Mesmo morando ao lado de Palmas (na cidade de Lajeado), eu sabia pouco de Palmas. Não mudou muita coisa desde que cheguei aqui em fevereiro de 2024. Após assumir a vaga conquistada no concurso da rede estadual da educação do Tocantins. Lembro bem do dia que me apresentei na superintendência regional da educação de Palmas. Quando recebi o papel dizendo em qual escola iria trabalhar, a minha pergunta foi: onde fica? Como faço para chegar lá?
Aureny I é um bairro de trabalhadores. Foi o lugar onde se refugiou o proletariado que aqui chegou no início da capital. Famílias que não encontraram abrigo no plano diretor. Com a expansão da cidade não deixou de ser periferia. Ainda que tenha uma estrutura de invejar muitas cidades do interior tocantinense. Na rua Macapá, onde moro, fico a poucos metros da avenida Brasil e da avenida Tocantins onde encontro todos os tipos de serviços. Caso queira me deslocar, o transporte coletivo passa praticamente na porta da casa onde moro. Se não for no horário de pico, dá até para ir sentado num bus climatizado. E é muito mais econômico do que pegar um uber ou coisa do tipo.
Mas quase nunca tenho ânimo de ir ao centro onde tem uma vida cultural mais ao meu gosto como os estabelecimentos que promovem uma cultura alternativa como o rock n roll, cinema, teatro, exposições artísticas entre outros. Aproveito para abrir um parêntese para dizer que se eu que não trabalho numa escala 6x1 não tenho disposição, imagina quem trabalha.
E assim fico por aqui onde em cada esquina há uma disputa silenciosa entre os bares e as igrejas. Nessa disputa o meu lugar é a distribuidora do Coló que fica na esquina da avenida Brasil com a rua Macapá. Na verdade não sou muito de sair de casa. Compro minha cervejinha e volto para o meu canto, onde bebo fumando palheiro e ouvindo meu rock n roll.
Domingo pela manhã ir à feira comprar peixe é praticamente um ritual. Sou um sujeito previsível. Sempre faço as mesmas coisas e ando pelos mesmos lugares. Sou conhecido e ao mesmo tempo um desconhecido. Melhor assim. Não quero intimidade. Não sei o nome dos meus vizinhos: O que fazem, o que deixam de fazer. De onde vem. Para onde vão.
Não quero construir raízes, mas tenho construído boas memórias - de lugares e pessoas que atravessam o meu caminho. Como de uma figura elegante que transita pelas ruas do setor pegando roupas reutilizáveis descartadas nas lixeiras. Do sorriso da menina que vende peixe com sua família na feira. Do grito dos brincantes nos ensaios das quadrilhas juninas domingo à tarde. Da estudante mais diferenciada que encontrei na minha trajetória de professor até hoje. De outros tantos pela convivência quase diária - alguns esforçados, outros nem tanto. De figuras como a Aldenora - sempre disponível para o que preciso (e que talvez seja a pessoa com quem mais me sinto à vontade para “fazer graça"). Do Neiva e nossas conversas sobre livros. Seu Antônio, Dona Irene, Saraiva e Dalma. Histórias de sobrevivência e resistência como da mulher que fugira do interior pela ameaça de morte por parte do seu ex-companheiro. De outra que cria três filhos sozinha e faz faculdade com a esperança de dias melhores.
Desde que cheguei aqui mudei bastante, inclusive fisicamente (todos dizem que estou mais gordo). Tenho aprendido muito. Não sou mais o mesmo mas não deixei de ser o que sou. Isso lembra Heráclito (nunca banhamos duas vezes no mesmo rio), ou seja, estamos em constante transformação. Se isso não acontece contigo questione-se se estás vivo. E do Ailton Krenak quando nos chama atenção para não esquecermos das nossas raízes. Por tanto mudar é preciso, mas não podemos nos esquecer de onde viemos e quem somos.
Palmas me acolheu há três anos, mais especificamente o Aureni I, assim como acolhe diariamente pessoas de todos os cantos do Brasil. Abrimos um parêntese para dizer que algumas pessoas são melhores acolhidas que outras. E assim a cidade vai crescendo como na letra da canção revoada, da potente Magoo e o Bando Urtiga no seu clássico as crônicas de sucupira gothan city: e eu sigo pelas ruas largas e o sol escaldante/entre o céu e a ilusão e o castigo entre a voz e a razão/e o silêncio… enquanto isso nas avenidas centrais ônibus lotados de operário/navios negreiros modernos desmistificados/o capital deu certo na próxima esquina/menino jogado em uma latrina e a fome segue voraz/e no céu uma revoada de pardais.
Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.






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