sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Questão de Gosto ou desculpa para falar sobre alguns discos de rock brasileiro lançados em 2024 e 2025

Na contramão do discurso acerca da morte do rock in roll no Brasil temos anualmente o lançamento de diversos discos tanto de artistas consagrados como de novatos. Sem falar nos shows mobilizando pequenos, médios e grandes públicos como em festivais como o João Rock. Ou seja, há uma cena bastante ativa mostrando que o rock sobrevive ainda que não esteja no mainstream da indústria fonográfica.

Dos lançamentos de discos recentes que tenho acompanhado, há muita coisa de qualidade sendo produzida. Tanto por parte de nomes mais conhecidos como de artistas que estão iniciando sua trajetória. Para dar alguns exemplos destacaria o Falha Crítica (2024) da banda Surra, Enfrente (2024) da CPM22, Perpétuo (2024) da Black Pantera, Blasfêmea (2025) da Eskrota e o EP As crônicas de brega açu (2025) da Magoo e bando urtiga. Menciono também Não foi em vão (2025) do Supla, A vingança é meu motor (2025) do Matanza Ritual e  XXX (2025) do Raimundos. Estes dois últimos, segundo uma página do Instagram (Corona Rock) com mais de 290 mil seguidores, foram os melhores lançamentos do rock brasileiro em 2025. 

Em relação ao disco do Raimundos, um comentário de um leitor numa resenha do disco Estreito (2002) do Rodox que publiquei no blog Das barrancas do Rio Tocantins, já havia me chamado atenção para o álbum XXX. No entanto, pelo single Maria Bonita que eu já tinha ouvido, confesso não ter me empolgado tanto. Porém com o veredicto da Corona Rock decide ouvir o disco na íntegra. Seria mesmo o melhor disco lançado em 2025? Não foi a minha impressão comparando com outras coisas que eu havia ouvido. Mas a qualidade técnica dos músicos me chamaram atenção - o quarteto atualmente formado pelo Digão (Vocal e Guitarra) Marquim (Guitarra) Caio Cunha (Bateria) e Jean Moura (Contrabaixo) estão afiadíssimos. A pegada da banda me lembrou o seu auge nos anos 1990. Porém as letras da música e o vocal do Digão baixam o nível significativamente. Em Maria Bonita, a segunda música que abre o disco, temos essa pérola: Chega aí, Maria Bonita/Que eu sou o Rei do Cangaço/É coro de queimar caatinga/Arranca a tampa do cabaço. Em Dia bonito temos: Palavra chave, qual é?/Coragem, força e fé/Amizade sempre de pé/Nós dois juntos pro que der… Em Os calos temos: Já estourei meu dedão/De tanto dixavar/Andei na pedra moleque/Até no fundo do mar/Botei na frente agora… Se isso tivesse sido escrito por adolescente era compreensível. Mas não é o caso. Para mim ouvindo o álbum XXX, o problema do Raimundos não é a qualidade musical dos seus integrantes. O problema é que há uma tentativa de repetir uma fórmula que só deu certo com Rodolfo. Quando a banda não buscou fazer uma cópia de si mesmo  como no álbum Cantigas de Garagem (2014), se saiu muito melhor. Para mim esse é o melhor registro que eles conseguiram fazer após a saída do Rodolfo e do Fred.

O mesmo vale também para o Matanza Ritual. A diferença é que o vocal do Jimmy ainda consegue tornar mais audível algumas letras que não chegam nem próximo as composições do Marco Donida, seja no Matanza ou no Matanza Inc. Em A vingança é o meu motor temos uma tentativa de repetir as músicas do Matanza - os arranjos inclusive, que parecem com canções clássicas. A novidade é uma pitada maior de thrash metal no lugar "countrycore". O que é certamente influência dos músicos que o acompanham - oriundos de bandas de Metal.

É totalmente legítimo que alguém ache que no universo de discos que tenha ouvido, esses tenham sido os melhores. O problema é a generalização. Dizer que determinado álbum é o melhor pressupõem que quem o diz  tenha ouvido todos os lançamentos de artistas do gênero. Ou  pelo menos que tenha se fundamentado em uma pesquisa. Se não. Não é mais do que uma opinião - uma opinião fundamentada unicamente no gosto. Não há nenhum problema quanto a isso. Eu mesmo quando citei algumas bandas acima o fiz a partir do meu gosto. O problema é quando eu busco impor o meu gosto dizendo o que é bom ou não. Me parece que esse foi o caso do Corona Rock, tanto que ao ver comentários discordantes no Instagram, deixou claro que era uma questão de gosto. Mas fez isso nos comentários como uma reação às críticas.

Vivemos numa sociedade que tem uma tara por ranquear as coisas, classificá-las. Quase sempre isso se dá de forma arbitrária. Ou seja, sem nenhum critério a não ser o gosto ou interesses mercadológicos. Quem se propõe a fazer crítica musical ou de outras expressões artísticas não pode se reduzir a isso. É preciso ter uma formação estética mínima para entender que eu posso gostar da Legião Urbana, fazendo desta a melhor banda que existe para mim. Mas se tenho o mínimo de conhecimento de música não posso negar que o Ira! tem mais qualidade. O mesmo vale para os The Rolling Stones e os The Beatles. Posso gostar mais do primeiro. Mas a qualidade do segundo do ponto de vista estético é inegavelmente superior. Isso nos leva à seguinte conclusão: posso gostar do álbum XXX, do Raimundos e do Vingança é o meu motor, do Matanza Ritual. Ao ponto de achar que eles foram os melhores lançamentos do rock brasileiro em 2025. Isso não significa que de fato foram.

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano  que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Sequência Didática sobre Lélia Gonzalez e o feminismo negro a partir da coleção Minha África brasileira e povos indígenas para o ensino médio

Durante a formação para coordenadores pedagógicos (CP´s) e coordenadores pedagógicos de área (CPA´s) realizado pela Secretaria da Educação do Tocantins (SEDUC) nos dias 20 e 21 de janeiro de 2026, tivemos uma dinâmica para elaboração de uma sequência didática a partir da coleção Minha África brasileira e povos indígenas. Antes, os formadores fizeram uma exposição acerca da fundamentação legal (Leis: 10.639/2003 e 11.645/2008) que tornou obrigatório o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena na educação básica. E apresentaram a coleção, organizada pela Editora Griô, que está disponível em todas as bibliotecas escolares da rede pública estadual. 

A metodologia da formação foi interessante, sobretudo ao propor ao grupo de participantes a elaboração de sequências didáticas. Quem trabalha na educação há de lembrar que não tem muito tempo houve um movimento contrário por parte da SEDUC - um grupo de técnicos elaboraram algumas sequências didáticas e tínhamos que aplicá-las em nossas aulas. É possível imaginar o quanto isso incomodou sobretudo nós de humanas. Por outro lado, o tempo disponibilizado para realização da atividade impossibilitou um trabalho mais rico. De todo modo (nosso grupo composto por quatro professores de diferentes regionais como Palmas, Miracema, Araguaína e Araguatins) fizemos uma sequência didática em torno do tema (Lélia Gonzalez e o Feminismo Negro) e da problemática (O Brasil é uma democracia racial?) que os formadores nos repassaram, buscando responder ao desafio proposto que foi de: desenvolver uma atividade que envolva a comunidade escolar. 

Outra orientação dos formadores foi de que a mesma deveria ser para estudantes do 8° ano do Ensino Fundamental (e nos entregou dois materiais da coleção minha África brasileira e povos indígenas como apoio). No entanto, na nossa análise o tema pressupõe uma certa maturidade, de modo que, cremos que seria melhor aproveitado no ensino médio. E o nosso produto final (a sequência didática) nos deu mais convicção ainda.

A sequência didática

O nosso ponto de partida foi uma concepção dialética, ou seja, que o conhecimento se dá de forma processual a partir de um movimento composto por contradições internas. A partir disso, concebemos uma sequência didática dividida em seis movimentos que tem como objetivo provocar confrontos que leve a uma síntese.

Primeiro Movimento (De 01 a 02 aulas de 50min.): Leitura do livro paradidático que compõe a coleção - Wangari (Heloisa Pires de Lima) - a turma deve ser orientada a anotar o que mais lhe chama atenção relacionando com a nossa realidade. O nosso objetivo nesse primeiro movimento é, o estudante ou a estudante perceber a contradição entre a visão da mulher negra na cultura africana e na nossa sociedade. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS502): Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas e seus significados em diferentes sociedades, reconhecendo as diversidades.


Segundo Movimento (2 aulas de 50min.): Exibição do filme brasileiro (Quanto vale ou é por quilo?), de 2005 dirigido por Sérgio Bianchi - que faz um paralelo entre a escravidão e a politica de inclusão na contemporaneidade. O estudante e a estudante devem ser orientados a anotar os aspectos que mais lhe chame atenção. O nosso objetivo é o aprofundamento da contradição entre a cultura africana e a condição do negro na sociedade brasileira. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS503): Identificar e discutir as diversas formas de injustiça, preconceito e violência (incluindo racismo, misoginia, homofobia), adotando postura ética e respeitosa.

Terceiro Movimento (1 aula de 50min.): Roda de conversa onde os estudantes serão estimulados a compartilhar suas anotações. O professor ou professora deve fazer questões do tipo: Qual das obras mostram uma visão próxima da nossa realidade? Qual a relação entre a escravidão e a desigualdade social no Brasil? Brancos e Pretos têm as mesmas oportunidades? Como a mulher negra é representada no livro e no filme? O nosso objetivo aqui é explicitar mais ainda a contradição entre o discurso e a prática acerca do Brasil ser uma democracia racial, sobretudo quando olhamos para a condição feminina). Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Argumentação. Competência Específica: 6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições. Além disso, fazendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Habilidade (EM13CHS603) Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder,  formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.).


Quarto Movimento (2 aulas de 50min.): Leitura, discussão e exposição a partir do livro Minha África Brasileira e povos indígenas, mais especificamente a discussão sobre as teorias raciais do século XIX e a política de branqueamento no Brasil. Nosso objetivo aqui é que o estudante ou a estudante compreenda como o racismo está na estrutura da nossa sociedade com a contribuição tanto da política como da ciência. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS504): Analisar e avaliar os mecanismos de exclusão social e identificar estratégias que promovam a inclusão e a garantia de direitos humanos.

Quinto Movimento (2 aulas de 50min.): Exposição e discussão sobre a contribuição da Lélia Gonzalez na construção do feminismo negro e a importância da lei 10.639/2003. Orientar os estudantes a refletirem e responderem por meio de um texto dissertativo-argumentativo a seguinte pergunta: O Brasil é uma democracia racial? Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural; Argumentação. Competência Específica: 6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições. Além disso, fazendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Habilidade (EM13CHS605): Analisar os princípios da declaração dos Direitos Humanos, recorrendo às noções de justiça, igualdade e fraternidade, identificar os progressos e entraves à concretização desses direitos nas diversas sociedades contemporâneas e promover ações concretas diante da desigualdade e das violações desses direitos em diferentes espaços de vivência, respeitando a identidade de cada grupo e de cada indivíduo.

Sexto Movimento (2 aulas de 50 min.): Chegamos ao último movimento que consistirá num sarau para toda comunidade escolar - intitulado de: Vozes de Mulheres Negras ou Vozes do Ébano. A orientação aqui é aproveitar o talento e criatividade das estudantes e dos estudantes que cantam, dançam, pintam, interpretam e etc. E organizar um momento com o objetivo de celebrar a cultura africana e afro-brasileira. Competências Geral: Conhecimento; Pensamento Científico, Crítico e Criativo; Repertório Cultural; Argumentação; Responsabilidade e Cidadania. Competência Específica: 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. Habilidade (EM13CHS504): Analisar e avaliar os mecanismos de exclusão social e identificar estratégias que promovam a inclusão e a garantia de direitos humanos.

Enfim, em essência foi isso que pensamos e apresentamos durante a dinâmica desenvolvida na formação continuada para os CP´s e CPA´s (a diferença é que lá era apenas um rascunho, aqui está mais elaborado). Esperamos que essa sequência didática possa inspirar a elaboração de outras sequências didáticas pelos professores que estão no chão da escola - profissionais qualificados e capazes de fazer, e estão fazendo, coisas incríveis. E só não estão fazendo coisas ainda mais incríveis porque o excesso de burocracia mata qualquer disposição para o exercício do pensamento científico, crítico e criativo.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A Ilha dos Espíritos - Completo

 


Três jovens (Bia, Lidiane e Raquel) saem de Goiânia para passarem férias no Tocantins. Se junta a elas um jovem Lajeadense que também mora e estuda em Goiânia (João) e um jovem hippie (Joe) vindo do sul do país.  Em meio a uma natureza belíssima, os jovens se encantam pelo lugar – se apaixonam, se amam e vivem aventuras inesquecíveis. Até que descobrem que estão em um lugar cheio de segredos – os quais devem descobrir antes que mais pessoas percam suas vidas nas águas misteriosas da ilha verde ou “a ilha dos espíritos”.