Aquele ambiente não era estranho para ele, ainda que nunca havia estado num lugar assim. Como podia ser? Certamente era pelos filmes, pelos livros e pelas músicas que ouvia - que contava estórias daquele local e dos seus frequentantes. Dentre essas, o blues rock da banda Saco de Ratos e o blues da banda Bêbados habilidosos eram suas preferidas.
A noite estava só começando para ela. Mais uma noite longa que não sabia como seria. Se ia aparecer clientes, se seriam amáveis ou escrotos, se pagaria para ela umas doses de whisky com energético, se faria um programa, dois ou mais. Quanto mais melhor, pois significava dinheiro na conta. E quanto mais dinheiro melhor, as despesas suas não eram poucas.
Mãe solo de três filhos, um deles com apenas dois anos de idade. Já está na prostituição há uns bons anos. Mas como a maioria dali, sonha um dia sair daquela vida. Para tanto investe parte dos seus recursos e tempo num curso universitário. Para aguentar as longas jornadas no cabaré, sobretudo aos finais de semana, só regada a álcool. Especialmente whisky e energético - se o peão não tem muita grana, ela se contenta com cerveja. Ao contrário das suas colegas que marcam ponto ali, ela não se mete com a cocaína e nem com a maconha.
Ele chegou, pediu uma cerveja. Ela foi até ele e perguntou se queria companhia. Ele respondeu positivamente e lhe ofereceu um copo. Ela perguntou se ele autorizava um energético. Ele autorizou. Ela pediu música. Ele mandou ela colocar o que quisesse ouvir na máquina. Ele sorriu quando começou a ouvir as músicas que ela colocara. Ela quis saber por que. Ele disse que não era o tipo de música que costumava ouvir. Ela havia intuído desde de que ele chegara ali, não era o tipo de pessoa que frequentava aquele ambiente. Parecia inclusive um gringo. Ele sorriu e perguntou o nome dela.
-Aiko.
De fato ela lembrava uma japonesa. Só lembrava. Por que sua origem era bem brasileira. Ele sabia que era o nome de guerra (como dizem) dela. E não se importou com o fato dela não dizer nome verdadeiro. Pois afinal de contas não era ingênuo ao ponto de não saber o que estava acontecendo ali. Mas não precisava também ser desagradavel. Tratá-la como um objeto que estava ali para lhe servir. Ele não estava com pressa. Ainda que no outro dia tivesse compromisso. Mas se tivesse duas horinhas de sono seria o suficiente para estar pronto para o trabalho.
Ela percebeu que ele não estava com pressa. Então se colocou à disposição para ouvi-lo. Não seria o primeiro cliente que faria as vezes de uma psicóloga. Já havia perdido a conta de quantos homens haviam passado por ali querendo apenas falar das suas agruras. No final talvez nem o levasse para cama. Se desse lucro para o cabaré já era alguma coisa.
Ele não era um desses, tinha uma vida muito bem resolvida. Estava ali apenas para se divertir. Viver uma experiência nova. Sair da rotina. Ela percebeu. Percebeu inclusive que ele inteligentemente virara o jogo, pois logo era ela que estava falando das suas agruras. Ele tinha essa capacidade. Passava uma confiança e tranquilidade que fazia com que seus interlocutores se sentissem à vontade para falar da vida pessoal.
Boa conversa regada a cerveja. Assim a noite ia avançando. A música não ajudava muito, mas a companhia estava agradável. Agradável também eram os beijos dela. Ela sabia como seduzir. Ele não sairia dali sem fazer um programa. E ela faria de um jeito que ele se tornaria cliente. Ele lembrou de estórias de homens que tinham perdido tudo com prostitutas. Teve medo. Será que viciaria naquilo? Não. Era por demais racional para se deixar seduzir loucamente por aquela mulher e aquele ambiente. Nesse momento veio na sua cabeça um blues da bêbados habilidosos:
O único carinho que eu tive
Foi, foi de uma puta num bordel
Eu cansei, cansei de acordar sozinho
Ao lado de uma garrafa vazia…”
Eles foram para o quarto e fizeram sexo. Depois se despediram com um abraço, um beijo e ele levando o número do celular dela. Num gesto de que aquela seria a primeira de muitas que voltariam a se encontrar.
Pedro Ferreira Nunes - é apenas um rapaz latino americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.