quinta-feira, 5 de março de 2026

O filme Manas e a violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil

Imagina a situação: você descobre que um familiar muito próximo seu está abusando sexualmente de uma criança. O que você faria? Costumo propor esse exercício quando estou trabalhando ética nas aulas de Filosofia. Apesar de ser uma situação hipotética não é distante da nossa realidade. Pelo contrário. É isso que retrata o filme Manas (2024) dirigido por Marianna Brennand.

Em Manas (2024) somos levados ao interior do Pará, mais especificamente a uma casa de uma família ribeirinha que sobrevive da pesca, da caça e da coleta. Entre os membros desta família destaca-se Marcielle (interpretada por Jamilli Correa) que está numa transição da infância para a adolescência. Apesar da simplicidade, aparentemente estamos numa casa em que o amor impera. No cuidado do pai (interpretado brilhantemente pelo Rômulo Braga) em garantir o alimento na mesa. No cuidado com a casa por parte mãe (interpretada pela Fátima Macedo), ainda que esta carrega um olhar de alguém que sofre. E é pelo comportamento desta que percebemos algo no ar. Sobretudo no início quando conversando com Marcielle sugere a esta tomar o mesmo destino de sua irmã mais velha que conheceu alguém que a levou dali lhe dando uma vida melhor. É compreensível que uma mãe queira que seus filhos tenham uma vida melhor do que a deles. Ainda mais quando vivem num lugar em que as possibilidades não são muitas. Mas no decorrer da narrativa perceberemos que a preocupação de Danielle, a mãe, é outra.

A narrativa vai se desenvolvendo no ritmo da vida no interior, sem pressa. No entanto, aquele ambiente de normalidade vai aos poucos se degradando ao ponto de parecer estarmos assistindo um filme de suspense. Sabemos que algo irá acontecer, mas quando e como é uma incógnita. Durante toda narrativa somos atravessados pela expectativa. E isso é mérito tanto da direção da Marianna Brennand como da equipe de roteirista composta por: por Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marianna Brennand, Antonia Pellegrino, Camila Agustini e Carolina Benevides. A fotografia do Pierre de Kerchove. A interpretação impecável do trio: Rômulo Braga, Fátima Macedo e Jamily Correa.

Além da expectativa acerca do que virá. Há também o incômodo - o incomodo em ver o que está acontecendo - o abuso sexual de uma criança - sem que ninguém ousa levantar a voz para dizer não. No decorrer da narrativa vamos compreendendo que são pessoas submetidas a um ciclo de violência - que por mais que lhes incomodam não veem alternativas.

E o que mais dói não é o que se passa no filme em si. Mas em saber que aquilo está acontecendo nesse exato momento em uma casa. E a reação tanto dos familiares como da comunidade é de cruzar os braços - ignorar. Quando faço o tipo de provocação que falei no início nas minhas aulas de filosofia sobre ética, a resposta é sempre a mesma: denunciaria. Mas na prática sabemos que nem sempre isso acontece.

No filme Manas (2024), por exemplo, o abuso de Marcielle é descoberto por uma policial atenta (Aretha, interpretada pela Dira Paes). No entanto, o desenrolar da trama nos faz questionar sobre o papel do Estado. Não sei se foi intencional mas o que ficou foi, apesar do trabalho da Aretha, não se pode confiar no Estado - Marcilio (Rômulo Braga) continua solto e a jovem Marcielle tem que voltar para casa do abusador. A narrativa não acaba por aí. O que acontecerá em seguida não deixa de nos surpreender. Por outro lado, sabemos que o desfecho não condiz com a realidade - a realidade é que quando esses abusadores não são punidos pela justiça continuam a cometer seus crimes. Mas estamos falando de uma obra de arte e como obra de arte, que chama atenção para problemas que nos negamos a ver no dia a dia, cumpriu muito bem o seu papel.

Quanto a nós o que estamos fazendo para combater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes? Sabemos que há campanhas nesse sentido. Incluindo um dia específico no calendário (o 18 de maio) dedicado ao combate desse crime nefasto. Entre as ações a deflagração de operações das forças policiais é uma delas. Mas no interior me parece que ainda há muito tabu em torno dessa questão. Pelo contrário, há uma espécie de silêncio cúmplice. Assim como no filme percebemos que algo anormal está acontecendo. Mas preferimos fingir que não estamos vendo para não criar inimizades. Medidas como o da Câmaras dos Deputados que “aprovou projeto que cancela diretrizes sobre aborto em crianças e adolescentes vítimas de estupro” não contribui com esse combate. Pelo contrário. Ao invés de acolhimento da vítima, o que percebemos é um movimento para desacreditá-la e puni-la. 

Isso não é retratado no filme. Mas já pensou se a jovem Marcielle ficasse grávida do seu abusador? Que alternativa ela teria se não levar a gravidez adiante e ter um filho que talvez também se tornasse vitima de abuso sexual. Enfim, estamos diante de um problema que não é distante na nossa realidade. E o filme Manas (2024), como uma obra de arte engajada nos lembra disso.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

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