Quando os acordes da banda começam soar a plateia entra em êxtase ao reconhecer nos acordes o que está por vir. Ele entra no palco apoiado pelo filho. É o tempo passa para todos. Para ele não é diferente. O turbante na cabeça deu lugar a um boné aba reta. Já não usa o casaco militar mas sim uma camiseta preta comum. Não canta mais em pé, mas sentado numa cadeira. No entanto quando começa a cantar a magia acontece. A voz não envelheceu. Canta sem nenhum esforço acompanhado por uma plateia que sabe cada verso de suas canções. Poucos artistas na música brasileira conseguiram esse feito - construir um público que aprecia sua arte sem o apoio dos meios de comunicação de massa. Independente do lugar em que esteja tocando, a reação do público é a mesma. E não estamos falando de um público que vai nos shows por uma conexão nostálgica, mas pessoas de toda idade. Há o registro de uma criança num show em Pernambuco cantando “árvore” a pleno pulmões que é algo contagiante. Se em relação a idade o público de Edson Gomes é diverso, o perfil majoritariamente é de pessoas negras - gente do povo. E é pelo reconhecimento desse povo enquanto cidadão que Edson Gomes canta. Sim, estou falando de Edson Gomes. Talvez você não tenha ouvido falar desse nome. Provavelmente já ouviu alguma música dele cantada por um outro artista. Por isso vamos lá a uma breve biografia.
Baiano de Cachoeira, Edson Gomes nasceu em 1955. Por um tempo dividiu seus sonhos entre o futebol e a música. Com a segunda prevalecendo. Já no início teve o seu talento reconhecido ao ganhar diversos festivais. No entanto, ainda teria que perseverar muito para se tornar um ícone da música brasileira. Deixou sua terra natal, foi trabalhar na construção civil em São Paulo. E depois retornou para Bahia onde construiu uma carreira que o colocou como ícone do reggae music. Fã de Tim Maia. Edson Gomes foi arrebatado pelo ritmo jamaicano que foi popularizado mundialmente por figuras como Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff entre outros. Suas letras que falam de amor, identidade e resistência foram aos poucos construindo um público fiel que o acompanha numa trajetória que já ultrapassou 50 anos de carreira. Edson Gomes está longe do status adquirido por figuras como Gilberto Gil, Djavan, Milton Nascimento e o seu próprio ídolo Tim Maia. Não porque sua arte seja menor, mas porque tal como os Racionais MCs sua música denuncia o racismo estrutural na nossa sociedade sem maquiagem. Como em “barrados no baile” em que retrata um episódio racista sofrido por ele: “ainda ontem no condomínio que moro/uma senhora quando me avistou/apertou a bolsa e ela escondeu sua bolsa/apertou a bolsa/a branca segurou logo a bolsa”. Em camelô, outro dos seus clássicos denuncia a violência policial: quando a polícia cai em cima de mim/até parece que sou fera… Em acorde, levante e lute lembra a classe trabalhadora que as conquistas não caem do céu mas como fruto da luta: tens o direito de ser livre…ninguém nesse mundo pode impedir… porém não espere por esse direito/acorde, levante e lute…” Em árvore nosso artista fala de amor, de comunhão, de cuidado, de valorização: todo santo dia, pois todo dia é santo/e eu sou uma árvore bonita/que precisa ter os teus cuidados.
Enfim, eu poderia escrever linhas e linhas acerca das suas composições. Mas para o nosso propósito as citações acima são mais do que o suficiente. Melhor do que ler sobre suas canções é ouvi-las na voz dele. Fica então o convite para que o façam. Não indicaria um disco específico. Talvez o ao vivo gravado em Salvador em 2005 onde encontramos uma boa amostra da sua obra. Mas também pode ser qualquer show disponível no youtube das apresentações que ele tem feito nos últimos anos. Eu particularmente gosto de ouvir música ao vivo pois a energia da interação entre artista e público me afeta de uma forma diferente. Pela qualidade dos músicos que o acompanham não há uma perda de qualidade que geralmente há entre um material gravado em estúdio e ao vivo. Os shows são uma verdadeira celebração. Até porque ainda que não se diga é uma despedida. Pois por mais que sua voz continue impecável e ele aparenta ser alguém que se cuida é natural que a medida que a idade avança, ele atualmente tem 70 anos, o fim vai ficando mais próximo.
E é nesse contexto que acredito que precisamos falar de Edson Gomes - um artista negro que incorporou o espirito da reggae music - uma música de resistência as opressões e de celebração da cultura de origem africana. Infelizmente há no Brasil uma seleção (por parte da indústria musical) de quais artistas podem ser considerados relevantes ou não. Para a indústria Edson Gomes certamente não é um artista relevante pois não é conivente com o status cos. Diante disso, celebrar sua arte é uma forma de dizer que não concordamos com isso. Viva Edson Gomes! Viva sua arte! Viva sua filosofia!
Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.
Das barrancas do Rio Tocantins
Filosofia, Política, Educação, Cultura e Literatura.
domingo, 30 de novembro de 2025
Precisamos falar do (e ouvir) Edson Gomes
terça-feira, 25 de novembro de 2025
- O que tu fizeste da vida? - O que nos tornamos!
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Conhecendo o Santa Rita: Educação Antirracista entre os muros da Escola.
Entre as atividades desenvolvidas pelo Cemil Santa Rita de Cássia está o podcast. Por tanto comecemos por ele. É importante esclarecer que não partiu de nós a sua confecção. Mas da organização da Olimpíada Brasileira de Relações Étnicos-Raciais, Afro-Brasileiras, Africanas e Indígenas (OBERERI) que estabeleceu em edital que a última tarefa para as equipes de ensino médio seria a produção de um podcast. No entanto partiu de nós inscrever e orientar uma equipe na competição.
Anteriormente eles fizeram mais duas tarefas: pensar um projeto sustentável para uma comunidade tradicional no território amazônico afetada por uma crise hídrica. E responder um quiz sobre a temática Africana, Afro-Brasileira e Indígena.
Ressaltando a fala da equipe de estudantes que participaram da OBERERI foi uma experiência enriquecedora que certamente contribuiu para mudança de olhar deles acerca dessa temática.
Desde que ingressei na educação básica como docente tenho procurado trabalhar uma educação numa perspectiva antirracista (Que na minha compreensão está dentro da educação em direitos humanos). Não só desenvolvendo ações em datas específicas como o dia dos povos indígenas e na consciência negra. Mas também no cotidiano da sala de aula. No entanto nesse ano de 2025 é certamente o ano em que mais consegui avançar nesse sentido. A política da Secretaria de Estado da Educação (SEDUC-TO) incentivando práticas antirracista nas unidades escolares da rede pública certamente contribuiu para que isso pudesse se concretizar.
É isso que busquei trazer durante a minha participação no podcast (conhecendo o Santa Rita ).
Ao definir o que é educação antirracista - como um conjunto de práticas pedagógicas de enfrentamento ao racismo. E a partir daí contribuir com a construção de uma cultura de respeito à dignidade humana do povo negro. Fizemos um relato do que desenvolvemos enquanto escola no decorrer do ano. Entre as ações destacamos a leitura e discussão de autores negros e indígenas. E uma ampla discussão e mobilização para atualização da autodeclaração étnico-racial dos estudantes.
Nas minhas aulas especificamente continuei o movimento de trazer para as aulas de Filosofia textos da bell hooks, Ailton Krenak, Djamila Ribeiro, Angela Davis e Sueli Carneiro. Por coincidência dois desses filósofos (Carneiro e Krenak) caíram na etapa regional e na etapa nacional da Olimpíada de Filosofia (ONFIL). E pelo conhecimento desses pensadores, a partir do que havíamos trabalhado, o nosso representante optou por elaborar um ensaio filosófico sobre a problemática apresentada por eles.
Por tudo que desenvolvemos esse ano ouso dizer que não teremos dificuldade de obtermos o reconhecimento tanto por parte da SEDUC-TO como pela OBERERI, de Escola Antirracista. No entanto temos plena consciência de que ainda temos muito a avançar. Não podemos aceitar com naturalidade, ficar em silêncio ou pior, relevar atitude racista travestida de brincadeiras. Por outro lado não acreditamos que o caminho é a lógica punitivista. Enquanto Educador acredito na educação como instrumento de transformação. De modo que no ambiente escolar devemos buscar estratégias pedagógicas para mudar a cultura racista. Não é fácil. Não será da noite para o dia. Mas não podemos e nem iremos recuar.
Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.
sábado, 15 de novembro de 2025
Sobre leituras
Leio de tudo, com exceção de autoajuda e de livros de religião. A formação em Filosofia me levou a leituras mais densas. Mas mesmo antes já me interessava por coisas assim. Lembro de quando li Assim falou Zaratustra, do Nietzsche, pela primeira vez. Não entendi muita coisa. Isso que já havia lido umas três ou quatro obra desse filósofo (antes de ingressar na graduação em Filosofia). Creio que era mais o estilo e o exercício de criticidade que me atraía. Ainda mais pelo fato de que no ensino médio as leituras que mais me marcaram fora: Vidas Secas (Graciliano Ramos) e Memórias Póstumas de Braz Cubas (Machado de Assis). No entanto mesmo com toda essa carga acumulada ao longo dos anos não significa que absorvo facilmente qualquer leitura. Pelo contrário.
Fiz questão de ressaltar isso para um estudante que eu estava orientando para Olimpíada Nacional de Filosofia (ONFIL). Passei para ele interpretar um trecho de texto de Filosofia. E ao contrário de outros textos, esse ele estava tendo dificuldade. Quando já estava querendo desisti busquei tranquiliza-lo trazendo o meu exemplo.
Por muito tempo evitei ler o Capital, do Karl Marx. Falavam tanto que se tratava de um livro de difícil compreensão que evitei até que me senti preparado. O fato de ter lido outras obras do Marx antes, além de leituras sobre ele e seu método contribuiu para que a leitura do O Capital fosse compreensível.
Recentemente finalizei uma dessas leituras densas que a cada página você parece compreender menos. Tratou-se do livro Dar corpo ao impossível: O sentido da dialética a partir de Theodor Adorno. Escrito pelo filósofo brasileiro Vladimir Safatle.
Safatle é para mim uma das principais referências intelectuais brasileira na contemporaneidade. Sempre leio os seus artigos em periódicos como também assisto sua participação em eventos disponíveis na Internet, em podcasts entre outros. Gosto muito da leitura que ele faz da realidade brasileira. No geral são textos acessíveis para o grande público. E nessa linha ele publicou um livro muito bom na minha avaliação - Alfabeto das colisões (que inclusive já escrevi sobre). Além dessa produção acessível, ele tem uma produção mais voltado para academia. Dessa produção a minha leitura é pouca. Já havia lido trechos do Circuito dos afetos que utilizei como referência num artigo de conclusão de minha pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos. Mas foi com a leitura de "Dar corpo ao impossível..." que entrei em contato de forma mais aprofundada com essa produção.
Lembro que adquiri o livro em 2022, comecei lê-lo em 2023. Não avancei muito. Desisti. Tentei em 2024, não avancei muito. Desisti novamente. Agora em 2025 tentei novamente e consegui concluir. Parafraseando o próprio Safatle num podcast em que ele fala do seu tempo de estudante de filosofia e da dificuldade em compreender algumas aulas. Não entendi muito coisa. Mas o pouco que entendi deu pra perceber que há muito coisa interessante.
Como pode ser deduzido a partir do título do livro o objetivo do Safatle é investigar a dialética negativa do Theodor Adorno propondo uma reflexão sobre sua relevância no contexto atual. Para tanto ele apresenta como essa dialética foi sendo desenvolvida pontuando sua diferença com outras perspectivas, por exemplo a Hegeliana. E analisando as críticas feitas à ela. Concluindo trazendo para a realidade brasileira.
No primeiro momento a obra é bastante teórica. E a cada página que avançamos na leitura ficamos com a sensação de que não estamos assimilando muita coisa. Safatle vai relacionando com outros pensadores tais como Hegel, Marx, Freud. Entre outros. A ideia dele creio que é mostrar que para compreendermos a dialética negativa do Adorno precisamos conhecer minimamente essas outras perspectivas. Além desses há outros autores que ele vai trazendo para conversa hora corroborando, hora rechaçando. No entanto Safatle faz um movimento que torna a leitura mais acessível - ele parte do geral para o particular. Do abstrato para o concreto. Termina falando sobre o Brasil trazendo para conversa filósofos como Paulo Arantes e Bento Prado Jr. fazendo um diálogo com a literatura, sobretudo Grande Sertão: veredas, do Guimarães Rosa e assim saímos da leitura com a ideia de ter compreendido o principal - a dialética negativa Adorniana continua relevante para quem acredita na superação do que está posto. Será se é isso mesmo? Foi o que compreendi.
Seguindo para uma conclusão eu diria que Dar corpo ao impossível é uma obra potente. Mas não é para o grande público. Eu diria que nem para um estudante que ainda está na graduação em Filosofia, por exemplo. Em outros cursos então nem se fala. Já para quem está num nível de mestrado e doutorado, e quer compreender como se pensa dialeticamente eis ai uma obra fundamental. Concluo falando que ler bem é um exercício constante. As vezes vamos encontrar aquele livro que a leitura parece incompreensível. Nesse momento é importante dar um recuo e se preparar mais para encará-lo. Isso já aconteceu comigo algumas vezes e sei que outras virão. Mas querendo a gente consegue. Basta ter disposição para ler, ler e ler. Pois não há receita melhor do que isso para dominarmos a leitura.
Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Crônicas Aurenyanas: - a mulher sábia edifica a casa?
Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
“Quando eu falava desses homens sórdidos… você não escutou…”
Do seu Pedro
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
Ensaio literário: O coração nas trevas de Camilo
Não, aquele Camilo que trabalhava como operador de caixa de um supermercado na zona leste paulista em nada se parecia com o Camilo que tirava o sono da alta sociedade cachoeirense, o Camilo do rock, o Camilo subversivo.
Aquela figura triste, que andava sempre cabisbaixa no metrô, que não cumprimentava e nem falava com ninguém. Não tinha amizades, não se divertia – vivia apenas da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Nada se parecia com aquele Camilo cheio de vida que sonhava ingressar na faculdade de Filosofia, se tornar um professor e mudar o mundo.
Camilo sempre foi um apaixonado pela educação, via nesta uma ferramenta de transformação social, e assim mantinha o sonho de se tornar um professor um dia. Quando ainda era estudante do ensino médio, Camilo era referência para seus colegas e professoras no Colégio em que estudava como alguém de personalidade forte e muito inteligente. Dava aula de reforço para seus colegas e auxiliava alguns professores, entre eles, Bia.
Teve a oportunidade de dar aulas na zona rural quando auxiliou um professor amigo seu. Nesta experiência Camilo percebeu a importância da educação para formação de uma consciência crítica na juventude, foi então que decidiu que queria ser um professor.
Mas assim que chegou a São Paulo a realidade que teve que encarar era muito diferente da que ele sonhara um dia. Há um ano naquela dura rotina, os sonhos de Camilo iam sendo esquecidos, era preciso encarar a realidade, ter que trabalhar duro de segunda a segunda, ganhando um mísero salário que se quer dava para ele pagar o aluguel do barracão que morava bem como para sua subsistência ali.
Camilo odiava a vida em São Paulo, odiava ter que acordar todos os dias cedo, enfrentar o transporte público caótico dali, tanto para ir como para voltar do trabalho. Às vezes pensava em jogar uma mochila nas costas e sair vagando pelo Brasil.
– Ele ficava invejando os hippies que sem nenhuma preocupação viajam por todos os cantos, conhecendo novas pessoas, novas culturas, vivendo novas experiências. Mas ele jamais teria a coragem de jogar tudo para o alto assim. Ele nunca fora um aventureiro. Aliás era um dos seus problemas, ele não se arriscava, tinha o pé por demais fixado no chão, não era capaz de dar nenhum passo antes de ter o mínimo de certeza para onde iria e o que poderia encontrar.
Camilo odiava a vida em São Paulo, mas em nenhum momento ele pensou em voltar para sua terra querida, onde ele fora tão feliz. Não, Camilo não pensava em retornar para o interior, por mais difícil que a vida era em São Paulo, ele não via perspectivas melhores voltando para Cachoeira de todos os santos.
Camilo sabia que aquele momento de trevas pelo qual estava passando uma hora seria superado. E isso só dependia dele mesmo. Ele tinha que entender e aceitar que a sua vida jamais seria novamente o que era. Camilo sabia que precisava encarar a realidade – trabalhar, trabalhar e trabalhar.
Mas também era preciso viver – se divertir, fazer novas amizades, namorar, conhecer um novo amor. Era preciso fazer as coisas da qual ele gostava, bem como buscar realizar os sonhos que sonhava.
Mas será que Camilo teria forças para isso?
-
Por Pedro Ferreira Nunes Em “Como ler um texto de filosofia”, Antônio Joaquim Severino – licenciado em filosofia pela Univ...
-
O sonho de muitos que nascem no sertão, no interior do país é ver o mar. Não são raras as historias de pessoas que se emocionam ...
-
Lá no céu eu vi a lua, lá no céu eu vi o sol. Não existe sol sem lua, não existe lua sem sol. Assim sou eu e v...






