domingo, 30 de março de 2025

Conto: Mais perto do inferno que do céu

Com uma canção da banda Bêbados habilidosos na cabeça e álcool nas veias, ele sai à noite pelas ruas à procura de aventura. O desejo de deitar com uma mulher era maior que o medo da criminalidade que assola os becos da cidade. E onde ter o que procurava senão nos braços de uma dama da noite.

Aquele ambiente não era estranho para ele, ainda que nunca havia estado num lugar assim. Como podia ser? Certamente era pelos filmes, pelos livros e pelas músicas que ouvia - que contava estórias daquele local e dos seus frequentantes. Dentre essas, o blues rock da banda Saco de Ratos e o blues da banda Bêbados habilidosos eram suas preferidas.

A noite estava só começando para ela. Mais uma noite longa que não sabia como seria. Se ia aparecer clientes, se seriam amáveis ou escrotos, se pagaria para ela umas doses de whisky com energético, se faria um programa, dois ou mais. Quanto mais melhor, pois significava dinheiro na conta. E quanto mais dinheiro melhor, as despesas suas não eram poucas.

Mãe solo de três filhos, um deles com apenas dois anos de idade. Já está na prostituição há uns bons anos. Mas como a maioria dali, sonha um dia sair daquela vida. Para tanto investe parte dos seus recursos e tempo num curso universitário. Para aguentar as longas jornadas no cabaré, sobretudo aos finais de semana, só regada a álcool. Especialmente whisky e energético - se o peão não tem muita grana, ela se contenta com cerveja. Ao contrário das suas colegas que marcam ponto ali, ela não se mete com a cocaína e nem com a maconha.

Ele chegou, pediu uma cerveja. Ela foi até ele e perguntou se queria companhia. Ele respondeu positivamente e lhe ofereceu um copo. Ela perguntou se ele autorizava um energético. Ele autorizou. Ela pediu música. Ele mandou ela colocar o que quisesse ouvir na máquina. Ele sorriu quando começou a ouvir as músicas que ela colocara. Ela quis saber por que. Ele disse que não era o tipo de música que costumava ouvir. Ela havia intuído desde de que ele chegara ali, não era o tipo de pessoa que frequentava aquele ambiente. Parecia inclusive um gringo. Ele sorriu e perguntou o nome dela.

-Aiko.

De fato ela lembrava uma japonesa. Só lembrava. Por que sua origem era bem brasileira. Ele sabia que era o nome de guerra (como dizem) dela. E não se importou com o fato dela não dizer nome verdadeiro. Pois afinal de contas não era ingênuo ao ponto de não saber o que estava acontecendo ali. Mas não precisava também ser desagradavel. Tratá-la como um objeto que estava ali para lhe servir. Ele não estava com pressa. Ainda que no outro dia tivesse compromisso. Mas se tivesse duas horinhas de sono seria o suficiente para estar pronto para o trabalho.

Ela percebeu que ele não estava com pressa. Então se colocou à disposição para ouvi-lo. Não seria o primeiro cliente que faria as vezes de uma psicóloga. Já havia perdido a conta de quantos homens haviam passado por ali querendo apenas falar das suas agruras. No final talvez nem o levasse para cama. Se desse lucro para o cabaré já era alguma coisa.

Ele não era um desses, tinha uma vida muito bem resolvida. Estava ali apenas para se divertir. Viver uma experiência nova. Sair da rotina. Ela percebeu. Percebeu inclusive que ele inteligentemente virara o jogo, pois logo era ela que estava falando das suas agruras. Ele tinha essa capacidade. Passava uma confiança e tranquilidade que fazia com que seus interlocutores se sentissem à vontade para falar da vida pessoal.

Boa conversa regada a cerveja. Assim a noite ia avançando. A música não ajudava muito, mas a companhia estava agradável. Agradável também eram os beijos dela. Ela sabia como seduzir. Ele não sairia dali sem fazer um programa. E ela faria de um jeito que ele se tornaria cliente. Ele lembrou de estórias de homens que tinham perdido tudo com prostitutas. Teve medo. Será que viciaria naquilo? Não. Era por demais racional para se deixar seduzir loucamente por aquela mulher e aquele ambiente. Nesse momento veio na sua cabeça um blues da bêbados habilidosos:

“Eu tô bem mais perto do inferno 
Do inferno que do céu
O único carinho que eu tive
Foi, foi de uma puta num bordel
Eu cansei, cansei de acordar sozinho 
Num quarto de hotel
Ao lado de uma garrafa vazia…”

Eles foram para o quarto e fizeram sexo. Depois se despediram com um abraço, um beijo e ele levando o número do celular dela. Num gesto de que aquela seria a primeira de muitas que voltariam a se encontrar.

Pedro Ferreira Nunes - é apenas um rapaz latino americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

terça-feira, 25 de março de 2025

Crônica: Miracema já não é mais a mesma

Chácara dos meus Avós
Os lugares não mudam. O que muda somos nós. Creio que é isso que quer dizer Rubens Alves quando diz que não devemos voltar a um lugar que tanto amamos esperando encontrá-lo da mesma forma de outrora. Ele dirá que iremos nos decepcionar pois o que queremos no fundo é encontrar com o tempo. E aquele tempo já não existe mais. A não ser na nossa memória.

Ao longo da nossa vida alguns lugares vão se tornando muito especiais para nós. À medida que a idade avança creio que aqueles da nossa infância vão ganhando mais relevo ainda. Pelo menos este é o meu caso. A ponto de se um dia o senhor do tempo vier propor um dia no passado em troca de uns 10 anos a menos de vida eu certamente optaria por um dia da minha infância. 

Esse dia muito provavelmente seria no final do ano quando toda a família se reunia na chácara dos meus avós maternos. Ou quando íamos para o Lajeadinho nos juntar à família de Dona Rosalina. Ou uma tarde na baixa preta quando chegávamos da escola e íamos jogar bola no campo de terra e voltávamos ensopados da chuvinha que dera.

Ah, o que foram aqueles dias, não posso descrever com palavras. Por mais que eu tente sempre faltará algo. Mas posso tentar resumir tudo numa palavra: vida. Era a vida se revelando em cada detalhe. Na preparação da comida, nos enfeites da árvore de natal cuidadosamente elaborada por Vovó. Nas brincadeiras, nos sorrisos, nos abraços.

“Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais…”

Esses versos do Belchior expressam fielmente o sentimento que traz as lembranças da minha infância.

O Lajeadinho já não existe, hoje está submerso pelo lago da Usina Hidrelétrica Luiz Eduardo Magalhães. A chácara sim. Mas já não é a mesma. Assim como a baixa preta. Miracema não é mais a mesma. A festa agropecuária, os festejos de nossa senhora de Fátima no bairro Correntinho. Não são mais as mesmas as festas juninas. O grupo império da baixa preta. O estádio castanheirão já não recebe nos seus gramados o saudoso duelo entre o Miracema Esporte Clube e o Tocantins Esporte Clube. Quanta dor sinto ao passar em frente as ruínas do Iracema Club palco de tantos carnavais. E o mercadão então. O que fizeram com o mercadão? A banquinha de revista na praça Derocy Morais. O lavacara.

Os meus primeiros anos no Colégio Estadual José Damascena Vasconcelos. Da professora Marlene. Nunca me esqueci da professora Marlene. Aí professora Marlene. Que bela era a professora Marlene. Foi a primeira das muitas professoras pelas quais me apaixonei. Meus colegas da escola primária. Por onde andam? Fernanda, Marcos, Patricia, Marcelo, Adriele, Priscila, Fatima. Já não me recordo de todos. Alguns deles ainda se recordam de mim? O menino tímido que buscava passar despercebido.

“Pedro, pedroca.
nariz de taboca.
Trocou a mulher
por um saco de pipoca”.

Dona Rosa gostava de declamar esse versinho para mim. Colocando o meu apelido de “Que troca”. Oh Dona Rosa. Saudades da senhora. Saudades de mamãe. De irmos lavar roupa na fonte. Na verdade, a meninada gostava mesmo era de tomar banho, lavar roupa era só um detalhe.

Hoje quando ando pelas ruas de Miracema sinto um certo estranhamento. Busco em cada esquina me reencontrar. Mas me lembro que eu já não sou eu. Como vou encontrar com algo que já não existe? Como doí Miracema, como doí.

Pedro Ferreira Nunes - é apenas um rapaz latino-americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock n roll.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Um diálogo entre Filosofia e Projeto de Vida a partir da obra A Caverna, de José Saramago

Imagine a seguinte situação: De repente aquilo ao qual você se dedicou como fonte de subsistência já não é mais útil para a sociedade. Quando se é mais jovem a situação não é tão traumática já que você pode aprender um novo ofício e se dedicar a ele. Mas de todo modo é preciso força de vontade para recomeçar e romper com os grilhões do modo de produção capitalista.

Essa situação hipotética é a premissa do romance “a caverna” do escritor português José Saramago. Na obra, Cipriano Algor é oleiro e produz utensílios de cerâmica (pratos, copos, xícaras entre outros), com a ajuda da sua filha (Marta), e fornece para o centro comercial da cidade. Enquanto seu genro Marçal Gacho trabalha como guarda neste mesmo local. Cipriano é viúvo e já passa dos 60 anos de idade. A idade avançada e a necessidade de sobrevivência se impõe de determinada forma que parece colocá-lo numa situação sem alternativas.

Cipriano recebe o aviso do chefe de vendas de que o centro comercial irá diminuir a aquisição dos seus produtos, podendo inclusive encerrar totalmente o contrato. O que faz com que o desejo de Marta e Marçal, de que vá morar com eles, quando o genro for promovido a guarda residente do centro comercial, se torne irreversível. É possível imaginar o quanto isso não é difícil para alguém que sempre morou num determinado lugar tendo herdado do pai, que herdou do seu avô, o ofício de oleiro.

Enquanto fica num compasso de espera, Marta apresenta uma ideia no qual ele se agarra com todas as forças. - E se ao invés de produzir utensílios cerâmicos de cozinha, produzissem outra coisa? Mas o que se só sabemos produzir isso? Questiona-se Cipriano. A filha diz bonecos para decoração. A princípio parece absurdo, mas logo eles se jogam nessa missão que se torna cada vez mais séria. Sobretudo quando apresentam a proposta ao chefe de vendas do centro comercial e este faz uma encomenda de 1200 peças.

Os problemas não serão poucos, fazendo-os se questionarem se conseguiram produzir os bonecos e entregar a encomenda. Por outro lado, a qualquer momento Marçal Gacho pode aparecer dizendo que foi promovido e terão que ir morar no centro. Com isso tanto esforço seria infrutífero. Outros dilemas vão surgindo para Cipriano como a possibilidade de um amor com uma viúva mais jovem que ele e a amizade com o cachorro Achado.

A forma como o José Saramago desenvolve a narrativa é fascinante e faz com que a gente se prenda na leitura esperando saber o que vai acontecer com esses personagens. Enquanto isso somos presenteados com reflexões filosóficas acerca da vida.

“A vida é assim, está cheia de palavras que não vale a pena, ou que valeram e já não valem, cada uma que ainda formos dizendo tirará o lugar a outra mais merecedora, que o seria não tanto por si mesma, mas pelas consequências de tê-la dito”.

No trecho acima o autor ressalta que há momentos em que o silêncio é melhor do que qualquer palavra. Não adianta discutir aquilo que já foi discutido. As coisas estão dadas, o que resta agora é agir. Por onde começar então? Pelo princípio, evidentemente. Mas ele nos lembra:

“o princípio nunca foi a ponta nítida e precisa de uma linha, o princípio é um processo lentíssimo, demorado, que exige tempo e paciência para se perceber em que direção que ir…”.

Pai e filha têm uma relação singular. Apesar da diferença de idade discutem em pé de igualdade. E é dessas discussões que coloca em confronto diferentes perspectivas sobre as coisas que colhemos ótimas reflexões:

“Terá que ler doutra maneira… cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para chegar à outra margem, a outra margem é o que importa”. Diz Cipriano. E Marta responde: “a não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá que chegar”.

O título da obra vai para além do episódio que irá fazer com que o que parecia inevitável seja superado (a descoberta da caverna de Platão nas escavações de ampliação do centro comercial). Assim, como o filósofo grego, a narrativa de Saramago enfatiza todo o tempo a importância do conhecimento inteligível. Cipriano, Marta, Marçal e inclusive Achado (o cachorro), pensam. E por pensarem filosoficamente não aceitam o mesmo destino daqueles que estão na caverna.

Lendo essa obra me ocorreu o quanto é fundamental o diálogo entre filosofia e projeto de vida. Pois não é possível, na minha avaliação, pensar num projeto de vida sem reflexão. Do contrário, há o risco de cair num engodo que leva à frustração

- como é o caso do discurso de autoajuda proferido pelos sofistas de plantão (coaches).

Saramago em algumas entrevistas ressalta que nunca vivemos tanto na caverna de Platão como no contexto atual. E isso nos leva a fazer escolhas que nos torna prisioneiros dessa situação. Nesse sentido, é preciso pensar em projetos de vida que rompam com essa lógica. Para tanto, a filosofia é indispensável.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

sábado, 15 de março de 2025

Poema: Noites interioranas


Noites interioranas
Lembranças de tempos atrás.
Noites interioranas
Tempos que não voltam mais.

Seu Disomo prepara as tralhas
E vai para o rio pescar.
É noite enluarada
Os “moelas” vão passar.

Dona Eurides no girau
Prepara o que comer.
Curimatá fresquinha
Frita no óleo de dendê.

Dona Caetana na vazante
Alegre colhe feijão.
A colheita tá sendo boa
Melhor que no ultimo verão.

O Bida preparou a bucheira
Foi esperar cotia.
Lá no brejo do Anísio
Só volta no fim do dia.

Seu Josias subiu pros mares
Atrás dos cardumes de jaús.
Na pescaria passada
Não pegou nem baiacu.

Ei que lá vem dona Julia
Caminhando com seu bastão.
Trazendo na sua sacola
Estórias de assombração.

Seu Raimundo passou aqui
Trouxe doce de buriti.
Pense num doce gostoso
Como esse nunca vi.

Vamos brincar no terreiro
A lua tá tão bonita.
Pegar manga de leite
No quintal da Tia Dica. 

Quando raiar o dia
Vamos pra casa da Tia Gaida. 
Aprender o ABC
Para ser alguém na vida.

Já tá chegando agosto
É mês da padroeira.
Vai ter festa na cidade
E o forró é de primeira.

A caboclada se agita
Desce lá paro mercadão.
Comprar roupas novas
Para festa no sertão.

O sanfoneiro é de primeira
Vem das bandas das pedreiras.
Quando ele abre o fole
Dança a cidade inteira.

Abre o fole sanfoneiro
Que o povo que dançar.
Essa festa só acaba
Quando o dia raiar.

E assim segue a vida 
Nesse nosso interior.
Vida de muito trabalho
Mas também de muito amor.

Segue a vida e alguns se vão
Só nos restam as lembranças.
Da minha mocidade
Do meu tempo de criança.

Lembranças daqueles
Que aqui já não estão.
Hoje descansam em paz
Sementes plantadas ao chão.

Pedro Ferreira Nunes. Casa da Maria Lúcia. Lajeado-TO.


segunda-feira, 10 de março de 2025

Crônicas Aurenyanas: pobre natureza humana

Desde que mudei para o Aureny I moro no mesmo lugar. Apesar de ter outros moradores, é um lugar tranquilo e próximo do trabalho. Nesse período de um pouco mais de 2 anos já passou pelas outras kitnets alguns inquilinos. Não costumo interagir com eles além do protocolar bom dia, boa tarde, boa noite. Mas não deixo de observar os seus comportamentos. Assim como eles provavelmente observam o meu. E das minhas observações não posso deixar de refletir sobre o que chamo de pobre natureza humana. Vejamos o seguinte caso que passo a relatar:

No segundo semestre de 2024 mudou para kitnet vizinha a minha uma senhora que creio ter os seus 50 e poucos anos. Baixa e magra de início imaginei que tinha muito mais. Também imaginei que fosse uma dessas velhas sem família. Conversadeirinha sempre buscava puxar assunto prontamente recusado por mim. Notei que ela era evangélica. Parecia ser fervorosa. Mas percebi que a igreja havia entrado na sua vida recente como um refúgio de uma vida viciosa. Então entendi que sua aparência um tanto acabada não era pela idade, mas pelo vício. Entre eles um ela ainda não havia conseguido se “libertar” completamente - o cigarro.

Percebi que ela estava tentando começar uma nova vida. Apesar da sua aparência franzina trabalha incansavelmente como diarista fazendo faxina em casas. Saía sempre muito cedo e voltava tarde. À medida que o dinheiro ia entrando ela ia mobiliando sua pequena kitnet. Não era tão sozinha como eu imaginava. Tinha filhos que vinham visitá-la e até um namorado. Mas a maior parte do tempo ficava sozinha, ouvindo louvores e pregações no celular. Também não deixava de ir para a igreja.

Não demorou para que ela começasse a revelar suas contradições. Expressão da nossa pobre natureza humana que fica tentando se equilibrar entre os nossos desejos e os valores que a sociedade impõe. Ela buscava reprimir seus desejos por meio do seu credo. Mas a realidade, dura e cruel, obriga a ser o que ela é.

Alguns acontecimentos aceleraram esse processo. Ela que morava sozinha de repente tinha um filho com ela. E tempos depois outro. Com o fracasso do casamento deles e sem ter para onde ir buscaram refúgio na mãe. E ela como toda mãe, digna desse nome, não podia deixar de acolhê-los. Ainda que isso significasse não só a perda da sua privacidade mas sobretudo a paz. Já que as criaturas têm um dom especial em estressá-la.

Dia desses voltando para casa encontrei-a  no portão de entrada sentada fumando um cigarro e com um semblante pensativo. Percebi que ela não estava bem. O namorado já não vem mais visitá-la e a igreja há um bom tempo não sente sua presença física. No tom da sua fala a gente percebi que a qualquer momento ela entrará em colapso. Por enquanto fumar um cigarro escondido tem sido sua fuga. Mas até quando suportará? Se ela não conseguir se libertar dos filhos parasitas, a morte lhe tragará em breve. Há que se libertar também da religião que impede que veja as coisas tal como elas são.

“no ' imperturbável espectador dessa cena, a duplicidade de sua consciência atinge o mais elevado grau: ele se sente simultaneamente como indivíduo, fenômeno efêmero da Vontade que o menor golpe daquelas forças pode esmagar, indefeso contra a natureza violenta, dependente, entregue ao acaso, um nada que desaparece em face de potências monstruosas, e também se sente como sereno e eterno sujeito do conhecer, o qual, como condição do objeto, é o sustentáculo exatamente de todo esse mundo, a luta temerária da natureza sendo apenas sua representação”.

Refletindo sobre a pobre criatura me lembrei dessa passagem do Schopenhauer que chama atenção para a natureza humana revelada numa consciência dupla. Por um lado a condição de um indivíduo insignificante diante de uma força superior (a natureza). Por outro lado, o único ser que tem consciência da sua condição de sujeito do conhecimento que sustenta todo esse mundo. Na mente da nossa personagem há essa duplicidade. Ainda que ela não tenha consciência. Por um lado ela se sente uma criatura à mercê da vontade divina. Pois para lógica de alguém religioso ela está vivendo o que está vivendo porque Deus quer que seja assim. Por outro lado, ela sabe que pode muito bem não aceitar viver a vida que está vivendo.

Esperemos para ver o que acontecerá. Se formos seguir concordando com Schopenhauer independente da sua escolha as consequências serão dor e tédio. A dor ela já está sentido na pele. Basta saber se ao conseguir realizar o seu desejo virá o tédio. Oh pobre natureza humana.

Pedro Ferreira Nunes - é apenas um rapaz latino-americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock n roll.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Análise do resultado do desempenho dos estudantes do CEMIL Santa Rita de Cássia no SAETO

avaliar... é uma atividade que põe em questão 

a nossa própria concepção de educação.

Savian Filho


Até que ponto o resultado das avaliações externas corresponde a realidade/qualidade da educação no Brasil? Esse não é um questionamento novo. Mas o fato é que quem comanda a política pública de educação no país se guia por estes índices. Ou seja, é o desempenho dos estudantes nesses exames que define a qualidade do ensino no Brasil. Entre estes exames destaca-se o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) através do qual se obtém o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Todas as redes estaduais e municipais se mobilizam para obter um bom índice. Desenvolvendo estratégias que vão desde premiação às escolas com melhor desempenho a produção de material direcionando o trabalho em sala de aula. No Tocantins além disso temos o Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Tocantins (SAETO) que é uma espécie de preparação para o SAEB/IDEB. E é este que é o nosso objeto de análise nesse breve artigo, a partir dos resultados de 2024 do Colégio Esportivo Cívico Militar Santa Rita de Cássia, localizado no município de Palmas, Estado do Tocantins.

SAETO
De acordo com a Secretaria da Educação do Tocantins (SEDUC-TO) o Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Tocantins (SAETO) foi criado com a finalidade de avaliar a qualidade de ensino e a aprendizagem da Educação Básica na Rede Estadual de Ensino. E a partir daí promover “a modernização da gestão e o aprimoramento do processo de ensino e aprendizagem, com vistas à melhoria dos indicadores educacionais do Estado do Tocantins.” A princípio a prova seria direcionada para as turmas de 5° e 9° Ano do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio. No entanto, nos últimos anos expandiu-se para as demais turmas. Numa parceria com o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF). Que por meio de uma plataforma disponibiliza a rede estadual o resultado com o desempenho dos estudantes.

CEMIL Santa Rita de Cássia
É um tradicional centro de ensino localizado na região Sul de Palmas, mais especificamente no Jardim Aureny I. Quem vem passando por mudanças nos últimos anos. A mais significativa certamente foi a mudança de tempo parcial para tempo integral. E com isso veio o programa jovem em ação. A partir de 2023 passa a oferecer o ensino técnico concomitante ao ensino médio (curso de técnico em informática). Já a partir de 2024 tornou-se cívico militar numa parceria com o Corpo de Bombeiro Militar do Estado do Tocantins e passou a ofertar também turmas do Ensino Fundamental - anos finais (8° e 9° Ano). A partir de 2025 acontece uma ampliação da oferta de cursos técnicos concomitante ao ensino médio em parceria com o SENAI. Em 2024 atendeu um público de cerca de 360 estudantes, agora em 2025 saltou para mais de 450. Um movimento interessante a se notar é que enquanto as turmas de ensino fundamental e 1ª série do ensino médio tem turmas lotadas. Notamos uma diminuição destes quando avançamos para a 2ª e 3ª série. Reflexo em grande medida da condição social que obriga muito jovem a buscar um trabalho para ajudar no sustento familiar, não podendo assim estudar em regime de tempo integral.

Os resultados
O SAETO, por meio de uma prova objetiva, busca medir o nível de aprendizagem dos estudantes a partir dos Componentes Curriculares de Língua Portuguesa e Matemática. Na mesma linha do SAEB. Quem tem uma média de acerto de até 25% é considerado num nível muito baixo. Quem alcança entre 25% e 50% acertos é considerado no nível baixo. Já quem alcança entre 51% e 75% está no nível médio. Por fim, quem alcança de 76% em diante está no nível alto
De acordo com os resultados disponibilizados pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF), por meio da sua plataforma, o desempenho dos estudantes do Colégio Esportivo Cívico Militar em 2024 foi médio em Língua Portuguesa e baixo em Matemática. Vejamos mais detalhadamente:
A turma 82.01 (8ª ano do Ensino Fundamental) alcançou 65% em Língua Portuguesa e 39% em Matemática. Com uma taxa de participação de 95% dos estudantes da turma;
A turma 92.01 (9ª ano do Ensino Fundamental) alcançou 63% em Língua Portuguesa e 36% em Matemática. Com uma taxa de participação de 91% na prova de Língua Portuguesa e 87% na de Matemática;
Na 1ª Série do Ensino Médio as 7 turmas alcançaram 63% em Língua Portuguesa e 33% em Matemática. Com uma taxa de participação de 80% dos estudantes da turma;
Na 2ª Série do Ensino Médio as 5 turmas alcançaram 63% em Língua Portuguesa e 27% em Matemática. Com uma taxa de participação de 71% na de Língua Portuguesa e 73% na de Matemática;
A turma 33.01 (3ª Série do Ensino Médio) alcançou 63% em Língua Portuguesa e 30% em Matemática. Com uma taxa de participação de 63% na prova de Língua Portuguesa e 62% na prova de Matemática;
Se formos levar em consideração esses resultados podemos dizer que não há o que comemorar. Evidentemente não chega a ser um desastre. Sobretudo se compararmos com o resultado da rede. Por exemplo, em relação ao 8ª ano do Ensino Fundamental a média foi de 59% de acerto em Língua Portuguesa e 33% em Matemática. Em relação a 2ª série do Ensino Médio a média foi de 54% em Língua Portuguesa e 24% em Matemática (são esses estudantes que farão em 2025 a prova do SAEB). No entanto, estamos longe de alcançarmos um nível alto. Sobretudo em Matemática.
Mas aqui voltamos a nossa questão inicial, até que ponto podemos confiar nesses resultados para nos guiar por eles? O primeiro ponto que vai contra essa perspectiva é acerca do engajamento dos estudantes com as provas. O discurso de muitos é de que pelo fato de não valer nota acabam não ligando muito. Inclusive a gente percebe uma queda na taxa de participação dos estudantes, sobretudo os de Ensino Médio. Outro ponto de questionamento é a respeito do engajamento da equipe escolar na mobilização e aplicação das provas. Por outro lado, cabe um questionamento, nas avaliações internas (valendo nota) o desempenho é muito diferente?
Libâneo (1994) nos diz que avaliar é parte constituinte do fazer docente. Pois é por meio do processo avaliativo que verificamos se o caminho traçado por meio dos planos está se concretizando. E se não, o que podemos fazer para corrigir a rota. Não é um processo simples que pode ser reduzido a um único instrumental (prova objetiva). Por que então medir o nível do estudante somente pelo seu resultado numa prova desse tipo? Quando se trata do SAEB sabemos que também é levado em consideração o índice de aprovação e evasão somado ao resultado na prova. O que não muda muita coisa. Mas é bastante revelador da perspectiva pedagógica dominante. Uma educação que busca atender os interesses do mercado a partir de uma perspectiva unidimensional, tirando do indivíduo sua capacidade crítica por meio da imposição de uma racionalidade tecnológica.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Qual a sua playlist?

Cena do filme Mesmo se nada der certo
- Você pode saber muito sobre uma pessoa pelo conteúdo da playlist dela. Essa frase é de uma cena do filme Mesmo se nada der certo (2013). Não foi esse filme que me motivou a fazer um exercício com os estudantes da 1ª série do ensino médio no componente curricular de Projeto de Vida. Pelo menos não de forma consciente. Mas essa premissa certamente estava na minha cabeça quando pensei e propus o exercício.

Acredito que todos que iniciam um trabalho com pessoas que não conhecem a primeira coisa a se fazer é buscar conhecê-las. Se tratando da educação, sobretudo na sala de aula, isso é ainda mais necessário. Sobretudo se você é professor de Projeto de Vida. Foi o que fiz ao iniciar a minha trajetória como professor no Colégio Santa Rita de Cássia. Para tanto propus algo que já havia feito em situações anteriores - a elaboração de uma produção textual a partir da temática: quem é você.

Esse exercício é tanto uma forma de conhecê-los para além do nome como também deles próprios se conhecerem. E é incrível como a gente recebe uns relatos bem elaborados com elementos que faz com que a gente olhe para aquelas criaturas com outro olhar. Mas também há sempre aqueles que têm uma dificuldade maior de falar de si. E só com o tempo vão tendo mais confiança em se abrir com a gente. Para que isso ocorra vou instigando-os, por meio de diferentes atividades. Foi nessa de pensar e elaborar essas atividades que me veio a ideia de pedir que fizessem uma playlist com artistas e canções que ouvem quando estão com determinado humor.

A pergunta imediata que fizeram foi: - é sério isso? Eu respondi afirmativamente.

Percebi que todos ficaram empolgadíssimos com a atividade. Até então nunca havia proposto uma atividade em que 100% dos estudantes fizessem sem reclamar. Até eu mesmo me empolguei e compartilhei alguns artistas que estão na minha playlist, seja em momentos alegres ou tristes. Geralmente artistas do rock. Alguns mais pesados como Sepultura, Motorhead e Ratos de Porão. Outros mais tranquilos como The Beatles, Bob Dylan e Ira!

O interessante foi quando comecei a descobrir o que eles ouviam. Tive a impressão que 95% eram de artistas que eu não conhecia. Quiz saber quem eram. Que tipo de ritmo tocavam. O que lhes afetavam nessas canções. Eles falavam com empolgação. Colocavam para eu ouvir. E tinham coisas realmente muito boas. Me questionei como pode a gente não ouvir falar dessa gente que está fazendo um trabalho de muita qualidade.

Foi a mesma impressão que tive tempo depois quando fui no festival calango e me deparei com artistas que nunca havia ouvido falar, como o Yago Opriprio, que fazem um som muito potente, cantado por toda a plateia.

A partir desses exemplos, percebemos que apesar da indústria cultural querer impor um único estilo musical, alguns artistas conseguem furar essa bolha, e isso não é de hoje. Que o diga grupos como Racionais MC´s e artistas como o Edson Gomes.

Refletindo sobre a experiência cheguei a conclusão de que aquele exercício falou para mim, mais sobre mim do que sobre eles. Ao confrontar a minha playlist com a deles percebi que envelheci. Que apesar de reconhecer e apreciar o talento desses novos artistas, as minhas referências são cada vez mais do passado. Na minha visão não por amor ou reverência ao passado, mas porque para mim são atemporais. 

Sei que muitos dos artistas que os meus estudantes ouvem hoje, não serão os mesmos que ouviram na maturidade. Ou se ouvirem não serão afetados da mesma forma que são atualmente. E tudo bem. Ruim seria se ficassem a vida toda ouvindo as mesmas coisas. Mas vai chegar um momento que, assim como eu, terão uma playlist mais restrita fruto das experiências vividas ao longo da vida. E nessa playlist haverá cada vez menos espaço para o novo, ainda que como diz Belchior numa célebre canção: o novo sempre vem.

Pedro Ferreira Nunes - é apenas um rapaz latino-americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock n roll.