Ao longo da história diferentes pensadores se dedicaram a refletir sobre a condição humana. Dando importantes contribuições para pensarmos num conjunto de condições para uma vida digna. No entanto é com a modernidade que temos o surgimento da ideia de direitos humanos. No entanto, como aponta a crítica marxiana, essa concepção era fundada num ideal liberal, a partir de uma visão abstrata do homem. Buscando manter os privilégios da classe dominante (a burguesia). Essa crítica foi importante não como negação desses direitos. Mas como fundamento para pensar seus limites no marco de uma sociedade fundada no modo de produção capitalista.
Por outro lado, as contradições desse modo de produção fundamentado na exploração do trabalho pelo capital, e as expressões da questão social que daí advém, permitiu a apropriação dos direitos humanos por setores progressistas - que passaram a exigir sua efetivação não apenas para alguns, mas para todos.
O avanço de regimes totalitários como o Nazismo e o Stalinismo e regimes autoritários como as ditaduras no cone sul (Brasil, Argentina, Uruguai, Chile). Impuseram a urgência da pauta dos direitos humanos. E a partir das lutas que surgiram como resistência e denúncia dos crimes cometidos por esses regimes caminhou-se para o seu reconhecimento. E o principal símbolo desse reconhecimento foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), no pós-guerra (1948). Quanto a sua efetividade é um sonho distante para grande parte da população.
No contexto atual podemos dizer que existem duas visões acerca dos direitos humanos. Uma que compreende esses direitos como privilégio de alguns (as pessoas de bem). E a segunda uma perspectiva democrática - que defende esses direitos para todos. Aqueles que estão inseridos nessa segunda perspectiva lutam para garantir a efetividade desses direitos sobretudo por parte dos grupos mais vulnerabilizados (Negros, Mulheres, Indígenas, Camponeses Pobres, Pescadores Artesanais, Ribeirinhos, LGBTQI+).
É nesse contexto que falamos em direitos humanos na educação básica estabelecido entre outros por documentos como o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (2018). Nesse documento encontramos entre outros a definição de que: O processo formativo pressupõe o reconhecimento da pluralidade e da alteridade, condições básicas da liberdade para o exercício da crítica, da criatividade, do debate de ideias e para o reconhecimento, respeito, promoção e valorização da diversidade.
A generalidade das pessoas, influenciadas pelo discurso de ódio, enxerga os direitos humanos como algo alheio a si - que não lhe diz respeito. A consequência é a normalização da violação desses direitos. Por isso, desconstruir essa visão é fundamental. E acreditamos que o cinema é um importante aliado nesse sentido. Pois como aponta o filósofo francês Jean-Paul Sartre de todas as artes o cinema é o mais próximo do mundo real:
No cinema o progresso da ação permanece fatal, mas ele é contínuo. Nenhuma interrupção, o filme é de uma tacada só. Não se trata mais do tempo abstrato e dotado da tragédia, mas se poderia dizer que a duração de todos os dias, essa duração banal da nossa vida de repente baixou suas velas, mostra-se em sua inumana necessidade. Ao mesmo tempo, o cinema é de todas as artes a mais próxima do mundo real: homens de verdade vivem em paisagens de verdade. La Montagne sacré é uma montanha de verdade, o mar de Finis Terrae é um mar de verdade. Tudo parece natural, menos essa marcha rumo ao fim que não se pode parar. (Sartre, 1945).
O projeto
O projeto cinema e direitos humanos ocorreu a partir da seguinte dinâmica: Foram selecionados quatro filmes que abordam a temática dos direitos humanos a partir de diferentes expressões da questão social. Esses filmes foram exibidos (em quatro seções: a primeira em agosto, a segunda em setembro, a terceira em outubro e a última em dezembro). Servindo ora como elemento de introdução, ora de aprofundamento de discussões desenvolvidas nas aulas de Filosofia, Geografia, História e Sociologia. As obras selecionadas (e as exibidas) buscou abordar a temática dos direitos humanos de uma perspectiva diversa. Provocando um olhar para esses direitos não como algo distante da sua realidade. Dos quatro filmes selecionados inicialmente apenas dois foram exibidos. Outros dois tiveram que ser substituídos. O que não prejudicou o resultado final.
Obras exibidas
A primeira obra exibida, no mês de agosto, foi o filme brasileiro Vidro Fumê (2024), produção brasileira dirigida por Pedro Varela. Que segue a seguinte trama: Baseado em fatos reais, Mary (Ellie Bamber) é uma garota "gringa" que decide mudar o rumo de sua vida e trocar de ares, mudando-se para o famoso e caloroso estado do Brasil, Rio de Janeiro. No entanto, sua passagem pela Cidade Maravilhosa se torna um completo pesadelo quando Mary sofre um sequestro relâmpago junto com seu namorado, Gabriel (James Frecheville). Os dois passam uma noite de terror nas mãos dos sequestradores em uma van branca que circula pela cidade, enquanto a polícia tenta localizá-los. Paralelamente, Miriam, uma jovem negra ativista, também vive um terror ao sofrer assédio sexual de um político corrupto, que a chantageia e ameaça pelo seu silêncio. O segundo filme a ser exibido, no mês de setembro, foi Besouro (2009), também uma produção brasileira dirigida por João Daniel Tikhomiroff - retratando a vida de Manoel Henrique Pereira, jovem negro baiano que tornou-se um ícone da capoeira. Ambientado na Bahia da década de 1920, em um período marcado pela perseguição às manifestações culturais afro-brasileiras. A luta de Besouro simboliza a resistência contra a opressão social e racial. O terceiro filme exibido, em outubro, foi 7 prisioneiros (2021), outra produção brasileira dirigida por Alexandre Moratto, que segue a seguinte trama: O jovem Mateus aceita trabalhar em um ferro-velho em São Paulo com o novo chefe Luca para ganha uma oportunidade de dar uma vida melhor à família. Porém, ele acaba entrando no perigoso mundo da escravidão contemporânea com diversos outros garotos, sendo forçado a decidir entre continuar nessa situação ou arriscar o futuro de sua família. A última sessão que aconteceu no início de dezembro contou com a exibição do filme Sangue e Ouro (2023), produção alemã dirigida por Peter Thorwarth, em que um desertor alemão, Heinrich, que nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, é salvo por uma jovem fazendeira, Elsa. Juntos, eles se envolvem em uma violenta batalha contra um grupo de nazistas da SS, liderados por von Starnfeld, que está procurando um tesouro judaico escondido em uma vila. O confronto culmina em uma luta sangrenta na igreja local, com segredos sendo revelados e os protagonistas lutando por justiça.
Resultado
Trabalhar os direitos humanos na educação básica é fundamental. Sobretudo num contexto em que esses direitos são continuamente violados. Sustentados pela narrativa de que os defensores de direitos humanos estão preocupados em proteger “bandidos” ou dar privilégios para determinados grupos. As consequências desse discurso acabam voltando contra aqueles que mais precisam de proteção. Nesse contexto, pautar essa discussão no chão da escola já é um avanço significativo. Temos consciência que uma mudança de cultura não ocorre da noite para o dia. Mas certamente as reflexões propostas, as discussões provocadas contribuíram de alguma forma para que haja uma mudança de olhar para o problema dos direitos humanos na comunidade. Que essa mudança de olhar signifique também uma mudança de comportamento. Da nossa parte temos nos comprometido e tornado cada vez mais presente na sala de aula a educação em direitos humanos. Esse projeto, que pretendemos torná-lo permanente, mostrou um caminho possível nesse sentido.
Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

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