terça-feira, 25 de novembro de 2025

- O que tu fizeste da vida? - O que nos tornamos!

Quando nos vimos pela última vez eu era um jovem interiorano sem muita perspectiva. Você já era uma mulher que há pouco tempo havia concluído um curso universitário e estava dando início a carreira profissional. Nos relacionávamos há uns dois anos. Havia amor entre nós. Mas nosso relacionamento não tinha perspectiva de futuro. Eu era uma espécie de porto seguro para onde você ia quando retornava de suas aventuras. Você para mim era a fuga de uma vida medíocre. Mas nem sempre você vinha, pois espírito livre como era não se deixava prender. Eu queria mais do que você podia me dar. Nunca deixei de pensar em você desde então. Não foram poucas as vezes que idealizei um reencontro. Por onde estava? Como estava? De vez em quando ouvia uma conversa sobre você. Eu fingia não dar muita importância para não mostrar meu interesse. Um dia a noite assistindo televisão, quase 20 anos depois da nossa despedida, recebo a ligação de um conhecido perguntando se podia passar meu telefone para você. Não acreditei. Teríamos então o nosso reencontro. Será que seria bom? Autorizei que o meu telefone fosse passado para você e fiquei aguardando o contato. Não foi naquele dia, nem no dia seguinte, nem na semana seguinte. Eu não fui atrás. Quando então do nada recebo uma mensagem. Aquilo mexeu comigo significativamente. Você dizia que queria me encontrar. Eu disse que seria um prazer. Mas algo na sua voz me dizia que talvez não fosse o certo a fazer. Eu já não era mais eu. Você já não era mais você. O encontro não se concretizou, você sumiu. Tempos depois recebo uma nova mensagem. Sua voz estava diferente. Senti vontade de estar com você mas estávamos distante territorialmente falando. No entanto, ainda que por mensagens conversamos como há muito não conversávamos. Falamos da vida, de música, de poesia. Prometemos nos encontrar quando você estivesse melhor. Sim, você não estava bem. Eu não quis saber porque. A não ser que você quisesse falar. Eu queria apenas te acolher sem julgamento. Faria mais se não fosse a distância. Por algumas semanas conversamos quase diariamente. Você dizia me acompanhar pelas redes sociais e tinha orgulho do profissional que eu havia tornado. Já você estava em busca de recomeço e precisava superar alguns vícios. Não estava sendo fácil mas iria conseguir. Fiquei imaginando o que a vida havia feito com você. Como tinha chegado naquela situação? No pouco tempo que estivemos juntos percebi que você coloca a emoção na frente da razão. Como tudo na vida viver assim tem seus aspectos bons e ruins. Saber conviver com isso é o ponto central. Sobretudo porque isso nos coloca em situações difíceis. Óbvio que falo isso porque sou um racionalista irremediável. Você certamente vai me chamar de covarde. Como quando você me chamou para morarmos juntos e não aceitei porque havíamos acabado de nos conhecer e ainda não nos conhecíamos o suficiente para dar um passo tão importante. Hoje com 40 anos estou bem pior. E você parece não ter mudado também. De repente você sumiu novamente. E apareceu 1 ano depois. Nesse tempo, confesso que cheguei a pensar que talvez você estivesse morrido. E que o nosso contato foi uma espécie de conciliação para que morresse em paz. Mas não. Que bom. Fiquei feliz em saber que você estava se tratando e que estava retornando para recomeçar a vida. Precisava de apoio. Que eu era peça importante nesse processo. Eu não podia dizer não para alguém que fora tão importante na minha vida. Ainda sabendo que talvez eu não correspondesse ao que você esperava. Ando bebendo muito, fumando muito. Óbvio que sob controle, creio eu. Pelo menos ainda não afetou o meu trabalho e minhas relações pessoais. Você falou que não tinha importância e a partir daí o nosso reencontro passou a ser questão de tempo já que do ponto de vista territorial estamos próximos novamente. No entanto, novamente algo parece nos afastar. Lembro lá que quando éramos jovens eu gostava de pensar que o nosso relacionamento não havia dado certo porque estávamos em tempos diferentes. E digo isso não em relação a idade mas ao espírito. Lembra daquela música da Legião Urbana? - Agimos certos sem querer, foi só o tempo que errou… De modo que imaginei que quando nos encontrássemos estaríamos no mesmo tempo. Mas vejo agora que não. Nós nos amamos, isso é fato. Mas as nossas perspectivas sobre a vida são opostas. De modo que nunca daria certo entre nós. Diante disso não sei se seria interessante nos reencontrar pessoalmente (presencialmente). Eu já não alimento esse desejo. Não posso dar o que você espera de mim. Talvez um dia nos encontremos por acaso. Ti darei um abraço, trocaremos algumas palavras, desejarei que você fique bem. E partirei de volta para minha vida. Não vou cometer o erro de querer que você se encaixe nela. Você é um espírito livre e jamais vai deixar de fazer o que quer. Eu também jamais abriria mão da minha vida para me encaixar na de outra pessoa. Pois por mais que não pareça, sou um espírito livre também. Enfim, é isso meu bem.

Fique bem.

Pedro Ferreira Nunes - Casa da Maria Lúcia. Lua Minguante. Lajeado -TO. Inverno de 2025.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Conhecendo o Santa Rita: Educação Antirracista entre os muros da Escola.

Essa foi a temática do podcast produzido por estudantes do CEMIL Santa Rita de Cássia. No qual fui um dos convidados a falar da minha compreensão do que é educação antirracista, das atividades desenvolvidas pela Unidade Escolar a partir dessa temática no corrente ano e de sua importância.

Entre as atividades desenvolvidas pelo Cemil Santa Rita de Cássia está o podcast. Por tanto comecemos por ele. É importante esclarecer que não partiu de nós a sua confecção. Mas da organização da Olimpíada Brasileira de Relações Étnicos-Raciais, Afro-Brasileiras, Africanas e Indígenas (OBERERI) que estabeleceu em edital que a última tarefa para as equipes de ensino médio seria a produção de um podcast. No entanto partiu de nós inscrever e orientar uma equipe na competição.

Anteriormente eles fizeram mais duas tarefas: pensar um projeto sustentável para uma comunidade tradicional no território amazônico afetada por uma crise hídrica. E responder um quiz sobre a temática Africana, Afro-Brasileira e Indígena.

Ressaltando a fala da equipe de estudantes que participaram da OBERERI foi uma experiência enriquecedora que certamente contribuiu para mudança de olhar deles acerca dessa temática.

Desde que ingressei na educação básica como docente tenho procurado trabalhar uma educação numa perspectiva antirracista (Que na minha compreensão está dentro da educação em direitos humanos). Não só desenvolvendo ações em datas específicas como o dia dos povos indígenas e na consciência negra. Mas também no cotidiano da sala de aula. No entanto nesse ano de 2025 é certamente o ano em que mais consegui avançar nesse sentido. A política da Secretaria de Estado da Educação (SEDUC-TO) incentivando práticas antirracista nas unidades escolares da rede pública certamente contribuiu para que isso pudesse se concretizar.

É isso que busquei trazer durante a minha participação no podcast (conhecendo o Santa Rita ).

Ao definir o que é educação antirracista - como um conjunto de práticas pedagógicas de enfrentamento ao racismo.  E a partir daí contribuir com a construção de uma cultura de respeito à dignidade humana do povo negro. Fizemos um relato do que desenvolvemos enquanto escola no decorrer do ano. Entre as ações destacamos a leitura e discussão de autores negros e indígenas. E uma ampla discussão e mobilização para atualização da autodeclaração étnico-racial dos estudantes.

Nas minhas aulas especificamente continuei o movimento de trazer para as aulas de Filosofia textos da bell hooks, Ailton Krenak, Djamila Ribeiro, Angela Davis e Sueli Carneiro. Por coincidência dois desses filósofos (Carneiro e Krenak) caíram na etapa regional e na etapa nacional da Olimpíada de Filosofia (ONFIL). E pelo conhecimento desses pensadores, a partir do que havíamos trabalhado, o nosso representante optou por elaborar um ensaio filosófico sobre a problemática apresentada por eles.

Por tudo que desenvolvemos esse ano ouso dizer que não teremos dificuldade de obtermos o reconhecimento tanto por parte da SEDUC-TO como pela OBERERI, de Escola Antirracista. No entanto temos plena consciência de que ainda temos muito a avançar. Não podemos aceitar com naturalidade, ficar em silêncio ou pior, relevar atitude racista travestida de brincadeiras. Por outro lado não acreditamos que o caminho é a lógica punitivista. Enquanto Educador acredito na educação como instrumento de transformação. De modo que no ambiente escolar devemos buscar estratégias pedagógicas para mudar a cultura racista. Não é fácil. Não será da noite para o dia. Mas não podemos e nem iremos recuar. 

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia. 

sábado, 15 de novembro de 2025

Sobre leituras

A leitura entrou na minha vida ainda na infância. Eu diria que até mesmo antes de aprender a ler. Amava ficar folheando os livros vendo as ilustrações. Antes disso ficava deslumbrado com os mais velhos contando estórias no pé de uma fogueira ou de uma lamparina. Não é de se admirar que acabei trilhando um caminho em que a leitura é fundamental - me formei professor de Filosofia. 

Leio de tudo, com exceção de autoajuda e de livros de religião. A formação em Filosofia me levou a leituras mais densas. Mas mesmo antes já me interessava por coisas assim. Lembro de quando li Assim falou Zaratustra, do Nietzsche, pela primeira vez.  Não entendi muita coisa. Isso que já havia lido umas três ou quatro obra desse filósofo (antes de ingressar na graduação em Filosofia). Creio que era mais o estilo e o exercício de criticidade que me atraía. Ainda mais pelo fato de que no ensino médio as leituras que mais me marcaram fora: Vidas Secas (Graciliano Ramos) e Memórias Póstumas de Braz Cubas (Machado de Assis). No entanto mesmo com toda essa carga acumulada ao longo dos anos não significa que absorvo facilmente qualquer leitura. Pelo contrário. 

Fiz questão de ressaltar isso para um estudante que eu estava orientando para Olimpíada Nacional de Filosofia (ONFIL). Passei para ele interpretar um trecho de texto de Filosofia. E ao contrário de outros textos, esse ele estava tendo dificuldade. Quando já estava querendo desisti busquei tranquiliza-lo trazendo o meu exemplo. 

Por muito tempo evitei ler o Capital, do Karl Marx.  Falavam tanto que se tratava de um livro de difícil compreensão que evitei até que me senti preparado. O fato de ter lido outras obras do Marx antes, além de leituras sobre ele e  seu método contribuiu para que a leitura do O Capital fosse compreensível. 

Recentemente finalizei uma dessas leituras densas que a cada página você parece compreender menos. Tratou-se do livro Dar corpo ao impossível: O sentido da dialética a partir de Theodor Adorno. Escrito pelo filósofo brasileiro Vladimir Safatle.

Safatle é para mim uma das principais referências intelectuais brasileira na contemporaneidade. Sempre leio os seus artigos em periódicos como também assisto sua participação em eventos disponíveis na Internet, em podcasts entre outros. Gosto muito da leitura que ele faz da realidade brasileira. No geral são textos acessíveis para o grande público. E nessa linha ele publicou um livro muito bom na minha avaliação - Alfabeto das colisões (que inclusive já escrevi sobre). Além dessa produção acessível, ele tem uma produção mais voltado para academia. Dessa produção a minha leitura é pouca. Já havia lido trechos do Circuito dos afetos que utilizei como referência num artigo de conclusão de minha pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos. Mas foi com a leitura de "Dar corpo ao impossível..." que entrei em contato de forma mais aprofundada com essa produção. 

Lembro que adquiri o livro em 2022, comecei lê-lo em 2023. Não avancei muito. Desisti. Tentei em 2024, não avancei muito. Desisti novamente. Agora em 2025 tentei novamente e consegui concluir. Parafraseando o próprio Safatle num podcast em que ele fala do seu tempo de estudante de filosofia e da dificuldade em compreender algumas aulas.  Não entendi muito coisa. Mas o pouco que entendi deu pra perceber que há muito coisa interessante. 

Como pode ser deduzido a partir do título do livro o objetivo do Safatle é investigar a dialética negativa do Theodor Adorno propondo uma reflexão sobre sua relevância no contexto atual. Para tanto ele apresenta como essa dialética foi sendo desenvolvida pontuando sua diferença com outras perspectivas, por exemplo a Hegeliana. E analisando as críticas feitas à ela. Concluindo trazendo para a realidade brasileira. 

No primeiro momento a obra é bastante teórica. E a cada página que avançamos na leitura ficamos com a sensação de que não estamos assimilando muita coisa. Safatle vai relacionando com outros pensadores tais como Hegel, Marx, Freud. Entre outros. A ideia dele creio que é mostrar que para compreendermos a dialética negativa do Adorno precisamos conhecer minimamente essas outras perspectivas. Além desses há outros autores que ele vai trazendo para conversa hora corroborando, hora rechaçando. No entanto Safatle faz um movimento que torna a leitura mais acessível - ele parte do geral para o particular. Do abstrato para o concreto. Termina falando sobre o Brasil trazendo para conversa filósofos como Paulo Arantes e Bento Prado Jr. fazendo um diálogo com a literatura, sobretudo Grande Sertão: veredas, do Guimarães Rosa e assim saímos da leitura com a ideia de ter compreendido o principal  - a dialética negativa Adorniana continua relevante para quem acredita na superação do que está posto. Será se é isso mesmo? Foi o que compreendi. 

Seguindo para uma conclusão eu diria que Dar corpo ao impossível é uma obra potente. Mas não é para o grande público. Eu diria que nem para um estudante que ainda está na graduação em Filosofia, por exemplo. Em outros cursos então nem se fala. Já para quem está num nível de mestrado e doutorado, e quer compreender como se pensa dialeticamente eis ai uma obra fundamental. Concluo falando que ler bem é um exercício constante. As vezes vamos encontrar aquele livro que a leitura parece incompreensível. Nesse momento é importante dar um recuo e se preparar mais para encará-lo. Isso já aconteceu comigo algumas vezes e sei que outras virão.  Mas querendo a gente consegue. Basta ter disposição para ler, ler e ler. Pois não há receita melhor do que isso para dominarmos a leitura.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Crônicas Aurenyanas: - a mulher sábia edifica a casa?

Quando ela chegou me pareceu não ter mais do que 14 anos. De modo que não pude deixar de questioná-la se era maior de idade mesmo. A reação dela foi bastante reveladora: - quem dera pudesse voltar no tempo que eu tinha 14 anos. Essa frase veio carregada de uma certa tristeza. E não pude deixar de comentar: - sinto que há um trauma aí. Ela então respondeu: - não vou te mentir, se eu pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Lhe ofereci uma cerveja. Ela pareceu ficar mais à vontade. Lembrei das minhas aulas do projeto de vida. Será que ela teve aulas de projeto de vida? Se não ou sim, teria feito alguma diferença? O que teria sido? Vai saber. Ela certamente não se abriria para um completo estranho. Mas ainda ousei perguntar se tinha filhos. Tinha 1. Ela me perguntou: -  E você? Respondi: - sem filhos. - Casado? Questionou-me. Lhe respondi: - Nunca! Ela ficou admirada e perguntou: - me conta o segredo. Se eu pudesse nunca teria me casado. Entendi então que o seu arrependimento era referente á relacionamento. Falando um pouco de mim talvez lhe deixasse mais à vontade para falar de si. Então respondi-a: - Tenho dificuldade de ter que dar satisfação sobre onde vou, o que vou fazer. De modo que prefiro estar sozinho. Sei que estando num relacionamento teria que dar esse tipo de satisfação. Por tanto é melhor assim. E sinceramente estou bem. Ela respondeu entusiasmada: - Nossa, eu estou exatamente assim. Não quero saber de namoro e muito menos casar. Não quero dar satisfação do que vou vestir, para onde vou, o que vou fazer. Questionei-a então: - Foi por isso que seu casamento não deu certo? Ela respondeu: - Ele tinha muito ciúmes de mim. E eu ia aguentando. Havia toda uma pressão da minha família para que eu não terminasse. - Quantos anos você tinha? - 14 anos. - Nossa, muito nova. Mas continua. Ela então continuou a narrativa: - Tinha aquela história de que a mulher sábia edifica o lar. Mas como? Eu tentava. Juro que tentava. Mas a cada dia o ciúmes dele só piorava. No final acabou da maneira mais besta possível. Um dia eu estava na porta de casa e uns meninos iam passando e um me perguntou as horas e respondi. Ele ia chegando na hora e disse que eu estava dando “moral” para os meninos. Tentei argumentar de todas as formas. Ele dizia que não acreditava. Que só não havia acontecido algo porque ele havia chegado. Ai para mim, deu! Falei pra ele que era o fim. De início ele não aceitou. Ficou um bom tempo no meu pé mas por fim viu que tinha acabado mesmo. Eu disse para minha família. Mulher sábia. Foda-se mulher sábia. Eu não sou uma mulher sábia. Ao final do relato sorri. Eu sabia bem de onde vinha aquele discurso de que a mulher sábia edifica o lar. Só esquecem de dizer que para edificar o seu lar elas têm que abrir mão da sua existência. Não faltam exemplos de mulheres que sacrificaram a vida ou bons anos dela por esse ideal. Ela cada vez mais relaxada continuou se abrindo: - no início é aquela maravilha. Depois eles querem ser seu dono. Esse é um ponto que sempre me incomodou nos relacionamentos tradicionais - a ideia do outro como um objeto a seu dispor. Numa sociedade dominada pelo homem, como bem salienta Simone de Beauvoir no seu clássico “o segundo sexo”, esse outro que é transformado em objeto é a mulher. Continuamos a conversar como se nos conhecêssemos há tempos. Comigo ela sentiu a vontade para falar o que certamente não seria bem aceito em qualquer lugar. - minha mãe vive dizendo que do jeito que eu vivo, nunca vou arrumar outro marido. E quem disse que eu quero. Disse ela. Eu então comentei. - não sou a melhor pessoa para dar conselhos acerca de casar ou não casar. O problema é que quase sempre as pessoas se deixam levar pela paixão (emoção) e não demora o relacionamento fracassar e os dois começarem a se odiar. Eu acredito que é preciso pensar bem antes de dar um passo nesse sentido. Quando vem um filho, tudo se complica. Eu odiaria ter tido um filho com uma mulher e não está criando ele hoje. Por isso não me arrependo de forma alguma de nunca ter casado e nem ter tido filhos. - Você tem toda razão. Ela me disse. Nesse meio tempo já tínhamos tomado umas 5 cervejas. Era hora d´eu ir embora. Então me despedi. Ela respondeu dizendo que tinha sido um prazer conhecer alguém como eu. Quem sabe um dia não voltássemos a nos encontrar. Não pedi o telefone dela, ela não pediu o meu. Por isso se voltássemos a nos encontrar seria obra do acaso. Como fora o nosso encontro naquela tarde de domingo naquele bar. Melhor assim. Pois se trocássemos telefone seria criar algum vínculo. E nem eu e nem ela estava querendo isso. Escrevo essas linhas algum tempo depois do acontecido. Já não me lembro do rosto dela. Não sei se visse ela na rua a reconheceria. Mas a nossa conversa ficou na minha cabeça. Não porque foi uma conversa extraordinária. Pelo contrário. É uma história ordinária. Não é nada difícil encontrar num bar de qualquer cidade uma jovem mãe solo que traz na sua bagagem a memória de um relacionamento que deixou marcas. Não as julgo por estarem ali. O que sinto é que não aprenderam muito. No fundo elas esperam encontrar o príncipe encantado prometido. Certamente não será num bar que encontraram. Nem muito menos numa igreja onde serão levadas a acreditar que a edificação do lar é unicamente de responsabilidade delas.

Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

“Quando eu falava desses homens sórdidos… você não escutou…”

Olá, minha querida. Como andam as coisas por aí? Por aqui sigo bem dentro do possível. Você sabe que para alguém que se deixa afetar em demasia pelas injustiças contra quem quer que seja nunca é possível estarmos totalmente bem. Quando pensei em escrever essas linhas, os versos (“quando eu falava desses homens sórdidos”) da canção Paisagem da Janela, do Lô Borges e do Fernando Brant, me vieram à cabeça. Você sabe que o Lô partiu essa semana e quando uma figura desse tamanho parte nós que apreciamos o seu legado ficamos um tanto mexidos. Fiz uma atividade utilizando esse trecho numa aula de filosofia da arte e fiquei feliz com o resultado. O objetivo da aula era conhecer as funções da arte. E a atividade tinha como fim aprofundar o entendimento com um exercício. Mas o que isso tem haver com o que quero realmente dizer? Que durante o exercício eles relacionaram o trecho com o contexto atual. Pontuando que esse trecho é um espelho que reflete a realidade (seguindo a função naturalista). Uma estudante, por exemplo, chamou atenção para o aspecto de que as pessoas se prendem no seu ponto de vista e se negam a enxergar o óbvio. Isso acabou me remetendo a uma aula de filosofia contemporânea em outra turma em que trabalhei um texto (Tolerância e ofensa) do Desidério Murcho sobre liberdade de expressão. Em que ele propõe uma reflexão muito interessante sobre tolerância. Mas o importante mesmo é o que está por trás dessas questões. Você provavelmente viu o que aconteceu no Rio de Janeiro. E me conhecendo sabe qual a minha posição sobre. O fato é que toda vez que ouço a frase “homens sórdidos” me vem a imagem do Governador do Rio de Janeiro - Cláudio Castro. Ele me lembra também a música Pigs (Three Different Ones) do Pink Floyd - inclusive a fisionomia dele é de um porco - porco fascista. Mas o que mais me deixa triste é ver a quantidade de pessoas que aplaudem a ação. Fico pensando onde nós erramos. Pois me sinto responsável. Sei que não sou. Sei que posso pouco enquanto professor de Filosofia na educação básica. Faço um esforço para inserir a educação em direitos humanos no meu planejamento e no projeto político pedagógico da escola. Mas parece que não saímos do lugar. Não são poucos aqueles, inclusive colegas professores, que reproduzem o discurso contra os direitos humanos. Por outro lado há exceções que nos deixam felizes. Gostaria de lhe falar de um caso especial - uma estudante que entrou em contato comigo perguntando se havia algum conceito na Filosofia que explicasse a situação. Apresentei para ela o conceito de necropolítica criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe. E começamos a trocar uma ideia sobre. Ela me disse que estava incomodada com o posicionamento de alguns colegas banalizando a morte daquelas pessoas. Inclusive usando justificativa religiosa. E ela queria entender para rebater os posicionamentos com propriedade. É uma postura louvável. Ainda mais pelo fato de que essa estudante há uns meses talvez tivesse uma postura diferente, analisando seu comportamento de outrora. Mas sabe querida, tudo que escrevi até agora foi afetado por uma situação que ocorreu hoje no meu trabalho. Cheguei à escola com a notícia de que vários colegas tiveram o seu contrato exonerado pelo Governador em Exercício do Tocantins - Laurez Moreira. Nós sabemos que os contratos de trabalho temporário no serviço público são usados como instrumento de cooptação e dominação política. Mas isso não significa que as pessoas devam ser tratadas como objetos - jogadas no lixo quando não são mais úteis para quem está no governo. Você não sabe o quanto foi duro o dia de trabalho hoje. Chegar na escola e ver vários colegas sem nenhum aviso prévio perder o seu ganha pão. E tudo porque? Pelos jogos do poder. Me parece portanto que o senhor Laurez não é menos sórdido do que outros governantes que temos por aí. Enfim, querida. Já te enchi demais com minhas lamentações. Mais do que nunca precisamos lutar para mudar essa realidade. Mas quem me escutará? Fique bem se puder.

Do seu Pedro

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Ensaio literário: O coração nas trevas de Camilo

Camilo se olhou no espelho e não se reconheceu – barba feita, cabelo
cortado. Todo uniformizado – calça, camisa e sapato. Não, aquele não era o Camilo que sempre recusara um estilo formal. Que cultivava uma pequena barba, que usava brincos na orelha com muito orgulho e apreciava tanto um estilo alternativo. 

Não, aquele Camilo que trabalhava como operador de caixa de um supermercado na zona leste paulista em nada se parecia com o Camilo que tirava o sono da alta sociedade cachoeirense, o Camilo do rock, o Camilo subversivo. 

Aquela figura triste, que andava sempre cabisbaixa no metrô, que não cumprimentava e nem falava com ninguém. Não tinha amizades, não se divertia – vivia apenas da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Nada se parecia com aquele Camilo cheio de vida que sonhava ingressar na faculdade de Filosofia, se tornar um professor e mudar o mundo.

Camilo sempre foi um apaixonado pela educação, via nesta uma ferramenta de transformação social, e assim mantinha o sonho de se tornar um professor um dia. Quando ainda era estudante do ensino médio, Camilo era referência para seus colegas e professoras no Colégio em que estudava como alguém de personalidade forte e muito inteligente. Dava aula de reforço para seus colegas e auxiliava alguns professores, entre eles, Bia. 

Teve a oportunidade de dar aulas na zona rural quando auxiliou um professor amigo seu. Nesta experiência Camilo percebeu a importância da educação para formação de uma consciência crítica na juventude, foi então que decidiu que queria ser um professor.

Mas assim que chegou a São Paulo a realidade que teve que encarar era muito diferente da que ele sonhara um dia. Há um ano naquela dura rotina, os sonhos de Camilo iam sendo esquecidos, era preciso encarar a realidade, ter que trabalhar duro de segunda a segunda, ganhando um mísero salário que se quer dava para ele pagar o aluguel do barracão que morava bem como para sua subsistência ali.

Camilo odiava a vida em São Paulo, odiava ter que acordar todos os dias cedo, enfrentar o transporte público caótico dali, tanto para ir como para voltar do trabalho. Às vezes pensava em jogar uma mochila nas costas e sair vagando pelo Brasil.

– Ele ficava invejando os hippies que sem nenhuma preocupação viajam por todos os cantos, conhecendo novas pessoas, novas culturas, vivendo novas experiências. Mas ele jamais teria a coragem de jogar tudo para o alto assim. Ele nunca fora um aventureiro. Aliás era um dos seus problemas, ele não se arriscava, tinha o pé por demais fixado no chão, não era capaz de dar nenhum passo antes de ter o mínimo de certeza para onde iria e o que poderia encontrar.

Camilo odiava a vida em São Paulo, mas em nenhum momento ele pensou em voltar para sua terra querida, onde ele fora tão feliz. Não, Camilo não pensava em retornar para o interior, por mais difícil que a vida era em São Paulo, ele não via perspectivas melhores voltando para Cachoeira de todos os santos.

Camilo sabia que aquele momento de trevas pelo qual estava passando uma hora seria superado. E isso só dependia dele mesmo. Ele tinha que entender e aceitar que a sua vida jamais seria novamente o que era. Camilo sabia que precisava encarar a realidade – trabalhar, trabalhar e trabalhar. 

Mas também era preciso viver – se divertir, fazer novas amizades, namorar, conhecer um novo amor. Era preciso fazer as coisas da qual ele gostava, bem como buscar realizar os sonhos que sonhava.

Mas será que Camilo teria forças para isso?

Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.

sábado, 25 de outubro de 2025

Cartilha sobre educação em direitos humanos a partir do Ensino de Filosofia

A educação em direitos humanos é estabelecida por meio de diversos documentos como um tema transversal que deve ser trabalhado em sala de aula (entre eles o Programa Nacional em Direitos Humanos - PNDH 3, o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, O Plano Estadual de Direitos Humanos do Tocantins e a Resolução n.º 1, de 30 de maio de 2012, do Conselho Nacional de Educação - CNE). Porém em que pese existir um grande número de textos teorizando sobre o assunto. Não há muitos materiais didáticos que auxilie a professora e o professor nessa tarefa. Foi isso que me motivou ao ingressar no Mestrado Profissional de Filosofia (PROF-FILO) desenvolver como produto educacional uma cartilha que agora disponibilizo pela UICLAP (plataforma de autopublicação) que pode ser adquirido e trabalhado na educação básica (https://loja.uiclap.com/titulo/ua125062/).

A cartilha contém atividades que foram desenvolvidas no chão da sala de aula. Mas é importante salientar que sala de aula foi essa. Uma sala de aula numa escola pública (Colégio Estadual Nossa Senhora da Providência) localizada num território dentro de uma área de proteção ambiental que tem a sua história marcada pela construção de uma obra de grande impacto - uma usina hidrelétrica (Luiz Eduardo Magalhães - município de Lajeado - região central do Estado do Tocantins). Faço esse esclarecimento pelo fato de que as atividades propostas partiram da realidade em que os estudantes que fizeram parte da pesquisa estavam inseridos. Acredito que esse fator foi importante sobretudo para mudar o olhar acerca dos direitos humanos que no geral é visto como algo distante da nossa realidade. Pois só veem falar dessa temática quando a uma violação desses direitos envolvendo as forças de segurança pública numa operação policial. Daí o nosso ponto de partida não poderia ser outro senão definir o que são direitos humanos e como eles se relacionam com a ética e a política. A partir daí, tendo como objetos de conhecimento os objetivos para o desenvolvimento sustentável estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ODS - ONU), buscamos mostrar como a não garantia dos direitos sociais como educação, saúde e cultura é uma violação dos direitos humanos.

Como salientamos na apresentação da obra: “o desafio para o educador e a educadora que optar por trabalhar esse material é tê-lo como um guia norteador e não algo a ser reproduzido ao pé da letra. Um aspecto fundamental é colocar o estudante e a estudante no centro do processo. Instigando-o por meio de provocações e perguntas a olhar para um determinado problema, refletir criticamente acerca desse problema e a partir daí apontar possibilidades”.

Para dar exemplo de algumas atividades que foram desenvolvidas em sala de aula e estão na cartilha, ressaltamos a escrita criativa. Propomos que os estudantes criassem uma estória inspirada num episódio de violação dos direitos humanos ocorrido na cidade em que vivem. Para inspirá-los, disponibilizamos um trecho de um conto da região que mostra algo nesse sentido. Outra atividade proposta, ao discutir a temática da erradicação da pobreza foi a ilustração do poema: O bicho, do poeta Manoel Bandeira. Ao trabalhar a ODS - trabalho e desenvolvimento econômico propomos que fizessem entrevistas com a comunidade escolar e posteriormente a sistematização destas. Ao final propomos que fizessem uma carta para as autoridades locais com propostas para o desenvolvimento sustentável. Enfim, são muitas propostas, todas frutos do trabalho em sala de aula. Nem sempre tivemos um bom engajamento por parte dos estudantes. Nem sempre o retorno foi o esperado. Já outras nos surpreenderam. De todo modo, todas cumpriram a missão de mostrar possibilidades. E em última análise é isso que é essa cartilha - uma pequena mostra das possibilidades que temos de desenvolver a educação em direitos humanos na educação básica, sobretudo no ensino médio.

Acredito que a partir das escolhas que fizemos, e estão na cartilha, fica evidente qual perspectiva filosófica assumimos. Mas faço questão de enfatizar a nossa adesão à teoria crítica, sobretudo a partir do filósofo alemão Herbert Marcuse que defende a necessidade de restauração da crítica em oposição à racionalidade tecnológica - que é um instrumento de dominação da classe dominante na construção de uma sociedade unidimensional. Nesse contexto, a arte cumpre um papel importante. Outro filósofo que também segue essa linha é o Paulo Freire, sobretudo a sua defesa de uma educação para a emancipação. E obviamente, Karl Marx, que critica a concepção de direitos humanos burguesa que em última análise tem como objetivo garantir os privilégios da classe dominante. Com Marx dizemos que não é possível falar seriamente em direitos humanos a partir de abstrações - sem levar em conta as condições que os indivíduos estão inseridos. Seguindo essa tradição defendemos os direitos humanos não como um direito para poucos, mas sobretudo para aqueles que mais necessitam - que é a maioria das pessoas.

Gostaríamos de ver esse material disponibilizado em todas as bibliotecas escolares da rede pública de ensino. Mas não temos condição para isso. E acredito que não é de interesse dos governos um material desses. Pois o que percebemos é que há uma distância considerável entre o discurso e a prática. Ora, o que adianta reconhecer a importância da educação em direitos humanos com leis mas não dar as condições para sua efetivação? Não nos esqueçamos que o Estado é no final das contas o principal violador desses direitos, pois na sociedade capitalista está a serviço da classe dominante - que não tem nenhum interesse que as condições atuais de vida se modifiquem. É contra isso que pensamos, elaboramos e nos sublevamos.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Notas sobre o caminho da independência

O grêmio estudantil do Cemil Santa Rita de Cássia me convidou para fazer uma fala no evento em alusão a independência do Brasil celebrado no dia 07 de setembro. Fiquei pensando que seria mais apropriado uma fala de um professor formado em História. Mas topei o desafio. A partir daí comecei a pensar no que iria falar. E o que imediatamente me veio à cabeça foi a frase escrita por Machado de Assis no romance Quincas Borba - ao vencedor as batatas. Frase que inclusive serve de título a um ensaio sobre literatura brasileira feito pelo Roberto Schuwartz.

Pensei então em partir daí, mas ao fazer a leitura do material achei que não cabia naquele momento. No entanto, peguei alguns pontos que me pareciam ser importantes naquela conversa. Sobretudo o processo de formação social brasileiro. Isso imediatamente me remeteu as aulas sobre Hegel que estava desenvolvendo no mesmo período nas 1ª séries do ensino médio - sobretudo a compreensão da história como um processo movido por suas contradições internas. Diante disso decidi elaborar uma fala que não reduzisse a independência do Brasil ao grito do Ipiranga e a figura de Dom Pedro I. Busquei mostrar os conflitos que foram eclodindo no interior da sociedade e os diferentes atores que contribuíram para que a independência ocorresse.

Busquei mostrar que os grandes acontecimentos históricos não são obras de um único indivíduo, por mais extraordinário que ele seja. E conclui propondo uma reflexão de qual o sentido de celebrar a independência do Brasil. E aqui não pude deixar de relacionar com o contexto atual marcado por uma discussão sobre soberania nacional diante da tentativa do governo Trump (EUA) de interferir  no Brasil por meio de sanções econômicas entre outras. Reafirmando que o sentido de celebrar a independência  é reafirmar a soberania do Brasil.

Poderíamos começar nossa fala de qualquer ponto, mas optei seguir uma linha do macro para o micro. Ou seja, comecei falando dos conflitos que estavam acontecendo na Europa provocados pelas guerras napoleônicas que afetaram Portugal obrigando a família real a fugir para o Brasil em 1807. Não faltam autores (Laurentino Gomes, Lilia Moritz Schwarcz, Isabel Lustosa entre outros) que apontam como esse acontecimento impactou a vida local. O que podemos perceber é o que ocorreu a partir daí, por exemplo a abertura comercial a partir de 1808, com o Brasil sendo autorizado a negociar com outras nações. Óbvio que essa abertura não visava o desenvolvimento do Brasil, mas o bem estar da corte. Porém essa medida fortalecia outros setores que começaram a perceber que tinham muito a ganhar economicamente com a independência do Brasil. Em 1815, ao ser elevado à condição de reino de Portugal, o Brasil ganha ainda mais autonomia. Beneficiando uma elite local que terá um papel decisivo nos rumos que Dom Pedro I tomará. Em 1820 temos a revolução do Porto que culminará no retorno da família real a Portugal.

Os mesmos que pressionam para que isso aconteça também irão pressionar para que o Brasil volte a ser colônia. Ficando assim evidente que as mudanças no sentido de uma maior autonomia do território brasileiro para estes buscava apenas garantir o bem estar da corte portuguesa e não o desenvolvimento de fato do território. Porém, toda mudança trás suas contradições, abrindo possibilidades. Ou seja, aqueles que se beneficiaram dessa nova condição do território brasileiro, passaram a se contrapor a esse retorno. Soma-se a isso as revoltas das camadas populares que esperavam com a independência do Brasil serem reconhecidas como sujeitos de direitos. Inclusive havia a promessa dessas elites nesse sentido. Elites essas que irão apoiar Dom Pedro I, que havia sido deixado pela sua família como príncipe regente, a declarar a independência do Brasil. Um ato que não foi tão pacifico como se pensa. Em lugares como Bahia, Pará e Maranhão desencadeou conflitos armados que contribuíram decisivamente para a consolidação da independência do Brasil que será reconhecida pelos outros países, incluindo Portugal (mas com indenização).

Ora, não deveria ser o contrário? Não seria Portugal que deveria indenizar o Brasil por tudo que usurpou desse território? Um território que inclusive já estava ocupado pelos indígenas quando os portugueses chegaram. Mas enfim. Não tinha muito tempo para problematizar essa questão na minha fala breve. Mas não pude deixar de fazer uma referência à frase machadiana - ao vencedor às batatas - que nada mais é do que uma analogia para dizer que a conquista não é para todos. E quando analisamos a sociedade brasileira atualmente fica bastante evidente quem “ganhou as batatas”. Uma elite medíocre capaz de vender a alma em troca de privilégios. Essa elite é capaz inclusive de abrir mão da soberania nacional se isso significar benefício a si. Essa análise não entrou na minha fala. Preferi exaltar algumas figuras que são preteridas quando falamos no processo de independência do Brasil como a Maria Quitéria, Maria Felipa, Frei Caneca e Sepé Tiaraju.

Por esses e outros tantos que tombaram na luta por uma nação soberana que faz sentido celebrarmos a independência do Brasil. Finalizei minha fala salientando que do ponto de vista filosófico quando falamos em soberania em relação a um território estamos falando que este território não se sujeita a qualquer poder externo. Na linha do que diz Rousseau, quem confere essa soberania é o povo que legitima o poder estatal que deve se relacionar com independência com os outros estados. Portanto, pela memória daqueles que se sacrificaram para que o Brasil se tornasse soberano, e por nós mesmos não devemos temer se for necessário pegar em armas para defender essa soberania. E assim concluí minha fala.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Poema: Vovô Romualdo



Olhar perdido no horizonte
sentado em um banco de madeira
em sua casinha de taipa
no velho Sussuapara
Essa é a última lembrança que tenho dele.

Era negro como o Zumbi
Camponês como o João Pedro
Nordestino como o Marighela
Ferreira como o Lampião.

Homem de poucas palavras
Guardava consigo mistérios
Que já mais serão revelados.

Vovô Romualdo
Por muito tempo viveu como posseiro.
A idade obrigou-o a deixar o campo 
Mudando então para cidade.
Onde morreu na miséria
Como tantos camponeses pobres
Sem terra.

Era afamado no sertão miracemense
Bom no roçado 
Na briga de facão 
Habilidoso no bailado. 

Casou três vezes
Teve um filho apenas
Mas que valeu por muitos
Lhe deu muitos netos.

Vovô Romualdo 
Tinha um olhar triste
Seria saudades do seu nordeste querido?
Das lutas que lá travara?
Dos amores que lá deixara?

Vovô Romualdo
Trago em minhas veias
Teu sangue libertário
O ódio pelo coronelismo
E o amor pelo sertão.

Convivemos muito pouco é verdade
Mas bastante o suficiente
Para que de ti
Já mais me esqueça.

Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Algumas palavras sobre o livro: Pesquisas e práticas em Ensino de Filosofia a partir do PROF-FILO

Quem atua com o ensino de Filosofia no chão da escola muitas vezes se sente desamparado pela falta de material didático que atenda a realidade da sala de aula. Diante disso ter uma obra com a sistematização de pesquisas e práticas desenvolvidas a partir do ensino de Filosofia na educação básica é certamente uma iniciativa importante. Esse é o caso do livro organizado pelos Professores Doutores: Paulo Sérgio Gomes Soares e José Soares das Chagas. A partir de trabalhos desenvolvidos no Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO).

Os organizadores são professores do Núcleo da Universidade Federal do Tocantins (UFT) do Programa de Mestrado Profissional em Filosofia. Quanto aos trabalhos são de estudantes egressos do programa, juntamente com seus orientadores. São trabalhos que foram desenvolvidos em Estados como Paraná, Pernambuco, Piauí e Tocantins. E que apresentam possibilidades de práticas pedagógicas a serem desenvolvidas tanto no ensino fundamental como médio. Assim como reflexões sobre o ensino de Filosofia e pesquisas desenvolvidas na área.

O relato das práticas desenvolvidas na sala de aula de diferentes contextos nos faz refletir acerca da nossa própria realidade. E certamente contribuem para que repensemos a nossa prática docente. O mais importante nessas pesquisas desenvolvidas é que as professoras-pesquisadoras e professores-pesquisadores não tentam nos empurrar uma fórmula de como desenvolver o ensino de filosofia. Muito pelo contrário. O que fica de mais importante é a atitude de tentar responder aos problemas que perceberam a partir da realidade em que estão inseridos. Ressaltando inclusive os limites que o sistema nos impõe. Sobretudo em relação a uma carga-horária mínima - carga-horária essa que não raramente é afetada por atividades imposta de cima para baixo pelas secretarias de educação. Além da dificuldade de engajar criaturas que acreditam que “sabem tudo”. Inclusive que, na sua visão limitada, o estudo escolar é coisa supérflua. Ainda mais quando esse estudo, no caso da filosofia, exige entrega - sair na nossa zona de conforto.

O livro é dividido em capítulos. E cada um contém o relato de uma pesquisa desenvolvida. Ao todo são 10 capítulos em que no geral percebemos uma forte influência da concepção de um ensino de Filosofia a partir da tradição francesa. Inclusive os três primeiros capítulos que abrem a obra tem como principal referência teórica Michel Foucault: 1- Orientação Sexual na Escola: Desafios filósofos na perspectiva de Michel Foucault (Romulda M. F. Vieira e Christina Lindberg); 2- Loucura, Saber-poder em Michel Foucault e o filme Bicho de Sete Cabeças: Uma proposta para experiência filosófica no ensino médio (Marcella Aparecida Schiavo Trava e Stela Maris da Silva); 3- “O que passou não conta?” A Filosofia e o ensino de Filosofia enquanto atitude - Limite referências Foucaultianas (Marcella Aparecida Schiavo Trava e Stela Maris da Silva). Os dois capítulos seguintes (4 e 5) trazem uma nova perspectiva. Tentando romper com a filosofia clássica: 4- Dessacralizar para filosofar desafios, rupturas e possibilidades da Filosofia na Educação Brasileira (Eusébio A. de Oliveira e Cristiano Dias Silva); 5- A Escola dos sonhos - conhecimento ancestral transmitido pelas palavras dos espíritos animais (Adriane C. dos Santos e Roberto Amaral). E eu ousaria dizer que são os dois textos mais interessantes juntamente com o 6 e o 7: 6- Imagens que pensam: O stop-motion como estratégia para explorar a presença das imagens técnicas na sociedade (Aline Aquino Alves e Leon Farhi Neto); 7- Música e oficinas pedagógicas no ensino de Filosofia em uma escola da educação básica na SEDUC-PI (Akyciel S. Farias e José Soares das Chagas). O 8 não traz nenhuma prática desenvolvida em sala de aula. Limita-se a uma reflexão sobre o ensino de Filosofia: 8- O ensino de Filosofia como uma questão filosófica (Heros Falcão Araújo e José Soares das Chagas).  O 9 também não traz nenhuma prática desenvolvida em sala de aula. Mas revela um fato interessante - a desigualdade de gênero no campo da pós-graduação em Filosofia assim como as pesquisas desenvolvidas: 9- PROF-FILO entre 2018 e janeiro de 2022: Notas para pensar as pesquisas sobre ensino de Filosofia (Bárbara N. Honorato Sousa e Pedro Gontijo). O capítulo 10, o capítulo que encerra o livro, também não traz um relato de uma prática desenvolvida em sala de aula. Mas um relato de experiência sobre a produção de uma espécie de wikipédia de Filosofia: 10- Wiki de ensino de Filosofia do sertão filosófico: um relato de experiência (Gabriel Kafure da Rocha e Emival Tibúrcio Silva).

Além das possibilidades que as pesquisas e práticas apresentadas neste livro oferecem aos professores e professoras que atuam no ensino de Filosofia. É também uma evidência da importância desse programa de mestrado profissional. E aqui temos apenas uma pequena amostra já que o PROF-FILO está em todo o Brasil.

Para finalizar, recomendo a leitura de Pesquisas e práticas em Ensino de Filosofia a partir do PROF-FILO (2025, EDUFT), disponível gratuitamente na versão ebook pela editora da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Também recomendo a conhecerem o programa de mestrado e porque não se aventurar em cursá-lo. Posso dizer a partir da minha vivência no curso que é certamente um divisor de águas na nossa formação. E consequentemente na nossa atuação enquanto docente em sala de aula.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

domingo, 5 de outubro de 2025

Tocantins: Qual o futuro de um Estado que não valoriza seus professores?

Domingo, 05 de outubro de 2025. Acordei vendo as celebrações acerca do aniversário de criação do Estado do Tocantins. As postagens que celebram as belezas dessa terra não me afetaram de alegria. Pelo contrário. Pois me ocorreu o seguinte pensamento: Qual o futuro de um Estado que não valoriza seus professores?
Esse pensamento é fruto do movimento que realizamos essa semana, direcionados pelo Sindicato dos Trabalhadores na Educação do Tocantins (SINTET-TO), reivindicando o envio do novo plano de cargos, carreiras e remuneração (PCCR) dos professores para a Assembleia Legislativa do Tocantins e posterior sanção do governador. O que pudemos perceber a partir do relato da conversa que o sindicato teve com o atual secretário da Educação -  Hercules Jackson Moreira Santos - é que o atual governo não tem isso como uma das suas prioridades. Aliás, o perfil escolhido pelo governador em exercício - Laurez Moreira - para comandar a SEDUC já é um indicativo disso.
Não há justificativa para que a proposta elaborada por uma comissão (incluindo representantes da categoria dos professores) e discutida em encontros não seja encaminhada para a assembleia legislativa para que ali possam ser feitas as discussões e modificações que se acharem necessárias. O que não dá é para ficar segurando numa gaveta atrasando assim a sua efetivação.
É preciso enfatizar esse ponto pois o discurso do governo em exercício é de que a proposta está sendo estudada. Me desculpe, mas isso é nos tratar por ingênuos. Por mais que compreendamos que a proposta não foi elaborada pela gestão atual. E portanto entendemos à cautela. Mas em 30 dias de governo não ter sequer um cronograma concreto que indique quanto tempo irá demorar esse estudo e a previsão de envio para a assembleia legislativa é inaceitável. 
Ora, nós não concordamos integralmente com a proposta do novo PCCR. Mas compreendemos que era melhor chegar a um denominador comum com o governo e fazer as propostas de melhorias na assembleia legislativa - onde o governo também terá a oportunidade de defender seu ponto de vista.
Fortalecer a luta pela aprovação de um novo Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração (PCCR) dos Professores da Rede Pública Estadual do Tocantins
Valorizar a carreira do magistério sobretudo na educação básica é fundamental para vislumbrarmos a melhoria do ensino. Pois em que pese todo o avanço tecnológico a presença de uma professora ou professor na sala de aula é condição fundamental para um aprendizado significativo. No entanto, não são muitos aqueles que se dispõem a seguir essa carreira. 
Por um lado temos todo um discurso de criminalização do fazer docente sob a justificativa de que estes fazem doutrinação nas escolas a serviço de uma determinada ideologia. Por outro, temos a precarização das condições de trabalho, o excesso de afazeres burocráticos, assédio - tanto por parte dos chefes imediatos como de pais e estudantes, por fim, mas não menos importante a desvalorização salarial. 
Nesse contexto, não é de se admirar que nossa categoria seja uma das que têm os maiores índices de afastamento do trabalho por doenças relacionadas à saúde mental, ou melhor dizendo, a falta dela. Levando inclusive alguns colegas a atitudes mais drásticas como o suicidio.
Para nós não há alternativa senão resistir - nas escolas e nas ruas reivindicando a valorização da nossa carreira e melhores condições de trabalho. Resistir não por nós apenas. Mas pela construção de outra sociabilidade - em que a solidariedade se sobreponha ao egoísmo dos regimes neoliberais - uma sociedade em que o Estado não seja um instrumento para o enriquecimento ilícito dos seus governantes enquanto os governados sobrevivem na miséria.
Diante disso respondemos o nosso questionamento inicial da seguinte forma: não é possível vislumbrar um Estado justo sem a valorização dos seus professores. Pois se são eles que tem a missão de educar entre outros para o exercício da cidadania e para o trabalho. Como esperar que eles façam isso com excelência se não lhes dão condição para tanto?
Por outro lado, não podemos deixar de lembrar aqui no Darcy Ribeiro quando disse que o dito fracasso da educação brasileira é na verdade um projeto para manter as coisas tal como estão. Nesse sentido não é interessante para o governo, a não ser como retórica, lutar para melhorar a educação. Até fazem isso superficialmente, mas sem valorização de quem está na sala de aula nada muda. E isso é bom para quem está no poder, não é mesmo?
Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Resenha: O livro Filosofia através do cinema - uma década de ensino

A educação (seja ela de nível básico, técnico ou superior) tem como finalidade formar os indivíduos para o exercício da cidadania e para o trabalho. Nesse processo não é possível abrir mão dos conhecimentos historicamente constituídos, sobretudo o filosófico. No entanto, é preciso que os conceitos filosóficos sejam trabalhados na perspectiva da práxis. Nesse sentido, uma relação com a arte, sobretudo com o cinema e a literatura é uma estratégia importante. É nessa perspectiva que caminha o projeto de extensão Filosofia, Cinema e Literatura da Universidade de Gurupi (UNIRG). Do qual a obra em questão (Filosofia através do cinema - uma década de ensino) é fruto.

Organizada por Edna Maria da Cruz Pinho, Joel Moises Silva Pinho e José Carlos de Freitas (2020) e publicado pela editora Veloso (Gurupi). A obra apresenta uma coletânea de ensaios e artigos analisando do ponto de vista da filosofia (e das ditas ciências humanas) algumas obras cinematográficas exibidas e debatidas durante 10 anos de projeto. Ao todo são 16 textos que articulam filosofia e cinema. Só para citar alguns filmes destacamos: Estômago (Brasil, 2007), Machucca (Chile, 2004), População 436 (EUA, 2006), Okuribito (Japão, 2008). Quanto às referências filosóficas temos um desfile de pensadoras e pensadores que ao longo da história deram importante contribuição para compreensão da natureza humana e das relações sociais. Só para citar alguns: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Durkheim, Nietzsche, Heidegger, Hannah Arendt, Freud, Foucault, Byung Chul Han entre outros.

No texto de abertura (Luz, Câmera… Filosofia através do cinema: uma década de ensino), o Professor Gilberto Correia da Silva faz um resgate histórico do projeto. Quando iniciou - num contexto de greve dos docentes - capitaneado pelo sindicato dos professores (APUGSSIND). Portanto, como uma atividade mobilizadora da comunidade acadêmica. E posteriormente a sua institucionalização como um curso de extensão ofertado pela universidade (UNIRG). Silva (2020), com documentos, apresenta cada edição realizada, os filmes exibidos, as discussões e os convidados que compuseram as mesas de discussão. Bem como o impacto na formação dos participantes e na comunidade em geral.

Ao longo do texto do Professor Gilberto Correia da Silva como também dos demais, a gente consegue perceber a potência do projeto. A relevância das discussões que se desenvolveram em torno da temática dos direitos humanos. E o quanto isso certamente contribuiu para a formação de uma consciência crítica dos participantes. É possível a partir da leitura de cada texto sentir a riqueza das mesas e da contribuição de cada debatedor. Riqueza essa que temos acesso através da publicação dessa obra celebrando 10 anos de projeto.

Outro aspecto que gostaria de destacar é o quanto os textos despertam em nós o desejo de assistir os filmes. Mesmo aqueles que por ventura tenhamos assistido. 

Um terceiro ponto é que os textos refletem o espírito do tempo em que foram escritos - o contexto pandêmico e o governo de Jair Messias Bolsonaro - em que houve um desmantelamento das políticas de direitos humanos e o desprezo a vida de grupos específicos como negros, indígenas, mulheres e LGBT…

Entre os textos que mais me provocaram reflexão destacaria IRONWEED: A sábia loucura narra a nossa modernidade (Eduardo Sugizaki e Marcos Eduardo Sugizaki). Além de bem escrito, os autores articulam muito bem o filme, derivado de um livro do escritor estadunidense William Kennedy, com o pensamento de filósofos como Nietzsche e Foucault. As diferenças e similaridades entre o livro e o filme também é abordado. De modo que percebemos um exercício estético por parte dos autores. Logo em seguida temos De o caminho para casa, de Zhang Ymou, para ser e tempo, de Martin Heidegger: um breve exercício de fenomenologia-hermenêutica sobre o significado da morte (Gabriel Henrique Dietrich). De forma bastante didática o autor nos apresenta os principais conceitos heideggeriano a partir do seu clássico Ser e Tempo em diálogo com o filme chines que trabalha a questão da finitude humana. O poder competente: vidas sujeitadas e empoderadas no filme Estômago (José Carlos Freitas). Merece destaque. Ainda que tenha me parecido que o autor estava mais preocupado em mostrar o seu conhecimento de diversos pensadores que trabalham o conceito de poder. Melhor seria se tivesse focado em apenas um, por exemplo, o Byung Chul Han. De modo que temos um texto mais extenso do que deveria. Já o problema do artigo Sobre escravidão: algumas matrizes filosóficas e religiosas que auxiliam na naturalziação da degradação humana (Paulo Henrique Costa Mattos), ainda que muito rico e bem escrito, me pareceu fugir do objetivo do livro (inclusive me pareceu que é um livro dentro do livro, extenso em demasia). Aliás, ele pouco articulou com uma obra cinematográfica. Se dedicou mais a apresentar uma breve história da filosofia a partir da temática da escravidão. De todo modo, é um artigo que me provocou importantes reflexões. Por fim, ainda destacaria o texto Filosofia da diferença: homossexualidade, homoerotismo e homofobia (Ruy Tadeu Costa Ribeiro) que a partir de filmes como Milk - a voz da igualdade e Orações para Bobby discute questões como representatividade e preconceito sofrido por essa comunidade. Sobretudo diante de uma conjuntura política de ataques aos direitos humanos e a normalização de preconceitos operado pela religião.

Enfim, tanto a obra como o projeto, a partir do qual ela é fruto. Mostra o potencial da relação entre filosofia e cinema no processo de ensino-aprendizagem. Por tanto que essa iniciativa possa continuar e inspirar mais ações nesse sentido que, certamente, contribuem para formação e fortalecimento de um pensamento crítico em território tocantinense.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.