terça-feira, 5 de maio de 2026

Jorge Amado, o Brasil e os comunistas em A luz no Túnel

O quanto de tortura física e psicológica você suportaria em defesa de um ideal? Vale a pena se sacrificar para construção de uma nação soberana, justa e solidária? São duas questões que a leitura de “A luz no túnel”, romance do escritor baiano Jorge Amado, suscitam. Uma narrativa instigante que nos leva aos porões do Estado Novo (período ditatorial liderado por Getúlio Vargas entre 1937 e 1945). Mostrando de um lado a repressão aos comunistas pelas forças policiais. E do outro a resistência popular liderada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB).

“A luz no túnel” faz parte de uma trilogia escrita por Jorge Amado. Antecedida por “os ásperos tempos” e “agonia da noite”. Que compõem “Os subterrâneos da liberdade” - inicialmente publicados como um único romance. E desmembrado posteriormente. Nesse romance percebemos fortemente uma perspectiva militante do autor que militou nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro. Sendo inclusive deputado constituinte em 1945. Há certamente uma intencionalidade de denunciar os horrores que ocorreram no período ditatorial sob a liderança do Getúlio Vargas como também exaltar o papel dos comunistas liderados pelo “partidão” organizando operários, camponeses, artistas e intelectuais progressistas na resistência ao regime e na construção da ditadura do proletariado.

A narrativa é longa, porém nem um pouco cansativa. A trama vai se desenvolvendo com uma série de acontecimentos e personagens que traçam um retrato daquele período - que reflete nos dias atuais - uma elite entreguista que se move pelos seus interesses de riqueza e poder. Políticos que estão a serviço dessas elites. Forças policiais violentas que torturam e matam. Intelectuais conciliadores. A diferença é que naquele período havia um movimento de resistência, que mesmo com equívocos, acreditavam e lutavam por uma mudança radical do país. Atualmente os partidos de esquerda se conformaram com a ordem estabelecida.

O primeiro capítulo merece um destaque especial. A prisão de alguns militantes comunistas e a tortura ao qual são submetidos, de forma tão realista, não deixa de nos provocar dor e sofrimento. Como um ser humano é capaz de fazer tamanha crueldade com outro ser humano? Acredito que não é necessário ser simpático aos comunistas para não se indignar com a tortura.

Os fios de arame o atingiram nas nádegas, no peito, no rosto, nas pernas, vergões vermelhos marcavam os lugares. Dempsey descarregava-lhe metodicamente o porrete nos rins. Carlos conteve-se sem gritar enquanto pôde. Defendia-se, procurando escapar aos golpes mas, malgrado sua agilidade, começou a sentir as pernas fraquejarem. Dempsey atingiu-o no pescoço com o porrete, Carlos caiu arquejando. Foi chegada a vez dos dois outros investigadores: pisavam-no, davam-lhe pontapés, um deles o atingiu com o bico do sapato na face, uma cicatriz ficou para sempre…”

O capítulo I é uma espécie de obstáculo, se você conseguir ultrapassá-lo chegará ao fim do livro. A leitura avança a passos lentos envolvidos por dois sentimentos. O primeiro é desistir da leitura diante do incômodo que causa a descrição das torturas. O outro é a expectativa do surgimento de um deus ex machina para por fim àquela bestialidade. Bestialidade tal como podemos perceber no trecho a seguir quando um dos torturadores fala para um dos presos (Zé Pedro), de como sua esposa, também presa, está sendo tratada:

“- Ela está bem tratada, melhor não podia ser. Na noite passada, enquanto você estava sendo amassado, os rapazes ficaram com ela, seis meninos escolhidos entre os mais bonitos da Polícia… Para ela não ficar sozinha a noite, a pobre… Me contaram que a mal agradecida resistiu, foi preciso fazer força. A gente escolhe uns bons machos pra ela, rapazes com cara decente, brancos, e ela se faz de rogada…”

Não se indignar diante de tais relatos é se equiparar a bestas como essas. 

Nós sabemos que é um romance. Mas também sabemos que muito do que há nesse romance de fato aconteceu. Tanto no período do Estado Novo como durante o regime Civil-Militar (1964-1985).  E que ainda reverbera até os dias atuais.

Durante a narrativa percebemos claramente um movimento de demonização do comunismo e consequentemente dos comunistas. Esse discurso conseguiu se entranhar de tal forma no Brasil que hoje ganhou contorno de um xingamento. O mesmo movimento ocorreu recentemente com o termo petista relacionado aos militantes ou simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT). Não por coincidência um dos símbolos desse movimento é um político (Bolsonaro) que tem como herói um dos maiores torturadores da história do Brasil (Carlos Brilhante Ustra). 

Ainda que o projeto do PT seja bem distante do projeto comunista, o discurso da ameaça comunista (ainda que muita gente não saiba do que se trata o comunismo, e talvez por isso mesmo) dá voto e garante a manutenção da ordem vigente. Por outro lado, essa paranoia com o comunismo não deixa de ter seu fundamento. Eles sabem que a condição ao qual o povo trabalhador é submetido sempre dá possibilidade para o surgimento de movimentos contra hegemônicos.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

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