domingo, 15 de março de 2026

Breve comentário sobre o Cinema Brasileiro

O que faz dos filmes Ainda estou aqui (Brasil, 2024) e O Agente Secreto (Brasil, 2025) obras dignas de tamanho reconhecimento internacional a ponto de serem indicados e conquistarem prêmios importantes do cinema internacional tal como o Oscar? Eles são superiores ao que até então se produziu no cinema nacional ou foram favorecidos pelo contexto atual?

É importante destacar que o cinema brasileiro sempre teve reconhecimento fora do país com premiação em festivais tradicionais como o de Cannes (França). E inclusive já teve filmes indicados ao Oscar (EUA), como por exemplo, O pagador de Promessas (1962), Central do Brasil (1998) e Cidade de Deus (2002) - que é certamente o prêmio mais festejado mundialmente. No entanto, com essas duas obras: o primeiro assinado por Walter Salles e o segundo por Kleber Mendonça. Conseguimos ultrapassar uma barreira que parecia intransponível. O que aconteceu para que isso ocorresse? Uma melhora na qualidade do que produzimos? Ou uma mudança de olhar na indústria cinematográfica e no público?

Quem começou assistir filmes brasileiros pela popularidade dos dois filmes citados acima pode acreditar na tese de melhora da qualidade. No entanto, quem aprecia o cinema nacional sabe que sempre tivemos produções de qualidade que não deixam a desejar a filmes produzidos em qualquer lugar do mundo, inclusive em Hollywood. Filmes que ousaria dizer até melhores que Ainda estou aqui e O agente Secreto. E se tais filmes não foram premiados com um Oscar não foi por falta de qualidade. Com isso não estou querendo diminuir os filmes do Walter Salles e do Kleber Mendonça. Pelo contrário. Meu objetivo é mostrar a qualidade do nosso cinema.

Nessa linha gostaria de citar algumas obras que na minha análise mereciam o mesmo reconhecimento. Se não, até mais. Entre eles destacaria três obras primas do nosso cinema nacional: O Padre e a Moça (1966) do Joaquim Pedro de Andrade. Dois córregos (1999) do Carlos Reichenbach. E O bicho de sete cabeças (2000) da Laís Bodanzky. Poderia indicar outros tantos como Cabra Marcado para morrer (1984) do Eduardo Coutinho. No coração dos Deuses (1999) do Geraldo Moraes e Feliz Natal (2008) do Selton Mello. Mas é o suficiente.

Diante disso, para nós fica evidente que o reconhecimento, por parte da crítica e do público internacional, dos filmes Ainda estou aqui e O agente secreto é reflexo de uma mudança de olhar na indústria cinematográfica, em especial a hollywoodiana. Basta ver que obras de outros países que antes ficavam restritas à categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar - disputam também a categoria de melhor filme. 

Num contexto ideal seria bom se não fosse necessário esse reconhecimento da indústria cinematográfica para valorizarmos nossos filmes. No entanto, não é esse o caso. Muita gente tem ido ao cinema ver esses filmes mais pelos holofotes em torno deles pelas indicações e conquistas de prêmios do que pela história que contam. Mas quem sabe isso não signifique uma mudança de paradigma. Sobretudo porque acredito que as conquistas tanto do Ainda Estou Aqui como de O Agente Secreto não são um ponto fora da curva. Pelo contrário. A tendência agora é o cinema brasileiro figurar cada vez mais nas premiações anuais. Pois o que não nos falta são talentos tanto na frente como atrás das câmeras. 

Acredito que o mesmo ocorrerá quando um escritor brasileiro conquistar o Nobel de literatura. É inaceitável que um país com tantos talentos literários nunca tenha ganhado um Nobel. Da mesma forma que era inaceitável que até então um filme brasileiro nunca houvesse conquistado um Oscar. Para mim, tanto num caso como no outro, só se justifica pelo olhar estereotipado que se tem do Brasil - muitas vezes reforçado por nós mesmos.

Falando em cinema e literatura me recordo de uma fala da escritora Lygia Fagundes Telles de que “o pior filme brasileiro é melhor do que o melhor filme americano” - essa declaração foi dada nos idos de 1996 e viralizou nos dias atuais pelas conquistas do O agente secreto e Ainda estou aqui. Não se trata de ufanismo de nossa autora. Mas de uma afirmação de alguém que reconhece a importância do cinema brasileiro, tal como a literatura, para o fortalecimento da nossa cultura.

O cinema brasileiro fala da nossa realidade - uma realidade que determinados setores gostariam que fossem apagados da nossa memória coletiva. Para esses setores é melhor irmos ao cinema se divertir com um filme estadunidense fantasioso do que assistir uma obra que nos provoca a pensar na nossa realidade.

As conquistas de Ainda Estou Aqui, do Walter Salles. E O Agente Secreto, do Kleber Mendonça, é mais do que o reconhecimento de duas obras cinematográficas brasileiras. É o reconhecimento do cinema brasileiro. Pois esses filmes jamais existiriam se não fosse o legado produzido por tanta gente que ao longo dos anos pavimentou o caminho para que as conquistas de hoje fosse possível. Se hoje não é fácil fazer cinema no Brasil, imagina quem ousou em décadas passadas quando a única certeza era a incerteza. Por isso as conquistas de hoje são tão celebradas por quem compreende que esse reconhecimento não é apenas individual. Mas fruto de uma tradição construída ao longo dos anos, por quem fez e faz o cinema brasileiro.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

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