Se as organizações existem e desconhecem os problemas vivos dos trabalhadores, se estão afastadas das massas, se não as esclarecem e orientam, se não sabem organizar e conduzir à luta, para que serve de fato? Pouco vale está tudo muito arrumadinho, tudo muito nos seus lugares, tudo correspondendo ao esquema indicado, se essas organizações e esses camaradas vivem voltados com os olhos para dentro, fechando o Partido em si próprio. Não, não é para isso que serve o Partido. "

Eu acrescentaria que um partido de esquerda (comprometido com a superação do modo de produção capitalista) não deve ter como finalidade a disputa de eleições. No contexto em que estamos inseridos as eleições são importantes. Mas não como um fim em si. Mas como um meio para que dialoguemos com as massas e a partir desse diálogo possamos ter um saldo organizativo que reflita no fortalecimento das lutas da classe trabalhadora. Para tanto uma candidatura que se coloca nesse espectro político não pode fazer concessões para que se torne mais tragável pelo status quo. Deve se colocar a serviço da classe trabalhadora defendendo suas pautas por melhores condições de vida. E melhorar as condições de vida da classe trabalhadora significa necessariamente atacar o privilégio das elites. Witer Naves fará isso?

O candidato psolista tem se apresentado como a única candidatura de esquerda ao governo do Tocantins. Teoricamente, se partirmos dos estatutos dos partidos (e candidatos que estão na disputa - Dorinha - UNIÃO; Vicentinho - PSDB; Laurez - PSD; Ataides - NOVO; Du Pereira - DC), ele tem razão. Mas na prática o que vai definir mesmo se se trata do único candidato de esquerda é o programa. Por enquanto dois movimentos do Witer me deixaram preocupado - o primeiro foi sentar na mesa com a Kátia Abreu (mesmo entendendo que ela é a coordenadora da campanha a reeleição do Lula no Tocantins) e o segundo foi sua fala numa entrevista de que o empresariado não sente segurança para investir no Tocantins em consequência dos casos de corrupção envolvendo chefes do executivo estadual. 

Assim que fiquei sabendo da candidatura de Witer fiquei contente. Pelo seu currículo estamos diante de um quadro qualificado. Com uma formação acadêmica na área de humanidades e uma experiência de gestão no serviço público. No entanto, os dois movimentos anteriores me deixaram com um pé atrás. Mas é muito cedo para qualquer conclusão. A única conclusão possível por enquanto é que o partido precisa radicalizar o seu discurso. E quando falo em radicalizar não estou defendendo a critica pela critica. Mas radicalizar no sentido defendido por Karl Marx, de pegar os problemas pelas raízes. No caso do Tocantins denunciar as consequências do modelo de desenvolvimento capitaneado pelo agro e o hidronegócio. Modelo de desenvolvimento esse que expulsa as comunidades tradicionais dos seus territórios obrigando-os a engrossar as periferias das cidades. A transformação dos recursos naturais em mercadoria. E o sucateamento dos serviços públicos e consequentemente a desvalorização dos servidores. O combate à corrupção é necessário. Mas não podemos esconder que a corrupção se dá em conluio com o setor empresarial. De modo que não se sustenta esse discurso de que não há investimento no Tocantins pela insegurança política. Outro questionamento que devemos fazer é se precisamos desses investimentos mesmo para termos um desenvolvimento sustentável. E também se precisamos ser dirigidos pela ruralista Kátia Abreu numa campanha para a reeleição do presidente Lula.

Enfim, não sou dirigente e nem militante do PSOL para dizer o que o partido deve ou não fazer. Mas enquanto alguém que pensa criticamente nesse espectro político não poderia deixar de me posicionar. Não com o objetivo de criticar só por criticar. Mas para contribuir com o fortalecimento de um partido e uma candidatura que avalio como necessária para vislumbrarmos uma mudança de paradigma no Tocantins.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Crônicas Aurenyanas: Como mulheres negras

Os tombos da vida nos fazem crescer

e não devemos desistir…

Dead Fish



Ela disse que havia se casado aos 13 anos após descobrir que estava grávida. Não era o que ela queria. Também não era o que queria o futuro pai da criança. Mas as famílias, sobretudo a mãe dela, forçaram para que houvesse a união. - Minha mãe não sabia, mas ela estava assinando minha sentença de prisão. Compreendo que não foi por maldade que sua mãe forçou a união dos dois. Morando no interior e conhecendo o quanto não é fácil para uma jovem mãe solteira sobreviver. A mãe dela não deve ter visto outra alternativa. Quem na nossa infância, sobretudo no norte do Brasil, não conheceu uma mulher que entrou numa união estável com um cônjuge quando ainda era menor de idade. Para muitas famílias que vivem em condições socioeconômicas difíceis, uma boca a menos era uma benção.

- Foram cinco anos de penitência. Ele me batia por qualquer coisa. Uma vez me deu um tapa no ouvido na frente do meu pai. Mas eu prometi a mim mesmo que só suportaria aquela tortura até que conseguisse alcançar a minha maioridade. No dia que fiz 18 anos, peguei meu filho, juntei as coisas e me libertei. 

O relato dela doía em mim. Nunca compreendi como alguém é capaz de violentar outra pessoa. Ainda mais quando essa outra pessoa é alguém que você supostamente ama. Não romantizo as relações. Sei que elas são atravessadas por conflitos. Mas nada justifica á violência. Toda vez que ouço relatos desse tipo me questiono sobre a natureza humana. Há uma música (Presídio Zoo) da banda Cólera que diz: Animais não fazem guerras/Animais não destroem selvas/Animais não constroem bombas/Animais não poluem o ar/Animais não pertencem a ninguém/Animais não matam por prazer. E eu acrescentaria que também não matam por ciúmes ou outras paixões tristes. Até onde sei o homem é o único animal que mata sua parceira por ela não se submeter a ele.

Ela continuou relatando a sua triste história - que não é diferente de outras tantas mulheres (mas não podemos deixar de nos indignar).

- Quando o abandonei ele não foi atrás de mim. Pelo contrário. Logo estava com outra do lado. E eu não achei nem um pouco ruim. Pois já não nutria nenhum sentimento bom por ele. No entanto, quando voltei a viver minha vida (sair com alguém) ele voltou a me perturbar. Quando percebeu que eu não voltaria mais começou a me ameaçar. Minha mãe que de início apoiava ele, percebeu o perigo e me convenceu a mudar de cidade. Com medo que ele pudesse fazer algo comigo (matar). E pelo tanto de mulher que a gente vê morrendo aí pelas mãos do próprio companheiro não duvido nada que ele fosse capaz de fazer.

Ela continuou contando a sua história enquanto eu ouvia atentamente. 

- Mesmo quando mudei de cidade ele não me deixou em paz. Conseguiu tomar a guarda do meu filho com a justificativa que eu era incapaz de criá-lo. 

Pensei comigo. Certamente não era por amor à criança. Se não, não teria feito o que fez depois. Provavelmente o objetivo era obrigá-la a voltar para ele.

- De início a família dele deu todo apoio ajudando-o a cuidar da criança. Mas logo ninguém mais podia. E ele teve que levar meu filho para o trabalho dele. Lá a criança pegou uma pneumonia que quase o levou a óbito. Por fim, largou o meu filho com minha mãe. De início ela não quis me dizer. Mas acabei descobrindo e o trouxe para morar comigo. Hoje já está com 15 anos - criei-o praticamente sozinha. A pensão que o pai paga é uma miséria. E quase sempre atrasa. No entanto, a notícia que a gente fica sabendo é que ele não sai do shopping passeando com a namorada. Desde que moramos juntos podia faltar dinheiro para tudo, menos para beber. Lembro de uma vez que ele saiu de casa dizendo que ia na feira comprar as coisas para comermos pois não tinha nada em casa. As horas foram passando e nada dele chegar. O meu filho chorando de fome. E segundo me disseram ele estava num bar bebendo com outra mulher. Fiquei com tanta raiva vendo meu filho chorando com fome e ele na farra que não pensei duas vezes. Fui lá e fiz um barraco. Quebrei tudo e mandei colocar na conta dele. 

Certamente houve quem a considerasse uma desequilibrada. Essas pessoas provavelmente não sabiam o que ela sofria em casa. É como diz um poema do Bertold Brecht - chamam o rio de violento quando arrasta tudo, porém ninguém chama de violenta as margens que o oprime.

- Quando estávamos morando juntos chegou um momento que percebi que teria que me defender ou ele me mataria. Por duas oportunidades quando ele estava me agredindo “meti uma faca nele”. Na última vez ele foi parar no hospital e eu na delegacia. Chegando lá me perguntaram porque havia feito aquilo e mostrei a marca dos dedos dele no meu rosto. Depois disso ele pensava duas vezes antes de me bater. Mas me maltratava de outras formas, como não comprando nada para casa. Mas enfim consegui me libertar.

De tudo que ela me relatou durante a nossa conversa, algo ficou marcado. Foi quando ela disse que crescera num ambiente marcado pela violência doméstica. Sua mãe apanhava do seu pai. E apanhava dos outros maridos que tivera posteriormente. De modo que no início do seu relacionamento ela pensava que aquilo era natural. Para mim essa é uma das expressões mais fortes da cultura machista que está na estrutura da nossa sociedade e que precisamos superar. Como superar? Não vou ousar responder essa pergunta que você (e eu) está provavelmente se fazendo. Até porque não tenho uma resposta além de obviedades. Por isso concluo com os versos da música mulheres negras da banda de harcore capixaba Dead Fish - Os tombos da vida nos fazem crescer/e não devemos desistir.../Mas então vamos lá,/lutar por um ideal./Se viver é resistir,/então será.../E ai poderemos sorrir como mulheres negras,/que apesar de todo sofrimento se negam a chorar.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).

terça-feira, 30 de junho de 2026

Fala sobre a importância da educação antirracista na culminância das embaixadas culturais do Projeto Africanidades e Dia D da Leitura no CEMIL Santa Rita de Cássia

Olá. Prometo ser breve pois sei que o que vocês querem é ver as apresentações dos seus colegas. Nós da filosofia gostamos de questionar o sentido das coisas. Portanto começo por questionar qual o sentido disso? Um questionamento que sei que vocês também fizeram. Por que se dedicar ao estudo de um continente especificamente? Por que é obrigatório o ensino da História da África e cultura Afro-brasileira? Para muitos de vocês, projetos como esse são uma oportunidade para fugir de uma aula chata. Outros pela competição entre as turmas (todos querem ser os melhores). Mas para nós há uma intencionalidade pedagógica fundamentada numa educação antirracista - que busca uma mudança de paradigma - a construção de uma sociedade onde como disse Bob Marley - a cor da pele não seja mais importante que o brilho dos olhos. Queremos uma sociedade sem racismo. Temos consciência de que essa mudança de paradigma não ocorrerá do dia para noite. Mas por meio de um processo onde a educação tem um papel importante. Muitas vezes observamos atitudes racistas transvestidas de brincadeira no ambiente escolar. Não podemos aceitar. Aqui é importante lembrarmos do que diz Angela Davis de que numa sociedade racista (e a escola está incluída aí) não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. Ou seja, no nosso cotidiano não podemos aceitar atitudes racistas. Devemos levantar nossa voz contra. Pois se não estaremos sendo cúmplices. Estaremos contribuindo para sua manutenção. O ponto de partida na construção de um novo paradigma é mudarmos a nós mesmos. Mudar nossas atitudes. Caminhando para o final dessa minha breve fala. Vocês viram o quanto a África é diversa e rica? Deem uma olhada depois nas outras salas - saia da sua embaixada e visite as demais. É uma realidade completamente oposta ao que nos ensinaram por muito tempo. Queria concluir dizendo que a África não está distante de nós. Ela está em todos nós. No nosso DNA - independente da nossa cor. Uma pesquisa (DNA Brasil) da USP aponta que somos o país com a maior diversidade genética do mundo. E parte significativa dessa genética vem da África. Enfim, chega de discurso e vamos às apresentações. Antes para concluir cito a filósofa estadunidense bell hooks: “Todos os nossos silêncios diante da agressão racista são atos de cumplicidade”. Por isso digo, não ao racismo.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atualmente ocupa a Coordenação da Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas do CEMIL Santa Rita de Cássia.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Hasta siempre, Comandante Ramiro Valdés Menéndez

Soube por meio dos meios de comunicação da morte do Comandante Ramiro Valdés Menéndez um dia após a derrota (nas eleições presidenciais na Colômbia) de Ivan Cepeda. A tristeza que estava sentindo aumentou mais ainda com a chegada da extrema direita no comando Político da pátria de Manuel Marulanda. Então acendi um charuto, tomei uma dose de conhaque e fiquei pensando na morte do Comandante da Revolução e no destino da nossa américa latina.

Ao lado dos seus companheiros (Fidel, Raul, Ernesto Che Guevara, Camilo, Almeida entre outros)  Ramiro Valdés fez um dos feitos que marcou a história mundial e da américa latina no Século XX - a Revolução Cubana - que alimentou (e alimenta) no  mundo inteiro o sonho dos povos que lutam por soberania. E a tantos outros que acreditam na possibilidade de um modelo de sociabilidade em que a solidariedade e o bem comum sejam o seu fundamento.

Na juventude me interessei sobremaneira pela revolução cubana e seus personagens - em especial pela figura icônica de Ernesto Guevara - O Che. A partir daí cheguei aos demais personagens. Sobretudo aqueles não tão conhecidos como o Ramiro Valdés. Ramiro fez parte do grupo liderado por Fidel Castro que assaltou o Quartel Moncada, que o levaria aos 21 anos de idade para prisão (a ação deu origem ao Movimento 26 de julho que levou “os barbudos” - como eram apelidados ao poder). Anistiado pelo governo corrupto e lacaio dos Estados Unidos, devido a pressão popular, juntou-se no México a Fidel, Raul e companhia - onde planejaram e organizaram a guerra de guerrilhas que teve início com o desembarque do iate granma em dezembro de 1956. Tendo sobrevivido ao ataque inicial partiu com seus companheiros para a Sierra Maestra onde construíram o quartel general da guerrilha que, a partir dali, expulsaria o ditador Fulgencio Batista e iniciaria uma experiência de governo inspirada no socialismo. 

Durante a luta guerrilheira Ramiro Valdés foi se destacando por sua coragem e liderança. Inicialmente fazia parte da Coluna 1 comandada por Fidel Castro. Posteriormente foi deslocado para Coluna 8 (Coluna Ciro Redondo) comandada pelo Che Guevara, onde ocupava o posto de segundo chefe. Essa coluna foi a responsável por tomar Santa Clara e dar o golpe final na ditadura comandada por Fulgencio Batista.

Após a formação do novo governo, enquanto Comandante da Revolução, Ramiro Valdés ocupou diferentes cargos no primeiro escalão do governo revolucionário (Ministro do Interior, Ministro da Informática e das Comunicações, Vice Ministro das Forças Armadas Revolucionárias e Vice Primeiro Ministro). Mantendo-se fiel ao regime cubano até sua morte aos 94 anos.

Como todo ser humano, ainda mais aqueles que chegaram aonde ele chegou, não deixa de ter as suas contradições. Longe de mim querer minimizar os possíveis excessos cometidos por ele assim como os equívocos do regime. Mas precisamos entender o contexto em que ele se formou e se forjou. Não foi um intelectual como Che Guevara, nem se destacou pela oralidade como Fidel Castro. Fora sobretudo um homem de ação. E assim se tornou Comandante da revolução - um título ao qual um grupo seleto de guerrilheiros alcançou tais como os já citados aqui: Fidel, Raul, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Almeida.

A partida do Comandante Ramiro se dá num momento em que o regime está sob uma ameaça que talvez nunca tenha estado. É fato que desde que a revolução triunfou seguindo uma linha contrária aos interesses dos Estados Unidos uma crise permanente se instalou. Crise que se intensificou com o fim da URSS. No entanto, contra todos os prognósticos o regime foi sobrevivendo - sobrevivendo mesmo após a morte do Fidel e o afastamento do Raul Castro. Mas agora parece atravessar o seu momento mais crítico. Até quando resistirá?

Quando vejo o avanço da extrema direita chegando ao poder político em países como Argentina, El Salvador e agora na Colômbia e no Peru, não há outro afeto que me toma a não ser a tristeza. Como é possível que a população desses países apoiem por meio dos seus votos as figuras mais abjetas que existem? Figuras essas que desprezam os direitos humanos, destroem as políticas de proteção social e entregam as riquezas naturais ao grande capital.

Um movimento totalmente contrário ao que nos legou a revolução cubana - mesmo com todas as contradições. Entre os seus legados destacamos o direcionamento do conhecimento científico para o bem comum e a solidariedade por meio das brigadas de médicos atuando em vários cantos do mundo. 

É nesse contexto que não posso deixar de me entristecer. Ainda que compreendo a necessidade de mudanças que proporcionem uma melhor qualidade de vida ao povo cubano. Essa melhora certamente não será feita pelos gângsteres que vivem em Miami que sonham em transformar a ilha novamente num cassino. Ainda que isso ocorra, a memória do que fez Ramiro jamais será apagada. Por isso concluo. Hasta siempre, Comandante Ramiro Valdés Menéndez.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.