sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Questão de Gosto ou desculpa para falar sobre alguns discos de rock brasileiro lançados em 2024 e 2025

Na contramão do discurso acerca da morte do rock in roll no Brasil temos anualmente o lançamento de diversos discos tanto de artistas consagrados como de novatos. Sem falar nos shows mobilizando pequenos, médios e grandes públicos como em festivais como o João Rock. Ou seja, há uma cena bastante ativa mostrando que o rock sobrevive ainda que não esteja no mainstream da indústria fonográfica.

Dos lançamentos de discos recentes que tenho acompanhado, há muita coisa de qualidade sendo produzida. Tanto por parte de nomes mais conhecidos como de artistas que estão iniciando sua trajetória. Para dar alguns exemplos destacaria o Falha Crítica (2024) da banda Surra, Enfrente (2024) da CPM22, Perpétuo (2024) da Black Pantera, Blasfêmea (2025) da Eskrota e o EP As crônicas de brega açu (2025) da Magoo e bando urtiga. Menciono também Não foi em vão (2025) do Supla, A vingança é meu motor (2025) do Matanza Ritual e  XXX (2025) do Raimundos. Estes dois últimos, segundo uma página do Instagram (Corona Rock) com mais de 290 mil seguidores, foram os melhores lançamentos do rock brasileiro em 2025. 

Em relação ao disco do Raimundos, um comentário de um leitor numa resenha do disco Estreito (2002) do Rodox que publiquei no blog Das barrancas do Rio Tocantins, já havia me chamado atenção para o álbum XXX. No entanto, pelo single Maria Bonita que eu já tinha ouvido, confesso não ter me empolgado tanto. Porém com o veredicto da Corona Rock decide ouvir o disco na íntegra. Seria mesmo o melhor disco lançado em 2025? Não foi a minha impressão comparando com outras coisas que eu havia ouvido. Mas a qualidade técnica dos músicos me chamaram atenção - o quarteto atualmente formado pelo Digão (Vocal e Guitarra) Marquim (Guitarra) Caio Cunha (Bateria) e Jean Moura (Contrabaixo) estão afiadíssimos. A pegada da banda me lembrou o seu auge nos anos 1990. Porém as letras da música e o vocal do Digão baixam o nível significativamente. Em Maria Bonita, a segunda música que abre o disco, temos essa pérola: Chega aí, Maria Bonita/Que eu sou o Rei do Cangaço/É coro de queimar caatinga/Arranca a tampa do cabaço. Em Dia bonito temos: Palavra chave, qual é?/Coragem, força e fé/Amizade sempre de pé/Nós dois juntos pro que der… Em Os calos temos: Já estourei meu dedão/De tanto dixavar/Andei na pedra moleque/Até no fundo do mar/Botei na frente agora… Se isso tivesse sido escrito por adolescente era compreensível. Mas não é o caso. Para mim ouvindo o álbum XXX, o problema do Raimundos não é a qualidade musical dos seus integrantes. O problema é que há uma tentativa de repetir uma fórmula que só deu certo com Rodolfo. Quando a banda não buscou fazer uma cópia de si mesmo  como no álbum Cantigas de Garagem (2014), se saiu muito melhor. Para mim esse é o melhor registro que eles conseguiram fazer após a saída do Rodolfo e do Fred.

O mesmo vale também para o Matanza Ritual. A diferença é que o vocal do Jimmy ainda consegue tornar mais audível algumas letras que não chegam nem próximo as composições do Marco Donida, seja no Matanza ou no Matanza Inc. Em A vingança é o meu motor temos uma tentativa de repetir as músicas do Matanza - os arranjos inclusive, que parecem com canções clássicas. A novidade é uma pitada maior de thrash metal no lugar "countrycore". O que é certamente influência dos músicos que o acompanham - oriundos de bandas de Metal.

É totalmente legítimo que alguém ache que no universo de discos que tenha ouvido, esses tenham sido os melhores. O problema é a generalização. Dizer que determinado álbum é o melhor pressupõem que quem o diz  tenha ouvido todos os lançamentos de artistas do gênero. Ou  pelo menos que tenha se fundamentado em uma pesquisa. Se não. Não é mais do que uma opinião - uma opinião fundamentada unicamente no gosto. Não há nenhum problema quanto a isso. Eu mesmo quando citei algumas bandas acima o fiz a partir do meu gosto. O problema é quando eu busco impor o meu gosto dizendo o que é bom ou não. Me parece que esse foi o caso do Corona Rock, tanto que ao ver comentários discordantes no Instagram, deixou claro que era uma questão de gosto. Mas fez isso nos comentários como uma reação às críticas.

Vivemos numa sociedade que tem uma tara por ranquear as coisas, classificá-las. Quase sempre isso se dá de forma arbitrária. Ou seja, sem nenhum critério a não ser o gosto ou interesses mercadológicos. Quem se propõe a fazer crítica musical ou de outras expressões artísticas não pode se reduzir a isso. É preciso ter uma formação estética mínima para entender que eu posso gostar da Legião Urbana, fazendo desta a melhor banda que existe para mim. Mas se tenho o mínimo de conhecimento de música não posso negar que o Ira! tem mais qualidade. O mesmo vale para os The Rolling Stones e os The Beatles. Posso gostar mais do primeiro. Mas a qualidade do segundo do ponto de vista estético é inegavelmente superior. Isso nos leva à seguinte conclusão: posso gostar do álbum XXX, do Raimundos e do Vingança é o meu motor, do Matanza Ritual. Ao ponto de achar que eles foram os melhores lançamentos do rock brasileiro em 2025. Isso não significa que de fato foram.

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano  que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Sequência Didática sobre Lélia Gonzalez e o feminismo negro a partir da coleção Minha África brasileira e povos indígenas para o ensino médio

Durante a formação para coordenadores pedagógicos (CP´s) e coordenadores pedagógicos de área (CPA´s) realizado pela Secretaria da Educação do Tocantins (SEDUC) nos dias 20 e 21 de janeiro de 2026, tivemos uma dinâmica para elaboração de uma sequência didática a partir da coleção Minha África brasileira e povos indígenas. Antes, os formadores fizeram uma exposição acerca da fundamentação legal (Leis: 10.639/2003 e 11.645/2008) que tornou obrigatório o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena na educação básica. E apresentaram a coleção, organizada pela Editora Griô, que está disponível em todas as bibliotecas escolares da rede pública estadual. 

A metodologia da formação foi interessante, sobretudo ao propor ao grupo de participantes a elaboração de sequências didáticas. Quem trabalha na educação há de lembrar que não tem muito tempo houve um movimento contrário por parte da SEDUC - um grupo de técnicos elaboraram algumas sequências didáticas e tínhamos que aplicá-las em nossas aulas. É possível imaginar o quanto isso incomodou sobretudo nós de humanas. Por outro lado, o tempo disponibilizado para realização da atividade impossibilitou um trabalho mais rico. De todo modo (nosso grupo composto por quatro professores de diferentes regionais como Palmas, Miracema, Araguaína e Araguatins) fizemos uma sequência didática em torno do tema (Lélia Gonzalez e o Feminismo Negro) e da problemática (O Brasil é uma democracia racial?) que os formadores nos repassaram, buscando responder ao desafio proposto que foi de: desenvolver uma atividade que envolva a comunidade escolar. 

Outra orientação dos formadores foi de que a mesma deveria ser para estudantes do 8° ano do Ensino Fundamental (e nos entregou dois materiais da coleção minha África brasileira e povos indígenas como apoio). No entanto, na nossa análise o tema pressupõe uma certa maturidade, de modo que, cremos que seria melhor aproveitado no ensino médio. E o nosso produto final (a sequência didática) nos deu mais convicção ainda.

A sequência didática

O nosso ponto de partida foi uma concepção dialética, ou seja, que o conhecimento se dá de forma processual a partir de um movimento composto por contradições internas. A partir disso, concebemos uma sequência didática dividida em seis movimentos que tem como objetivo provocar confrontos que leve a uma síntese.

Primeiro Movimento (De 01 a 02 aulas de 50min.): Leitura do livro paradidático que compõe a coleção - Wangari (Heloisa Pires de Lima) - a turma deve ser orientada a anotar o que mais lhe chama atenção relacionando com a nossa realidade. O nosso objetivo nesse primeiro movimento é, o estudante ou a estudante perceber a contradição entre a visão da mulher negra na cultura africana e na nossa sociedade. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS502): Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas e seus significados em diferentes sociedades, reconhecendo as diversidades.


Segundo Movimento (2 aulas de 50min.): Exibição do filme brasileiro (Quanto vale ou é por quilo?), de 2005 dirigido por Sérgio Bianchi - que faz um paralelo entre a escravidão e a politica de inclusão na contemporaneidade. O estudante e a estudante devem ser orientados a anotar os aspectos que mais lhe chame atenção. O nosso objetivo é o aprofundamento da contradição entre a cultura africana e a condição do negro na sociedade brasileira. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS503): Identificar e discutir as diversas formas de injustiça, preconceito e violência (incluindo racismo, misoginia, homofobia), adotando postura ética e respeitosa.

Terceiro Movimento (1 aula de 50min.): Roda de conversa onde os estudantes serão estimulados a compartilhar suas anotações. O professor ou professora deve fazer questões do tipo: Qual das obras mostram uma visão próxima da nossa realidade? Qual a relação entre a escravidão e a desigualdade social no Brasil? Brancos e Pretos têm as mesmas oportunidades? Como a mulher negra é representada no livro e no filme? O nosso objetivo aqui é explicitar mais ainda a contradição entre o discurso e a prática acerca do Brasil ser uma democracia racial, sobretudo quando olhamos para a condição feminina). Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Argumentação. Competência Específica: 6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições. Além disso, fazendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Habilidade (EM13CHS603) Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder,  formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.).


Quarto Movimento (2 aulas de 50min.): Leitura, discussão e exposição a partir do livro Minha África Brasileira e povos indígenas, mais especificamente a discussão sobre as teorias raciais do século XIX e a política de branqueamento no Brasil. Nosso objetivo aqui é que o estudante ou a estudante compreenda como o racismo está na estrutura da nossa sociedade com a contribuição tanto da política como da ciência. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS504): Analisar e avaliar os mecanismos de exclusão social e identificar estratégias que promovam a inclusão e a garantia de direitos humanos.

Quinto Movimento (2 aulas de 50min.): Exposição e discussão sobre a contribuição da Lélia Gonzalez na construção do feminismo negro e a importância da lei 10.639/2003. Orientar os estudantes a refletirem e responderem por meio de um texto dissertativo-argumentativo a seguinte pergunta: O Brasil é uma democracia racial? Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural; Argumentação. Competência Específica: 6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições. Além disso, fazendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Habilidade (EM13CHS605): Analisar os princípios da declaração dos Direitos Humanos, recorrendo às noções de justiça, igualdade e fraternidade, identificar os progressos e entraves à concretização desses direitos nas diversas sociedades contemporâneas e promover ações concretas diante da desigualdade e das violações desses direitos em diferentes espaços de vivência, respeitando a identidade de cada grupo e de cada indivíduo.

Sexto Movimento (2 aulas de 50 min.): Chegamos ao último movimento que consistirá num sarau para toda comunidade escolar - intitulado de: Vozes de Mulheres Negras ou Vozes do Ébano. A orientação aqui é aproveitar o talento e criatividade das estudantes e dos estudantes que cantam, dançam, pintam, interpretam e etc. E organizar um momento com o objetivo de celebrar a cultura africana e afro-brasileira. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural; Argumentação; Responsabilidade e Cidadania. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS504): Analisar e avaliar os mecanismos de exclusão social e identificar estratégias que promovam a inclusão e a garantia de direitos humanos.

Enfim, em essência foi isso que pensamos e apresentamos durante a dinâmica desenvolvida na formação continuada para os CP´s e CPA´s (a diferença é que lá era apenas um rascunho, aqui está mais elaborado). Esperamos que essa sequência didática possa inspirar a elaboração de outras sequências didáticas pelos professores que estão no chão da escola - profissionais qualificados e capazes de fazer, e estão fazendo, coisas incríveis. E só não estão fazendo coisas ainda mais incríveis porque o excesso de burocracia mata qualquer disposição para o exercício do pensamento científico, crítico e criativo.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A Ilha dos Espíritos - Completo

 


Três jovens (Bia, Lidiane e Raquel) saem de Goiânia para passarem férias no Tocantins. Se junta a elas um jovem Lajeadense que também mora e estuda em Goiânia (João) e um jovem hippie (Joe) vindo do sul do país.  Em meio a uma natureza belíssima, os jovens se encantam pelo lugar – se apaixonam, se amam e vivem aventuras inesquecíveis. Até que descobrem que estão em um lugar cheio de segredos – os quais devem descobrir antes que mais pessoas percam suas vidas nas águas misteriosas da ilha verde ou “a ilha dos espíritos”.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Resenha: Feliz Natal, um filme dirigido por Selton Mello

- O que é o Natal? Questiona Mérci. Para em seguida fazer um discurso eloquente sobre a importância simbólica da data. Enquanto isso seus familiares a ignoram peremptoriamente. Um a um vai deixando a mesa do almoço e segue para fazer a refeição em outro local. Mostrando o seu desprezo pela figura que se tornou á matriarca da família. 

A cena descrita acima é do filme Feliz Natal (2008) que marca a estreia na Direção do Selton Mello – uma obra que nos propõem uma reflexão sobre esse período de festas – caracterizado como um momento de reunir a família. Pela cena destacada é possível imaginar que essa família – que não é muito diferente de muitas que conhecemos – não tem muitos motivos para celebrar. Trata-se de uma família dilacerada – onde a companhia um do outro tornou-se um fardo pesado. Ainda que apenas por 24h. 

A música, o movimento, a fotografia tudo nos leva para um ambiente de melancolia. Os personagens com seus dramas nos mostra que nem a tal magia do Natal é capaz de curar tudo. Pelo contrário, a realidade se impõe como um punk rock – como um soco no estômago. 

Outra cena que mostra bem o espírito do filme é quando o personagem Caio caminha pela rua e de repente se depara com um rosto conhecido. Ele sai correndo atrás da moça e a encontra num carro que acabara de bater. Ele pergunta a moça se ela está bem. E ela responde que está ótima. E diz que quem não está bem é o cara do outro carro. Quando então ele vai ver, encontra consigo mesmo há alguns anos.

Essa revelação é, digamos, o momento de virada no filme. Desde o início da narrativa percebemos que houve um acontecimento com o Caio que o leva a se afastar da família. Mas é nessa cena que aquilo que todos tentam evitar se revela. Caio surge portanto como o personagem principal do drama – carregando consigo a culpa por ter provocado um acidente automobilístico que tirou a vida de uma jovem. E o levou para um exílio voluntário numa cidade interiorana onde tenta levar a vida longe dos rostos e cenários que o faz lembrar da tragédia. 

O filme inicia com Caio deixando o seu exílio rumo a casa do seu irmão (Theo) para as celebrações do Natal. E o que encontra é uma família em decadência. A mãe (Mérci) alcoólatra e viciada em barbitúricos (interpretada magistralmente por Darlene Glória). O pai (Miguel) viciado em estimulante sexual para dá conta da novinha por quem trocou a esposa. O irmão (Theo) num casamento prestes a implodir e não suportando o peso de carregar a responsabilidade por toda a família nas costas. A esposa do irmão  (Fabi) frustrada com o casamento. Os sobrinhos crescendo á deriva. Em especial o pequeno Bruno.

Além da direção do Selton Mello - que já chega na sua estreia como Diretor de cinema mostrando personalidade. Há que se ressaltar a performance do elenco composto por nomes como Leonardo Medeiros no papel do Caio. Lúcio Mauro como Miguel, Paulo Guarnieri como Theo, Darlene Glória como Mérci, Graziella Moretto como Fabi. Entre outros.

De acordo com Selton Mello,  o filme Feliz Natal foi concebido a partir de coisas que ele ouviu e viu ao longo dos anos durante as festas natalinas. É por tanto um recorte de uma determinada realidade que, talvez por toda uma pressão social que obriga as pessoas a se comportarem de determinada forma – a mostrar uma felicidade que não existe – não se fala tanto. Até por que tristeza não vende muito. Há não ser antidepressivos.

Enfim, Feliz Natal lembra uma canção Belchiorana, mais especificamente a palo seco: “eu quero é que esse canto torto/feito faca, corte a carne de vocês/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês”. Por tanto se você quer relaxar no Natal assistindo um filme – esse não é recomendável. Essa é uma obra para pensar. Pensar por exemplo do quanto de dor e sofrimento há nessa expressão – Feliz Natal – que reproduzimos ano a ano por uma certa pressão social – que nos impele a se comportar de determinada forma. O filme do Selton Mello nos lembra que há dores que não podem ser escondidas, nem mesmo com a “magia natalina”. Se esse é o seu caso não se culpe, sofrendo ainda mais, por não corresponder a expectativa coletiva. 

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano  que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Pelo aumento da carga-horária do Componente Curricular de Filosofia no Ensino Médio

Analisando as últimas edições do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) percebemos uma exigência cada vez maior do conhecimento filosófico para responder acertadamente às questões - tanto específicas a partir de textos filosóficos e problemas clássicos da filosofia. Como as interdisciplinares com outros componentes curriculares da área de humanas e linguagens. Sem falar na redação que na nossa compreensão o tema sempre aborda um problema ético-político.

No entanto, isso vai na contramão da importância que as redes estaduais dão ao componente curricular de Filosofia. Por exemplo no Tocantins, a carga-horária do componente curricular de Filosofia foi reduzido na formação geral básica com sua exclusão das terceiras séries do ensino médio a partir da nova estrutura curricular do Ensino Médio decorrente da aprovação da lei nº 13.415/17. Retornou em 2025 (exceto no ensino médio integrado ao técnico), mas nada garante que não haja retrocesso em 2026 com a implementação da nova estrutura decorrente das alterações promovidas pelo congresso nacional por meio da aprovação da lei nº 14.945/24.

É diante dessa incerteza que a Associação Brasileira do Ensino de Filosofia (ABEFIL) juntamente com outras entidades estão promovendo uma ideia legislativa para que tanto o Ensino de Filosofia como de Sociologia seja obrigatório em todas às séries do Ensino Médio com no mínimo duas aulas. De acordo com as entidades (2025) é “incoerente manter a Filosofia e a Sociologia com carga horária reduzida ou sem garantia mínima semanal.” Com a ampliação da carga horária total do ensino médio, aprovada pela lei nº 14.945/2024 (Novo Ensino Médio). 

Diante disso, as entidades defendem “que ambas as disciplinas sejam obrigatórias em todas as séries do Ensino Médio regular e profissional, com no mínimo 80 horas anuais, na Formação Geral Básica.” Assegurando assim “o cumprimento da LDB e a garantia de condições adequadas para o desenvolvimento das atividades docentes, das competências previstas na BNCC, como pensamento crítico, argumentação e respeito à diversidade, além de possibilitar uma preparação adequada para o Enem.”

A ideia já conta com o apoio de mais de 12 mil pessoas. No entanto, para que se torne uma sugestão legislativa e seja discutida pelos senadores precisa alcançar 20 mil apoios. Ou seja, não é nada impossível. Nós que atuamos no ensino de Filosofia e de Sociologia devemos nos mobilizar e divulgar a campanha para que haja mais apoios - apoios esses não só de quem atua no ensino de Filosofia e Sociologia. Mas todos aqueles que compreendem a importância do pensamento crítico na educação básica como uma condição sine qua non para construção e fortalecimento da democracia (link para apoiar a ideia: https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaoideia?id=210578).

Começamos esse texto falando da incoerência entre o peso da filosofia no principal exame de ingresso no ensino superior do país com a importância que se dá ao ensino de Filosofia pelas redes estaduais de ensino. Isso é um elemento importante a ser considerado ao se discutir a garantia do ensino de Filosofia na formação geral básica em todas as séries do ensino médio, assim como também o aumento da carga horária para 80h anual. O que nós percebemos enquanto professor de filosofia atuando no chão da escola é que os estudantes que se apropriam do conhecimento filosófico acabam se destacando dos demais conseguindo excelentes resultados tanto nas provas internas como nos exames externos.

No entanto, a importância do ensino de Filosofia não se resume ao aspecto instrumental. Nesse sentido gosto bastante de uma entrevista do Filósofo e Professor Paulo Arantes para o programa Realidades (TVU Recife) no qual ele discute os desafios da cidadania no Brasil e ao final fala como a filosofia pode contribuir no processo de construção de uma cidadania plena. Para Paulo Arantes se estudarmos filosofia a partir dos textos clássicos num sentido estrutural vendo como funciona o pensamento de uma mente poderosa como um Aristóteles ou Espinosa, um Descartes ou um Kant. Vendo essas pessoas pensarem, fazendo uso da razão, há uma espécie de educação do discernimento e portanto uma capacidade de separar o verdadeiro do falso. De desenvolver a capacidade argumentativa sem cair em dogmatismos. Mas buscando compreender a engenharia interna da filosofia.

Para Arantes é mais importante compreender como o filósofo ou a filósofa chegou naquela tese, do que concordar ou não com ele. Nessa caminhada você vai educando o seu espírito diante de um espetáculo. Que culmina numa conclusão racional por meio de uma argumentação construída por um discurso racional dos grandes filósofos. Esse movimento leva, de acordo com Arantes, o nosso espírito a se formar criticamente. De uma forma que não percebemos imediatamente o alcance dessa transformação, inclusive no sentido político e social. De modo que após essa caminhada não é possível olhar mais para realidade do mesmo modo. De acordo com as palavras dele “seu espírito e sensibilidade se torna incompatível com a miséria pasmosa em que vive a sociedade brasileira”.

Com isso reafirmamos a importância do ensino de filosofia na educação básica, não apenas como um tema transversal. Mas como um componente curricular na formação geral básica nas três séries do ensino médio, incluindo as turmas de ensino técnico, e com uma carga horária maior. Certamente haverá resistência nesse sentido. Sobretudo porque não é interessante para a classe dominante indivíduos que pensam criticamente e que não se deixam ser manipulados. Mas se conseguirmos mobilizar um setor significativo da sociedade, sobretudo os estudantes, parafraseando uns versos do Neruda, a primavera (vitória) será inexorável.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

domingo, 30 de novembro de 2025

Precisamos falar do (e ouvir) Edson Gomes

Quando os acordes da banda começam soar a plateia entra em êxtase ao reconhecer nos acordes o que está por vir.  Ele entra no palco apoiado pelo filho. É o tempo passa para todos. Para ele não é diferente. O turbante na cabeça deu lugar a um boné aba reta. Já não usa o casaco militar mas sim uma camiseta preta comum. Não canta mais em pé, mas sentado numa cadeira. No entanto quando começa a cantar a magia acontece. A voz não envelheceu. Canta sem nenhum esforço acompanhado por uma plateia que sabe cada verso de suas canções. Poucos artistas na música brasileira conseguiram esse feito - construir um público que aprecia sua arte sem o apoio dos meios de comunicação de massa. Independente do lugar em que esteja tocando, a reação do público é a mesma. E não estamos falando de um público que vai nos shows por uma conexão nostálgica, mas pessoas de toda idade. Há o registro de uma criança num show em Pernambuco cantando “árvore” a pleno pulmões que é algo contagiante. Se em relação a idade o público de Edson Gomes é diverso, o perfil majoritariamente é de pessoas negras - gente do povo. E é pelo reconhecimento desse povo enquanto cidadão que Edson Gomes canta. Sim, estou falando de Edson Gomes. Talvez você não tenha ouvido falar desse nome. Provavelmente já ouviu alguma música dele cantada por um outro artista. Por isso vamos lá a uma breve biografia.
Baiano de Cachoeira, Edson Gomes nasceu em 1955. Por um tempo dividiu seus sonhos entre o futebol e a música. Com a segunda prevalecendo. Já no início teve o seu talento reconhecido ao ganhar diversos festivais. No entanto, ainda teria que perseverar muito para se tornar um ícone da música brasileira. Deixou sua terra natal, foi trabalhar na construção civil em São Paulo. E depois retornou para Bahia onde construiu uma carreira que o colocou como ícone do reggae music. Fã de Tim Maia. Edson Gomes foi arrebatado pelo ritmo jamaicano que foi popularizado mundialmente por figuras como Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff entre outros. Suas letras que falam de amor, identidade e resistência foram aos poucos construindo um público fiel que o acompanha numa trajetória que já ultrapassou 50 anos de carreira. Edson Gomes está longe do status adquirido por figuras como Gilberto Gil, Djavan, Milton Nascimento e o seu próprio ídolo Tim Maia. Não porque sua arte seja menor, mas porque tal como os Racionais MCs sua música denuncia o racismo estrutural na nossa sociedade sem maquiagem. Como em “barrados no baile” em que retrata um episódio racista sofrido por ele: “ainda ontem no condomínio que moro/uma senhora quando me avistou/apertou a bolsa e ela escondeu sua bolsa/apertou a bolsa/a branca segurou logo a bolsa”. Em camelô, outro dos seus clássicos denuncia a violência policial: quando a polícia cai em cima de mim/até parece que sou fera… Em acorde, levante e lute lembra a classe trabalhadora que as conquistas não caem do céu mas como fruto da luta: tens o direito de ser livre…ninguém nesse mundo pode impedir… porém não espere por esse direito/acorde, levante e lute…” Em árvore nosso artista fala de amor, de comunhão, de cuidado, de valorização: todo santo dia, pois todo dia é santo/e eu sou uma árvore bonita/que precisa ter os teus cuidados. 
Enfim, eu poderia escrever linhas e linhas acerca das suas composições. Mas para o nosso propósito as citações acima são mais do que o suficiente. Melhor do que ler sobre suas canções é ouvi-las na voz dele. Fica então o convite para que o façam. Não indicaria um disco específico. Talvez o ao vivo gravado em Salvador em 2005 onde encontramos uma boa amostra da sua obra. Mas também pode ser qualquer show disponível no youtube das apresentações que ele tem feito nos últimos anos. Eu particularmente gosto de ouvir música ao vivo pois a energia da interação entre artista e público me afeta de uma forma diferente. Pela qualidade dos músicos que o acompanham não há uma perda de qualidade que geralmente há entre um material gravado em estúdio e ao vivo. Os shows são uma verdadeira celebração. Até porque ainda que não se diga é uma despedida. Pois por mais que sua voz continue impecável e ele aparenta ser alguém que se cuida é natural que a medida que a idade avança, ele atualmente tem 70 anos, o fim vai ficando mais próximo.
E é nesse contexto que acredito que precisamos falar de Edson Gomes - um artista negro que incorporou o espirito da reggae music - uma música de resistência as opressões e de celebração da cultura de origem africana. Infelizmente há no Brasil uma seleção (por parte da indústria musical) de quais artistas podem ser considerados relevantes ou não. Para a indústria Edson Gomes certamente não é um artista relevante pois não é conivente com o status cos. Diante disso, celebrar sua arte é uma forma de dizer que não concordamos com isso. Viva Edson Gomes! Viva sua arte! Viva sua filosofia!
Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

- O que tu fizeste da vida? - O que nos tornamos!

Quando nos vimos pela última vez eu era um jovem interiorano sem muita perspectiva. Você já era uma mulher que há pouco tempo havia concluído um curso universitário e estava dando início a carreira profissional. Nos relacionávamos há uns dois anos. Havia amor entre nós. Mas nosso relacionamento não tinha perspectiva de futuro. Eu era uma espécie de porto seguro para onde você ia quando retornava de suas aventuras. Você para mim era a fuga de uma vida medíocre. Mas nem sempre você vinha, pois espírito livre como era não se deixava prender. Eu queria mais do que você podia me dar. Nunca deixei de pensar em você desde então. Não foram poucas as vezes que idealizei um reencontro. Por onde estava? Como estava? De vez em quando ouvia uma conversa sobre você. Eu fingia não dar muita importância para não mostrar meu interesse. Um dia a noite assistindo televisão, quase 20 anos depois da nossa despedida, recebo a ligação de um conhecido perguntando se podia passar meu telefone para você. Não acreditei. Teríamos então o nosso reencontro. Será que seria bom? Autorizei que o meu telefone fosse passado para você e fiquei aguardando o contato. Não foi naquele dia, nem no dia seguinte, nem na semana seguinte. Eu não fui atrás. Quando então do nada recebo uma mensagem. Aquilo mexeu comigo significativamente. Você dizia que queria me encontrar. Eu disse que seria um prazer. Mas algo na sua voz me dizia que talvez não fosse o certo a fazer. Eu já não era mais eu. Você já não era mais você. O encontro não se concretizou, você sumiu. Tempos depois recebo uma nova mensagem. Sua voz estava diferente. Senti vontade de estar com você mas estávamos distante territorialmente falando. No entanto, ainda que por mensagens conversamos como há muito não conversávamos. Falamos da vida, de música, de poesia. Prometemos nos encontrar quando você estivesse melhor. Sim, você não estava bem. Eu não quis saber porque. A não ser que você quisesse falar. Eu queria apenas te acolher sem julgamento. Faria mais se não fosse a distância. Por algumas semanas conversamos quase diariamente. Você dizia me acompanhar pelas redes sociais e tinha orgulho do profissional que eu havia tornado. Já você estava em busca de recomeço e precisava superar alguns vícios. Não estava sendo fácil mas iria conseguir. Fiquei imaginando o que a vida havia feito com você. Como tinha chegado naquela situação? No pouco tempo que estivemos juntos percebi que você coloca a emoção na frente da razão. Como tudo na vida viver assim tem seus aspectos bons e ruins. Saber conviver com isso é o ponto central. Sobretudo porque isso nos coloca em situações difíceis. Óbvio que falo isso porque sou um racionalista irremediável. Você certamente vai me chamar de covarde. Como quando você me chamou para morarmos juntos e não aceitei porque havíamos acabado de nos conhecer e ainda não nos conhecíamos o suficiente para dar um passo tão importante. Hoje com 40 anos estou bem pior. E você parece não ter mudado também. De repente você sumiu novamente. E apareceu 1 ano depois. Nesse tempo, confesso que cheguei a pensar que talvez você estivesse morrido. E que o nosso contato foi uma espécie de conciliação para que morresse em paz. Mas não. Que bom. Fiquei feliz em saber que você estava se tratando e que estava retornando para recomeçar a vida. Precisava de apoio. Que eu era peça importante nesse processo. Eu não podia dizer não para alguém que fora tão importante na minha vida. Ainda sabendo que talvez eu não correspondesse ao que você esperava. Ando bebendo muito, fumando muito. Óbvio que sob controle, creio eu. Pelo menos ainda não afetou o meu trabalho e minhas relações pessoais. Você falou que não tinha importância e a partir daí o nosso reencontro passou a ser questão de tempo já que do ponto de vista territorial estamos próximos novamente. No entanto, novamente algo parece nos afastar. Lembro lá que quando éramos jovens eu gostava de pensar que o nosso relacionamento não havia dado certo porque estávamos em tempos diferentes. E digo isso não em relação a idade mas ao espírito. Lembra daquela música da Legião Urbana? - Agimos certos sem querer, foi só o tempo que errou… De modo que imaginei que quando nos encontrássemos estaríamos no mesmo tempo. Mas vejo agora que não. Nós nos amamos, isso é fato. Mas as nossas perspectivas sobre a vida são opostas. De modo que nunca daria certo entre nós. Diante disso não sei se seria interessante nos reencontrar pessoalmente (presencialmente). Eu já não alimento esse desejo. Não posso dar o que você espera de mim. Talvez um dia nos encontremos por acaso. Ti darei um abraço, trocaremos algumas palavras, desejarei que você fique bem. E partirei de volta para minha vida. Não vou cometer o erro de querer que você se encaixe nela. Você é um espírito livre e jamais vai deixar de fazer o que quer. Eu também jamais abriria mão da minha vida para me encaixar na de outra pessoa. Pois por mais que não pareça, sou um espírito livre também. Enfim, é isso meu bem.

Fique bem.

Pedro Ferreira Nunes - Casa da Maria Lúcia. Lua Minguante. Lajeado -TO. Inverno de 2025.