segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O nome Moisés Avelino na história do Tocantins

Durante uma visita ao museu Palacinho com estudantes do Ensino Médio do Colégio Esportivo Cívico Militar Santa Rita de Cássia, um comentário de um estudante questionando por que se falava tanto do Governador José Wilson Siqueira Campos, durante a exposição do guia (um professor de história), me deixou reflexivo. O guia tentou justificar que pelo fato de que aquele lugar havia sido construído pelo Siqueira nos primórdios da construção do que seria a capital definitiva do mais novo estado da federação. E a partir dali, com uma visão privilegiada das obras em desenvolvimento, governou o Tocantins. Não sei se essa explicação convenceu o estudante. Mas a mim não, sobretudo porque alarguei o meu olhar para além daquele espaço e percebi que o mesmo se repete em outros espaços públicos.
É inegável a relevância política do José Wilson Siqueira Campos na emancipação e desenvolvimento do Tocantins. Mas e outros personagens que inclusive chefiaram o executivo estadual? Não deixaram nenhum legado que não merece sequer uma menção? E ainda que não tenham deixado nenhum legado, só o fato de terem ocupado um cargo público a história não poderia ignorá-los. Aí então fiquei refletindo sobre um possível apagamento de determinados personagens na história oficial do Tocantins - entre esses nomes me veio à memória o do Governador Moisés Avelino.

Moisés Avelino (Médico e Empresário) foi o segundo governador do Tocantins - cargo que ocupou após um feito notável - derrotar o grupo político do José Wilson Siqueira Campos representado pela candidatura do Moisés Abraão.  Tal feito não foi obra do acaso. Avelino era um líder político com história no então norte goiano . Já havia sido eleito prefeito de Paraíso, administrando-a por dois mandatos consecutivos (1983/1988). Também foi presidente da Associação dos Municípios do Vale do Araguaia e Tocantins (1985-1987) e da Coopernorte-GO (1987-1988) - Cooperativa dos Produtores Rurais do Norte. O que o levou a ser eleito para Câmara dos Deputados (1989 e 1991). Ou seja, quando eleito para governar o Tocantins (1991-1994), Avelino já era uma liderança política com experiência de gestão e uma forte influência no setor da economia mais importante do Tocantins - o agronegócio. A sua gestão à frente do executivo estadual ficou para a história de forma bastante estigmatizada. Ainda mais com o triunfo do José Wilson Siqueira Campos na eleição que o sucederia (1994). Ao assumir o governo novamente Siqueira Campos construiu uma poderosa organização política (União do Tocantins) de inspiração oligarca, deixando pouco espaço para oposição. Reeleito em 1998, o Tocantins, politicamente, acabou sendo forjado a imagem e semelhança do “seu criador”. Diante disso é compreensivo por que o período de 1991 a 1994 (período em que Avelino esteve à frente do executivo estadual) é praticamente apagado da história do Tocantins.

Se olharmos para o período histórico em que Moisés Avelino esteve no governo do Tocantins, digamos que ele não pegou uma conjuntura favorável. Se não bastasse os desafios de administrar um estado em formação é importante lembrar que a nível nacional o Brasil sentia na pele o fracasso dos planos econômicos do então Governo Collor que o levaria ao impeachment. Mesmo assim aponta-se que o governo Moisés Avelino consolidou a política administrativa do Tocantins, realizou mais de 2 mil obras e atuou fortemente na interiorização de serviços básicos. No entanto, na eleição de 1998, quando Avelino tenta retornar ao governo enfrentando o candidato à reeleição José Wilson Siqueira Campos, o resultado mostra que a imagem do seu governo por parte da população não era positiva, tanto que a vitória do Siqueira foi de 61,65%. Anos depois retornou a disputar cargos políticos sendo eleito para Câmara dos Deputados (2007-2011) e a Prefeito de Paraíso (2013-2020) por mais dois mandatos consecutivos.

Na disputa eleitoral de 2026 o seu nome voltou a ser lembrado pelo Deputado Federal Vicentinho Júnior (PSDB) - candidato ao governo do Tocantins pela oposição. Com apoio da família de Avelino, o candidato tucano exaltou a figura do segundo homem a governar o Tocantins. Lembrando o feito que o levou ao governo - o qual pretende repetir - para tanto será necessário derrotar Dorinha (União Brasil) no 2º turno.

Independente da vitória ou não de um político que reconheça o legado do Governador Moisés Avelino (sobretudo depois da sua morte, não sendo portanto mais uma ameaça política), a tendência é que no decorrer dos anos  a história do Tocantins não só registre a sua existência como também os seus feitos - não que tenha sido algo extraordinário esses feitos mas é importante - e o que se espera numa democracia. Assim como é importante registrar o papel desempenhado por outros nomes que fazem parte da história do Tocantins. Pois se não nos cabe questionar que história do Tocantins estamos ensinando? Óbvio que compreendemos que por ser muito jovem é difícil uma história do Tocantins com o distanciamento necessário para que não seja tão partidarizada. De todo modo devemos fazer um esforço nesse sentido. Sobretudo se se faz história numa perspectiva científica.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT). Atua como Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

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