sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Leituras: Metafísica dos Costumes, Immanuel Kant

Quando peguei a Metafísica dos Costumes (1797), de Immanuel Kant para ler, não pude deixar de lembrar de uma fala do Filósofo e Professor Clóvis de Barros num evento em que ele ressalta que ler determinadas páginas da obra kantiana é a oportunidade de termos uma experiência com um texto difícil. E olha que dizem que esse não é o mais difícil que Kant escreveu. Tem uma tal de Crítica da Razão Pura (1781) que não é para qualquer um. Como um desdobramento da sua filosofia metafísica dos costumes também não é para qualquer um. Ainda que sobretudo a segunda parte seja, digamos, mais tragável por trabalhar a questão da moral a partir de uma perspectiva prática. Mas não é inacessível, desde que a leitora e o leitor esteja disposto a enfrentar um texto difícil. Como diz o Clóvis de Barros - se o cara escreveu, você só tem que ler e compreender. Tudo bem, não é tão simples assim.

Immanuel Kant é um dos nomes mais celebrados da história da filosofia. Nascido em Königsberg, no Reino da Prússia (atual cidade de Kaliningrado, na Rússia) em 22 de abril de 1724, nos legou uma das principais contribuições da Filosofia Moderna tanto no campo da teoria do conhecimento, na ética, na estética e na política. Em linhas breves com o seu criticismo, tal como é conhecida, faz uma revolução ao mover o foco do conhecimento do objeto para o sujeito. Kant dirá que não é possível conhecer a coisa em si, mas aquilo que aparece (o fenômeno). Ele propõe uma síntese entre racionalismo e empirismo pontuando a relação entre forma e matéria. Sendo que a primeira somos nós mesmos, já a segunda são as coisas em si. Para conhecer as coisas precisamos de formas a priori. Logo ele afirmará que o tempo e o espaço não existem como realidades externas mas são antes formas a priori que colocamos nas coisas. Compreender a metafísica dos costumes passa necessariamente pela compreensão do criticismo kantiano. Por isso, ainda que de forma breve, faço essa breve introdução.

De onde tirei essa compreensão do criticismo kantiano? Não, não foi lendo metafísica dos costumes. Foi a partir dos meus estudos para as aulas de filosofia no ensino médio - sim, sou professor de Filosofia com graduação, especialização e mestrado na área. Mas não se iluda, mesmo com essa formação não foi fácil a leitura. Não digo isso para que você desista, mas para que esteja preparado. E para que esteja preparado, lhe oriento a ler textos de comentadores que lhe darão chaves importantes para o que virá. 

A edição que li é da Folha de São Paulo com tradução do Edson Bini e traz um glossário que muito nos ajuda na compreensão do texto. Costumo dizer nas minhas aulas de Filosofia que todo filósofo ou filósofa tem uma identidade filosófica única por meio dos conceitos que elabora. Por exemplo, quando falamos em imperativo categórico. Outros pensadores podem até reproduzir, mas isso é Kant.

Vamos então à metafísica dos costumes, obra publicada pelo nosso filósofo em 1797. Posterior a livros como Crítica da Razão Pura (1781), Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica do Juízo (1790) - sua trilogia clássica. Na obra em questão o seu problema é a busca pelo fundamento da moral numa perspectiva universal. Divididos em duas partes, sendo que a primeira se dedica a reflexão acerca dos princípios da metafísica da doutrina do direito enquanto que a segunda reflete acerca dos primeiros princípios da metafísica da doutrina da virtude. Essas duas partes expressam uma preocupação de Kant com o fundamento de algo. E na obra em questão podemos dizer que é o dever.

“Através dos imperativos categóricos certas ações são permitidas ou proibidas, isto é, moralmente possíveis ou impossíveis, enquanto algumas delas ou seus opostos são moralmente necessários, ou seja, obrigatórios. Para estas ações, então, surge o conceito de dever, cuja observância ou violação está efetivamente ligada a um prazer ou desprazer” (2010, p.45-46).

O trecho acima reflete o que dizemos anteriormente acerca do fundamento da moral kantiana ser o dever. Por que devo agir de determinada forma e não de outra? Ora, eu sou livre para agir da maneira que me aprouver. Não é mesmo? Mas os demais também são. Não é mesmo? E aí é que está o ponto. Se todos somos livres para agir como bem entendermos o que não aconteceria se não houvesse algo para frear o nosso desejo, compreendido também pelo nosso filósofo como vontade. “O arbítrio humano , contudo, é uma escolha que, embora possa ser realmente afetada por impulsos, não pode ser determinada por estes” (2010, p. 44). É nesse contexto que entra a razão para frear esses impulsos. Podemos agir assim e assado, mas devemos agir assim e assado? É aí que entra a obrigação que para o nosso filósofo “é a necessidade de uma ação livre sob um imperativo categórico”. E o que seria esse imperativo? “Uma regra prática pela qual uma ação em si mesma contingente é tornada necessária”. (2010, p. 46). Um aspecto importante na perspectiva ética kantiana é a liberdade. Eu não ajo de determinada forma porque sou obrigado pelo um fator externo mas pela minha própria consciência. E aqui chegamos ao imperativo categórico que deve fundamentar essa ação: “age com base em uma máxima que pode também ter validade como lei universal”. Não vamos entrar aqui nas consequências e viabilidade dessa perspectiva. Mas não poderíamos deixar de apontar pelo menos para uma: não levar em consideração a diversidade sociocultural.

Não chegamos nem à introdução da primeira parte e deu para perceber a densidade da obra. Para Clóvis de Barros só as três primeiras páginas são suficientes (o que na verdade é uma provocação). Se você leu e compreendeu as três primeiras páginas, vale a pena chegar ao final da obra. Eu particularmente gostei bastante sobretudo da segunda parte onde encontramos trechos como:

“Todo ser humano tem um direito legítimo ao respeito de seus semelhantes e está, por sua vez, obrigado a respeitar todos os demais. A humanidade ela mesma é uma dignidade, pois um ser humano não pode ser usado meramente como um meio por qualquer ser humano (quer por outros quer, inclusive, por si mesmo), mas deve ser usado ao mesmo tempo com um fim. É precisamente nisso que sua dignidade (personalidade) consiste, pelo que ele se eleva acima de todos os outros seres do mundo que não seres humanos e, no entanto, podem ser usados e, assim, sobre todas as coisas” (2010, p. 206-207).

O problema desse discurso é que o ser humano na perspectiva kantiana é o homem branco europeu. Se considerarmos o ser humano em toda a sua diversidade seria inaceitável o que os europeus fizeram com os povos indígenas e africanos, por exemplo. Isso quer dizer que devemos rechaçar Kant totalmente? Evidentemente que não. Uma estratégia mais inteligente, creio eu, é se apropriar desse discurso radicalizando-o.

Para finalizar, na parte final da obra Kant fala sobre o ensino da ética a partir da compreensão de que não nascemos virtuosos. Ele diz que a virtude não só pode como deve ser ensinada. Destacando que a decisão para tanto deve ser tomada de forma imediata tendo em vista que podemos ceder ao vício tentando escapar dele. Já como ensinar, Kant defende uma perspectiva científica ou seja deve se desenvolver de modo sistemático tendo como método o diálogo: “O mestre, através de suas perguntas, norteia o curso de pensamento do seu jovem aluno, meramente lhe apresentando casos em que sua predisposição para certos conceitos se desenvolverá (o mestre é a parteira das ideias do aluno).” Não restringindo a isso pois senão seria um diálogo socrático. Para Kant não só o mestre deve fazer as perguntas mas deve criar as condições para que o estudante também elabore perguntas. Ele então defende que “o instrumento de ensino da doutrina  da virtude é uma catequese moral” que nada tem haver com catequese religiosa. E ele também salienta o meio experimental (técnico) que consiste no bom exemplo por parte do mestre. Ressaltando que para quem está em formação imitar outro consiste “a primeira determinação de sua vontade”. Logo, se o mestre não é exemplo o que ele está formando?

Preciso parar. Meu intuito era fazer algo mais objetivo, mas fui me empolgando e cheguei até aqui. Mas enfim, eis o fim. Leiam Kant, leiam Metafísica dos Costumes.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

domingo, 25 de outubro de 2026

Rascunhos: Tempos difíceis

Após mais um dia de trabalho Bia seguia de cabeça baixa de volta para casa. O seu olhar era de quem carregava consigo uma profunda tristeza, ninguém precisava conversar com ela para saber que estava infeliz. 

Não eram tempos fáceis para ela, tanto na vida pessoal como profissional. Na vida pessoal o casamento com Gustavo havia se tornado uma prisão. A cada dia ela se sentia mais infeliz sendo simplesmente uma dona de casa cuidando dos filhos e do marido. E contra a vontade deste decidiu voltar para sala de aula. E tal decisão contribuiu para que se acelerasse o fim do seu casamento com ele – um casamento que se mostrava por demais frágil, já há algum tempo.

Bia até que tentou – fez um esforço tremendo para viver uma vida feliz ao lado de Gustavo. Por isso que assim que se casaram e ela ficou grávida do primeiro filho, por exigência dele, deixou o vão do mutum - às aulas na escolinha do povoado para morar na capital. Depois de um tempo veio o segundo filho e Bia teve que se dedicar só a família. E por um tempo ela foi uma excelente dona de casa, admirada por muita gente. Mas para tanto ela teve que abrir mão de muita coisa, até que chegou num momento que ela não podia mais suportar a vida de casada ao lado de Gustavo e tomou a decisão que o magoara tanto.

A volta de Bia a sala de aula foi em um grande colégio público de Palmas. E não demorou muito para que ela se decepcionasse com a realidade do ensino por ali. A sua decepção não era com a profissão, mesmo sabendo o quanto o professor é desvalorizado no Brasil. A sua decepção era com o sistema educacional. 

Ela sentiu na carne – Todos sabem dos problemas da educação, no entanto ninguém se move para mudar, e o pior é que aqueles que se movem acabam sendo perseguidos.

Quando Bia fazia este desabafo lembrava não só da experiência que estava vivendo naquela escola, mas também da experiência que tivera no vão do mutum – quando chegou naquele povoado acreditava que iria fazer uma revolução, mas logo se viu isolada e perseguida pelas elites locais e até mesmo pelos próprios colegas de profissão. 

Mesmo diante dessa realidade difícil, Bia não desistiu e continuou tentando conscientizar a comunidade campesina para que se organizasse e lutasse pelos seus direitos. Mas todos os esforços que fazia pareciam ser em vão. Ninguém parecia disposto a mover uma palha para que melhorasse o mínimo possível ás condições de ensino naquele lugar. Até que ela foi obrigada, por pressão do marido a deixar o vão do mutum e ir morar na capital.

Mesmo com todas as dificuldades que enfrentara no vão do mutum, ali foi o único lugar que ela sentiu prazer em dar aula. Que ela sentiu orgulho de ser professora. Que ela sentiu que estava contribuindo minimamente para melhorar a vida das pessoas. Agora, naquela escola em Palmas, todos estes sentimentos estavam sendo perdidos.

Ela que outrora fora urbana em demasia, não estava se dando bem naquela escola da capital.

- O sistema educacional aqui na cidade é mais degenerado do que no campo, os profissionais mais acomodados, e os alunos mais revoltados. Dizia Bia para um amigo

Bia se lembrava de uma conversa que tivera com Camilo sobre uns alunos revoltados que ela tinha no colégio de Cachoeira de todos os santos.

- Olha menina, eu não acho que é ruim ter alunos rebeldes, desde que essa rebeldia não seja desperdiçada em questões fúteis. Aí cabe vocês professores conscientizá-los para que essa rebeldia não vire vandalismo.

Bia se lembra que naquela oportunidade não gostou muito do comentário de Camilo. Achou que ele estava tomando partido dos alunos em vez de apoiá-la. Aliás, ela notava que Camilo sempre assumia essa postura que não lhe agradava nem um pouco. Porém com o tempo ela foi percebendo que as críticas dele eram corretas.

E Bia tentou mais uma vez tal como fizera no vão do mutum organizar algum movimento na sua nova escola, no entanto logo foi abafada pelos seus próprios colegas professores, que acomodados não tinham nenhuma disposição para lutar para fazer alguma mudança por ali.  E ela então começou a se questionar novamente se valia a pena o sacrifício. Bia buscou de todas as formas resistir aos ataques que sofria, procurava superar as barreiras que surgiam no seu caminho. Mas a cada dia sentia-se mais isolada e incapaz de continuar resistindo.

Nesse período de sua vida o Camilo passou a estar mais presente no seu pensamento – hora e outra ela se lembrava do entusiasmo de Camilo com a educação, da forma com que ele falava da importância da educação para transformação da sociedade em que vivemos. 

- Para um Brasil diferente, uma educação decente. Dizia ele sorrindo

No entanto, o que era muito bonito de se dizer, um ótimo slogan para campanha eleitoral, era difícil de realizar.

- Se o Camilo visse essa realidade ia perceber que não é tão fácil assim mudar, sobretudo quando os principais interessados nessa mudança cruzam os braços, e ainda pior, acabam trabalhando contra aqueles que querem mudar. Dizia Bia baixando as armas 

Ela então seguiu até a escola onde dava aula e oficializou o pedido de demissão. Não podia continuar naquele espaço onde se sentia extremamente infeliz, não era justo com ela e muito menos com seus alunos. Pois por mais amor que ela tinha por sua profissão, não podia estar ali infeliz como estava.

- Ora, qual a qualidade da formação que eu posso dar para esses jovens, com a falta de motivação que estou? Não, não é justo comigo e nem com eles, sobretudo.

- Agora você vai voltar a ser simplesmente dona de casa Bia? Cuidar de casa, dos filhos e do marido?

- Jamais. O meu casamento acabou há muito tempo e não tem mais volta. Sinceramente não sei o que fazer ou o que quero, só tenho plena certeza do que não quero. Por enquanto o que vou fazer é deixar as crianças sob a responsabilidade do Gustavo, pois ele tem mais condição de criá-los. Vou jogar uma mochila nas costas e sair por aí sem destino.

- Você só pode estar ficando louca.

- Bom, não é a primeira vez que ganho esse tipo de elogios. O que sei é que sou muito jovem para viver infeliz. De abrir mão dos meus sonhos para viver uma vidinha medíocre como dona de casa cuidando de filhos e do marido ou numa sala de aula falando para as paredes.

E assim Bia fez – jogou tudo para o alto e foi em busca de uma nova vida. Uma nova vida que ela ainda não sabia bem como seria. Ela só esperava que fosse bem diferente da que ela vivera nestes últimos dez anos.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Comentários acerca do 2º turno das eleições no Tocantins em 2026

1- Não houve surpresa em relação aos candidatos eleitos para compor a assembleia legislativa do Tocantins assim como os nomes  eleitos para o congresso nacional (câmara dos deputados e senado). Também não houve surpresa quanto aos candidatos que seguiram para disputa do segundo turno: Dorinha (União Brasil) e Vicentinho (PSDB) ao governo do Tocantins. Lula (PT) e Flávio (PL) à Presidência da República. Inclusive o fato de ter segundo turno - o que alguns analistas diziam que não aconteceria;

2- Quem ganhou o primeiro turno hipoteticamente sai na frente no segundo turno. Mas isso não significa que a vitória está garantida. Sobretudo quando a distância não é inalcançável. Ainda mais levando em consideração os dados do primeiro turno como abstenções e votos em branco. Quando esse número é significativo, quem está atrás deve ter esse eleitorado como foco. Sobretudo porque é extremamente difícil virar voto (Isso vale especialmente para a disputa pela presidência da república);

3- Na disputa regional percebemos uma movimentação no sentido de buscar apoios de líderes políticos e parlamentares eleitos. Nesse sentido Dorinha não perdeu tempo em assumir, aquilo que omitira no primeiro turno - o apoio a candidatura de Flávio Bolsonaro - que teve uma vantagem significativa em relação ao Lula no Tocantins, sobretudo nos grandes municípios. Vicentinho, preterido por Flávio, mirou em nomes descontentes do grupo de Dorinha após o resultado do primeiro turno. Esse foi o caso por exemplo do Eli Borges - que mesmo não sendo eleito teve uma votação expressiva para o senado;

4- Na disputa nacional o movimento tem sido distinto entre os dois nomes que estão na disputa. Lula tem focado nos indecisos e naqueles que não foram votar no primeiro turno, que segundo pesquisas a maioria tende a votar no candidato petista. Flávio por sua vez busca manter a vantagem do primeiro turno - ampliando-a a partir da adesão de partidos do centro e a bancada de extrema direita eleita para o congresso nacional;

5- Qual estratégia se sagrará vitoriosa eleitoralmente? Não cometerei o erro de alguns comentaristas políticos que buscam adivinhar o resultado. Por outro lado, não tem como irmos contra o que a realidade nos fornece. E o que a realidade tem nos revelado é que há por parte do eleitorado um sentimento de mudança. E quem tem incorporado esse sentimento de mudança é Vicentinho a nível regional e Flávio a nível nacional. 

6- Não há capacidade crítica por parte do eleitorado de entender que nem toda mudança é para melhor.

7 - A nível nacional é até justificável o sentimento de mudança. Ao longo do atual mandato, Lula teve que lidar com um índice de reprovação  maior do que o de aprovação. Sem falar no seu desgaste como  líder que está na vida pública há décadas - estando no seu terceiro mandato e buscando um quarto. Apesar de muitos anos na vida pública, Flávio é jovem, e com a força do capital político do seu pai (Jair Bolsonaro) tornou-se uma alternativa real para milhares de pessoas que acreditam que o Lula já deu o que tinha que dar.

8- A nível regional esse sentimento de mudança não nos parece justificável. O governador Wanderlei Barbosa, que é o principal cabo eleitoral de Dorinha, tem um mandato à frente do executivo estadual com uma aprovação maior que a rejeição. Logo uma candidatura que se apresenta como continuidade a uma gestão bem avaliada deveria ser a favorita, não?! Me parece que há um elemento aí que ninguém está observando, sobretudo com as adesões à candidatura do Vicentinho após o resultado do primeiro turno.

09- Dorinha e Vicentinho são do mesmo espectro político - ambos se declaram de direita. Ambos dizem apoiar e votar em Flávio Bolsonaro. O programa de governo de ambos é praticamente o mesmo. Ambos nunca exerceram o cargo de governador/governadora. Qual a diferença então? Porque há um movimento não só por parte do eleitorado mas de lideranças políticas e parlamentares, inclusive nomes que foram eleitos no primeiro turno na chapa da Dorinha rumo a candidatura do Vicentinho? Isso me cheira a machismo.

10- Ao observar todo esse movimento lembrei de um comentário que uma colega fez ainda no início da campanha. Ela disse que se a eleição fosse para o segundo turno todos esses homens se uniriam e não deixariam a Dorinha ganhar. Não dei muito crédito a essa declaração pois com a força do governo Wanderlei via o favoritismo da senadora mesmo com um segundo turno. Mas um colega esses dias me levantou o questionamento: E se o próprio Wanderlei estiver contribuindo para a vitória do Vicentinho?

11- Para concluir, estamos a poucos dias das eleições. Essa é a eleição mais importante desde a redemocratização, sobretudo no que diz respeito ao embate nacional. Não escondo o meu posicionamento em defesa do Estado democrático de direito e de condições dignas de vida para todos. Por isso vou de Lula (13). Quanto ao contexto regional se votar na Dorinha (44) significa ir contra o machismo, ainda que ela seja de direita, que seja então.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Teresa, a filósofa e a Educação sexual na Escola

De tempos em tempos nos deparamos com uma notícia que dá conta de denúncias de abuso sexual envolvendo um lider religioso. Aproveitando da sua condição de guia espiritual que construiu uma relação de confiança com a vítima (que passa por um momento de fragilidade), o crime é cometido com a esperança que nunca venha a luz - que o diga o Médium João de Deus, Bispos, Padres, Pastores e Pais de Santo. Muitos de fato não veem a luz, pois nem todas as vítimas tomam consciência do abuso a não ser quando se afastam do abusador e aquilo começa a afetá-la de tal forma que é impossível guardar só para si. Será que se houvesse educação sexual nas escolas muitos casos não seriam evitados? Se sim. Porque há tanta resistência de setores na sociedade contrario a isso?

Recentemente li um livro que me fez ficar pensando nesse problema. Trata-se do romance do século XVIII, Teresa, filósofa, de autoria anônima. Na história uma jovem (Teresa) narra a descoberta da sua sexualidade num ambiente aparentemente conservador - aparentemente - o espantoso é perceber que a narrativa supostamente ficcional não é muito diferente do que acontece atualmente. O ponto de partida da narrativa é inclusive o caso do abuso sexual cometido por um grande lider religioso - o Padre Jean-Baptiste Girard contra a jovem devota Catherine Cadière.

A narrativa descreve cenas eróticas o que me fez ao terminar a leitura achar que a obra seria para maiores (18+). No entanto, ao mesmo tempo, passei a achar que não. Foi a partir daí que surgiu a questão da educação sexual, como uma forma da mulher tomar consciência da sua sexualidade e se defender de abusadores. Pois se há algo que não podemos reprimir, e o romance é muito feliz nesse sentido, é a nossa sexualidade. 

Nessa linha é importante destacar o que diz Sigmund Freud em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905): "O saber popular cria uma imagem precisa da natureza e das propriedades da pulsão sexual. Supõe-se que ela falta na infância, desperta por ocasião do processo de maturação da puberdade e se exprime nas manifestações de atração irresistível que um sexo exerce sobre o outro; seu objetivo seria a união sexual ou, pelo menos, as ações que levam a ela. Temos, porém, todas as razões para ver nessa imagem um retrato bastante infiel da realidade."

Percebemos isso sobretudo no início da narrativa da Teresa quando ainda criança ela começa a sentir pulsão sexual. Mas sua mãe ao invés de orientá-la quanto aquele fenômeno, decide mandá-la para um convento onde será orientada por um discurso fantasioso a reprimir sua sexualidade. 

Desde muy niña sólo oí hablar de amor a la virtud y horror al vicio. «No serás feliz —me decían— si no practicas las virtudes cristianas; todo cuanto se aparta de ellas es el vicio; el vicio atrae el desprecio general, y el desprecio engendra vergüenzas y remordimientos.» Persuadida de la solidez de estas lecciones, procuré ajustar a ellas mi vida, hasta la edad de veinticinco años. Vemos cómo me fue con tales normas. (Desde muito pequena só ouvi falar de amor à virtude e horror ao vício. «Não serás feliz — me diziam — se não praticares as virtudes cristãs; tudo o que se afasta delas é o vício; o vício atrai o desprezo geral, e o desprezo gera vergonhas e remorsos.» Convencida da solidez dessas lições, procurei ajustar minha vida a elas até a idade de vinte e cinco anos. Vemos como me saí com tais normas).

O trecho acima é do romance Teresa, filósofa (edição em espanhol), no qual ao iniciar sua narrativa, ela fala ao seu interlocutor quais foram os princípios que aprendeu na infância que lhe guiaram até os 25 anos. E evidencia o que falamos anteriormente seguindo Freud. No trecho ela diz que aprendeu que devia cultivar as virtudes cristãs e rechaçar os vícios. Quem conhece um pouco do cristianismo sabe que temos aí uma boa dose de platonismo - que consiste na exaltação do mundo das ideias (alma) e a condenação do mundo dos fenômenos (corpo).

"Enquanto tivermos o corpo e a nossa alma estiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto dos nossos desejos, ou seja, a verdade. Pois o corpo nos impõe mil exigências pelo sustento de sua vida [...] enche-nos de amores, desejos, medos e toda sorte de ilusões."

O trecho acima não é de um sermão religioso, mas do nosso querido Platão no Fédon. É contra essa filosofia que Nietzsche irá se sublevar como podemos ver num trecho de Além do Bem e do Mal.

"Não sejamos ingratos para com ele [o erro platônico], embora se deva admitir que o pior, mais duradouro e mais perigoso dos erros até hoje cometidos foi um erro de dogmático, a saber: a invenção de Platão sobre o Espírito Puro e o Bem em Si. Mas agora que ele foi superado, agora que a Europa respira aliviada deste pesadelo [...] falar do Espírito e do Bem como fez Platão não significaria inverter a verdade e negar a própria perspectiva, a condição fundamental de toda a vida? [...] Pois o cristianismo é o platonismo para o 'povo'."

Ao longo da narrativa Teresa vai nos revelando como sua visão acerca da sexualidade vai mudando. Sobretudo quando descobre o que acontecia na vida privada daqueles que diziam ser os guias (religiosos) das práticas virtuosas. E ao final ela se convence que reprimir seus desejos não é agradar a Deus. A partir de então podemos dizer que ela passou a existir de fato: “Todo es obra de Dios: Él nos inspira el deseo de comer, de beber y de gozar de todos los placeres.” (Tudo é obra de Deus: Ele nos inspira o desejo de comer, de beber e de desfrutar de todos os prazeres)

Nesse contexto, vale questionar a quem interessa projetos de lei como o de N.º 4.844, DE 2023, de autoria do Deputado Rodolfo Nogueira que se aprovado proibiria “a educação sexual nas escolas de educação básica”. Entendendo como “educação sexual toda e qualquer atividade de ensino, orientação ou informação que trate de temas relacionados à sexualidade, incluindo: Aspectos biológicos: o desenvolvimento do corpo e das funções sexuais; Aspectos psicológicos: as emoções e os sentimentos relacionados à sexualidade; Aspectos sociais: as relações interpessoais e os papéis de gênero; Aspectos éticos: os valores e os direitos relacionados à sexualidade.” E ainda determinando que “a escola não poderá ministrar aulas de educação sexual, independentemente do consentimento dos pais ou responsáveis legais.”

Negar o que faz parte da natureza humana não nos parece o melhor caminho para proteger a criança e o adolescente. Pelo contrário, mantê-lo na ignorância contribui para que se tornem presas fáceis de abusadores. Ressalto porém que a educação sexual deve ser ministrada por especialistas que certamente saberão o que trabalhar e como trabalhar determinados objetos de conhecimento de acordo com cada faixa etária.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

sábado, 10 de outubro de 2026

Crônica: No eixão ou é o Brasil!

Peguei o eixão em direção ao centro. O movimento me pareceu normal levando em consideração que era feriado. Pelo que pude perceber era horário de troca de turno de trabalhadores do comércio de alimentos (havia muitos deles uniformizados) que trabalham na escala 6x1 - para esses não há sábado, domingo e feriado. Mas o que me chamou atenção mesmo foi um senhor com os seus 70 anos com uma camisa vermelha, um adesivo da candidatura do Lula para Presidente no peito e um chapéu do PT. Pensei comigo - eis alguém de coragem. Sobretudo diante do fato de que estamos numa das cidades mais bolsonarista do Brasil.

O ônibus seguia colhendo gente pelo caminho - o povo da periferia que vende sua força de trabalho repondo mercadorias nas prateleiras do comércio varejista, servindo os clientes nas padarias, açougues e nos caixas do centro. Muitos deles jovens. Não pude deixar de lembrar de mim mesmo quando terminei o ensino médio e tive como primeiro trabalho de carteira assinada reposição de mercadoria num grande supermercado na capital goiana. Eu também trabalhava na escala 6x1 e pegava coletivos lotados todos os dias da semana. Odiava ter que trabalhar feriados, odiava trabalhar sábado e domingo. Sobretudo porque era um trabalho que não gostava, que fazia pela sobrevivência.

Entre os jovens trabalhadores naquele ônibus um me chamou atenção. Pelo seu uniforme provavelmente trabalhava no setor de frios e laticínios. Estava com uma latinha de cerveja na mão. Pelo seu comportamento, aquela não era a única que havia bebido. Fiquei pensando se estava voltando ou indo para o trabalho. Pois se estivesse indo naquelas condições era demissão na certa (há não ser que estivesse fingindo a embriaguez). Voltando do trabalho não me pareceu lógico. Pois geralmente alguém não vem do centro trabalhar no comércio na região sul, a não ser que seja o dono do comércio. Ou só se fosse um desses milionários excêntricos que estava fazendo uma experiência e não tinha suportado a jornada. 

O ônibus estava lotado. Em um dado momento ele começou a cantar alto:

Do you have the time to listen to me whine
About nothing and everything all at once?
I am one of those
Melodramatic fools
Neurotic to the bone
No doubt about it

Reconheci imediatamente a música (basket case, do Green Day) sua voz era péssima, seu inglês mais ainda. Não pude deixar de sorrir discretamente. Ele certamente tinha consciência do que estava cantando. Se não posso dizer que a letra casava muito bem com o estado de espírito que ele parecia estar. Seria o trabalho? A vida pessoal? O momento político do país? Não, eu não tinha tempo para ouvi-lo choramingar e descobrir o que era.

O senhor com o boné do PT e o adesivo do Lula me perguntou se a estação Krahô estava distante. Respondi que não. Ele então disse que desceria lá e começou a se deslocar para mais próximo da porta com a ajuda de uma moleta. Durante o trajeto até ali ele manteve um semblante fechado olhando para o horizonte. Talvez fosse uma defesa para evitar provocações. Talvez estivesse preocupado com o futuro - imagino o quanto não é difícil um governo de extrema direita para um senhor aposentado ou pior, que depende de um benefício de prestação continuada (BPC) para sobreviver. Não sei se era o caso dele. Sei que é o caso de tantos outros. Sobretudo daqueles trabalhadores da periferia se deslocando para os seus trabalhos. Quando ele se levantou em direção a porta lhe dei um tapa no ombro e disse: - vamos virar. Ele sorriu e respondeu: - sim, vamos. No mesmo ponto que ele desceu, subiu um senhor mais ou menos com a mesma idade com uma camiseta amarela e os dizeres: Tocantins com Flávio Bolsonaro. Pensei comigo: Pode isso? Ele pediu o lugar preferencial que era ocupado por uma jovem trabalhadora e foi tirar um cochilo.

Enquanto isso, o nosso jovem embriagado sentou na poltrona ocupada outrora pelo senhor com o boné do PT e o adesivo do Lula. E passou a discutir com alguém pelo celular. Logo pude perceber que a conversa era sobre política, mais especificamente sobre uma pesquisa que não compreendi do que se tratava. Sei que ele questionava a pesquisa apelando para o IBGE. Pensei comigo - se ele está apelando para o IBGE, não é um bolsominion. A certeza veio quando ele gritou - fascista. Imaginei ele chegando no trabalho, sendo chamado atenção pelo patrão e metendo o dedo na cara dele e falando: - fique com o seu trabalho de merda, seu fascista.

O ônibus chegou ao ponto que eu iria descer. Desci. Muitos também desceram ao longo do caminho. O ônibus continuou cheio. Seguia nele o velho bolsonarista tirando o seu cochilo, o jovem revoltado e tantos outros apáticos - seguindo como gado para o seu trabalho - sem muita preocupação com o país que teremos nos próximos anos se hegemonia da extrema direita se consolidar com a eleição do seu candidato a presidente.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O nome Moisés Avelino na história do Tocantins

Durante uma visita ao museu Palacinho com estudantes do Ensino Médio do Colégio Esportivo Cívico Militar Santa Rita de Cássia, um comentário de um estudante questionando por que se falava tanto do Governador José Wilson Siqueira Campos, durante a exposição do guia (um professor de história), me deixou reflexivo. O guia tentou justificar que pelo fato de que aquele lugar havia sido construído pelo Siqueira nos primórdios da construção do que seria a capital definitiva do mais novo estado da federação. E a partir dali, com uma visão privilegiada das obras em desenvolvimento, governou o Tocantins. Não sei se essa explicação convenceu o estudante. Mas a mim não, sobretudo porque alarguei o meu olhar para além daquele espaço e percebi que o mesmo se repete em outros espaços públicos.
É inegável a relevância política do José Wilson Siqueira Campos na emancipação e desenvolvimento do Tocantins. Mas e outros personagens que inclusive chefiaram o executivo estadual? Não deixaram nenhum legado que não merece sequer uma menção? E ainda que não tenham deixado nenhum legado, só o fato de terem ocupado um cargo público a história não poderia ignorá-los. Aí então fiquei refletindo sobre um possível apagamento de determinados personagens na história oficial do Tocantins - entre esses nomes me veio à memória o do Governador Moisés Avelino.

Moisés Avelino (Médico e Empresário) foi o segundo governador do Tocantins - cargo que ocupou após um feito notável - derrotar o grupo político do José Wilson Siqueira Campos representado pela candidatura do Moisés Abraão.  Tal feito não foi obra do acaso. Avelino era um líder político com história no então norte goiano . Já havia sido eleito prefeito de Paraíso, administrando-a por dois mandatos consecutivos (1983/1988). Também foi presidente da Associação dos Municípios do Vale do Araguaia e Tocantins (1985-1987) e da Coopernorte-GO (1987-1988) - Cooperativa dos Produtores Rurais do Norte. O que o levou a ser eleito para Câmara dos Deputados (1989 e 1991). Ou seja, quando eleito para governar o Tocantins (1991-1994), Avelino já era uma liderança política com experiência de gestão e uma forte influência no setor da economia mais importante do Tocantins - o agronegócio. A sua gestão à frente do executivo estadual ficou para a história de forma bastante estigmatizada. Ainda mais com o triunfo do José Wilson Siqueira Campos na eleição que o sucederia (1994). Ao assumir o governo novamente Siqueira Campos construiu uma poderosa organização política (União do Tocantins) de inspiração oligarca, deixando pouco espaço para oposição. Reeleito em 1998, o Tocantins, politicamente, acabou sendo forjado a imagem e semelhança do “seu criador”. Diante disso é compreensivo por que o período de 1991 a 1994 (período em que Avelino esteve à frente do executivo estadual) é praticamente apagado da história do Tocantins.

Se olharmos para o período histórico em que Moisés Avelino esteve no governo do Tocantins, digamos que ele não pegou uma conjuntura favorável. Se não bastasse os desafios de administrar um estado em formação é importante lembrar que a nível nacional o Brasil sentia na pele o fracasso dos planos econômicos do então Governo Collor que o levaria ao impeachment. Mesmo assim aponta-se que o governo Moisés Avelino consolidou a política administrativa do Tocantins, realizou mais de 2 mil obras e atuou fortemente na interiorização de serviços básicos. No entanto, na eleição de 1998, quando Avelino tenta retornar ao governo enfrentando o candidato à reeleição José Wilson Siqueira Campos, o resultado mostra que a imagem do seu governo por parte da população não era positiva, tanto que a vitória do Siqueira foi de 61,65%. Anos depois retornou a disputar cargos políticos sendo eleito para Câmara dos Deputados (2007-2011) e a Prefeito de Paraíso (2013-2020) por mais dois mandatos consecutivos.

Na disputa eleitoral de 2026 o seu nome voltou a ser lembrado pelo Deputado Federal Vicentinho Júnior (PSDB) - candidato ao governo do Tocantins pela oposição. Com apoio da família de Avelino, o candidato tucano exaltou a figura do segundo homem a governar o Tocantins. Lembrando o feito que o levou ao governo - o qual pretende repetir - para tanto será necessário derrotar Dorinha (União Brasil) no 2º turno.

Independente da vitória ou não de um político que reconheça o legado do Governador Moisés Avelino (sobretudo depois da sua morte, não sendo portanto mais uma ameaça política), a tendência é que no decorrer dos anos  a história do Tocantins não só registre a sua existência como também os seus feitos - não que tenha sido algo extraordinário esses feitos mas é importante - e o que se espera numa democracia. Assim como é importante registrar o papel desempenhado por outros nomes que fazem parte da história do Tocantins. Pois se não nos cabe questionar que história do Tocantins estamos ensinando? Óbvio que compreendemos que por ser muito jovem é difícil uma história do Tocantins com o distanciamento necessário para que não seja tão partidarizada. De todo modo devemos fazer um esforço nesse sentido. Sobretudo se se faz história numa perspectiva científica.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Mais uma vez sobre as eleições ou em quem não votar no próximo dia 04 de outubro

Estamos nos aproximando do primeiro turno das eleições que ocorreram no domingo, 04 de outubro de 2026. Com o processo eletrônico de votação não demorara para sabermos o resultado. Como não há segundo turno para os cargos proporcionais (deputados estaduais e federais) e para senador, já no primeiro turno saberemos qual será a  composição do parlamento federal e dos estaduais. Já a eleição para os cargos majoritários (Presidente e Governador) a possibilidade de segundo turno parece incontornável. Dito isso, nosso objeto aqui será a eleição para o parlamento, sobretudo o congresso nacional (Deputado Federal e Senador da República), dando ênfase ao Estado do Tocantins. Faço isso partindo da compreensão de que o filósofo Paulo Arantes está correto quando chama atenção para importância da eleição de um parlamento progressista como condição sine qua non para o avanço de pautas que favoreçam a classe trabalhadora.

A atual legislatura eleita em 2022 entrará para a história como um dos piores parlamento de nossa história. Não à toa que foi denominada pelas ruas de congresso inimigo do povo. E de fato quando analisamos o legado que esses parlamentares irão deixar essa pecha não é nem um pouco injusta. Não vou aqui nem lembrar do nível de debate que presenciamos ao longo desses quatro anos tanto no plenário como nas comissões. Qualquer criatura que tem o mínimo de senso não pode achar normal os embates de baixo nível protagonizados pelo parlamento brasileiro nestes últimos anos. Não é possível que alguém que tenha o mínimo de senso se sinta representado por essa corja - uma corja que coloca qualquer governo como seu refém. Por isso que muitos nem aderem a um candidato ou candidata a presidente. Pois sabem que independente de quem ganhar, este terá que ceder espaço em troca de governabilidade. É por exemplo em nome da governabilidade que o Governo Lula não fez nada para acabar com a farra das emendas parlamentares - instrumento pelo qual o parlamento sequestrou o orçamento do executivo e usam para se manter no poder a qualquer custo. 

Para aqueles que têm memória curta é importante recordarmos alguns dos legados do atual parlamento brasileiro. O primeiro é o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) nº 3, de 2021 - conhecido como PEC da Blindagem ou PEC da Vergonha. De acordo com a proposta o objetivo seria “restringir investigações e processos criminais contra deputados e senadores, exigindo aval do Congresso para ações do Supremo Tribunal Federal (STF)”. Ou seja, um parlamentar suspeito de praticar algum crime só poderia ser investigado se seus pares assim autorizassem. O que dificilmente aconteceria sobretudo se esse parlamentar tivesse força política no congresso. Ou ainda se pudesse puxar consigo outros tantos. Enfim, uma vergonha que só não avançou devido a uma grande mobilização popular que tomou as ruas do país. Mas nada garante que, dependendo da conjuntura política, tal proposta volte à pauta.

Abro um parêntese aqui para lembrar que os 8 parlamentares representantes do Tocantins na Câmara dos Deputados votaram favorável à PEC da Blindagem. Eis os nomes deles caso não se recordem: Toinho Andrade (Republicanos), Vicentinho Júnior (Progressista/PSDB), Alexandre Guimarães (Republicanos/MDB), Carlos Gaguim (União Brasil), Ricardo Ayres (Republicanos), Filipe Martins (PL), Eli Borges (PL), Tiago Dimas (Pode). Todos eles são candidatos nesta eleição, nem todos à reeleição - É o caso do Toninho que disputa uma cadeira na Assembleia Legislativa do Tocantins, Gaguim, Eli e Alexandre disputam as duas vagas do Tocantins para o Senado Federal. E Vicentinho disputa o governo estadual. Independente a qual cargo disputam são nomes que não merecem o voto do campo progressista. 

Não podemos deixar também de lembrar da PEC do fim da escala 6x1 (221/2019) que está travada no Senado Federal e dificilmente será aprovada se colocada em votação após as eleições - e é exatamente essa estratégia do Presidente do Senado Federal - Davi Alcolumbre. Quando o projeto estava sendo discutido na Câmara dos Deputados é importante lembrar o posicionamento dos seguintes representantes do Tocantins (Alexandre Guimarães, Eli Borges, Antônio Andrade e Filipe Martins) que assinaram uma PEC paralela que pretendia protelar o fim da escala 6x1. Depois tiveram que recuar diante da vitória irreversível da proposta na Câmara e, certamente, pelo cálculo eleitoral que fizeram. O mesmo vale para o posicionamento favorável dos senadores Eduardo Gomes e Dorinha - que também não merecem o voto do campo progressista. 

Ora, não tem lógica votar num candidato ou candidata progressista para presidente ou governador e votar num candidato a deputado estadual, deputado federal e senadores com uma linha diferente. Seria compreensível se a política fosse voltada para a busca do bem comum. Mas depois de Maquiavel não é possível mais alimentarmos esse tipo de ilusão. O pior é continuar elegendo quem nós temos consciência do que tem a oferecer. Nesse sentido, além dos nomes citados anteriormente, nomes como Janad Valcari, Lucas Campelo, Luana Nunes, Jair Farias, Professor Fábio, Alfredo Júnior, Sandoval Cardoso, Coronel Barbosa não merecem o voto progressista.

Enfim, nessa eleição mais do que qualquer outra, será extremamente estratégico eleger um parlamento que esteja alinhado com as pautas do movimento popular. Pois dependendo da composição que teremos, mesmo com a possível reeleição do Presidente Lula, continuaremos refém de um parlamento que está mais preocupado em manter os privilégios de uma elite branca do que com a melhoria das condições de vida do povo trabalhador.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Quando a leitura finaliza

Quando terminei a leitura de Crime e Castigo (Fiódor Dostoiévski) fiquei alguns dias sentindo falta daquele ambiente, daqueles personagens. Como estavam? Questionava-me como se eles existissem de fato. Dias depois estava submerso em outra leitura, agora os Capitães da Areia (Jorge Amado). Quando terminei a leitura novamente me peguei sentindo falta dos lugares e personagens retratados naquelas páginas. Eu sempre fui impactado pelas leituras que faço. Mas ultimamente isso tem sido mais forte. Lembro que quando li Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Marques) a Macondo dos primeiros tempos me afetou profundamente. Estive pensando nisso e de repente percebi que o meu encantamento por Macondo e seus personagens está no fato de que eles lembram muito do lugar onde cresci e das pessoas que me cercavam. 

Há personagens que não me saem da memória. Hora e outra penso nelas. Imagino como estaria o Bentinho (Dom Casmurro, Machado de Assis). Questiono-me se ele não teria cometido uma injustiça contra a Capitu. Lembro também de Rubião (Quincas Borba, Machado de Assis) e fiquei refletindo sobre o seu fim. Se fosse diferente teria mexido tanto comigo? E o Fabiano de Vidas Secas (Graciliano Ramos), por onde anda? Sinhá Vitória e os meninos sem nome. Em Até amanhã, camaradas (Manuel Tiago) me recordo do Paulo e dos seus companheiros se dedicando e se sacrificando pela construção da luta do proletariado. Dom Quixote (Miguel de Cervantes) e Viramundo (Fernando Sabino), figuras trágicas. 

Nesses anos todos de leitura foram tantos livros, tantas histórias, tantos lugares, tantos personagens. Acredito que eles contribuíram em alguma medida para que me tornasse o que sou hoje. Sou um ser um tanto solitário. Não gosto de sair de casa (odeio viagens). Não gosto de me relacionar na intimidade com muitas pessoas (no meu círculo íntimo de amizades há pouquíssimas pessoas). 

A leitura e a escrita são o meu refúgio. Viajo pelos lugares que as páginas me apresentam. Conheço personagens admiráveis - com seus defeitos e qualidades - compartilho de suas dores e alegrias. E aprendo com eles. Compartilho as minhas dores e alegrias com os personagens que crio. Alguns poderiam dizer que eu deveria deixar os livros de lado e ir viver. Quem disse que eu não vivo? A compreensão do que é viver para mim é estar bem comigo mesmo. Com as escolhas que faço. E em relação a isso não tenho remorsos e nem ressentimentos. Tudo aconteceu como tinha que acontecer. Como o episódio que mudou a vida do Raskolnikov em Crime e Castigo. A morte de Dora em Capitães da Areia. A solidão do Aureliano Buendía em Cem anos de solidão ou o fim de Bentinho e Capitu.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

domingo, 20 de setembro de 2026

Uma dose de punk rock - Delinquentes e Cérebro de Galinha

Tenho ouvido bastante punk rock, tanto nomes mais clássicos como novos artistas que levam adiante o grito contra uma sociedade opressora. É incrível a quantidade de trabalhos bons que encontramos de bandas de várias partes do globo. Muitas já estão há algumas décadas na estrada, outras são novatas mostrando a validade do lema: "Punk is not dead" - um grito de resistência necessário ainda mais num contexto em que o fascismo tem atraído milhões de jovens. O punk tem como essência a luta contra toda forma de opressão - e sendo o modo de produção capitalista opressor - o punk é portanto anticapitalista e antifascista. Para evidenciar melhor o que estou dizendo, conheçamos alguns nomes que quem gosta desse tipo de música, na minha visão, não pode deixar de ouvir. 

Comecemos por uma banda veterana do norte do Brasil, isso mesmo - quem disse que não tem punk rock no norte do Brasil? Estou falando da Delinquentes - de Belém do Pará - formada atualmente por Jayme Katarro (vocais), Paulo Bigfoot (guitarra), Pablo Cavalcante (baixo) e Victor Peixe (bateria). Com um som veloz e letras com uma forte crítica social o grupo construiu ao longo das décadas uma discografia de respeito com quatro álbuns de estudo: Pequenos Delitos (2000), Indiocídio (2010), Infectus Humanus (2019) e A Serpente (2024). Além de dois materiais de apresentações ao vivo: Planeta dos Macacos - Ao Vivo na Praça da República (2022), Delinquentes ao Vivo no Hangar 110 (2023). Conheci a banda ouvindo pequenos delitos (2000). Já nos primeiros acordes percebi que não era um trabalho qualquer como muitos que nos deparamos. Qual não foi minha surpresa, ao pesquisar mais sobre a banda, descobrir que eram do norte do Brasil. Compreendo que isso é reflexo de um trabalho realizado pela mídia direcionando o nosso olhar para uma determinada região do país (eixo Rio-São Paulo) e assim mesmo vivendo na região ignoramos artistas como esses. A própria cena faz isso. Quando temos um festival os nomes de destaques geralmente são de bandas que estão no centro econômico-cultural do Brasil.

Varando as baixadas, passando por cima de pontes
Pessoas iludidas esperando um amanhã sombrio
A diferença é forte, crianças e velhos sem ter onde morar
Outros tem três quartos, um pra dormir e dois pra brincar

O trecho acima é da canção gueto que compõem o álbum Pequenos Delitos (2000), na qual percebemos uma crítica à desigualdade social. 26 anos se passaram e o que a letra trás continua extremamente atual. Atual também é a crítica que eles fazem em indiocídio, do álbum homônimo:

Culturas tombadas sob a cruz religiosa
Pureza assassinada por ambições pecaminosas
Ruinas da selva ensanguentada
Ruinas da selva petrificada
Fugas em desespero ao paraiso do pecado
O inferno urbano reciclando o bizarro

A reflexão aqui trata-se do etnocídio que as religiões continuam cometendo contra os povos indígenas. Com o discurso perverso de levar a salvação para essas comunidades o que observamos é o extermínio da cultura nos territórios que grupos religiosos conseguem adentrar. Chamo atenção também para atualidade de Monstros Nazistas:

Nascidos da pobreza de pensamentos antropófagos
Sentimentos de uma raça se opondo a outra igual
Filhotes crescidos de um fascismo assumido
O mais auto grau do puro idiotismo

Idiotismo que observamos nos seguidores do Bolsonarismo - fenômeno que tem tomado conta da política nos últimos anos - defendendo o que há de mais abjeto na nossa sociedade. Enfim, há muitas outras canções da Delinquentes que valeria a pena destrincharmos aqui ainda que de forma breve, mas ficamos por aqui. Vamos para o nosso próximo nome. Continuando na região norte - no Pará - mas em outra cidade - Marabá - temos a Cérebro de Galinha.

Na Cérebro de Galinha temos um som mais sujo com um vocal gutural potentíssimo. Os caras espancam os instrumentos com um ódio pulsante. As letras metem o dedo na ferida abordando expressões da questão social como também conflitos internos que todo ser humano enfrenta. Ainda mais um jovem que nasceu na periferia e não tem muita perspectiva. O destaque fica por conta do baterista (Suco) e do vocalista (Cego) que são a banda em si. Conheci o som dos caras por meio de um vídeo do ensaio que disponibilizaram na internet. E a partir daí fui buscar mais material e descobri que já lançaram os seguintes materiais de estúdio: Sociedades Secretas (2018) e Norte em Chamas (2021). E os ao vivos: Cérebro de Galinha (Ao Vivo no T'rextúdio) (2022), Mundo em Caos (2015) e Vozes da Quebrada (2025). Há também um documentário que retrata a viagem que fizeram para alguns shows em São Paulo - A viagem da Galinha Morta. E uma demo de 2017.

O primeiro álbum que eles gravaram está disponível em plataformas de ouvir música na internet e a qualidade é muito boa. Destaco a canção que abre o trabalho, Ameba, onde eles chamam atenção para consequência de quem se torna um viciado:

Colhendo o mal pelo diabo plantado
Sobrevivendo num limbo
Não restou mais nenhum amigo
A não ser a porra de um cachimbo

Também no mesmo álbum temos a pesadíssima Hipócrita onde destilam ódio contra os falsos moralistas.

Filho da puta, vai se foder
Playboy do caralho, só quer aparecer
Filho da puta, tem que morrer
E com o seu ego desaparecer
Mas um dia vai se convencer
Que ficar por cima só te faz perder
E finalmente vai perceber
Que cagar pros outros é cagar pra você

Se no primeiro trabalho a crítica deles é mais voltada para o Eu - essa entidade criada pela filosofia moderna que nos fez achar que somos o centro do universo e que no neoliberalismo é levado à exaustão. Em Norte em chamas (2021) eles focam mais em expressões da questão social como por exemplo em racismo onde chamam atenção para persistência dessa problemática e gritam pelo fim da segregação racial. Também desse mesmo trabalho temos reintegração de posse onde denunciam que a lei está a serviço de quem tem poder - mesmo com a constituição federal determinando a desapropriação de propriedade que não cumpre a sua função social. 

Reintegração de posse
não conte com a sorte 
não há deus por aqui…

Que o diga às vítimas do massacre do Eldorado dos Carajás, do massacre de Corumbiara entre tantos outros casos vitimando camponeses pobres, trabalhadores sem terra, quilombolas e indígenas. Chamo atenção também para Pororoka (Devastação da amazônia/ para expansão rural)  denunciando a destruição da natureza para gerar riquezas para os donos do capital e Norte em chamas (O Estado quer nos matar…sangue, sangue, sangue… Nascido de um estupro… Norte, Norte, Norte. Norte em chamas). Para finalizar destaco a canção Professores, de uma demo que gravaram em 2017:

Tirando a liberdade e autonomia do professor
Tratando como lixo quem deve ser tratado como senhor
E o governo autoritário cada vez mais opressor

Essa canção nos faz lembrar do movimento escola sem partido que sob o manto da neutralidade liderou um conjunto de ações que buscavam criminalizar o fazer pedagógico do professor/professora, especialmente os da área de humanas. Tanto que nesse contexto tentaram retirar a Filosofia e Sociologia do currículo da educação básica. Infelizmente esse movimento não foi derrotado e está presente nos programas de governo de nomes como Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e Renan Santos.

Enfim. Nossa ideia inicial era apresentar aqui outras bandas, mas Delinquentes e Cérebro de Galinha renderam bastante. Então paro por aqui. Mas com a intenção de fazer uma segunda parte e talvez outras mais. Quem sabe! O tempo irá dizer.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.