Essas questões me ocorreram ao assistir a luta de boxe entre os pugilistas Anthony Joshua e Jake Paul, provocado por análises de comentaristas esportivos acerca do combate. Entre essas análises as que mais me chamaram atenção foi a de que apesar do nocaute, Paul teria saído vitorioso por ter resistido 6 rounds contra um campeão mundial ainda na ativa. Dito isso é importante saber, caso você não saiba, quem é Jake Paul - uma figura (Estadunidense) que ganhou fama com a internet e de repente decidiu se tornar um pugilista. Promovendo lutas midiáticas envolvendo milhões de dólares com atletas e ex-atletas do mundo da luta como Anderson Silva e Mike Tyson. Joshua por sua vez é um atleta profissional (britânico) com vários títulos na categoria dos pesos-pesados. Diante disso é de se imaginar que os prognósticos seriam um atropelo do pugilista britânico na luta. Ainda que Paul tenha tido êxito em combates anteriores.
No final das contas foi o que aconteceu, ainda que o nocaute não tenha ocorrido com a rapidez que torcedores e comentaristas esperavam.
Ao ver e rever a luta fiquei me questionando se o fato de ter sido nocauteado só no sexto round fez do Jake Paul um vitorioso. O que percebemos durante a luta lembra um náufrago à deriva no mar buscando se agarrar em algo para sobreviver. Do outro lado temos alguém se divertindo. Como Sócrates quando por meio do diálogo levava os seus interlocutores sabichões a reconhecer sua ignorância. Ou um ceramista que vai moldando o barro para que ganhe a forma que ele queira. No final dizer que quem sobreviveu a 6 rounds apanhando miseravelmente foi o vitorioso é não entender a beleza de uma vitória construída com paciência.
Na filosofia a paciência é considerada uma virtude. Espinosa, por exemplo, exalta-a como um atributo da razão. Ele a define como um poder de ânimo que aumenta a nossa capacidade de resistir a afetos que diminui a nossa potência de agir, como por exemplo a ira. Joshua enfrentou o seu oponente com um sorriso no rosto. Consciente de que mais importante do que vencer é como vencer - apreciando cada segundo de um processo com um fim previsível. Ainda que não tivesse nocauteado a vitória de Joshua seria inconteste. Mas a sua paciência nos brindou com um nocaute perfeito. Ninguém melhor que o próprio Paul definiu esse nocaute - ao cair no chão a sua reação foi a mesma expressão de quando estamos diante de uma obra de arte bela. Na sua cabeça certamente passou: é, é isso que é ser um pugilista de verdade. Eu sou um medíocre.
Ao final a vitória, por nocaute, do Anthony Joshua não foi apenas uma vitória do Anthony Joshua. Mas uma vitória do boxe profissional. Foi uma vitória de todos nós que sabemos que as conquistas não caem do céu. Quantos de nós, sobretudo os que atuamos na sala de aula, não encontramos estudantes que acreditam que vão conseguir as coisas sem esforço. Quanto de nós não encontramos no dia a dia pessoas que acreditam que podem ser o que quiserem ser sem estudo. Lembro de uma conversa que tive certa vez com uma colega professora que dividia comigo as aulas do componente curricular de projeto de vida. Ela dizia não entender o porque os estudantes abandonavam tão rapidamente aquilo que diziam querer. Para mim a questão era simples. Porque para conseguir era necessário muito estudo e dedicação.
Ora, não basta dizer que quer ser um médico, é preciso trabalhar para que isso se concretize. Não basta dizer que quer ser um pugilista campeão. É preciso trabalhar nesse sentido. E nessa caminhada não é possível pular etapas. Há que se estudar muito. Saber agir com paciência para que aquilo que é almejado possa ser alcançado. Ter paciência não é ficar esperando que as coisas aconteçam. Na linha do que ressalta Espinosa estamos falando de uma virtude ativa. Ou seja, eu preciso agir com paciência, mas agir.
Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

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