domingo, 15 de fevereiro de 2026

Crônica: Exaltação a paciência

Sou um apreciador de artes marciais, entre tantas o boxe é certamente a que mais me agrada. Ao contrário de outras lutas, acredito que o boxe exige do lutador uma virtude não tão presente em outras artes marciais - a paciência. Um bom pugilista deve estar preparado para resistir a todos os rounds. Ainda que tenha como horizonte um nocaute. É também a expectativa do público - um nocaute. Ao invés de apreciar a luta. O atleta por sua vez pode procurar satisfazer o público e acaba ficando vulnerável, pois como dizem, a pressa é inimiga da perfeição - a perfeição no boxe é o nocaute. O bom pugilista sabe que um nocaute precisa ser construído com paciência. A mesma paciência que um ceramista precisa para moldar uma determinada peça. Aliás, vejo que há muita similaridade entre uma luta de boxe e o trabalho de um artesão. A luta do artesão é com uma matéria que ele tenta moldar transformando numa obra de arte. Já a obra de arte do pugilista é um nocaute construído durante o combate com outro pugilista.

Essas questões me ocorreram ao assistir a luta de boxe entre os pugilistas Anthony Joshua e Jake Paul, provocado por análises de comentaristas esportivos acerca do combate. Entre essas análises as que mais me chamaram atenção foi a de que apesar do nocaute, Paul teria saído vitorioso por ter resistido 6 rounds contra um campeão mundial ainda na ativa. Dito isso é importante saber, caso você não saiba, quem é Jake Paul - uma figura (Estadunidense) que ganhou fama com a internet e de repente decidiu se tornar um pugilista. Promovendo lutas midiáticas envolvendo milhões de dólares com atletas e ex-atletas do mundo da luta como Anderson Silva e Mike Tyson. Joshua por sua vez é um atleta profissional (britânico) com vários títulos na categoria dos pesos-pesados. Diante disso é de se imaginar que os prognósticos seriam um atropelo do pugilista britânico na luta. Ainda que Paul tenha tido êxito em combates anteriores.

No final das contas foi o que aconteceu, ainda que o nocaute não tenha ocorrido com a rapidez que torcedores e comentaristas esperavam.

Ao ver e rever a luta fiquei me questionando se o fato de ter sido nocauteado só no sexto round fez do Jake Paul um vitorioso. O que percebemos durante a luta lembra um náufrago à deriva no mar buscando se agarrar em algo para sobreviver. Do outro lado temos alguém se divertindo. Como Sócrates quando por meio do diálogo levava os seus interlocutores sabichões a reconhecer sua ignorância. Ou um ceramista que vai moldando o barro para que ganhe a forma que ele queira. No final dizer que quem sobreviveu a 6 rounds apanhando miseravelmente foi o vitorioso é não entender a beleza de uma vitória construída com paciência.

Na filosofia a paciência é considerada uma virtude. Espinosa, por exemplo, exalta-a como um atributo da razão. Ele a define como um poder de ânimo que aumenta a nossa capacidade de resistir a afetos que diminui a nossa potência de agir, como por exemplo a ira. Joshua enfrentou o seu oponente com um sorriso no rosto. Consciente de que mais importante do que vencer é como vencer - apreciando cada segundo de um processo com um fim previsível. Ainda que não tivesse nocauteado a vitória de Joshua seria inconteste. Mas a sua paciência nos brindou com um nocaute perfeito. Ninguém melhor que o próprio Paul definiu esse nocaute - ao cair no chão a sua reação foi a mesma expressão de quando estamos diante de uma obra de arte bela. Na sua cabeça certamente passou: é, é isso que é ser um pugilista de verdade. Eu sou um medíocre.

Ao final a vitória, por nocaute, do Anthony Joshua não foi apenas uma vitória do Anthony Joshua. Mas uma vitória do boxe profissional. Foi uma vitória de todos nós que sabemos que as conquistas não caem do céu. Quantos de nós, sobretudo os que atuamos na sala de aula, não encontramos estudantes que acreditam que vão conseguir as coisas sem esforço. Quanto de nós não encontramos no dia a dia pessoas que acreditam que podem ser o que quiserem ser sem estudo. Lembro de uma conversa que tive certa vez com uma colega professora que dividia comigo as aulas do componente curricular de projeto de vida. Ela dizia não entender o porque os estudantes abandonavam tão rapidamente aquilo que diziam querer. Para mim a questão era simples. Porque para conseguir era necessário muito estudo e dedicação. 

Ora, não basta dizer que quer ser um médico, é preciso trabalhar para que isso se concretize. Não basta dizer que quer ser um pugilista campeão. É preciso trabalhar nesse sentido. E nessa caminhada não é possível pular etapas. Há que se estudar muito. Saber agir com paciência para que aquilo que é almejado possa ser alcançado. Ter paciência não é ficar esperando que as coisas aconteçam. Na linha do que ressalta Espinosa estamos falando de uma virtude ativa. Ou seja, eu preciso agir com paciência, mas agir. 

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Crônica: Oh meu velho indivisível…

 Em memória do meu avô, Graciliano Carreiro


A frase acima é da canção clássica Avôhai do cantor paraibano Zé Ramalho - uma canção que sempre me remeteu ao meu avô Graciliano Carreiro - conhecido pelo apelido de Chó - que nos deixou recentemente numa manhã de segunda-feira - a primeira do mês de fevereiro de 2026. Um acontecimento daqueles que mexe significativamente com a gente. Mesmo sabendo que esse horizonte é incontornável para todos nós. Sobretudo à medida que os anos avançam. Ora, como não sentir a partida de alguém querido?! Ainda mais quando essa pessoa tem uma importância significativa no sujeito que nos tornamos.
Agora nos resta a memória de uma figura que deixa como maior legado a simplicidade, o amor pela família, pelos animais e pela terra. E que memórias. Meu avô tinha uma personalidade única - tentava passar um ar severo para esconder um coração gigante. Adorava anedotas - tinha um humor afiadíssimo. Não me esqueço de um episódio em que certa vez indo para o rio acompanhado de algumas pessoas, entre elas um evangélico que “ia pregando a palavra de Deus”. Ao passar por uma ponte improvisada disse ao “crente” para tomar cuidado se não ele ia para o céu mas para o céu da boca do jacaré. Era o jeito carinhoso dele mandar o pregador calar a boca. Outra de suas histórias era de que quando mais jovem e começava formar um temporal ele atirava para o céu com sua bucheira. Quando começava a trovejar dizia que São Pedro estava batendo nos couros velhos.
Nunca fui muito de conversar com meu avô. Saber da sua origem, de onde vinha sua família. Como chegara ali. Como conhecera minha avó. Qual era a sua visão política? Qual sua religião? Sua filosofia de vida. Mas observando suas atitudes era possível perceber muita coisa. A primeira é que ele não tinha religião. Ainda que acreditasse em Deus. Nutria uma antipatia pelos protestantes (neopentecostais). Aproximava-se mais do catolicismo. Não era muito de sair de sua chácara. Sobretudo à medida que os anos avançavam. Se alguma vez foi viciado em bebidas alcoólicas e tabaco conseguiu dominar o vício. Nunca o vi fumando e quando bebia era extremamente controlado. Era de uma simplicidade admirável - tinha recursos (terra e gado) com os quais poderia morar numa mansão e ter mais de um carro. Mas morava numa casa simples. E nunca teve um carro ou uma moto. Não era nem um pouco vaidoso. Até quando pode, cuidou do seu gado, dos seus gatos e cachorros. Manteve as áreas verdes de sua chácara - especialmente os brejos de buriti.
Não eram poucos os que o criticavam por não se desfazer dos gados e de alguns hectares de terra para ter uma “vida melhor”. Geralmente a visão de uma vida melhor para essas pessoas se resume a ter um carro e poder ostentar coisas diversas, como uma determinada bebida, uma determinada roupa, um determinado relógio, um determinado lugar. Meu avô era um camponês - e como um camponês a terra não era só um bem material. Assim como o seu gado. Que importa o que os herdeiros farão com o que ele deixou. Nada apagará o que ele construiu ali - uma família grande, juntamente com minha avó, e mesmo sem ter uma vida pública ativa conquistou o respeito e a admiração das pessoas daquele território (Miracema).
Das memórias que tenho com ele, uma é especial - de quando no recesso escolar de dezembro/janeiro ia para chácara ajudá-lo a plantar capim para o gado. Era um trabalho duro. Ao final ele me dava uma grana com o qual minha mãe comprava o meu material escolar e roupas.
Eu poderia ter convivido muito mais com meu avô - ouvir suas histórias. Mas assim como ele não sou muito de sair de casa. E à medida que a idade vai avançando o desejo de se isolar numa chacarazinha é cada vez maior. Também assim como ele, busco cultivar uma vida sem ostentação - a não ser as minhas leituras. Eu nunca havia parado para pensar no quanto me pareço com ele.
Eu não fui criado pelo meu avô, tal como o personagem da canção Avôhai apresentado pelo Zé Ramalho (homenageando o seu avô materno que o criou como filho após a morte do seu pai). Mas o fato é que para todos os seus netos ele foi mais do que um avô. Sempre que nos encontrávamos ele fazia questão de perguntar por todos os meus irmãos e saber como estavam. Nem sempre ouvia o que gostaria. Pois humanos demasiado humanos que somos, falhamos. No fundo ele entendia e respeitava.
Nos últimos anos de vida de minha mãe ela sempre ia cuidar dele e de minha avó. E quando de lá chegava me passava um conselho dele - para que eu não pensasse muito pois se não iria enlouquecer. Confesso que não ligava para o conselho. Sobretudo pela minha formação acadêmica e profissão que escolhi. Mas hoje entendo o que ele queria dizer - ele queria dizer para eu não deixar de viver - de festar, namorar e transar. Coisas que ele deve ter feito muito na sua juventude. “Meu velho e indivisível (Avôhai)”.

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Poema: Malthus e Hilda

 

Na rua das camélias

o encontro aconteceu.

entre dois jovens aprisionados

a fé e aos dogmas seus.


Ele um religioso

considerado um santo.

Ela uma prostituta

considerada um demônio.


O amor entre eles nasceu

contra o status quo.

libertando da prisão moral

os amantes como nós.


Tudo que é feito por amor

está acima do bem e do mal.

sentenciou Nietzsche

comprovou nosso casal.


Foram felizes para sempre?

quem pode dizer.

Malthus e Hilda

eu e você.


“O pra sempre, sempre acaba”

lembra da nossa canção?

Mas algo sempre fica

tatuado no coração.


Quando penso em Malthus e Hilda

lembro de nós.

Hoje só restam as lembranças

ah, minha amiga, como doi.


Mas não me arrependo

tinha que ser assim.

Brindemos ao amor

Celebremos o fim.


Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Questão de Gosto ou desculpa para falar sobre alguns discos de rock brasileiro lançados em 2024 e 2025

Na contramão do discurso acerca da morte do rock in roll no Brasil temos anualmente o lançamento de diversos discos tanto de artistas consagrados como de novatos. Sem falar nos shows mobilizando pequenos, médios e grandes públicos como em festivais como o João Rock. Ou seja, há uma cena bastante ativa mostrando que o rock sobrevive ainda que não esteja no mainstream da indústria fonográfica.

Dos lançamentos de discos recentes que tenho acompanhado, há muita coisa de qualidade sendo produzida. Tanto por parte de nomes mais conhecidos como de artistas que estão iniciando sua trajetória. Para dar alguns exemplos destacaria o Falha Crítica (2024) da banda Surra, Enfrente (2024) da CPM22, Perpétuo (2024) da Black Pantera, Blasfêmea (2025) da Eskrota e o EP As crônicas de brega açu (2025) da Magoo e bando urtiga. Menciono também Não foi em vão (2025) do Supla, A vingança é meu motor (2025) do Matanza Ritual e  XXX (2025) do Raimundos. Estes dois últimos, segundo uma página do Instagram (Corona Rock) com mais de 290 mil seguidores, foram os melhores lançamentos do rock brasileiro em 2025. 

Em relação ao disco do Raimundos, um comentário de um leitor numa resenha do disco Estreito (2002) do Rodox que publiquei no blog Das barrancas do Rio Tocantins, já havia me chamado atenção para o álbum XXX. No entanto, pelo single Maria Bonita que eu já tinha ouvido, confesso não ter me empolgado tanto. Porém com o veredicto da Corona Rock decide ouvir o disco na íntegra. Seria mesmo o melhor disco lançado em 2025? Não foi a minha impressão comparando com outras coisas que eu havia ouvido. Mas a qualidade técnica dos músicos me chamaram atenção - o quarteto atualmente formado pelo Digão (Vocal e Guitarra) Marquim (Guitarra) Caio Cunha (Bateria) e Jean Moura (Contrabaixo) estão afiadíssimos. A pegada da banda me lembrou o seu auge nos anos 1990. Porém as letras da música e o vocal do Digão baixam o nível significativamente. Em Maria Bonita, a segunda música que abre o disco, temos essa pérola: Chega aí, Maria Bonita/Que eu sou o Rei do Cangaço/É coro de queimar caatinga/Arranca a tampa do cabaço. Em Dia bonito temos: Palavra chave, qual é?/Coragem, força e fé/Amizade sempre de pé/Nós dois juntos pro que der… Em Os calos temos: Já estourei meu dedão/De tanto dixavar/Andei na pedra moleque/Até no fundo do mar/Botei na frente agora… Se isso tivesse sido escrito por adolescente era compreensível. Mas não é o caso. Para mim ouvindo o álbum XXX, o problema do Raimundos não é a qualidade musical dos seus integrantes. O problema é que há uma tentativa de repetir uma fórmula que só deu certo com Rodolfo. Quando a banda não buscou fazer uma cópia de si mesmo  como no álbum Cantigas de Garagem (2014), se saiu muito melhor. Para mim esse é o melhor registro que eles conseguiram fazer após a saída do Rodolfo e do Fred.

O mesmo vale também para o Matanza Ritual. A diferença é que o vocal do Jimmy ainda consegue tornar mais audível algumas letras que não chegam nem próximo as composições do Marco Donida, seja no Matanza ou no Matanza Inc. Em A vingança é o meu motor temos uma tentativa de repetir as músicas do Matanza - os arranjos inclusive, que parecem com canções clássicas. A novidade é uma pitada maior de thrash metal no lugar "countrycore". O que é certamente influência dos músicos que o acompanham - oriundos de bandas de Metal.

É totalmente legítimo que alguém ache que no universo de discos que tenha ouvido, esses tenham sido os melhores. O problema é a generalização. Dizer que determinado álbum é o melhor pressupõem que quem o diz  tenha ouvido todos os lançamentos de artistas do gênero. Ou  pelo menos que tenha se fundamentado em uma pesquisa. Se não. Não é mais do que uma opinião - uma opinião fundamentada unicamente no gosto. Não há nenhum problema quanto a isso. Eu mesmo quando citei algumas bandas acima o fiz a partir do meu gosto. O problema é quando eu busco impor o meu gosto dizendo o que é bom ou não. Me parece que esse foi o caso do Corona Rock, tanto que ao ver comentários discordantes no Instagram, deixou claro que era uma questão de gosto. Mas fez isso nos comentários como uma reação às críticas.

Vivemos numa sociedade que tem uma tara por ranquear as coisas, classificá-las. Quase sempre isso se dá de forma arbitrária. Ou seja, sem nenhum critério a não ser o gosto ou interesses mercadológicos. Quem se propõe a fazer crítica musical ou de outras expressões artísticas não pode se reduzir a isso. É preciso ter uma formação estética mínima para entender que eu posso gostar da Legião Urbana, fazendo desta a melhor banda que existe para mim. Mas se tenho o mínimo de conhecimento de música não posso negar que o Ira! tem mais qualidade. O mesmo vale para os The Rolling Stones e os The Beatles. Posso gostar mais do primeiro. Mas a qualidade do segundo do ponto de vista estético é inegavelmente superior. Isso nos leva à seguinte conclusão: posso gostar do álbum XXX, do Raimundos e do Vingança é o meu motor, do Matanza Ritual. Ao ponto de achar que eles foram os melhores lançamentos do rock brasileiro em 2025. Isso não significa que de fato foram.

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano  que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Sequência Didática sobre Lélia Gonzalez e o feminismo negro a partir da coleção Minha África brasileira e povos indígenas para o ensino médio

Durante a formação para coordenadores pedagógicos (CP´s) e coordenadores pedagógicos de área (CPA´s) realizado pela Secretaria da Educação do Tocantins (SEDUC) nos dias 20 e 21 de janeiro de 2026, tivemos uma dinâmica para elaboração de uma sequência didática a partir da coleção Minha África brasileira e povos indígenas. Antes, os formadores fizeram uma exposição acerca da fundamentação legal (Leis: 10.639/2003 e 11.645/2008) que tornou obrigatório o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena na educação básica. E apresentaram a coleção, organizada pela Editora Griô, que está disponível em todas as bibliotecas escolares da rede pública estadual. 

A metodologia da formação foi interessante, sobretudo ao propor ao grupo de participantes a elaboração de sequências didáticas. Quem trabalha na educação há de lembrar que não tem muito tempo houve um movimento contrário por parte da SEDUC - um grupo de técnicos elaboraram algumas sequências didáticas e tínhamos que aplicá-las em nossas aulas. É possível imaginar o quanto isso incomodou sobretudo nós de humanas. Por outro lado, o tempo disponibilizado para realização da atividade impossibilitou um trabalho mais rico. De todo modo (nosso grupo composto por quatro professores de diferentes regionais como Palmas, Miracema, Araguaína e Araguatins) fizemos uma sequência didática em torno do tema (Lélia Gonzalez e o Feminismo Negro) e da problemática (O Brasil é uma democracia racial?) que os formadores nos repassaram, buscando responder ao desafio proposto que foi de: desenvolver uma atividade que envolva a comunidade escolar. 

Outra orientação dos formadores foi de que a mesma deveria ser para estudantes do 8° ano do Ensino Fundamental (e nos entregou dois materiais da coleção minha África brasileira e povos indígenas como apoio). No entanto, na nossa análise o tema pressupõe uma certa maturidade, de modo que, cremos que seria melhor aproveitado no ensino médio. E o nosso produto final (a sequência didática) nos deu mais convicção ainda.

A sequência didática

O nosso ponto de partida foi uma concepção dialética, ou seja, que o conhecimento se dá de forma processual a partir de um movimento composto por contradições internas. A partir disso, concebemos uma sequência didática dividida em seis movimentos que tem como objetivo provocar confrontos que leve a uma síntese.

Primeiro Movimento (De 01 a 02 aulas de 50min.): Leitura do livro paradidático que compõe a coleção - Wangari (Heloisa Pires de Lima) - a turma deve ser orientada a anotar o que mais lhe chama atenção relacionando com a nossa realidade. O nosso objetivo nesse primeiro movimento é, o estudante ou a estudante perceber a contradição entre a visão da mulher negra na cultura africana e na nossa sociedade. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS502): Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas e seus significados em diferentes sociedades, reconhecendo as diversidades.


Segundo Movimento (2 aulas de 50min.): Exibição do filme brasileiro (Quanto vale ou é por quilo?), de 2005 dirigido por Sérgio Bianchi - que faz um paralelo entre a escravidão e a politica de inclusão na contemporaneidade. O estudante e a estudante devem ser orientados a anotar os aspectos que mais lhe chame atenção. O nosso objetivo é o aprofundamento da contradição entre a cultura africana e a condição do negro na sociedade brasileira. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS503): Identificar e discutir as diversas formas de injustiça, preconceito e violência (incluindo racismo, misoginia, homofobia), adotando postura ética e respeitosa.

Terceiro Movimento (1 aula de 50min.): Roda de conversa onde os estudantes serão estimulados a compartilhar suas anotações. O professor ou professora deve fazer questões do tipo: Qual das obras mostram uma visão próxima da nossa realidade? Qual a relação entre a escravidão e a desigualdade social no Brasil? Brancos e Pretos têm as mesmas oportunidades? Como a mulher negra é representada no livro e no filme? O nosso objetivo aqui é explicitar mais ainda a contradição entre o discurso e a prática acerca do Brasil ser uma democracia racial, sobretudo quando olhamos para a condição feminina). Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Argumentação. Competência Específica: 6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições. Além disso, fazendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Habilidade (EM13CHS603) Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder,  formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.).


Quarto Movimento (2 aulas de 50min.): Leitura, discussão e exposição a partir do livro Minha África Brasileira e povos indígenas, mais especificamente a discussão sobre as teorias raciais do século XIX e a política de branqueamento no Brasil. Nosso objetivo aqui é que o estudante ou a estudante compreenda como o racismo está na estrutura da nossa sociedade com a contribuição tanto da política como da ciência. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS504): Analisar e avaliar os mecanismos de exclusão social e identificar estratégias que promovam a inclusão e a garantia de direitos humanos.

Quinto Movimento (2 aulas de 50min.): Exposição e discussão sobre a contribuição da Lélia Gonzalez na construção do feminismo negro e a importância da lei 10.639/2003. Orientar os estudantes a refletirem e responderem por meio de um texto dissertativo-argumentativo a seguinte pergunta: O Brasil é uma democracia racial? Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural; Argumentação. Competência Específica: 6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições. Além disso, fazendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Habilidade (EM13CHS605): Analisar os princípios da declaração dos Direitos Humanos, recorrendo às noções de justiça, igualdade e fraternidade, identificar os progressos e entraves à concretização desses direitos nas diversas sociedades contemporâneas e promover ações concretas diante da desigualdade e das violações desses direitos em diferentes espaços de vivência, respeitando a identidade de cada grupo e de cada indivíduo.

Sexto Movimento (2 aulas de 50 min.): Chegamos ao último movimento que consistirá num sarau para toda comunidade escolar - intitulado de: Vozes de Mulheres Negras ou Vozes do Ébano. A orientação aqui é aproveitar o talento e criatividade das estudantes e dos estudantes que cantam, dançam, pintam, interpretam e etc. E organizar um momento com o objetivo de celebrar a cultura africana e afro-brasileira. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural; Argumentação; Responsabilidade e Cidadania. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS504): Analisar e avaliar os mecanismos de exclusão social e identificar estratégias que promovam a inclusão e a garantia de direitos humanos.

Enfim, em essência foi isso que pensamos e apresentamos durante a dinâmica desenvolvida na formação continuada para os CP´s e CPA´s (a diferença é que lá era apenas um rascunho, aqui está mais elaborado). Esperamos que essa sequência didática possa inspirar a elaboração de outras sequências didáticas pelos professores que estão no chão da escola - profissionais qualificados e capazes de fazer, e estão fazendo, coisas incríveis. E só não estão fazendo coisas ainda mais incríveis porque o excesso de burocracia mata qualquer disposição para o exercício do pensamento científico, crítico e criativo.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A Ilha dos Espíritos - Completo

 


Três jovens (Bia, Lidiane e Raquel) saem de Goiânia para passarem férias no Tocantins. Se junta a elas um jovem Lajeadense que também mora e estuda em Goiânia (João) e um jovem hippie (Joe) vindo do sul do país.  Em meio a uma natureza belíssima, os jovens se encantam pelo lugar – se apaixonam, se amam e vivem aventuras inesquecíveis. Até que descobrem que estão em um lugar cheio de segredos – os quais devem descobrir antes que mais pessoas percam suas vidas nas águas misteriosas da ilha verde ou “a ilha dos espíritos”.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Resenha: Feliz Natal, um filme dirigido por Selton Mello

- O que é o Natal? Questiona Mérci. Para em seguida fazer um discurso eloquente sobre a importância simbólica da data. Enquanto isso seus familiares a ignoram peremptoriamente. Um a um vai deixando a mesa do almoço e segue para fazer a refeição em outro local. Mostrando o seu desprezo pela figura que se tornou á matriarca da família. 

A cena descrita acima é do filme Feliz Natal (2008) que marca a estreia na Direção do Selton Mello – uma obra que nos propõem uma reflexão sobre esse período de festas – caracterizado como um momento de reunir a família. Pela cena destacada é possível imaginar que essa família – que não é muito diferente de muitas que conhecemos – não tem muitos motivos para celebrar. Trata-se de uma família dilacerada – onde a companhia um do outro tornou-se um fardo pesado. Ainda que apenas por 24h. 

A música, o movimento, a fotografia tudo nos leva para um ambiente de melancolia. Os personagens com seus dramas nos mostra que nem a tal magia do Natal é capaz de curar tudo. Pelo contrário, a realidade se impõe como um punk rock – como um soco no estômago. 

Outra cena que mostra bem o espírito do filme é quando o personagem Caio caminha pela rua e de repente se depara com um rosto conhecido. Ele sai correndo atrás da moça e a encontra num carro que acabara de bater. Ele pergunta a moça se ela está bem. E ela responde que está ótima. E diz que quem não está bem é o cara do outro carro. Quando então ele vai ver, encontra consigo mesmo há alguns anos.

Essa revelação é, digamos, o momento de virada no filme. Desde o início da narrativa percebemos que houve um acontecimento com o Caio que o leva a se afastar da família. Mas é nessa cena que aquilo que todos tentam evitar se revela. Caio surge portanto como o personagem principal do drama – carregando consigo a culpa por ter provocado um acidente automobilístico que tirou a vida de uma jovem. E o levou para um exílio voluntário numa cidade interiorana onde tenta levar a vida longe dos rostos e cenários que o faz lembrar da tragédia. 

O filme inicia com Caio deixando o seu exílio rumo a casa do seu irmão (Theo) para as celebrações do Natal. E o que encontra é uma família em decadência. A mãe (Mérci) alcoólatra e viciada em barbitúricos (interpretada magistralmente por Darlene Glória). O pai (Miguel) viciado em estimulante sexual para dá conta da novinha por quem trocou a esposa. O irmão (Theo) num casamento prestes a implodir e não suportando o peso de carregar a responsabilidade por toda a família nas costas. A esposa do irmão  (Fabi) frustrada com o casamento. Os sobrinhos crescendo á deriva. Em especial o pequeno Bruno.

Além da direção do Selton Mello - que já chega na sua estreia como Diretor de cinema mostrando personalidade. Há que se ressaltar a performance do elenco composto por nomes como Leonardo Medeiros no papel do Caio. Lúcio Mauro como Miguel, Paulo Guarnieri como Theo, Darlene Glória como Mérci, Graziella Moretto como Fabi. Entre outros.

De acordo com Selton Mello,  o filme Feliz Natal foi concebido a partir de coisas que ele ouviu e viu ao longo dos anos durante as festas natalinas. É por tanto um recorte de uma determinada realidade que, talvez por toda uma pressão social que obriga as pessoas a se comportarem de determinada forma – a mostrar uma felicidade que não existe – não se fala tanto. Até por que tristeza não vende muito. Há não ser antidepressivos.

Enfim, Feliz Natal lembra uma canção Belchiorana, mais especificamente a palo seco: “eu quero é que esse canto torto/feito faca, corte a carne de vocês/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês”. Por tanto se você quer relaxar no Natal assistindo um filme – esse não é recomendável. Essa é uma obra para pensar. Pensar por exemplo do quanto de dor e sofrimento há nessa expressão – Feliz Natal – que reproduzimos ano a ano por uma certa pressão social – que nos impele a se comportar de determinada forma. O filme do Selton Mello nos lembra que há dores que não podem ser escondidas, nem mesmo com a “magia natalina”. Se esse é o seu caso não se culpe, sofrendo ainda mais, por não corresponder a expectativa coletiva. 

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano  que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.