segunda-feira, 15 de junho de 2026

Relato das ações do Maio Abolicionista no CEMIL Santa Rita de Cássia

“O território tem que ser entendido como o território usado, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho; o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida.” — Milton Santos (O retorno do território, 1994).

Iniciamos essas linhas relatando as ações do maio abolicionista no Colégio Esportivo Cívico Militar Santa Rita de Cássia localizado no Aureny I - bairro periférico da capital do Tocantins (Palmas) com esse trecho do Milton Santos - referência intelectual na área de humanas nascido em 03 de maio de 1926 - que em 2026 faria 100 anos. E nos ajuda a pensar na relação com o território em que estamos inseridos e nossa identidade. Durante o mês realizamos várias ações envolvendo toda a comunidade escolar. Buscando fortalecer ainda mais a educação antirracista no território em que a escola está inserida. Durante o planejamento coletivo da área de humanas um professor questionou qual o sentido desse projeto neste mês tendo em vista que, sobretudo o movimento negro, ver criticamente o 13 de maio - que marca oficialmente o fim da escravidão no Brasil - esclareceu-se que o objetivo do maio abolicionista não é celebrar esse marco. Mas fortalecer as políticas de equidade racial e combater o racismo, promover a representatividade e construir espaços de ensino verdadeiramente antirracistas e inclusivos.

Ainda no início de maio o CEMIL Santa Rita realizou um evento marcante (AFROMAT - Feira de Empreendedorismo Feminino, Matemática e Valorização da Cultura Africana), realizado no dia 09 de maio (Dia da Família na Escola). Tanto na cultura africana como nas comunidades tradicionais no Brasil a mulher tem um papel importante como guardiã dos saberes e como alicerce da comunidade. Essa herança está presente em muitas famílias que vivem na periferia das grandes cidades - muitas delas mães solos. A relação com a área de Matemática também foi importante pois no dia a dia observamos um distanciamento dessa área com as questões humanas. Além de ser o componente em que observamos um maior déficit de aprendizagem dos estudantes.

Autodeclaração Étnico-Racial

Durante o maio abolicionista buscamos conscientizar acerca da importância da autodeclaração étnico-racial para o fortalecimento de políticas de equidade na comunidade. E utilizamos diferentes estratégias para que os estudantes fizessem essa autodeclaração desembocando na ficha encaminhada pela SEDUC-TO. Aproveitou-se também para que os familiares também fizessem sua autodeclaração..

A partir dos dados colhidos percebemos que a nossa comunidade escolar é majoritariamente de negros (pretos e pardos). Sendo que a maioria se autodeclara pardo. O que para nós é um ponto de atenção, sobretudo porque na linha do que diz a filósofa Sueli Carneiro, o conceito de pardo está ligado à negação daquilo que se é - o que não contribui na luta contra o racismo estrutural na nossa sociedade. Diante disso precisamos continuar fomentando essa discussão para que os indivíduos possam se reconhecer como aquilo que de fato são. Pois se não aceitamos ser o que somos, uma mudança de paradigma torna-se utópica. Temos avançado, sobretudo em proporcionar momentos para que os estudantes reflitam sobre a importância da autodeclaração étnico-racial. E compreendam a importância desse processo no enfrentamento ao racismo. 

Ao lado, registro de estudantes fazendo sua autodeclaração étnico-racial durante o AFROMAT. A continuidade desse processo que teve início a partir de 2024 com o dia D da autodeclaração étnico-racial certamente contribuirá a médio prazo para que haja um esclarecimento maior.

Política de Equidade

Uma atividade importante realizada no contexto do maio abolicionista foi um bate-papo com a Jordana Barbosa - jovem preta (da periferia de Palmas), acadêmica do Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e Pesquisadora de Campo da Equidade.Info - uma organização que atua em todos os Estados brasileiros com a finalidade de ouvir quem vive a escola e transformar essas vozes em dados que impulsionam políticas de equidade e fortalecem o direito universal à aprendizagem. Num primeiro momento a Jordana esteve ouvindo estudantes, professores e coordenadores sobre a realidade da escola, já num segundo momento ela retornou para dar um feedback e falar sobre a importância de políticas públicas voltadas para o alcance da equidade. Nesse sentido o seu ponto de partida foi conceituar o que é equidade - "de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades" (Karl Marx). É importante o entendimento do que é equidade pelo fato de que há um discurso que tenta desqualificar determinadas políticas de equidade. Durante a discussão Jordana destacou algumas expressões da questão social que afetam, sobretudo quem vive na periferia (que na sua maioria são negros). E ressaltou espaços como o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) que as pessoas podem recorrer para ter acesso a determinadas políticas públicas. 

Na sala de aula

A educação antirracista é uma realidade na prática docente no Cemil Santa Rita de Cássia. Não mais como algo extraordinário. Mas no dia a dia daquilo que é trabalhado em sala de aula. De modo que em maio apenas demos continuidade ao que já estava no nosso planejamento. Por exemplo, na área de humanas dando ênfase a contribuição de nomes como Milton Santos, Sueli Carneiro, Ailton Krenak e o Daniel Munduruku. Nas demais áreas também se trabalhou a temática a partir da perspectiva das linguagens, da matemática e da ciências da natureza. Seguimos as orientações dos assessores de currículo da Superintendência Regional da Educação de Palmas (SRE) e da SEDUC-TO, sobretudo as sequências didáticas. Mas não nos limitamos a elas. Por exemplo, no projeto integrador Qual é o seu direito? (ministrado pelo Professor Francisco Nascimento) tivemos um ciclo de atividades com oficinas e palestras com acadêmicos do curso de Direito da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Com foco no exercício da cidadania as atividades proporcionaram importantes aprendizados. No projeto integrador Onde estão, os direitos de viver? (ministrado pelo Professor Gustavo), o foco foi os objetivos para o desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), a partir da realidade em que estão inseridos. E no Projeto Integrador Praça dos Girassóis: História, Memória e Identidade. O foco foi nossas matrizes culturais, sobretudo a negra e a indígena.

Conclusão

No contexto da educação básica, o Estado do Tocantins, por meio da rede estadual de ensino têm enfatizado bastante essa questão nos dois últimos anos, concretizando a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ). E é nesse contexto que surge o maio abolicionista entre outras iniciativas como o selo da educação antirracista. Milton Santos questiona quantos habitantes no Brasil são de fato cidadãos. E daqueles que não o são, quantos têm consciência dessa condição. Esse ponto é fundamental. Pois se não tenho consciência de que não sou cidadão, como vou lutar para mudar essa realidade? Quando analisamos quem são essas pessoas, os dados nos mostram que na sua grande maioria é o povo preto que vive na periferia. Para mudar essa realidade, a educação tem um papel fundamental. E é nesse sentido que ações como o Maio Abolicionista se justificam.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atualmente ocupa a Coordenação da Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas do CEMIL Santa Rita de Cássia.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Prisão dos militares envolvidos na chacina de Miracema: Uma mudança de paradigma na luta pelos direitos humanos no Tocantins?

Quando aconteceu a chacina de Miracema, sobretudo o episódio de invasão da delegacia da Polícia Civil - onde homens encapuzados executaram dois indivíduos que estavam sob custódia no local - entre eles um idoso. Não precisava ser nenhum perito para saber quem seriam os responsáveis. No entanto, por mais evidente que fosse. Era necessário provas. Provas que levassem a nomes e a partir daí a responsabilização da conduta individual de cada um. Esse momento chegou.

No último mês de maio (2026) a imprensa regional noticiou a prisão de 23 policiais militares (entre eles muitos oficiais) envolvidos na morte de seis pessoas no município de Miracema em 2022 - no episódio que ficou conhecido como a chacina de Miracema retratado no documentário: Quem matou os filhos de Miracema? produzido pelo Movimento dos Direitos Humanos e Ambientais no Tocantins (MEDHTO) em parceria com o Núcleo de Pesquisas, Extensão e Práticas Jornalísticas (NUJOR) da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

As prisões ocorreram quatro anos depois do episódio que deixou marcas profundas nas famílias das vítimas e na comunidade - uma dor ainda mais forte pelo sentimento de impunidade que prevaleceu nesse tempo. No entanto, quando vemos a quantidade de oficiais envolvidos percebemos que não era algo simples de ser resolvido. Pois como mostra as investigações eles utilizaram seus postos para apagar as provas. Nesse sentido há que reconhecer a investigação realizada pela Polícia Civil e o Ministério Público, conseguindo entregar um trabalho com provas irrefutáveis. Tanto que o poder judiciário não teve como não receber a denúncia e a Polícia Militar não afastá-los de suas funções. 

Se serão condenados ou absolvidos não sabemos. Mas o fato da investigação conseguir colocá-los nos bancos dos réus já é um avanço significativo. Pois espera-se que isso possa inibir outros militares de usar a estrutura do Estado para violar os direitos humanos com a justificativa de “fazer justiça”. Nesse sentido seria importante que autoridades políticas rechaçassem esse tipo de postura. Mas o que se viu foi um completo silêncio - tanto em relação à chacina como à prisão dos policiais militares envolvidos. Esse silêncio cúmplice contribui para que determinados indivíduos se sintam encorajados a usar a farda para impor sua “visão de justiça”. Tanto quanto aqueles que propagam o discurso de que “bandido bom é bandido morto”.

Oficialmente o Tocantins não é um território em que há um índice elevado de mortes decorrentes de ação policial. Sobretudo quando comparamos com Estados como Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. Mas o problema existe e deve ser enfrentado sobretudo porque a lógica é a mesma - o uso da força para manter os interesses da classe dominante. Ainda que o discurso seja de proteger a população. Mas quando essa população, por exemplo, resolve se manifestar por um direito seu que está sendo violado, não pensam duas vezes antes de reprimir usando a violência. 

O filósofo Paulo Arantes chama atenção para o poder político da polícia militar. Ressaltando que eles tem um projeto de constituição de um Estado - uma pátria cristã policial. Isso fica evidente quando observamos a relação da corporação com a religião e o avanço na educação com as escolas militares e cívico militares. Para Arantes o governador não tem nenhum poder sobre essas forças - que inclusive são mais bem armadas que o exército. 

Essa fala pode ser compreendida como um alerta - do que não pode acontecer se continuarmos alimentando, com o discurso de combate a criminalidade (que nunca diminui, pelo contrário), o poder das forças policiais. É necessário colocar um limite pois se não continuará acontecendo o que aconteceu em Miracema. 

Ora, o assassinato de um policial. Não é desculpa para que crimes sejam cometidos como forma de justiçá-lo. Os que assim agiram tinham tanta consciência disso que buscaram esconder os seus rastros. Ou talvez contassem com a negligência (ou cumplicidade) da Polícia Civil e do Ministério Público.

Refletindo sobre se a prisão desses militares pode significar uma mudança de paradigma na luta pelos direitos humanos no Tocantins. É certamente um marco importante. Sobretudo se esses militares forem condenados. Porém os desafios continuam sendo enormes. Sobretudo quando observamos, de um lado silêncios cúmplices, de outro lado aplausos tanto de políticos como de parte da população. Mas a luta deve ser travada. Ainda que de acordo com Paulo Arantes, não há perspectiva de superar o problema. No máximo impor ao Estado o dever de reparar as violações das quais ele é o principal responsável. É o que se conseguiu com a prisão dos militares envolvidos no episódio - uma reparação, sobretudo para as famílias das vítimas. Por outro lado, isso não significa que a partir de agora não teremos mais violação dos direitos humanos pelas forças policiais. Antes seria preciso mudar o sistema policial. Óbvio que isso não seria possível sem mudar o modo de produção que o mantém.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guardians of Earth e a luta em defesa do meio ambiente



No decorrer da sua trajetória a banda brasileira de thrash metal - Sepultura - foi se aproximando dos povos indígenas - uma aproximação que se reflete na sonoridade do grupo e em canções que ressaltam suas importância na defesa do meio ambiente. Entre essas canções, nesse dia em que celebramos o dia do meio ambiente, destacaria Guardians of Earth, do aclamado álbum Quadra (2020).

A canção começa como uma peça acústica. Andreas Kisser com o violão  acompanhado em seguida pela bateria do Eloy Casagrande. Com uma sonoridade que lembra a música dos povos originários numa espécie de preparação para a guerra. Ao final dessa primeira parte é adicionado um coral que lembra a música clássica num encontro entre erudito e popular. Nos remetendo a algo épico.

E se investigarmos o épico no campo da filosofia faz todo sentido. Aliás o épico antecede a filosofia tal como a compreendemos. Tendo na cultura grega um papel importante na formação dos indivíduos por meio de narrativas que retratavam feitos heróicos como na Iliada e na Odisséia. Aristóteles na Poética define o épico como uma imitação da ação, retratando indivíduos de caráter superior realizando grandes feitos. Na canção em análise esses indivíduos são os povos originários - guardiões da terra ou daquilo que chamamos de meio ambiente.

Na segunda parte a canção se transforma num thrash metal com a introdução da guitarra, do contrabaixo e do vocal gutural do Derrick Green que canta: The fight has started again (a luta começou de novo)/The bloond is staining our Hanks (O sangue está manchando nossas mãos)/Selfish desires (desejos egoistas)/Commence the killing again (começam a matança novamente).

Nesse momento o épico parece se transformar em tragédia. Não menos importante na tradição clássica grega para refletirmos sobre nossas ações. O que estamos fazendo com nós mesmos quando destruímos nossas raízes? Quando destruímos o que nos dá vida. Quando nos silenciamos diante do avanço de um modelo de desenvolvimento que transforma tudo em mercadoria. Quando ignoramos os alertas do clima. Dos povos originários.

Ao final da canção voltamos ao épico com um coral se contrapondo ao gutural. Ou complementando. E um chamado a resistência. Essa resistência tem sido protagonizada pelos povos indígenas e aqueles que se sensibilizam com essa causa.

Never give up (Nunca desista)/ Fight till the end (Lute até o fim)/ Never give up (Nunca desista)....

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.


sábado, 30 de maio de 2026

Conversas na Madrugada: Desencanto

Mesmo sabendo o quanto Ana Maria era complicada, Daniel decidiu apostar num namoro com ela. Ele acreditava que ela podia aprender amá-lo do tanto que ele a amava. Mas não foi assim que aconteceu. Ana Maria não era mulher de um homem só, e se o Daniel quisesse ficar com ela tinha que aprender a dividi-la com outros. Daniel e Ana Maria passaram semanas de intensa paixão após o término do namoro dele com Soraia. Mas não demorou para que ele percebesse que Ana Maria continuava a mesma de sempre – uma mulher que não se deixava prender num relacionamento tradicional. Mesmo a noite sensacional de sexo ao lado de Ana Maria não tirava da cabeça de Daniel algumas preocupações. 

Ao sair da casa da amada naquela madrugada, ele se dirigiu para um bar, pediu ao garçom uma garrafa de whisky barato e rock no toca discos. Enquanto isso ficou ruminando alguns pensamentos. Até que foi despertado desse estado de espírito pela aproximação de uma garota que acabara de entrar no estabelecimento.

- Olá, posso te fazer companhia?

Daniel estava a fim de ficar sozinho com seus pensamentos. No entanto, não teve coragem para dizer isso para aquela garota. Pelo contrário. Ele aceitou a companhia.

 - Senta aí. Tá a fim de uma dose de whisky?

A garota logo se animou. Batera perna a noite inteira e nada de arrumar um programa. Quem sabe agora que estava voltando para casa teria mais sorte:

- Claro. E ai, vamos brincar hoje?

- Desculpe. Mas não tô muito no clima.

- É. Não foi dessa vez. Pensou consigo. Pelo menos podia bater papo e ajudar aquele estranho a secar aquela garrafa de whisky barato.

- Tem alguma coisa te preocupando? Se você quiser desabafar, pode ficar à vontade. Sou toda ouvidos.

- Não, não quero te incomodar com minhas angústias. Eu resolvo sozinho.

- Mas é bom desabafar às vezes. Sei que você não me conhece, mas tudo que me disser ficará entre nós. Além do mais o movimento hoje tá muito fraco. Não vou arrumar nenhum programa pelo jeito, talvez mais tarde.

- Como é seu nome? 

- Flor de Liz.

- Prazer Flor de Liz. O meu é Daniel.

- Prazer é comigo mesmo Daniel. Disse Flor de Liz sorrindo.

- Não deve ser fácil a vida que tu leva.

- Não vou mentir pra ti, não é fácil. Sobretudo quando encontramos clientes que nos tratam como se fossemos objetos. Acham que porque estão pagando podem fazer tudo o que querem com a gente, esquecem-se que somos seres humanos. Desabafou Flor de Liz

- Imagino.

- Mas às vezes encontramos com clientes que são tão carinhosos com a gente. Que nos dão tanto amor e atenção que acabamos esquecendo que somos prostitutas.

- Mas sabe. Nos relacionamentos tradicionais é assim também. Às vezes encontramos pessoas que nos amam e outras vezes aquelas que querem apenas nos usar.

Em vez de Flor de Liz ouvir o que estava afligindo aquele estranho, ele que estava conseguindo descobrir os seus segredos. É então que ela decide virar o jogo.

- Hum, percebi que alguém aqui está sofrendo por amor. O que fizeram com teu coração? É homem ou mulher?

- Homem? Não. São coisas da vida mesmo. Um relacionamento que você sabe que não tem nenhum futuro, mas que você insiste, acreditando que um milagre possa acontecer.

- É como dizem ‘o pior cego é aquele que não quer enxergar’. A gente vê, mas finge que não está vendo. Mas posso te falar por experiência própria que um dia a gente tem que vê e encarar, por mais que tentamos fugir, um dia não tem jeito.

- Poxa, é isso mesmo. Foi muito bom conversar contigo, mas tenho que ir agora.

Daniel abriu a carteira, pagou a garrafa de whisky e deu uma grana para Flor de Liz.

- Pra que esse dinheiro?

- Ora, pelo tempo que você perdeu aqui comigo.

- Não, não precisa pagar nada. Não fizemos nada além de conversar e tomar whisky. Eu que te agradeço por ter me tratado tão bem.

Mas Daniel insistiu:

- Vamos, pegue o dinheiro que sei que tu precisa. Um dia quem sabe não dormimos juntos?!

Flor de Liz, não recusou dessa vez. A verdade era que não tinha como recusar. Aquela grana garantiria pelo menos por mais uns três dias o leite das crianças. Ela o abraçou e lhe agradeceu dizendo que esperava encontrá-lo outro dia em melhor estado de espírito e disposto a brincar. Daniel sorriu e partiu decidido a dar um novo rumo para sua vida.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Poema: Marcha unificada












Vamos por essas estradas
Nossas bandeiras hastear.
Caminhando em passeata
Palavras de ordem vamos gritar.

Camponeses sem terra,
Indígenas e quilombolas.
Operários do meu Brasil
Vamos fazer história.

Cantando velhas canções
Lembrando-se dos nossos mártires.
Despertando corações
Levantando-se para o combate.

Marchando unificadamente
A classe trabalhadora irá triunfar.
Nossa luta não será em vão
Um novo dia há de chegar.


Pedro Ferreira Nunes. Palmas-TO. Lua Crescente. Verão tocantinense de 2026.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Crônica: Aureny I, Palmas - Tocantins. Brasil

Moro na Macapá. Todos os dias atravesso a Tocantins para ir ao meu trabalho que fica na Minas Gerais. Uma das coisas que me encantou quando cheguei por aqui foi descobrir que o nome das ruas são de Estados brasileiros. Sempre digo para mim mesmo que, se eu pudesse ter escolhido, não teria feito escolha melhor. Gosto do Aureny I. E sei que quando chegar o dia de partir definitivamente vou sentir falta.

Mesmo morando ao lado de Palmas (na cidade de Lajeado), eu sabia pouco de Palmas. Não mudou muita coisa desde que cheguei aqui em fevereiro de 2024. Após assumir a vaga conquistada no concurso da rede estadual da educação do Tocantins. Lembro bem do dia que me apresentei na superintendência regional da educação de Palmas. Quando recebi o papel dizendo em qual escola iria trabalhar, a minha pergunta foi: onde fica? Como faço para chegar lá?

Aureny I é um bairro de trabalhadores. Foi o lugar onde se refugiou o proletariado que aqui chegou no início da capital.  Famílias que não encontraram abrigo no plano diretor. Com a expansão da cidade não deixou de ser periferia. Ainda que tenha uma estrutura de invejar muitas cidades do interior tocantinense. Na rua Macapá, onde moro, fico a poucos metros da avenida Brasil e da avenida Tocantins onde encontro todos os tipos de serviços. Caso queira me deslocar, o transporte coletivo passa praticamente na porta da casa onde moro. Se não for no horário de pico, dá até para ir sentado num bus climatizado. E é muito mais econômico do que pegar um uber ou coisa do tipo. 

Mas quase nunca tenho ânimo de ir ao centro onde tem uma vida cultural mais ao meu gosto como os estabelecimentos que promovem uma cultura alternativa como o rock n roll, cinema, teatro, exposições artísticas entre outros. Aproveito para abrir um parêntese para dizer que se eu que não trabalho numa escala 6x1 não tenho disposição, imagina quem trabalha.

E assim fico por aqui onde em cada esquina há uma disputa silenciosa entre os bares e as igrejas. Nessa disputa o meu lugar é a distribuidora do Coló que fica na esquina da avenida Brasil com a rua Macapá. Na verdade não sou muito de sair de casa. Compro minha cervejinha e volto para o meu canto, onde bebo fumando palheiro e ouvindo meu rock n roll.

Domingo pela manhã ir à feira comprar peixe é praticamente um ritual. Sou um sujeito previsível. Sempre faço as mesmas coisas e ando pelos mesmos lugares. Sou conhecido e ao mesmo tempo um desconhecido. Melhor assim. Não quero intimidade. Não sei o nome dos meus vizinhos: O que fazem, o que deixam de fazer. De onde vem. Para onde vão.

Não quero construir raízes, mas tenho construído boas memórias - de lugares e pessoas que atravessam o meu caminho. Como de uma figura elegante que transita pelas ruas do setor pegando roupas reutilizáveis descartadas nas lixeiras. Do sorriso da menina que vende peixe com sua família na feira. Do grito dos brincantes nos ensaios das quadrilhas juninas domingo à tarde. Da estudante mais diferenciada que encontrei na minha trajetória de professor até hoje. De outros tantos pela convivência quase diária - alguns esforçados, outros nem tanto. De figuras como a Aldenora - sempre disponível para o que preciso (e que talvez seja a pessoa com quem mais me sinto à vontade para “fazer graça"). Do Neiva e nossas conversas sobre livros. Seu Antônio, Dona Irene, Saraiva e Dalma. Histórias de sobrevivência e resistência como da mulher que fugira do interior pela ameaça de morte por parte do seu ex-companheiro. De outra que cria três filhos sozinha e faz faculdade com a esperança de dias melhores. 

Desde que cheguei aqui mudei bastante, inclusive fisicamente (todos dizem que estou mais gordo). Tenho aprendido muito. Não sou mais o mesmo mas não deixei de ser o que sou. Isso lembra Heráclito (nunca banhamos duas vezes no mesmo rio), ou seja, estamos em constante transformação. Se isso não acontece contigo questione-se se estás vivo. E do Ailton Krenak quando nos chama atenção para não esquecermos das nossas raízes. Por tanto mudar é preciso, mas não podemos nos esquecer de onde viemos e quem somos.

Palmas me acolheu há três anos, mais especificamente o Aureni I, assim como acolhe diariamente pessoas de todos os cantos do Brasil. Abrimos um parêntese para dizer que algumas pessoas são melhores acolhidas que outras. E assim a cidade vai crescendo como na letra da canção revoada, da potente Magoo e o Bando Urtiga no seu clássico as crônicas de sucupira gothan city: e eu sigo pelas ruas largas e o sol escaldante/entre o céu e a ilusão e o castigo entre a voz e a razão/e o silêncio… enquanto isso nas avenidas centrais ônibus lotados de operário/navios negreiros modernos desmistificados/o capital deu certo na próxima esquina/menino jogado em uma latrina e a fome segue voraz/e no céu uma revoada de pardais.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Surra e a falha crítica

Em 2024 o trio santista de thrash punk - Surra (formado pelo Leeo Mesquita - Guitarra e Vocal; Guilherme Elias - Baixo e Vocal; e o Victor Miranda - Bateria) lançou um dos melhores álbuns de rock (Falha Crítica) - um trabalho que mostra a evolução de uma banda que alcançou de forma inconteste a prateleira dos grandes nomes do metal, punk e hardcore mundial. Com o anúncio da banda de uma pausa nas suas atividades, o trabalho torna-se ainda mais especial.

Falha crítica é o registro de uma banda no seu auge. Com letras afiadas que denunciam a ordem dominante marcada pela violência do Estado, sobretudo pelo seu braço armado - a polícia. O avanço da ultradireita e o discurso neoliberal de empreendedorismo de si. As músicas trazem o dna da banda fortemente influenciada pelo thrash, punk e hardcore - guitarra, contrabaixo e bateria complementam um ao outro entregando um som pesado e veloz. E para fechar temos o vocal raivoso do Leeo. Ao todo temos 27 minutos de punkada.

Abrindo o álbum eles apresentam “operação morre e cala a boca” onde denunciam as operações policiais em comunidades que, historicamente, deixam rastro de sangue. E um dos aspectos que mais chama atenção em episódios, como por exemplo o que aconteceu no Rio de Janeiro (operação contenção) em outubro de 2025 - que deixou 122 mortos - é o apoio por parte significativa da população.

Classe média enfeitiçada/Por um suposto heroísmo/Vão pedir mais segurança/Só não vão te incluir/na cancela do seu condomínio.

Com a justificativa de combate ao crime, sobretudo de drogas e armas. O que se vê nessas operações é a violação dos direitos humanos, por meio de torturas e assassinatos.

Isso não é operação/Apreensão de droga e arma/É tortura e assassinato/Pra população inteira.

Ao escolher abrir com essa canção é como se a banda iniciasse com uma voadora. Acelerando a mil por hora. Em seguida dão uma desacelerada. Para novamente acelerar. E nesse ritmo se segue as canções subsequentes. 

Em “murro em ponto de faca” é uma música, a priori, com um tom pessimista. 

Murro em ponta de faca/Acreditar que tudo isso um dia vai ser melhor

Na verdade, trata-se de uma crítica à ideia de que o capitalismo pode ser reformado tornando-se mais humano. A letra nos lembra de que para a classe dominante o que interessa é manter os seus privilégios. E o que for necessário fazer para manter esse privilégio será feito. Incluindo patrocinar genocídios como em Gaza.

Na sequência temos, a minha preferida, plano infalível. A letra denuncia o discurso neoliberal de que devemos abrir mão dos direitos trabalhistas e se transformar em empreendedor. O ritmo mais contido evidencia a letra que é maravilhosa do início ao fim.

Seu plano infalível não pode mais esperar/Não vai ter mais pobre, só vai ter empreendedor/Vão abrir um negócio e suas vidas vão mudar/Dinheiro pra caralho, todo mundo tem empresa

É um retrato muito perfeito dos dias que estamos vivendo. Com esse discurso sendo introduzido estrategicamente no currículo da educação básica. Alguns filósofos há algum tempo chamam atenção para um projeto de dominação que transforma a liberdade no instrumento de dominação. Entre tantos, Marcuse certamente é um pioneiro ao chamar atenção para uma racionalidade tecnológica se sobrepondo à racionalidade humana. Uma racionalidade que introjeta nos indivíduos um comportamento conformista - de que não existe alternativa. Até porque o problema não é com o modo de produção hegemônico. Mas sim com os indivíduos. Se você se esforçar, trabalhar, trabalhar e trabalhar sem questionar vai conseguir tudo que almeja. E aqueles que não se adaptarem devem morrer. Pois afinal de contas a morte é o destino de todos nós.

Ninguém mais mora na rua, todo mundo tem mansão/Nada vai ser público pois todos tem dinheiro/Ninguém mais é empregado, ninguém mais bate cartão/É urgente por esse plano pra funcionar

A letra de plano infalível é tão rica que poderia facilmente virar um artigo acadêmico. No entanto, precisamos seguir não sem antes falar do recado final quando a banda fala das consequências desse plano para nós: 

Desgraçado, nossa história no seu plano acaba assim: Eu te mato, você morre e o que eu produzir pego tudo pra mim.

Em seguida temos amanhã eu faço, com uma temática que aborda o discurso do dever. Você deve fazer isso, você deve fazer aquilo. Do ponto de vista musical há um solo de guitarra bem interessante. Na sequência temos a velocíssima calma, caralho onde o alvo é a internet utilizada para fazer com que consumamos cada vez mais. E quanto mais consumimos mais enchemos o bolso de dinheiro das elites: 

Muito acesso e propaganda é que faz dinheiro entrar/Todo mundo ajudando a doença se espalhar

Na sequência temos, para mim, a segunda melhor canção do álbum, liberdade eliminando o mundo. O foco da crítica aqui é a política imperialista estadunidense que usa o discurso de libertação para invadir países periféricos, se apropriar das riquezas e colocar aliados no poder.

Essa é a retribuição desses cara com o mundo aos seus pés/Te acham um latino imundo e te condenam a trabalhar até morrer/Olha os gringo e se compara, confiante assim só eles podem ser/Todos nascem enrolados na mesma bandeira pra se proteger

Diante disso não podemos deixar de comentar que há grupos políticos na américa latina, que se dizem patriotas, com uma postura subserviente e entreguista ao atual ocupante da cadeira de presidente dos Estados Unidos da América - Donald Trump. Chegando ao ponto de defender a intervenção do governo estadunidense nos seus próprios países. Ao fazerem isso fica evidente quais interesses defendem

Em época de festas vem com discurso de empatia/Enquanto matam de fome e bombardeiam meio mundo/Só exportam medo e ódio invadindo país pobre/Faz temer o terrorismo e metem o terror em tudo

Em nunca foi tão justo, eles retomam a velocidade máxima para denunciar a apatia do Estado frente aos problemas sociais. A não ser na repressão aqueles que ousam questionar como por exemplo os movimentos de sem terra e sem teto. 

Família indefesa/Nas mãos não tinham nada/Mirando em suas costas/Servir e proteger

A violência e repressão também é o tema da próxima canção: um de life - onde clamam para que a classe trabalhadora resista. Inclusive se armando. Algo que eu particularmente defendo. Pois chega um momento que não dá para se defender da violência com discurso. 

Nazistas não foram mortos por papéis/Nem por assinaturas nem por reuniões/Classe trabalhadora livre de grilhões/É uma classe educada e armada!

Na sequência temos outra velocíssima (200gr de PMA), 52 segundos, de fúria destinada a direita liberal defensora da meritocracia entre outros. Depois é a vez de, imperativo, onde se levantam contra o conformismo. Depois temos é proibido ser pobre - um som que me lembrou a Ratos de Porão - com um refrão pegajoso: É proibido/Proibido ser pobre. A seguinte é a viral onde criticam um discurso de sucesso que só vinga no meio digital. Depois é a vez da penúltima, e mais longa canção do álbum (3 minutos e 12 segundos). Trata-se de Estado terminal. 

Pulmão fraco, desespero/O sangue em minhas veias corrompido por veneno/Ninguém mais vai me encarar/Esgotadas as tentativas, falha crítica iminente/Olhar morto, decadente, adiando o inevitável

A priori estão falando de um indivíduo. Mas adiante a critica fica mais clara a quem se referem:

Em estado terminal a sentença está dada/Esse é o ponto final. Deixo meu legado/Fecho os olhos, um clarão/Serei superado antes da minha explosão atômica/que eu guardei para o fim da civilização

Aqui não é o indivíduo mas o Estado-nação. Ou pelo menos a ideia que prevaleceu até os nossos dias. Eles concluem anunciando o fim desse ser em estado terminal questionando se outros resistiram. Aqui poderíamos relacionar com a banda que tempo depois decidiu parar - não resistiu ao sistema perverso que eles denunciaram. Na canção que fecha o álbum (serviu de aprendizado) a relação com o fim da banda é ainda mais propício.

Lembre um terço da sua vida você trabalhou e odiou/Mas serviu de aprendizado/Pense em cada otário que enriqueceu e te humilhou/Pra servir de aprendizado

Espero que eles retornem. Ainda tem muito a nos oferecer como arma para suportar a realidade que vivemos. Enquanto isso ouçamos não só falha crítica, mas toda a sua discografia. Para finalizar não poderia deixar de falar do nome escolhido para o álbum. Sobretudo porque ele remete a crítica do Herbert Marcuse a ideologia da sociedade contemporânea quando ele fala da substituição da racionalidade humana pela racionalidade tecnológica, caracterizada pela ausência da crítica. E acredito que isso vai de encontro a mensagem da banda nesse álbum. Quando perdemos a nossa capacidade de crítica, que em última análise é o que faz de nós o que somos, deixamos de ser nos transformamos em coisa.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.