Para o Professor Raimundo
A sensação que tive é que futebolisticamente paramos no tempo. Ou pior, regredimos. Pode ser nostalgia da minha parte, mas na minha infância, quando o Estado do Tocantins estava no início e a capital sequer tinha 10 anos de criação - e estava distante de se tornar o que é hoje - o Campeonato de Futebol Tocantinense era mais organizado e disputado. Lembro que nos jogos tanto que o MEC (Miracema Esportes Clube) como o TEC (Tocantins Esportes Clube) disputavam no estádio Castanheirão as arquibancadas lotavam. E quando havia jogos entre os dois, a torcida do time vitorioso saia em carreata pelas ruas da cidade. Em outras cidades do interior também não era diferente. Tocantinópolis, Araguaína, Gurupi e Porto Nacional sempre montaram bons times com torcidas apaixonadas. Quando os times de algumas dessas cidades iam jogar em Miracema era garantia de jogos pegados. Mesmo Palmas já viveu tempos melhores.
Mas agora, numa tarde de sábado, num jogo de semifinal do principal campeonato de futebol profissional, ouso dizer que não haviam 500 testemunhas para presenciar a disputa entre o Capital (time de Palmas) e o Tocantinópolis (time da cidade de Tocantinópolis). E ouso dizer que 90% eram torcedores do “Verdão do Norte” - apelido dado ao time da antiga “Boa Vista do Padre João”.
Num estádio com a capacidade de receber entre 10.000 e 12.000 torcedores - um público desses num jogo de semifinal de campeonato de futebol profissional não é só vergonhoso, mas mostra a falência da Federação Tocantinense de Futebol (FTF) comandada por Leomar Quintanilha desde a fundação da entidade em 1990.
Alguns poderiam dizer que a quantidade baixa de torcedores nesse jogo é porque o time da capital, o Capital, não tem uma grande torcida e classificou como a quarta força não tendo condições de superar o favorito Tocantinópolis. No entanto, um levantamento feito pelo Globo Esportes (GE) mostrou que mesmo no interior a média de espectadores nos estádios na primeira fase do campeonato foi baixa - em 28 jogos tivemos míseros 6.458 - uma média de pouco mais de 230 espectadores por jogo. Ouso dizer que há muito campeonato de futebol amador no Tocantins que mobiliza mais público.
Para o padrão do futebol profissional no Tocantins o estádio Nilton Santos me pareceu ótimo. A grama aparentemente estava um tapete. Mas ouvi um comentário de que com tanta chuva que estava tendo na capital não poderia ser diferente. Mas um amigo (Professor Raimundo - Torcedor do Verdão do Norte - que me convidou para ir ver o jogo) me chamou atenção para alguns pontos problemáticos do gramado. No entanto, nada que atrapalhasse o jogo - que, reconheçamos, foi bem disputado. Não fosse o apagão nos refletores que chegou até colocar em risco a continuidade da partida e uma briga após o apito final dos jogadores do Capital com o bandeirinha (que confesso não ter visto motivos para tanto), teria sido ainda melhor.
O Tocantinópolis com uma equipe mais experiente começou o jogo se impondo como se jogasse em casa. E não demorou para abrir o placar com um belo gol de uma jogada trabalhada que começou na ponta direita, passou pelo meio e uma finalização dentro da área. Com um gol tão cedo parecia que uma goleada era inevitável. Daí veio o apagão - triste retrato de como os dirigentes do futebol profissional tocantinense trata jogadores e público. Depois do apagão o Capital voltou melhor. Com uma marcação alta o gol de empate parecia inevitável. Porém num vacilo do goleiro do time da capital, que ao sair com os pés entregou a bola para o adversário - que fez um belo gol de longe com o goleiro fora da meta - a derrota tornava-se incontornável. O próprio técnico do Capital parecia mais preocupado em não tomar gols do que em buscar o empate. Mas suas mexidas no time fizeram efeito. E não sei se por acomodação do Tocantinópolis ou por mérito das mexidas no Capital, o fato é que o time voltou a jogar bem e a pressionar o verdão do norte até encontrar um belo gol. Tivesse mais tempo, provavelmente conseguiria o empate. Ou não né, meu?! Futebol é imprevisível.
Apesar da nostalgia inicial, da tristeza diante dos problemas estruturais e da falta de pessoas honestas à frente do futebol tocantinense. Foi uma ótima experiência. Me diverti horrores com os comentários que os torcedores faziam aos jogadores - especialmente para o goleiro do Capital, sobretudo depois da falha. Comentei com o Professor Raimundo - isso aqui deve ser uma terapia para essa galera - vim xingar os jogadores e o juiz. Me chamou atenção a diversidade do público - além de homens de meia idade, tinha muitas mulheres com crianças e um pessoal jovem. Houvesse mais profissionalismo por parte de quem dirige o futebol tocantinense certamente teríamos estádios mais cheios. Dinheiro ao que me parece não é problema. Muitos desses times do interior recebem uma boa grana das prefeituras. Além do incentivo do Governo Estadual, que disse ter passado em 2026, 3 milhões para os times de futebol da primeira divisão do campeonato estadual de futebol. Além disso, os clubes, que por exemplo, se classificam para competições nacionais recebem valores significativos.
No entanto, aqueles que gerem esses recursos são políticos ou pessoas ligadas a estes, que buscam seus próprios benefícios e não do futebol profissional no Tocantins. Enquanto isso permanecer a realidade é a que presenciamos no final da tarde e início da noite de sábado (14/03) no estádio Nilton Santos em Palmas. E que outros espectadores vivenciam em outros jogos tanto na capital como no interior.
Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

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