Predomina uma sociedade sem oposição, contida em seus processos de transformação social sob o jugo da própria razão dominante que reprime o todo e utiliza a liberdade como um poderoso instrumento de dominação. Os indivíduos alienados estão dispostos a abrir mão de suas liberdades em troca das falsas necessidades que acentuam o problema.
Ora, “os controles tecnológicos parece serem a própria personificação da Razão para o bem de todos os grupos e interesses sociais – a tal ponto que toda contradição parece irracional e toda ação contrária parece impossível” (MARCUSE, 1973, p. 30). Diante dessa poderosa constatação é possível vislumbrar uma educação para além do capital que supere a autoalienação do trabalho? Considerando um cenário em que o próprio conceito de alienação pode ser questionado quando os indivíduos se identificam com a existência que lhes é imposta e com o nível de satisfação ilusória prometida pelo sistema, uma educação para além do capital parece bem distante da realidade.
O domínio do capital parece tão evidente, sobretudo nesse estágio de avanço tecnológico – avanço que ainda não alcançou seu ápice. Quando analisamos as reformas que aconteceram no âmbito educacional nas últimas décadas, parece que estamos caminhando na contramão de uma perspectiva histórica de mudança radical na educação.
Dantas (2016) critica a perspectiva de uma educação para além do capital defendida por Mészáros ao salientar que ele é pouco concreto e quando se aproxima da educação para além do capital se torna abstrato, evasivo, isto é, salta para esfera abstrato-filosófica. A crítica é taxativa em dizer que o texto do filósofo húngaro tanto do ponto de vista político quanto programático é impotente para lutar pela construção de uma educação para além do capital.
Dantas não está em desacordo com a perspectiva de uma educação para além do capital, mas em como essa perspectiva se concretizaria, pois Mészáros apresenta o problema de forma muito abstrata. Tal crítica em certa medida parte da falta de compreensão de que a obra de Mészáros, em última instância, é uma obra filosófica e não um programa de ação política. Ainda que aponte para a necessidade da ação política para transformar o que está posto.
Para Jinkings (2008) Mészáros se propõem a refletir acerca dos seguintes problemas: qual o papel da educação na construção de um outro mundo possível? Como construir uma educação cuja principal referência seja o ser humano? Como se constitui uma educação que realize as transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias? E para responder essas questões ele busca se fundamentar numa tradição do pensamento filosófico. Logo, é natural que sejam pensados conceitos filosóficos que fundamentam essa concepção de educação para além do capital. Ele, portanto não se reduz a pensar a educação do ponto de vista de uma perspectiva de luta política ou pedagógica.
Senkevics (2012) também critica a ideia de uma educação para além do capital proposta por Mészáros ao apontar que “é difícil imaginar, por exemplo, uma educação pública universalizada que seja ‘subversiva’, por uma razão óbvia: sendo financiada, mantida e organizada pelo Estado, a educação pública jamais implantaria um programa que não estivesse de acordo com as diretrizes estatais” (SENKEVICS, 2012, s/p). Mas é justamente por isso que Mészáros apresenta uma concepção abrangente de educação, por não acreditar numa educação formal dentro dos limites do capital, tal como Marcuse. Em nenhum momento, ao abordar uma concepção de educação para além do capital, Mészáros faz qualquer tipo de afirmação nesse sentido que sugere Senkevics.
A crítica de Senkevics (2012) vai na linha da crítica apresentada por Dantas (2016), - são decorrentes da falta de compreensão do problema que Mészáros está se propondo a refletir. Pinassi (2015, p. 97), uma das principais especialistas na obra de Mészáros no Brasil, diz que não se deve esperar da obra do filósofo húngaro “respostas prontas nem receitas de orientação revolucionária, mas uma convocação urgente para responsabilidade que os homens têm de assumir, na condição efetiva de sujeitos sociais, o comando da sua própria história”.
Apesar de parecer uma obra simples, comparada por Sader (2002) ao Manifesto do Partido Comunista, escrito por Marx e Engels, de fato A Educação para além do capital tem essa verve literária. O autor trabalha com vários conceitos filosóficos que exige do leitor uma leitura mais aprofundada da sua obra. Pois são conceitos melhor desenvolvidos em outros dos seus escritos, entre eles destacamos a questão da práxis. Para Maar (2015), sem entender o que o filósofo húngaro entende por práxis dificilmente compreenderemos suas reflexões. Nessa linha o autor diz o seguinte,
a compreensão adequada da práxis e suas mediações é decisiva. Exige-se em sua apreensão uma compreensão do nexo dialético entre sujeito e objeto que caracteriza a produção da vida dos homens pelos homens. Não se trata de um sujeito dado a efetivar uma prática já idealizada, mas de uma relação de formação reciproca entre objeto e sujeito da atividade constituinte e formadora. (MAAR, 2015, s/n)
Nesse contexto a educação desempenha um papel fundamental – educação numa perspectiva libertadora – como instrumento para emancipação social. Nas palavras de Maar (2015) “como ‘transcendência positiva da autoalienação’, expressaria concretamente essa mudança, como trabalho formativo tendo em vista a totalidade social, para além do estrito e estreito âmbito da ordem vigente do plano da configuração da práxis”. Compreender a perspectiva para construção de uma educação para além do capital perpassa pelo entendimento do pensamento do autor, que não é um pensamento reducionista ou um receituário do que deve ser feito. Nesse sentido, de acordo com Maar (2015, s/p)
a dialética entre necessidade e contingência constitui o problema central e as contribuições teóricas a serem levadas em conta na sua elucidação são particularmente duas: distinção entre mediações de primeira ordem e de segunda ordem, e distinção entre metabolismo social e produção [....] De um lado, trata-se de conceituação que quanto ao seu conteúdo teoricamente exposto, somente se realizam em concretudes particulares. De outro, são realidades empíricas somente distinguíveis e relevantes na prática quando postas em seu contexto mediante a sua apreensão teórica.
É nesse contexto que se vislumbra a construção de uma educação para além do capital. Aliás, não só vislumbrar, como afirmar a sua necessidade como resistência ao avanço do domínio da racionalidade tecnológica na busca pela construção de uma sociedade unidimensional. Mészáros não é ingênuo ao defender uma educação para além do capital nessa sociedade cada vez mais dominada pelo capital. Ele tem consciência que as perspectivas não são favoráveis – que não ocorrerá do dia para noite. Por isso que ele ressalta se tratar de um trabalho cotidiano que leve “a transformação social emancipadora radical requerida”. Uma transformação que “é inconcebível sem uma concreta e ativa contribuição da educação no seu sentido amplo”. Uma educação que “não pode funcionar suspensa no ar. Ela pode e deve ser articulada adequadamente e redefinida constantemente no seu inter-relacionamento dialético com as condições cambiantes e as necessidades da transformação social emancipadora e progressiva em curso”. (MÉSZÁROS, 2008, pp. 76-77). Seguindo essa linha Jinkings (2008, p. 13) ressalta,
em Mészáros, educar não é a mera transferência de conhecimentos, mas sim conscientização e testemunho de vida. É construir, libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a história é um campo aberto de possibilidades. Esse é o sentido de se falar de uma educação para além do capital: educar para além do capital implica pensar uma sociedade para além do capital.
A partir dessa afirmação podemos compreender o quanto é difícil vislumbrar a construção de uma educação para além do capital. Por que pensá-la necessariamente nos impõe como pode ser a sua construção. O problema é como romper a unidimensionalidade que parece capaz de conter a transformação social?
Isso é justamente o que pretende a perspectiva capitalista – impor uma ordem hegemônica onde não é possível vislumbrar qualquer tipo de alternativa a essa ordem. Para Mészáros (2008) isso se dá, sobretudo quando excluímos a possibilidade de mudança estrutural a priori. Qualquer perspectiva de mudança só é aceita desde que se limite aos padrões do capital. Desse modo, é inaceitável dentro da lógica do capital falar em uma educação para além do capital. Portanto, abandonar a perspectiva de construção de uma educação para além do capital e, por conseguinte, uma sociedade para além do capital é aceitar o triunfo da sociedade unidimensional. Da mesma forma, abandonar a perspectiva de uma educação para além do capital é aceitar a desumanização do ser humano.

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