quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Sepultura: A era Derrick Green

Dizem que se não tivesse acontecido a saída do Max Cavalera eles (Sepultura) teriam a popularidade do Metallica. Será? Nunca saberemos. Mas o que sabemos pelos discos que gravaram juntos e os registros dos shows é que Max Cavalera (vocal e guitarra), Igor Cavalera (Bateria), Paulo Xisto Jr. (Contrabaixo) e Andreas Kisser (Guitarra) tinham uma química que permitiu que fizessem algo extraordinário. É importante destacar que isso não se deu da noite para o dia. Mas como resultado de uma caminhada marcada pela resistência e perseverança. É aí que encontramos a explicação por que a banda sobreviveu mesmo com tudo parecendo contra. A chegada de um novo vocalista (Derrick Green) e a ousadia de não se tornar uma banda cover de si mesmo possibilitou ao grupo fazer do extraordinário sua marca. 

Quem minimamente entende de música não pode falar da mudança da era Max para a era Derrick numa perspectiva de melhor para pior ou pior para melhor. É até compreensível que se goste mais de uma do que de outra. Mas o fato é que ambas são extraordinárias -  distintas por um lado, mas preservando uma identidade sonora a ponto de quando você ouve um som deles sabe que se trata do Sepultura.

Eu já escrevi certa vez que quando conheci e depois me tornei fã da banda, Green era o vocalista. Também falei que a saída do Igor Cavalera mexeu mais comigo do que a do Max. Mesmo assim não deixei de acompanhar o Sepultura, com um interesse especial sobretudo pelo que eles estavam produzindo no momento. Óbvio, sem desprezar o passado da banda. Mas os álbuns que mais ouvi certamente são os produzidos e lançados na era Derrick Green, talvez a exceção seja o Roots. Eu teria uma enorme dificuldade se alguém me pedisse para eleger um preferido pois em todos, corroborando com o que disse o pessoal do Tenho Mais Discos que Amigos de que a banda nunca lançou um disco ruim, há verdadeiros clássicos. E é isso que pretendo fazer nas próximas linhas. Indicar as canções da era Derrick Green que, para mim, merecem o status de clássicos. São muitas, mas decidi escolher apenas 10. Com 1 de cada álbum. Algo que me encanta nessas composições são sobretudo suas execuções ao vivo. Tornando-as ainda mais poderosas. Imagino o ressentimento daqueles que achavam que a banda iria acabar (vão parar agora por que decidiram assim). O quanto deve doer na alma dessas pessoas vendo os discos lançados e os shows lotados em toda parte do mundo com gente de todas as idades cantando a pleno pulmões e pulando. Há alguns registros memoráveis, como um show em 2011, com Jean Dolabella na bateria, no Wacker. Mas isso fica para um próximo texto que certamente irei escrever. Por enquanto, vamos as músicas prometidas.

A primeira, e a que mais gosto, é a Kairos, presente no disco homônimo (Kairos) lançado em 2011. Com uma letra que de certa forma retrata o dna da banda. Para quem não sabe kairos é uma palavra de origem grega que se refere ao tempo numa perspectiva não cronológica, o momento certo. E é isso que a letra aborda, uma das frases emblemáticas é: Now we trespass the line of time (Agora transgredimos a linha do tempo). Ou seja, não estamos mais limitados a uma temporalidade. Soubemos aproveitar o momento e nos tornamos imbatíveis. O destaque do ponto musical fica por conta dos riffs de guitarra do Andreas Kisser e das viradas de bateria do Jean Dolabella. E o contrabaixo do Paulo Xisto como sempre preenchendo as lacunas magistralmente.

A segunda é do primeiro álbum (Against) lançado com o Derrick Green nos vocais, trata-se da Choke que fala sobre um indivíduo em decomposição. O riff de guitarra na abertura acompanhado pela bateria groovada sob o comando do Igor Cavalera é matador. Na mesma linha da canção anterior há mudanças de ritmos ao longo da canção, com o refrão a se repetir: Choke, Choke, Choke (Sufoque, Sufoque, Sufoque). 

A terceira está no álbum Nation (2001), trata-se de Sepulnation que nada mais é do que uma celebração dos seus fãs que tornaram quem o Sepultura é - resistindo a tudo e todos para continuar relevante no cenário da música pesada mundial:  A Nation - A Nation (Uma nação - uma nação), A Struggle - A Struggle (Uma batalha - uma batalha), A Weapon - A Weapon (Uma arma - uma arma), Our Music!!! (Nossa música!), One Mantra - One Mantra (Um mantra - um mantra), One Prayer- One Prayer (Uma prece - uma prece), One Belief - One Belief (Uma crença - uma crença), All Gods!!! (Todos os deuses!). O ritmo lembra as torcidas de futebol nos estádios, certamente Andreas, Igor e Paulo apaixonados por futebol como são tiveram essa inspiração.

A quarta está no Roorback, álbum lançado em 2003. Trata-se de corrupted. A música começa com um riff de guitarra cortante, aí entra a bateria e o contrabaixo. O ritmo vai aumentando aos poucos como só o Sepultura sabe fazer. Enquanto o Derrick Green vocifera frases como Your world, is ill (seu mundo está doente) e War news, war secrets, war lies, war motives (Notícias de guerra, segredos de guerra, mentiras de guerra, motivos de guerra) é uma punkada que não te dá tempo para respirar.

A quinta está no A-lex, álbum inspirado no livro "Laranja Mecânica" (A Clockwork Orange) do autor britânico Anthony Burgess (que também foi adaptado para o cinema), lançado em 2009. Trata-se de The Treatment. A letra fala de alguém que está enlouquecendo. Para mim é uma das melhores letras compostas pela banda. Entre os versos que encontramos destacaria: Just a creature with no limit (Sou uma criatura sem limite), I've llost all moral choice (Perdi toda a escolha moral) e My blood is cold (O meu sangue é frio), I've lost my heart and soul (Perdi a minha alma e coração), My blood is cold (O meu sangue é frio), Where is my own free will? (Onde está a minha vontade própria?). O ritmo e a melodia criada pela guitarra, pelo contrabaixo e a bateria nos faz sentir essa angústia de alguém que está se perdendo de si.

A sexta é do aclamado quadra (2020). Trata-se da canção Guardian of Earth. Na qual a letra fala da questão ambiental. Ressaltando o papel dos povos indígenas e ambientalistas como guardiães da natureza. A música inicia com Andreas Kisser no violão, em seguida entra a bateria num ritmo que lembra um chamado para guerra. Em seguida começa a porrada com Derrick Green gritando versos como: The fight has started again (A luta começou de novo), The blood is staining our hands (O sangue está manchando nossas mãos), Selfish desires (Desejos egoístas), Commence the killing again (Começam a matança novamente). Há um solo de guitarra matador. E no canal da banda no youtube temos um clipe belíssimo que já alcançou quase 2 milhões de visualizações.

Em sétimo lugar trago uma do também aclamado Machine Messiah (2017). Trata-se da canção Phantom Self que tem como temática a transformação do ser humano em máquina pelo uso excessivo de aparelhos eletrônicos (celular). Com uma percussão de maracatu na abertura seguida por um diálogo entre guitarra e bateria. A mudança de velocidade que caracteriza a banda. E um violino cortante que agrega sobremaneira a composição que tem versos como: Lost my mind (Perdi minha cabeça), It's gone, that life (Aquela vida se foi), Lost, I've been looking for myself (Perdido, estive procurando por mim mesmo). O clipe dessa canção no youtube já ultrapassou 2 milhões de visualizações. 

Em oitavo lugar trago uma canção do último álbum gravado com o Igor Cavalera na Bateria - o Dante XXI (2006) - também inspirado numa obra literária - A Divina Comédia do Dante Alighieri. Trata-se da canção Convicted in Life. A canção fala de alguém condenado em vida com versos como: Abandon all hope he who enter here (Abandone toda a esperança aquele que entra aqui), Eternal pain that runs among the lost (Eterna dor que corre entre os perdidos), It's the fiction of life (É a ficção da vida), What you are is what you live (O que você é o que você vive)... A abertura com a bateria é marcante. O que vem em seguida é um soco no estômago. 

Chegamos a nona canção que trouxemos do The Mediator… (2013). Trata-se da Manipulation of Tragedy. A bateria do Eloy Casagrande na abertura e o acompanhamento do contrabaixo do Paulo Xisto é de glorificar com as mãos para o alto. O refrão é marcante: Worship, worship, bow down (Veneração, veneração, curve-se), Worship, worship, bow down (Veneração, veneração, curve-se)... O recado aqui é: a manipulação serve à dominação. Num contexto em que estamos reféns das fake news essa reflexão é importantíssima.

Para fechar as dez canções prometidas vou trazer uma de um disco que já falamos, o primeiro gravado pelo Derrick Green (Against). Trata-se da Hastred Aside. A versão no Against é muito boa. Mas a gravada nas sessões do Sepulquarta com a Fernanda Lira, Mayara Puertas e Angélica Burns dividindo os vocais com o Green é ainda mais matadora. A mensagem da canção é um recado para aqueles que tentaram destruir a banda. Cannot divide - Cannot divide - Cannot divide (Não é possível dividir - Não é possível dividir - Não é possível dividir), No!!! (Não!!!). O ritmo já começa alucinante com um riff de guitarra que se repete seguido pela bateria e o contrabaixo. Mais um soco no estômago.

Havia prometido dez canções de pelo menos 01 de cada álbum lançado. No entanto, não poderia deixar de falar do EP (The Cloud of Unknowing) de despedida da banda, gravado com o Greyson Nekrutman na bateria. O trabalho traz quatro faixas inéditas que mostram a potência criativa da banda. Eu escolheria facilmente as quatro. Mas mantendo a linha anterior vou citar The place (que em determinados momentos lembra uma bossa nova) e traz na sua letra uma crítica ao processo de alienação que um imigrante sofre ao ponto de defender os seus algozes. Poderíamos aqui lembrar, a partir de Espinoza, a relação entre esperança e medo. Também poderíamos recorrer ao Bifo e a sua análise acerca da ferocidade e o fim do humano. Mas enfim. As the fear drives humanity (Enquanto o medo controla a humanidade)/See, tyrants won't show their face (Veja, os tiranos não mostram o rosto)/Can't hide their face (Mas não podem escondê-lo)/Can't hide their face (Mas não podem escondê-lo). A segunda é a definida como a primeira balada da banda - uma ambição seguida há algum tempo. Trata-se de Beyond The Dream que poderia ser definido como uma carta de despedida ou um até breve: Looking out the blurry window (Olhando pela janela embaçada)/Wondering how we got this far (Me perguntando como chegamos tão longe)/Bleeding out we feel the nightfall (Sangrando, sentimos a noite cair)/The future was never so clear (O futuro nunca foi tão claro).

Poderia continuar aqui falando de outras tantas composições potentes que a banda compôs com o Derrick Green. Só para mencionar algumas: Reza (Against) com a participação do João Gordo do Ratos de Porão, Border Wars (Nation), Mind War (Roorback), Ostia (Dante XXI), What I Do (A-Lex), Spectrum, Relentless e Dialog (Kairos), Vatican (Mediator…), Machine Messiah, Iceberg Dances e Resistant Parasites (Machine Messiah), Isolation, Means To An End, Agony of Defeat (Quadra) e All Souls Rising (The Cloud of Unknowing). Mas fiquemos por aqui. Essa amostra é mais do que o suficiente para mostrar a potência da chamada era Derrick Green no Sepultura. Não tenho dúvida que com o passar dos anos esse reconhecimento será cada vez maior - quando a análise desse legado já não for contaminado pela paixão. Por fim, se a banda chegou onde chegou. Seja na era Derrick Green ou Marx deve em grande medida a uma base poderosa que tem na figura do Andreas Kisser (Guitarrista e Compositor) uma grande mente criativa. Vale mencionar o competente trabalho do Paulo Xisto (Contrabaixo) que cresceu bastante sobretudo nos últimos álbuns e por fim os bateristas que passaram pela banda (Jean, Eloy e Greyson) deixando suas marcas, mas respeitando a linha criada pelo Igor Cavalera.

Ps: A ideia de escrever os clássicos da era Derrick Green no Sepultura me ocorreu em janeiro de 2026. E foi nesse mês que escrevi a primeira versão do texto. Com o anúncio do EP (The Cloud of Unknowing) de despedida decidi segurar a publicação. Daí veio o lançamento e achei que deveria incorporá-lo. E assim o fiz. Veio então o anúncio de que a banda faria uma apresentação especial no Rock in Rio com canções da era Derrick Green. A partir daí minha ideia era publicar o texto antes da apresentação. Mas acabei não publicando. Então veio a apresentação da banda no festival e foi um sucesso, coincidentemente a maioria das músicas executadas na apresentação são citadas no texto. É portanto uma validação do que foi escrito.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

Nenhum comentário:

Postar um comentário