O amor pode destruir o ódio?!

Parece uma questão clichê de folhetim barato não é mesmo?! Até por que o mundo caminha no sentido contrário, isto é, o triunfo do ódio sobre o amor. Sendo assim como acreditar que o amor pode destruir o ódio? Antes de tentar responder a questão levantada é preciso saber: Afinal de contas o que é o amor? O que é o ódio? Qual a relação entre esses dois afetos? Não são questões difíceis de serem respondidas se partirmos dos clichês. Mas não é nosso objetivo aqui. Nosso objetivo é falar do amor e do ódio através da perspectiva filosófica de Baruch Spinoza, especialmente na sua obra: “Ética Demostrada a Maneira dos Geômetras”, Terceira parte - Sobre a Origem e a Natureza dos Afetos.

Desse modo antes de falar sobre o amor e o ódio propriamente, é preciso entender o que Spinoza compreende por afetos. Afetos são “afecções do corpo que aumentam ou diminui, ajuda ou limita a potência de agir do corpo”. E nessa afirmação encontramos um conceito central no pensamento de Spinoza – potência. Outro conceito importante é esforço. Potência e esforço são fundamentais para compreendermos a relação entre amor e ódio. E a compreensão dessa relação entre amor e ódio passa pelo entendimento de quais seriam nossos afetos primários. E quais seriam? O Desejo, a Alegria e a Tristeza. Segundo Spinoza o Desejo (Cupiditas) é o apetite com a consciência dele mesmo. Alegria (Laetitiae) é uma paixão pela qual a Mente passa a uma perfeição maior. Já a Tristeza (Tristitiae) é uma paixão pela qual ela passa a uma perfeição menor. É a partir dos afetos primários que se originam todos os demais. Inclusive o amor e o ódio.

Pronto, já sabemos de onde se origina o amor e o ódio, mas o que seriam essas afecções? Para Spinoza o Amor (Amor) é uma alegria concomitante a uma causa externa e que buscamos conservar. Já o Ódio (Odium) trata-se de uma tristeza concomitante a uma causa externa da qual buscamos nos afastar ou destruir. E como podemos amar ou odiar? Amamos pela Simpatia (Sympathia) que é Alegria. E Odiamos pela Antipatia (Antipathia) que é Tristeza. Parece simples, não é?! Mas não é tão simples assim.

Spinoza afirma que quando nossa mente é afetada por dois afetos simultaneamente, por exemplo, o amor e o ódio. Quando posteriormente for afetado por um deles, também será afetado pelo outro. Dessa forma por acidente, qualquer coisa pode ser causa de alegria, tristeza ou desejo. Em suma, podemos simultaneamente amar e odiar o mesmo objeto. Estes afetos contrários ao estado da mente provoca a flutuação da alma (animi fluctuario) – hora amamos, hora odiamos. Essa flutuação se dá pelo fato de que o corpo humano é composto de muitíssimos indivíduos de natureza diversa. Logo pode ser afetado de diversos modos.

Para Spinoza, amamos quem nos ama e odiamos quem nos odeia. Sendo assim, se odeio farei mal e se amo farei bem. Isso também parece uma questão óbvia né?! Mas é ai que está o problema. Como todos querem ser amados e louvados acabam se odiando e, por conseguinte fazendo o mal – Numa sociedade que cultua o individualismo, como é o caso da sociedade baseada no modo de produção capitalista, essa máxima tem sido levada ao extremo. Desse modo não é de se admirar que não raramente passemos a odiar aquilo que amávamos. E se alguém começar a odiar a coisa amada esse ódio será maior que o amor. Pois a tristeza será maior, tanto pelo ódio como pelo fato que já amou a coisa.

Mas o contrário também pode acontecer – alguém pode começar a amar a coisa odiada e esse amor será maior que o ódio. Dai que nosso filósofo afirma que o amor pode destruir o ódio. E aqui chegamos a nossa questão inicial – para Spinoza o amor que se origina do ódio, o amor que vem daquilo que odiávamos é maior. Seria, portanto preferível buscar amar aquilo que odiamos? Já que isso nos permitirá alcançar uma espécie de “amor supremo”? Spinoza brinca dizendo que seria a mesma coisa de querer ficar doente para depois obter a cura. E isso ninguém quer.

O que podemos concluir de tudo isso? Que sim, que o amor pode destruir o ódio, mas também que o ódio pode se sobrepor ao amor. Isso dependerá de agirmos racionalmente e da potência e do esforço de perseverar em uma dessas direções. 

Pedro Ferreira Nunes é – Educador Popular e bolsista do Pibid-Filosofia da UFT na Escola Estadual Frederico José Pedreira Neto.

*REFERÊNCIA: SPINOZA, Baruch. Ética Demostrada a Maneira dos Geômetras - Terceira Parte “Sobre a Origem e a Natureza dos Afetos”. Tradução: Roberto Brandão. Disponível em: http://docs11.minhateca.com.br/66423427,BR,0,0,BARUCH-Spinoza-Etica-Demostrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR.pdf. Acesso em: 16 Out. 2017.

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