Em memória do meu avô, Graciliano Carreiro
A frase acima é da canção clássica Avôhai do cantor paraibano Zé Ramalho - uma canção que sempre me remeteu ao meu avô Graciliano Carreiro - conhecido pelo apelido de Chó - que nos deixou recentemente numa manhã de segunda-feira - a primeira do mês de fevereiro de 2026. Um acontecimento daqueles que mexe significativamente com a gente. Mesmo sabendo que esse horizonte é incontornável para todos nós. Sobretudo à medida que os anos avançam. Ora, como não sentir a partida de alguém querido?! Ainda mais quando essa pessoa tem uma importância significativa no sujeito que nos tornamos.
Agora nos resta a memória de uma figura que deixa como maior legado a simplicidade, o amor pela família, pelos animais e pela terra. E que memórias. Meu avô tinha uma personalidade única - tentava passar um ar severo para esconder um coração gigante. Adorava anedotas - tinha um humor afiadíssimo. Não me esqueço de um episódio em que certa vez indo para o rio acompanhado de algumas pessoas, entre elas um evangélico que “ia pregando a palavra de Deus”. Ao passar por uma ponte improvisada disse ao “crente” para tomar cuidado se não ele ia para o céu mas para o céu da boca do jacaré. Era o jeito carinhoso dele mandar o pregador calar a boca. Outra de suas histórias era de que quando mais jovem e começava formar um temporal ele atirava para o céu com sua bucheira. Quando começava a trovejar dizia que São Pedro estava batendo nos couros velhos.
Nunca fui muito de conversar com meu avô. Saber da sua origem, de onde vinha sua família. Como chegara ali. Como conhecera minha avó. Qual era a sua visão política? Qual sua religião? Sua filosofia de vida. Mas observando suas atitudes era possível perceber muita coisa. A primeira é que ele não tinha religião. Ainda que acreditasse em Deus. Nutria uma antipatia pelos protestantes (neopentecostais). Aproximava-se mais do catolicismo. Não era muito de sair de sua chácara. Sobretudo à medida que os anos avançavam. Se alguma vez foi viciado em bebidas alcoólicas e tabaco conseguiu dominar o vício. Nunca o vi fumando e quando bebia era extremamente controlado. Era de uma simplicidade admirável - tinha recursos (terra e gado) com os quais poderia morar numa mansão e ter mais de um carro. Mas morava numa casa simples. E nunca teve um carro ou uma moto. Não era nem um pouco vaidoso. Até quando pode, cuidou do seu gado, dos seus gatos e cachorros. Manteve as áreas verdes de sua chácara - especialmente os brejos de buriti.
Não eram poucos os que o criticavam por não se desfazer dos gados e de alguns hectares de terra para ter uma “vida melhor”. Geralmente a visão de uma vida melhor para essas pessoas se resume a ter um carro e poder ostentar coisas diversas, como uma determinada bebida, uma determinada roupa, um determinado relógio, um determinado lugar. Meu avô era um camponês - e como um camponês a terra não era só um bem material. Assim como o seu gado. Que importa o que os herdeiros farão com o que ele deixou. Nada apagará o que ele construiu ali - uma família grande, juntamente com minha avó, e mesmo sem ter uma vida pública ativa conquistou o respeito e a admiração das pessoas daquele território (Miracema).
Das memórias que tenho com ele, uma é especial - de quando no recesso escolar de dezembro/janeiro ia para chácara ajudá-lo a plantar capim para o gado. Era um trabalho duro. Ao final ele me dava uma grana com o qual minha mãe comprava o meu material escolar e roupas.
Eu poderia ter convivido muito mais com meu avô - ouvir suas histórias. Mas assim como ele não sou muito de sair de casa. E à medida que a idade vai avançando o desejo de se isolar numa chacarazinha é cada vez maior. Também assim como ele, busco cultivar uma vida sem ostentação - a não ser as minhas leituras. Eu nunca havia parado para pensar no quanto me pareço com ele.
Eu não fui criado pelo meu avô, tal como o personagem da canção Avôhai apresentado pelo Zé Ramalho (homenageando o seu avô materno que o criou como filho após a morte do seu pai). Mas o fato é que para todos os seus netos ele foi mais do que um avô. Sempre que nos encontrávamos ele fazia questão de perguntar por todos os meus irmãos e saber como estavam. Nem sempre ouvia o que gostaria. Pois humanos demasiado humanos que somos, falhamos. No fundo ele entendia e respeitava.
Nos últimos anos de vida de minha mãe ela sempre ia cuidar dele e de minha avó. E quando de lá chegava me passava um conselho dele - para que eu não pensasse muito pois se não iria enlouquecer. Confesso que não ligava para o conselho. Sobretudo pela minha formação acadêmica e profissão que escolhi. Mas hoje entendo o que ele queria dizer - ele queria dizer para eu não deixar de viver - de festar, namorar e transar. Coisas que ele deve ter feito muito na sua juventude. “Meu velho e indivisível (Avôhai)”.
Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

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