domingo, 20 de setembro de 2026

Uma dose de punk rock - Delinquentes e Cérebro de Galinha

Tenho ouvido bastante punk rock, tanto nomes mais clássicos como novos artistas que levam adiante o grito contra uma sociedade opressora. É incrível a quantidade de trabalhos bons que encontramos de bandas de várias partes do globo. Muitas já estão há algumas décadas na estrada, outras são novatas mostrando a validade do lema: "Punk is not dead" - um grito de resistência necessário ainda mais num contexto em que o fascismo tem atraído milhões de jovens. O punk tem como essência a luta contra toda forma de opressão - e sendo o modo de produção capitalista opressor - o punk é portanto anticapitalista e antifascista. Para evidenciar melhor o que estou dizendo, conheçamos alguns nomes que quem gosta desse tipo de música, na minha visão, não pode deixar de ouvir. 

Comecemos por uma banda veterana do norte do Brasil, isso mesmo - quem disse que não tem punk rock no norte do Brasil? Estou falando da Delinquentes - de Belém do Pará - formada atualmente por Jayme Katarro (vocais), Paulo Bigfoot (guitarra), Pablo Cavalcante (baixo) e Victor Peixe (bateria). Com um som veloz e letras com uma forte crítica social o grupo construiu ao longo das décadas uma discografia de respeito com quatro álbuns de estudo: Pequenos Delitos (2000), Indiocídio (2010), Infectus Humanus (2019) e A Serpente (2024). Além de dois materiais de apresentações ao vivo: Planeta dos Macacos - Ao Vivo na Praça da República (2022), Delinquentes ao Vivo no Hangar 110 (2023). Conheci a banda ouvindo pequenos delitos (2000). Já nos primeiros acordes percebi que não era um trabalho qualquer como muitos que nos deparamos. Qual não foi minha surpresa, ao pesquisar mais sobre a banda, descobrir que eram do norte do Brasil. Compreendo que isso é reflexo de um trabalho realizado pela mídia direcionando o nosso olhar para uma determinada região do país (eixo Rio-São Paulo) e assim mesmo vivendo na região ignoramos artistas como esses. A própria cena faz isso. Quando temos um festival os nomes de destaques geralmente são de bandas que estão no centro econômico-cultural do Brasil.

Varando as baixadas, passando por cima de pontes
Pessoas iludidas esperando um amanhã sombrio
A diferença é forte, crianças e velhos sem ter onde morar
Outros tem três quartos, um pra dormir e dois pra brincar

O trecho acima é da canção gueto que compõem o álbum Pequenos Delitos (2000), na qual percebemos uma crítica à desigualdade social. 26 anos se passaram e o que a letra trás continua extremamente atual. Atual também é a crítica que eles fazem em indiocídio, do álbum homônimo:

Culturas tombadas sob a cruz religiosa
Pureza assassinada por ambições pecaminosas
Ruinas da selva ensanguentada
Ruinas da selva petrificada
Fugas em desespero ao paraiso do pecado
O inferno urbano reciclando o bizarro

A reflexão aqui trata-se do etnocídio que as religiões continuam cometendo contra os povos indígenas. Com o discurso perverso de levar a salvação para essas comunidades o que observamos é o extermínio da cultura nos territórios que grupos religiosos conseguem adentrar. Chamo atenção também para atualidade de Monstros Nazistas:

Nascidos da pobreza de pensamentos antropófagos
Sentimentos de uma raça se opondo a outra igual
Filhotes crescidos de um fascismo assumido
O mais auto grau do puro idiotismo

Idiotismo que observamos nos seguidores do Bolsonarismo - fenômeno que tem tomado conta da política nos últimos anos - defendendo o que há de mais abjeto na nossa sociedade. Enfim, há muitas outras canções da Delinquentes que valeria a pena destrincharmos aqui ainda que de forma breve, mas ficamos por aqui. Vamos para o nosso próximo nome. Continuando na região norte - no Pará - mas em outra cidade - Marabá - temos a Cérebro de Galinha.

Na Cérebro de Galinha temos um som mais sujo com um vocal gutural potentíssimo. Os caras espancam os instrumentos com um ódio pulsante. As letras metem o dedo na ferida abordando expressões da questão social como também conflitos internos que todo ser humano enfrenta. Ainda mais um jovem que nasceu na periferia e não tem muita perspectiva. O destaque fica por conta do baterista (Suco) e do vocalista (Cego) que são a banda em si. Conheci o som dos caras por meio de um vídeo do ensaio que disponibilizaram na internet. E a partir daí fui buscar mais material e descobri que já lançaram os seguintes materiais de estúdio: Sociedades Secretas (2018) e Norte em Chamas (2021). E os ao vivos: Cérebro de Galinha (Ao Vivo no T'rextúdio) (2022), Mundo em Caos (2015) e Vozes da Quebrada (2025). Há também um documentário que retrata a viagem que fizeram para alguns shows em São Paulo - A viagem da Galinha Morta. E uma demo de 2017.

O primeiro álbum que eles gravaram está disponível em plataformas de ouvir música na internet e a qualidade é muito boa. Destaco a canção que abre o trabalho, Ameba, onde eles chamam atenção para consequência de quem se torna um viciado:

Colhendo o mal pelo diabo plantado
Sobrevivendo num limbo
Não restou mais nenhum amigo
A não ser a porra de um cachimbo

Também no mesmo álbum temos a pesadíssima Hipócrita onde destilam ódio contra os falsos moralistas.

Filho da puta, vai se foder
Playboy do caralho, só quer aparecer
Filho da puta, tem que morrer
E com o seu ego desaparecer
Mas um dia vai se convencer
Que ficar por cima só te faz perder
E finalmente vai perceber
Que cagar pros outros é cagar pra você

Se no primeiro trabalho a crítica deles é mais voltada para o Eu - essa entidade criada pela filosofia moderna que nos fez achar que somos o centro do universo e que no neoliberalismo é levado à exaustão. Em Norte em chamas (2021) eles focam mais em expressões da questão social como por exemplo em racismo onde chamam atenção para persistência dessa problemática e gritam pelo fim da segregação racial. Também desse mesmo trabalho temos reintegração de posse onde denunciam que a lei está a serviço de quem tem poder - mesmo com a constituição federal determinando a desapropriação de propriedade que não cumpre a sua função social. 

Reintegração de posse
não conte com a sorte 
não há deus por aqui…

Que o diga às vítimas do massacre do Eldorado dos Carajás, do massacre de Corumbiara entre tantos outros casos vitimando camponeses pobres, trabalhadores sem terra, quilombolas e indígenas. Chamo atenção também para Pororoka (Devastação da amazônia/ para expansão rural)  denunciando a destruição da natureza para gerar riquezas para os donos do capital e Norte em chamas (O Estado quer nos matar…sangue, sangue, sangue… Nascido de um estupro… Norte, Norte, Norte. Norte em chamas). Para finalizar destaco a canção Professores, de uma demo que gravaram em 2017:

Tirando a liberdade e autonomia do professor
Tratando como lixo quem deve ser tratado como senhor
E o governo autoritário cada vez mais opressor

Essa canção nos faz lembrar do movimento escola sem partido que sob o manto da neutralidade liderou um conjunto de ações que buscavam criminalizar o fazer pedagógico do professor/professora, especialmente os da área de humanas. Tanto que nesse contexto tentaram retirar a Filosofia e Sociologia do currículo da educação básica. Infelizmente esse movimento não foi derrotado e está presente nos programas de governo de nomes como Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e Renan Santos.

Enfim. Nossa ideia inicial era apresentar aqui outras bandas, mas Delinquentes e Cérebro de Galinha renderam bastante. Então paro por aqui. Mas com a intenção de fazer uma segunda parte e talvez outras mais. Quem sabe! O tempo irá dizer.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Machado: O amor e outras afecções em contos fluminenses

Uma das coisas que me encanta nos escritos do Machado de Assis não é o que ele diz mas como ele diz. Ou seja, mais interessante do que suas estórias e personagens é a sua escrita. Ainda que suas estórias e personagens nos proporcione importantes reflexões filosóficas e nos ajude a compreender a nossa formação enquanto nação brasileira. Em contos fluminenses (1870) temos tudo isso a partir de estórias que retratam a vida privada no Rio de Janeiro do século XIX. Um aspecto interessante das narrativas é acerca dos afetos que circulam nesse ambiente. E como eles influenciam nos destinos dos personagens.

O primeiro afeto que salta aos olhos durante a narrativa é o amor. Machado parece compreender o amor segundo a tradição grega, sobretudo de inspiração platônica, como uma falta. O amante busca no objeto amado aquilo que lhe falta. Ao ponto de o amado se tornar o sentido da existência do amante. Parece trágico, não?! E é. Quantas pessoas ao longo da história não tiraram a própria vida pelo fato do objeto do seu amor não se realizar. O conto Frei Simão é um exemplo nesse sentido. Ele não chega a tirar a própria vida. Mas é afetado por uma tristeza tão profunda que acaba não tendo outro destino. Naquele período não se falava em depressão. Mas nos dias atuais seria disso que diagnosticariam o jovem Frei. Em Miss Dollar e Linha Reta e Linha Curva acontece o contrário. O amante conquista o amor do amado. Não sem uma boa dose de sofrimento. O sofrimento aqui advém sobretudo pelo fato de que o amado nesse caso já tinha tido experiências anteriores (eram viúvas). Certamente nesse caso o medo está presente. O medo do que diria a sociedade. O medo de ser usada por um dom juan - o que de fato aconteceu em Confissões de uma viúva moça. 

“Mas aquilo que o espírito do homem não vence, há de vencê-lo o tempo, a quem cabe final razão. O tempo convenceu Margarida de que a sua suspeita era gratuita; e, coincidindo com ele o coração, veio a tornar-se efetivo o casamento apenas celebrado.”

O trecho acima é do conto Miss Dollar. E trás um elemento importante que faz com que o amado corresponda a expectativa do amante - o tempo. Há uma definição bem interessante do que é o tempo no conto Linha Reta e Linha Curva.

“- Três meses, três minutos! Eis toda a verdade da vida. Se os pusessem sobre uma grelha, como São Lourenço, cinco minutos eram cinco meses. E ainda se fala em tempo! Há lá tempo! O tempo está nas nossas impressões. Há meses para os infelizes e minutos para os venturosos!”

Ou seja, o tempo é abstrato. O que para alguns é tempo demais para outros é tempo de menos. Para o amante que ainda não possui o objeto amado o tempo anda lentamente. Quando está em posse do objeto amado a perspectiva muda. O tempo é portanto a sucessão dos acontecimentos. Fazendo uma leitura espinosana, mais do que a duração de um momento. É o quanto esse momento nos afeta com determinada afecção. Se aquele momento nos afeta de tristeza a impressão acerca do tempo é uma. Se nos afeta de alegria, a impressão é outra.

Ainda seguindo uma leitura espinosana da obra machadiana. Sobretudo no conto Linha Reta e Linha Curva. Percebemos como os afetos se transformam. Nesse conto temos Tito - jovem que diz ser indiferente ao amor. Incapaz de amar quem quer que seja. Deixando claro que isso se dá não por que não ver as mulheres dignas do seu amor. Mas porque nasceu assim. 

“Note bem, não por elas, é por mim. Acredito que todas as mulheres sejam credoras da minha adoração; mas eu é que sou feito de modo que nada mais lhes posso conceder do que uma estima desinteressada.”

Por mais que Tito tente evidenciar que não despreza as mulheres. Num determinado momento diz preferir um jogo de carta ao amor de uma mulher. O que provoca indignação em Emília - que decide conquistá-lo para vingar o sexo feminino de tamanho desprezo.

“- Lembra-me um do mesmo gênero que este - disse Emília -. Foi já há tempos. Andava sempre a gabar-se da sua isenção. Dizia que todas as mulheres eram para ele vasos da China: admirava-as e nada mais. Coitado! Caiu em menos de um mês. Adelaide, vi-o beijar-me a ponta dos sapatos... depois do quê, desprezei-o.”

Não vou aqui dar spoiler do que acontecerá tirando de você camarada o prazer de descobrir por meio da leitura do conto. Mas ao ler você perceberá o seguinte movimento - a substituição ou transformação de afetos. Você perceberá, numa linha do que diz Espinosa, que não podemos fugir daquilo que a natureza determina. No entanto, se usarmos a razão podemos perseverar numa determinada direção.

Em contos fluminenses (1870), temos mais uma amostra desse ser extraordinário que foi Machado de Assis. Ao final de cada conto, ao mesmo tempo que o leitor é tomado de alegria, também é afetado pela tristeza por que chegou ao fim.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT). 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Eleições de 2026 no Tocantins: As pesquisas e as disputas

Comecemos por falar das famigeradas pesquisas eleitorais. Cada vez que é divulgada gera toda uma discussão. Até que ponto podemos confiar no quadro apresentado? Sobretudo porque o histórico é mais ou menos das previsões meteorológicas nos seus primórdios. Óbvio que quem está na frente na pesquisa divulgada vai aproveitar para fazer aquela mídia e, quem sabe, conquistar votos indecisos. Já quem está atrás ignora na esperança de que surja alguma que lhe favoreça.

Como pode pesquisas realizadas no mesmo período, no mesmo território chegar a resultados distintos? Será se são feitas com rigor científico ou de acordo com o gosto do cliente? Há que se levar em consideração que o objeto em análise é o ser humano que não é estático como uma pedra. Por isso é importante, para quem quiser fazer uma análise séria da conjuntura, observar todos os dados que a pesquisa fornece. Sobretudo aqueles que não são importantes à primeira vista. Nessa linha quanto às pesquisas feitas no Tocantins observamos algo que os analistas políticos não levaram em consideração e que na minha visão é importante - a distância entre o primeiro e o segundo colocado. As pesquisas divulgadas têm divergido quanto a quem está na frente da disputa, mas em relação à distância de um para outro não. Logo podemos afirmar que por mais questionáveis que sejam as pesquisas. Elas apontam para um inevitável 2º turno. Já havíamos falado dessa possibilidade durante a pré-campanha. Mas agora esse cenário parece irreversível. Parece também que não há espaço para uma terceira via, tanto ao governo estadual quanto ao federal. Já em relação à disputa pelo senado, que necessariamente será decidida no primeiro turno, o questionamento é saber quem se beneficiará com uma disputa entre tantas candidaturas competitivas - temos, por enquanto, uma disputa totalmente em aberto.

Diante de tudo isso, o cenário é o seguinte: teremos um resultado apertado tanto na corrida pelas duas cadeiras em disputa ao Senado, ao Governo Estadual e à Presidência da República. E é com esse cenário que a campanha tem tomado as ruas com os candidatos buscando unir o máximo de gente possível para mostrar força e atrair os indecisos. No interior, a estratégia mais vitoriosa é obter o apoio de quem está na Prefeitura e Câmaras de Vereadores - estes com toda a sua influência política garantiram não apenas um palanque, mas também muitos votos. Como contrapartida, esses líderes municipais terão apoios nas eleições municipais que ocorrerão futuramente. Na capital também não é tão diferente. O prefeito Eduardo Siqueira Campos já deixou claro que será candidato à reeleição e certamente espera contar com o apoio daqueles que está apoiando.

No Tocantins os dois candidatos que polarizam a disputa ao Governo do Estado, Dorinha e Vicentinho, têm focado suas campanhas em apresentar propostas para os problemas regionais, sobretudo com foco na melhoria dos serviços públicos (saúde, educação, segurança pública, melhoria da infraestrutura e valorização salarial dos servidores). Evitam claramente se posicionar em relação à disputa nacional. Talvez sejam obrigados num segundo turno. Laurez, que não tem muito a perder, aposta numa ligação com a candidatura do Presidente Lula à reeleição, mesmo sendo de um partido que tem a candidatura do Ronaldo Caiado (PSD). No entanto, historicamente, o Tocantinense e o brasileiro no geral não seguem uma lógica partidária ou ideológica na hora de votar. Votam num deputado estadual de uma coligação, num deputado federal de outra, num senador de outra e daí por diante. O que o move, no geral, é o pragmatismo político. 

Em relação a disputa nacional o Partido dos Trabalhadores (PT) tem conseguido levar a melhor nas disputas eleitorais no Tocantins, mesmo quando o candidato do partido não era o Lula. E o que as pesquisas apontam na atual conjuntura é de que não será diferente. No entanto nos grandes municípios a tendência é outra. Diante disso, essa vantagem não será tão grande. E não refletirá na eleição de candidatos petistas ao parlamento estadual e federal. No entanto, há uma novidade esse ano que devemos avaliar depois a sua efetividade - o movimento capitaneado pela Kátia Abreu - responsável por coordenar a campanha à reeleição do candidato petista à presidência da república. O candidato bolsonarista por sua vez se apoia nas igrejas evangélicas que tem uma influência considerável na política tocantinense - uma influência crescente.

O papel de coordenadora da campanha à reeleição do Presidente Lula dá a oportunidade da Kátia Abreu a voltar a ter alguma relevância na política estadual. Caso o presidente seja reeleito é de se imaginar que ela pessoalmente, mais do que o próprio PT, será a grande vitoriosa. Tendo um papel importante na indicação de nomes para os cargos nos órgãos federais no Tocantins. E inclusive podendo assumir alguma função na esfera federal. 

Concluímos ressaltando que quanto mais próximo chegarmos da eleição mais tensionado ficará a disputa. Já observamos alguns ataques diretos entre as partidas em contenda. Sem falar do espectro da corrupção que é uma ameaça permanente. A bola da vez é o caso do banco master. Em que medida esse escândalo poderá impactar campanhas de norte a sul do Brasil? Aguardemos.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

sábado, 5 de setembro de 2026

Conto: Paixão proibida

De todas as mulheres dessa cidade por que fui logo me apaixonar por ela?! Mas como eu poderia resistir aquela boca, aquele sorriso, aquele olhar. Foda-se se era casada. Valia a pena viver perigosamente ao lado dela. Dizem que os frutos proibidos são mais gostosos. Não sei, não. Não era nada agradável pensar que a qualquer momento poderíamos ser surpreendidos pelo marido dela. E conhecendo lhe a fama. Provavelmente não estaria aqui contando essa experiência.

Eu juro que tentava resistir. Prometia para mim mesmo que não sairia com ela novamente. Mas quando ela surgia com aquele olhar diante de mim. Não conseguia mais pensar em nada se não em tê-la nos meus braços. E assim nos entregavamos a paixão dos nossos corpos. Depois como se depertassemos de um transe nos despediamos como se tivesse sido a última vez. Mas o fato é que não conseguíamos ficar muito tempo longe um do outro.

Não que ela me amasse, não tinha ilusão quanto a isso. Ela queria apenas viver uma aventura fora do casamento. Se não fosse comigo, seria com outro. Para minha sorte, ou azar, não sei, foi comigo.

Por mais que fôssemos discretos, havia comentários. E se esses comentários chegasse ao ouvido do marido dela, ele certamente pensaria: - onde há fumaça. Há fogo. E iria investigar. Isso nos deixava mais cautelosos ainda. Ficávamos um período distante um do outro, mas acabavamos nos encontrando. E quando nos encontrávamos, acabavamos na cama.

No meu quarto, alta madrugada, sob a luz do cigarro dela. No toca discos Janis Joplin ou Amy Winehouse. Ninguém ousaria imaginar o que estava acontecendo naquela casa onde não existia muito movimento (onde vivia um ser um tanto solitário). Pelo menos era isso que achávamos. Ledo engano. Afinal de contas como dizem por essas bandas: - as paredes tem ouvidos.

Quando nos afastavamos eu procurava em outros corpos encontrar o prazer que tinha com ela. Mas ninguém chegava aos pés daquela mulher. Pelo contrário. Meu esforço para me afastar dela, acabava me tornando mais dependente dela. Estaria eu condenado aquela relação perigosa da qual o único fim possível era uma tragédia? Ora, por que diabos, com tantas mulheres nessa cidade fui logo me apaixonar por aquela. Mas também nenhuma das outras fazia o me coração bater acelerado como a bateria do Motorhead. Enquanto isso vou vivendo essa paixão proibida.

Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino-americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in roll. 

domingo, 30 de agosto de 2026

Poema: Que furacão!


Eu já tive um furacão 
em minha vida.
Que furacão!
Por ela perdia o sono,
delirava de paixão. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida.
Que furacão! 
Não se chamava Hilda,
mas roubou o meu coração. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida.
Que furacão. 
Tinha olhos de ressaca. 
Era pura tentação. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida. 
Que furacão. 
Entre os peitos uma flor de lótus 
símbolo de superação. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida.
Que furacão! 
Não teve reza que me salvasse,
cai em suas mãos. 

Eu já tive um furacão 
em minha vida. 
Que furacão! 
Hoje estou liberto, 
a sete palmos no chão. 

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Hipóteses para a estagnação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) do Tocantins - 2026

No geral, foi com frustração que o Tocantins recebeu o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) a partir do resultado da prova do sistema de avaliação da educação básica (SAEB) aplicada em 2026 e dos dados do fluxo (entre eles aprovação e evasão), divulgado pelo Governo Federal. O resultado alcançado mostra uma estagnação no ensino médio (4,1), recuo de 0,1 nos anos finais do ensino fundamental (de 4,8 para 4,7) e um pequeno avanço de 0,4 nos anos iniciais do ensino fundamental (de 5,4 para 5,8). Se levarmos em consideração o investimento do Governo Estadual na educação, sobretudo nos dois últimos anos, a frustração é justificada.

É importante lembrar que entre 2024 e 2025 o governo deu posse para milhares de concursados aprovados no certame de 2023. Anteriormente a isso o governo pagou as progressões atrasadas reivindicadas pelos professores há anos. Construiu novas escolas e reformou outras tantas. Ampliou as escolas de tempo integral. Investiu em tecnologia adquirindo equipamentos tanto para professores como para os estudantes. Manteve uma política de formação continuada (com foco no IDEB) e valorização da carreira com a elaboração e aprovação de um novo PCCR (Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração), gratificação e premiação das boas práticas (Prêmio Escola que Transforma). Não menos importante foi o avanço de uma política de permanência estudantil com o presente, prof e o pé de meia (programa do governo federal). Diante disso uma pergunta se impõe: porque essa política de valorização da educação não refletiu num avanço significativo do IDEB no Tocantins?

Ora, um avanço significativo na qualidade da educação não se dá de uma hora para outra (de um ano para o outro). Da mesma forma os retrocessos. Peguemos, por exemplo, o resultado do município de Palmas que teve um recuo significativo. Alguns críticos se apressaram em colocar na conta da gestão do atual Prefeito (Eduardo Siqueira Campos) a responsabilidade pelo “fracasso”. Em que pese a péssima gestão em curso (não só na educação) colocar unicamente na conta do Eduardo é desonestidade. O IDEB não é reflexo de 01 ano de gestão. Pensei comigo ao ouvir algumas críticas - se o que foi construído ao longo de vários anos caiu tão rapidamente, então o que foi construído não era tão sólido assim. Eu chamo esse tipo de crítica seletiva de oportunista. Por que ela não vai a raiz do problema. Serve apenas como arma para atacar adversários políticos. Ainda mais no contexto em que estamos de disputa eleitoral.

Partamos do pressuposto de que o IDEB reflete exatamente o que são as escolas (o que nós que estamos em sala de aula de uma escola pública sabemos que não). Por que não avançamos? Segue algumas hipóteses:

  • A política educacional é planejada de cima para baixo sem a participação efetiva de quem está em sala de aula;
  • O planejamento não  leva em consideração a diversidade e especificidade de cada comunidade escolar;
  • Os professores são meros executores de um programa comprado de uma empresa privada (Soluções Modernas);
  • Excesso de burocracia tomando um precioso tempo do professor para que possa planejar e dar aulas;
  • Excesso de projetos no ambiente escolar;
  • Foco excessivo em Língua Portuguesa e Matemática;

Não é meu objetivo aqui fazer um estudo aprofundado. De modo que não irei destrinchar todas essas hipóteses. Deixo portanto como pontos para reflexão se quisermos começar a discutir seriamente esse problema. No entanto vou tecer algumas palavras a respeito da primeira hipótese (a política educacional é planejada de cima para baixo sem a participação efetiva de quem está em sala de aula) por que acredito que a partir dela derivam as demais. Um grupo de “iluminados” elaboram a política que deve ser implantada por todas as escolas - uma política que se materializa por meio de uma burocracia que não raramente leva ao adoecimento de quem está em sala de aula. Quando o resultado estabelecido não é alcançado adivinhem quem é o culpado? Lembro aqui das palavras do educador José Pacheco numa entrevista para a Revista Educação - “Enquanto a burocracia prevalecer em detrimento da pedagogia, os professores continuarão a ser considerados os ‘bodes expiatórios’ dos males do sistema.” Por enquanto não vemos uma perspectiva de mudança. Sobretudo porque não percebemos uma preocupação genuína por parte de quem comanda a educação em mudar essa realidade. E nem dos que estão no chão da escola em se rebelar.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Geraldo Viramundo - louco ou sábio?

Quando iniciei a leitura do O Grande Mentecapto (relato das aventuras e desventuras de Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações) do escritor mineiro Fernando Sabino, confesso que as primeiras impressões não foram boas. A estória parecia não ser interessante. O personagem principal menos ainda. E o pior era a escrita que fazia com que a leitura fosse pesarosa. Mas não abandonei e continuei lendo. Não gosto de abortar uma leitura, por mais pesarosa que ela seja para mim. Fiz isso uma vez com Tropas e Boiadas, do Hugo de Carvalho Ramos, e nunca mais retornei - quem sabe um dia. O meu estranhamento com a escrita do Fernando Sabino seria pela minha falta de familiaridade com a cultura mineira? Talvez. O fato é que tenho pouca leitura de autores mineiros, com exceção dos poemas do Drummond e da Adélia Prado que aprecio muito. Mas enfim, li o livro até o final. E a impressão final foi outra. Geraldo Viramundo entra na minha galeria de personagens inesquecíveis. Já o seu criador, certamente não é o melhor prosista que já li, mas  não deixa de ter sua relevância.

Como já adiantamos nas linhas acima, Fernando Sabino é mineiro de Belo Horizonte - cidade onde nasceu nos idos de 1923. Além de escritor, atuou como jornalista e editor. Entre suas obras o romance O grande Mentecapto (publicado em 1979) se destaca. Nele temos uma espécie de biografia de Geraldo Boaventura - nascido no interior de Minas Gerais (na pequena Rio Acima) - e que ganha o mundo (Minas Gerais) vivendo aventuras à la Dom Quixote de la Mancha. A sua ingenuidade o coloca em situações difíceis. Mas ele consegue superar e seguir o seu caminho - sem destino - a não ser aquele que é o destino de todos nós - a morte. Aliás, é a morte de um colega ainda na infância que vai marcar profundamente o estado de espírito de Geraldo. A partir desse episódio trágico nosso personagem extrovertido torna-se introspectivo. Provavelmente sentia culpa pela morte de Pingolinha que acreditava poder repetir o feito de Geraldo de ter parado o trem. Esse sentimento de culpa talvez também tenha o levado a se tornar Padre - além do fato que ao decidir entrar para o seminário deixaria a casa dos pais onde não era tão querido. Mas o sacerdócio não era para ele. Alguns acontecimentos alheios à sua vontade levaram a sua expulsão do seminário. E a partir dali tornou-se um ser sem lugar nenhum, ganhando o apelido de Viramundo.

Não sei o que levou Fernando Sabino a colocar como título do romance O grande Mentecapto. Me pareceu não fazer muito sentido. Ainda que mentecapto segundo os dicionários é “aquele que não possui nem utiliza a razão; mentalmente desorganizado; sem juízo; maluco.” E ao longo da sua narrativa o autor busca enfatizar a possível insanidade de Viramundo. Não ousou contradizer, afinal de contas o criador do personagem é o autor. Mas fundamentado no que o próprio autor escreve sobre o personagem, sobretudo na parte final, não estamos diante de um grande mentecapto. Talvez o sentido de grande no romance não esteja relacionado a grandeza mas a valor. Mas enfim.

Outro aspecto que gostaria de chamar atenção na obra é uma espécie de homenagem a Minas Gerais. Viramundo anda por várias cidades mineiras e nessas andanças o autor vai nos apresentando a cultura local e personalidades dessas localidades. Há uma enorme referência de autores e suas obras - Viramundo é um apreciador de poesia, sobretudo os poemas do Alphonsus de Guimaraens. Viramundo também ama a liberdade e não gosta de injustiças. Encontra pelo caminho alguns que iram tirar proveito da sua ingenuidade. Por outro lado também será acolhido por outros tantos.

“Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu, índio, cigano, santo, poeta, mendigo e débil mental, Viramundo! que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza de sua loucura.”

No trecho acima podemos ter uma noção da prosa do Fernando Sabino. E é um trecho também em que o narrador se identifica com o personagem - um personagem que talvez seja a síntese do povo brasileiro - que vai se forjando através das injustiças, resiste mas acaba tendo um final trágico. 

“O raio que coriscou na sua cabeça naquele instante, dando-lhe uma fulminante consciência da iniquidade que prevalece neste mundo, foi demais para a sua inocência, matou o menino que ele trazia dentro de si. Matou o menino.”

Em um contexto em que a injustiça impera, como por exemplo, quando a polícia assassina o cego Elias (amigo de Viramundo), assumir nossa loucura talvez seja a decisão mais sábia possível. Diante disso nos cabe concluir citando a balada do louco (Arnaldo Baptista / Rita Lee Jones de Carvalho / Roger Ranson) e recomendando a leitura das aventuras do Geraldo Viramundo: Mas louco é quem me diz/E não é feliz, não é feliz/Eu juro que é melhor/Não ser o normal/Se eu posso pensar que Deus sou eu.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).