Dos lançamentos de discos recentes que tenho acompanhado, há muita coisa de qualidade sendo produzida. Tanto por parte de nomes mais conhecidos como de artistas que estão iniciando sua trajetória. Para dar alguns exemplos destacaria o Falha Crítica (2024) da banda Surra, Enfrente (2024) da CPM22, Perpétuo (2024) da Black Pantera, Blasfêmea (2025) da Eskrota e o EP As crônicas de brega açu (2025) da Magoo e bando urtiga. Menciono também Não foi em vão (2025) do Supla, A vingança é meu motor (2025) do Matanza Ritual e XXX (2025) do Raimundos. Estes dois últimos, segundo uma página do Instagram (Corona Rock) com mais de 290 mil seguidores, foram os melhores lançamentos do rock brasileiro em 2025.
Em relação ao disco do Raimundos, um comentário de um leitor numa resenha do disco Estreito (2002) do Rodox que publiquei no blog Das barrancas do Rio Tocantins, já havia me chamado atenção para o álbum XXX. No entanto, pelo single Maria Bonita que eu já tinha ouvido, confesso não ter me empolgado tanto. Porém com o veredicto da Corona Rock decide ouvir o disco na íntegra. Seria mesmo o melhor disco lançado em 2025? Não foi a minha impressão comparando com outras coisas que eu havia ouvido. Mas a qualidade técnica dos músicos me chamaram atenção - o quarteto atualmente formado pelo Digão (Vocal e Guitarra) Marquim (Guitarra) Caio Cunha (Bateria) e Jean Moura (Contrabaixo) estão afiadíssimos. A pegada da banda me lembrou o seu auge nos anos 1990. Porém as letras da música e o vocal do Digão baixam o nível significativamente. Em Maria Bonita, a segunda música que abre o disco, temos essa pérola: Chega aí, Maria Bonita/Que eu sou o Rei do Cangaço/É coro de queimar caatinga/Arranca a tampa do cabaço. Em Dia bonito temos: Palavra chave, qual é?/Coragem, força e fé/Amizade sempre de pé/Nós dois juntos pro que der… Em Os calos temos: Já estourei meu dedão/De tanto dixavar/Andei na pedra moleque/Até no fundo do mar/Botei na frente agora… Se isso tivesse sido escrito por adolescente era compreensível. Mas não é o caso. Para mim ouvindo o álbum XXX, o problema do Raimundos não é a qualidade musical dos seus integrantes. O problema é que há uma tentativa de repetir uma fórmula que só deu certo com Rodolfo. Quando a banda não buscou fazer uma cópia de si mesmo como no álbum Cantigas de Garagem (2014), se saiu muito melhor. Para mim esse é o melhor registro que eles conseguiram fazer após a saída do Rodolfo e do Fred.
O mesmo vale também para o Matanza Ritual. A diferença é que o vocal do Jimmy ainda consegue tornar mais audível algumas letras que não chegam nem próximo as composições do Marco Donida, seja no Matanza ou no Matanza Inc. Em A vingança é o meu motor temos uma tentativa de repetir as músicas do Matanza - os arranjos inclusive, que parecem com canções clássicas. A novidade é uma pitada maior de thrash metal no lugar "countrycore". O que é certamente influência dos músicos que o acompanham - oriundos de bandas de Metal.
É totalmente legítimo que alguém ache que no universo de discos que tenha ouvido, esses tenham sido os melhores. O problema é a generalização. Dizer que determinado álbum é o melhor pressupõem que quem o diz tenha ouvido todos os lançamentos de artistas do gênero. Ou pelo menos que tenha se fundamentado em uma pesquisa. Se não. Não é mais do que uma opinião - uma opinião fundamentada unicamente no gosto. Não há nenhum problema quanto a isso. Eu mesmo quando citei algumas bandas acima o fiz a partir do meu gosto. O problema é quando eu busco impor o meu gosto dizendo o que é bom ou não. Me parece que esse foi o caso do Corona Rock, tanto que ao ver comentários discordantes no Instagram, deixou claro que era uma questão de gosto. Mas fez isso nos comentários como uma reação às críticas.
Vivemos numa sociedade que tem uma tara por ranquear as coisas, classificá-las. Quase sempre isso se dá de forma arbitrária. Ou seja, sem nenhum critério a não ser o gosto ou interesses mercadológicos. Quem se propõe a fazer crítica musical ou de outras expressões artísticas não pode se reduzir a isso. É preciso ter uma formação estética mínima para entender que eu posso gostar da Legião Urbana, fazendo desta a melhor banda que existe para mim. Mas se tenho o mínimo de conhecimento de música não posso negar que o Ira! tem mais qualidade. O mesmo vale para os The Rolling Stones e os The Beatles. Posso gostar mais do primeiro. Mas a qualidade do segundo do ponto de vista estético é inegavelmente superior. Isso nos leva à seguinte conclusão: posso gostar do álbum XXX, do Raimundos e do Vingança é o meu motor, do Matanza Ritual. Ao ponto de achar que eles foram os melhores lançamentos do rock brasileiro em 2025. Isso não significa que de fato foram.
Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

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