Comecemos por uma banda veterana do norte do Brasil, isso mesmo - quem disse que não tem punk rock no norte do Brasil? Estou falando da Delinquentes - de Belém do Pará - formada atualmente por Jayme Katarro (vocais), Paulo Bigfoot (guitarra), Pablo Cavalcante (baixo) e Victor Peixe (bateria). Com um som veloz e letras com uma forte crítica social o grupo construiu ao longo das décadas uma discografia de respeito com quatro álbuns de estudo: Pequenos Delitos (2000), Indiocídio (2010), Infectus Humanus (2019) e A Serpente (2024). Além de dois materiais de apresentações ao vivo: Planeta dos Macacos - Ao Vivo na Praça da República (2022), Delinquentes ao Vivo no Hangar 110 (2023). Conheci a banda ouvindo pequenos delitos (2000). Já nos primeiros acordes percebi que não era um trabalho qualquer como muitos que nos deparamos. Qual não foi minha surpresa, ao pesquisar mais sobre a banda, descobrir que eram do norte do Brasil. Compreendo que isso é reflexo de um trabalho realizado pela mídia direcionando o nosso olhar para uma determinada região do país (eixo Rio-São Paulo) e assim mesmo vivendo na região ignoramos artistas como esses. A própria cena faz isso. Quando temos um festival os nomes de destaques geralmente são de bandas que estão no centro econômico-cultural do Brasil.
Pessoas iludidas esperando um amanhã sombrio
A diferença é forte, crianças e velhos sem ter onde morar
Outros tem três quartos, um pra dormir e dois pra brincar
O trecho acima é da canção gueto que compõem o álbum Pequenos Delitos (2000), na qual percebemos uma crítica à desigualdade social. 26 anos se passaram e o que a letra trás continua extremamente atual. Atual também é a crítica que eles fazem em indiocídio, do álbum homônimo:
Pureza assassinada por ambições pecaminosas
Ruinas da selva ensanguentada
Ruinas da selva petrificada
Fugas em desespero ao paraiso do pecado
O inferno urbano reciclando o bizarro
A reflexão aqui trata-se do etnocídio que as religiões continuam cometendo contra os povos indígenas. Com o discurso perverso de levar a salvação para essas comunidades o que observamos é o extermínio da cultura nos territórios que grupos religiosos conseguem adentrar. Chamo atenção também para atualidade de Monstros Nazistas:
Sentimentos de uma raça se opondo a outra igual
Filhotes crescidos de um fascismo assumido
O mais auto grau do puro idiotismo
Na Cérebro de Galinha temos um som mais sujo com um vocal gutural potentíssimo. Os caras espancam os instrumentos com um ódio pulsante. As letras metem o dedo na ferida abordando expressões da questão social como também conflitos internos que todo ser humano enfrenta. Ainda mais um jovem que nasceu na periferia e não tem muita perspectiva. O destaque fica por conta do baterista (Suco) e do vocalista (Cego) que são a banda em si. Conheci o som dos caras por meio de um vídeo do ensaio que disponibilizaram na internet. E a partir daí fui buscar mais material e descobri que já lançaram os seguintes materiais de estúdio: Sociedades Secretas (2018) e Norte em Chamas (2021). E os ao vivos: Cérebro de Galinha (Ao Vivo no T'rextúdio) (2022), Mundo em Caos (2015) e Vozes da Quebrada (2025). Há também um documentário que retrata a viagem que fizeram para alguns shows em São Paulo - A viagem da Galinha Morta. E uma demo de 2017.
O primeiro álbum que eles gravaram está disponível em plataformas de ouvir música na internet e a qualidade é muito boa. Destaco a canção que abre o trabalho, Ameba, onde eles chamam atenção para consequência de quem se torna um viciado:
Sobrevivendo num limbo
Não restou mais nenhum amigo
A não ser a porra de um cachimbo
Também no mesmo álbum temos a pesadíssima Hipócrita onde destilam ódio contra os falsos moralistas.
Playboy do caralho, só quer aparecer
Filho da puta, tem que morrer
E com o seu ego desaparecer
Mas um dia vai se convencer
Que ficar por cima só te faz perder
E finalmente vai perceber
Que cagar pros outros é cagar pra você
Se no primeiro trabalho a crítica deles é mais voltada para o Eu - essa entidade criada pela filosofia moderna que nos fez achar que somos o centro do universo e que no neoliberalismo é levado à exaustão. Em Norte em chamas (2021) eles focam mais em expressões da questão social como por exemplo em racismo onde chamam atenção para persistência dessa problemática e gritam pelo fim da segregação racial. Também desse mesmo trabalho temos reintegração de posse onde denunciam que a lei está a serviço de quem tem poder - mesmo com a constituição federal determinando a desapropriação de propriedade que não cumpre a sua função social.
não conte com a sorte
não há deus por aqui…
Tratando como lixo quem deve ser tratado como senhor
E o governo autoritário cada vez mais opressor
Essa canção nos faz lembrar do movimento escola sem partido que sob o manto da neutralidade liderou um conjunto de ações que buscavam criminalizar o fazer pedagógico do professor/professora, especialmente os da área de humanas. Tanto que nesse contexto tentaram retirar a Filosofia e Sociologia do currículo da educação básica. Infelizmente esse movimento não foi derrotado e está presente nos programas de governo de nomes como Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e Renan Santos.
Enfim. Nossa ideia inicial era apresentar aqui outras bandas, mas Delinquentes e Cérebro de Galinha renderam bastante. Então paro por aqui. Mas com a intenção de fazer uma segunda parte e talvez outras mais. Quem sabe! O tempo irá dizer.
Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.
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