terça-feira, 10 de março de 2026

A questão Educacional na Contemporaneidade

Na contemporaneidade a educação é um tema recorrente nos debates que envolvem não só especialistas como a sociedade em geral. Inclusive um debate que aponta para uma espécie de um aparente consenso entre setores antagônicos – um consenso de que temos um modelo fracassado de educação e que precisa de mudança. O problema começa no momento de definir quais mudanças e como fazê-las. E aqui está um ponto fundamental que nos leva a perceber duas visões antagônicas de educação na contemporaneidade: uma que aponta para a necessidade de uma transformação estrutural radical no âmbito educacional e outra que busca manter os interesses hegemônicos.

Como perceber essas diferentes concepções? Justamente partindo da análise desse aparente consenso em torno do suposto fracasso da educação. E quando se fala em fracasso no âmbito educacional está se falando da escola pública. Sobretudo diante do resultado nas provas das avaliações de instituições e estudantes. Mas se olharmos da perspectiva dos interesses das classes dominantes dá para falar em fracasso? Ou a educação na sociedade capitalista cumpre exatamente o papel que as elites desejam – manter o trabalhador alienado – e, por conseguinte a ordem hegemônica do capital?

Ao analisar o discurso em torno de uma crise na educação brasileira, Darcy Ribeiro (1986) já alertava para o fato de que “a crise educacional do Brasil da qual tanto se fala, não é uma crise, é um programa. Um programa em curso, cujos frutos, amanhã, falarão por si mesmos”. Passado mais de trinta anos do alerta feito por Darcy Ribeiro continuamos ouvindo o discurso acerca de uma crise educacional no Brasil. Desde então diversas reformas foram implementadas pelos governos de plantão, mas a “crise” permanece. O que se percebe é que essa crise permanente na esfera educacional faz parte do projeto da classe dominante em manter as coisas tal como estão. 

Essa crise na educação não é um problema apenas no contexto brasileiro, mas também segue em curso a nível mundial. É para isso que chama atenção Nussbaum (2015) ao falar de uma “crise silenciosa” que coloca em risco “os governos democráticos”. De acordo com essa autora há “uma crise mundial da educação” decorrente da retirada das “humanidades” da grade curricular de ensino. Seguindo essa linha Nussbaum (2015, p. 4) alerta para o fato de que “se essa tendência prosseguir, todos os países logo estarão produzindo gerações de máquinas lucrativas, em vez de produzirem cidadãos íntegros que possam pensar por si próprios, criticar a tradição e entender o significado dos sofrimentos e das realizações dos outros”.

Mas para que serve a educação na sociedade capitalista se não produzir conformismo e consenso?! Nesse contexto é importante não perder de vista que a escola é um “aparelho ideológico de Estado” e um espaço onde se prática a “violência simbólica”. A respeito da Escola como aparelho ideológico de Estado, Aranha (2006, p. 253) apud Althusser (1969) afirma que “ao mesmo tempo que ensina um saber prático, voltado para qualificação da força de trabalho, a escola reproduz a ideologia dominante”. Já citando Bourdieu e Passeron (1970) fala sobre a violência simbólica que “leva as pessoas a agir e a pensar por imposição, sem se darem conta dessa coação” (ARANHA, 2006. p. 252).

Estes autores chamam atenção para o fato de que tanto a cultura como os sistemas simbólicos podem ser transformados em instrumentos de dominação que legitima a ordem social vigente bem como um comportamento social homogêneo.

É por isso que fica difícil falar em crise na educação ou em fracasso de um modelo educacional quando este tem justamente servido para manter o interesse daqueles que detém o poder hegemônico. Diante dessa questão, o discurso em torno da crise da educação tem servido como justificativas para mudanças que cada vez mais transforma a educação em mais uma mercadoria. E se se trata de uma mercadoria tem que gerar lucro.

Retornando a Nussbaum (2015) ela denuncia essa tendência de uma educação para o lucro ao invés de uma educação para cidadania. Ainda que sua crítica não aponte para um rompimento radical com o sistema econômico vigente.


o incentivo ao lucro sugere a muitos líderes ansiosos que a ciência e a tecnologia têm uma importância decisiva para o futuro bem-estar de seus países. Não devemos ser contra a ciência de qualidade e a educação técnica, e não estou sugerindo que os países devam parar de tentar progredir nessa área. Minha preocupação é que outras competências, igualmente decisivas, correm o risco de perder no alvoroço competitivo; competências decisivas para o bem-estar interno de qualquer democracia e para criação de uma cultura mundial generosa, capaz de tratar, de maneira construtiva, dos problemas mais prementes do mundo. (NUSSBAUM, 2015, p. 8)


Como uma pensadora liberal, Nussbaum não propõem nenhuma revolução no âmbito educacional. O seu alerta é para o fato de que a sobrevivência da democracia liberal depende de um sistema educacional que não sirva apenas aos interesses das elites. Pois “nenhum sistema educacional funciona bem se seus benefícios só são alcançam as elites abastadas” (2015, p. 12). Diante disso voltamos a um ponto anterior, que é acerca de a quem serve essa “crise” na educação. A partir do que coloca Nussbaum fica evidente que as elites hegemônicas. Dai que ganha mais força o alerta do Darcy Ribeiro ao tratar da educação brasileira, de que antes de uma crise, o que está em curso é um projeto das elites dirigentes.

Outro ponto importante, é que não dá para falar em educação na contemporaneidade sem trazer a contribuição de Paulo Freire. Em especial, acerca da sua crítica a “concepção bancária da educação”. Sobretudo por que para este autor, essa concepção é um “instrumento da opressão”. É preciso, portanto romper com essa lógica e não tentar torna-la mais humanizante como propõem Nussbaum. 

Mas o que seria essa concepção bancária da educação e como ela se torna um instrumento da opressão? De acordo com Freire (1987) em um dos seus clássicos: “Pedagogia do Oprimido”. Educação bancária é aquela em que “a educação se torna um ato de depositar” e nesse contexto os educandos são meros depositários e o educador o depositante. Seguindo essa linha Freire ressalta que “na visão bancária da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão”. (FREIRE, 1987, p.33)

Percebe-se ai, portanto uma relação autoritária entre educador e educando – aquele que detém o saber e aquele que nada sabe. Para Freire (1987) na visão bancária da educação, os indivíduos são “vistos como seres da adaptação, do ajustamento. Quanto mais se exercitem os educando no arquivamento dos depósitos que lhes são feitos, tanto menos se desenvolverão em si a consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores dele. Como sujeitos” (FREIRE, 1987, p. 34). 

Ainda nessa linha Freire alerta para o fato de que o objetivo dos opressores não é mudar a situação que os oprimidos estão. Mas mudar a sua mentalidade, para que melhor os domine. 

Paulo Freire não poupa críticas à concepção bancária da educação, que na sua visão tem um objetivo – a dominação dos oprimidos pelos opressores. Um processo de dominação que fica evidente já na relação entre educador e educando – uma relação que como já pontuamos – é autoritária. Nesse contexto ao invés de possibilitar a educação ao educando, o educador nega-o.

O que nos parece indiscutível é que, se pretendemos a libertação dos homens, não podemos começar por aliena-los ou mantê-los alienados. A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que implica na ação e na reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo... A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres “vazios” a quem o mundo “encha” de conteúdos. (FREIRE, 1987, p. 38)

Esse processo de libertação é impossível num contexto de educação bancária, daí que o autor propõe outra concepção de educação – uma concepção da educação numa perspectiva libertadora.


a educação libertadora, problematizadora, já não pode ser o ato de depositar, ou de narrar, ou de transferir, ou de transmitir “conhecimentos” e valores aos educandos, meros pacientes à maneira da educação bancária, mas um ato cognoscente... a educação problematizadora coloca, desde logo, a exigência da superação da contradição educador-educandos... para manter a contradição, a concepção “bancária” nega a dialogicidade como essência da educação e se faz antidialógica, para realizar a superação, a educação problematizadora – situação gnosiológica – afirma a dialogicidade e se faz dialógica. (FREIRE, 1987, p. 39)


Eis ai um ponto fundamental na concepção da educação libertadora freriana – o diálogo. Sem uma relação dialógica entre educador-educando é impossível vislumbrar a superação da concepção bancária da educação. Mas é possível vislumbrar uma educação libertadora nos marcos do sistema capitalista? 

Paulo Freire não se ilude quanto a isso. Para ele é evidente que as elites não abriram mão por bel prazer da educação bancária, sendo esta um instrumento para manutenção da sua hegemonia. Acreditar nisso seria uma tremenda ingenuidade. É o que ressalta também o filósofo húngaro István Mészáros ao criticar a perspectiva reformista na educação. E que abordaremos melhor mais adiante nesse trabalho. Porém, podemos antecipar que para Mészaros “o capital é irreformável” por isso ele discorda da perspectiva reformista na educação. 

Tanto Paulo Freire como Mészáros afirmam que seria ingenuidade esperar que a educação nos marcos da sociedade capitalista cumpra outro papel se não o de manter a ordem estabelecida.  Para Freire (1987) “ao denunciá-la, não esperamos que as elites dominadoras renunciem à sua prática. Seria demasiado ingênuo esperá-lo. Nosso objetivo é chamar a atenção dos verdadeiros humanistas para o fato”. 

Outro pensador que nos ajuda a refletir sobre a educação na contemporaneidade é Miguel Arroyo. Assim como Nussbaum que nos coloca num debate entre uma concepção da educação para o lucro versus para a cidadania. Como Paulo Freire que fala de uma concepção libertadora versus uma concepção bancária. Arroyo (2011) ao analisar a questão educacional na América Latina fala de uma educação para “humanizar-nos ou desumanizar-nos”. 

Numa visão otimista, este autor vê, num contexto de crise, possibilidades de avanço d´uma perspectiva humanista da educação. Sobretudo se esta não for reduzida ao ensino formal. Dai que ele ressalta a importância dos movimentos sociais atuando em processos formativos para além da sala de aula.


Já vínhamos quebrando o olhar demasiado escolar, conteudista e curricular do direito à educação. Nos abrimos para os determinantes econômicos e políticos das políticas educativas e curriculares. Denunciamos o uso da escola, do conhecimento e dos recursos públicos a serviço de interesses hegemônicos... Falta-nos uma visão mais totalizante dos processos de produção da existência em que a escola se insere. Uma visão mais totalizante que se confronta com visões dominantes em décadas recentes que priorizam visões “políticas”. (ARROYO, 2001, p.277)


István Mészáros, Paulo Freire, Marta C. Nussbaum e o próprio Miguel Arroyo chamam atenção para se pensar a Educação para além da sala de aula. No entanto este último, nas suas analises, sobretudo no artigo: “Educação em tempos de exclusão” nos chama atenção para o papel da escola, em especial o desafio que é mudar a sua estrutura. Pois se tratando de uma instituição social, o processo de mudança é muito mais lento do que ansiamos. Para Arroyo (2001) “a escola, enquanto instituição social, é muito mais complicada do que como um mero espaço de disputa politica”. Dai que não se pode reduzir a análise da escola a uma visão sociológica – o que predominou nas últimas décadas.

Arroyo (2001) chama atenção para o avanço das políticas neoliberais, pontuando que aparentemente “estamos perdendo a batalha do público”. Ele também salienta que “a capacidade de transformar o cotidiano da escola através das políticas públicas é muito mais limitado do que nós pensamos. Tanto as políticas neoliberais quanto as progressistas. Não é desanimador, é para levar a questão por outros campos”. (ARROYO, 2001, p. 279)

Percebemos a partir dos diferentes autores abordados que o debate em torno da Educação na contemporaneidade aponta para uma forte crítica ao modelo vigente bem como para necessidade da sua superação. Nesse contexto qual o caminho que o Brasil tem tomado? 

Pedro Ferreira Nunes. In UMA REFLEXÃO SOBRE A REFORMA DO ENSINO MÉDIO A PARTIR DE MARCUSE E MÉSZÁROS. Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação a Filosofia. UFT.  Palmas-TO. 2019.


Nenhum comentário:

Postar um comentário