A bateria dava o ritmo, o baixo um tanto desafinado segurava o compaço, a guitarra disparava riffs nervosos e uma voz – que parecia possuída por um demônio – vomitava palavras:
“Sem trabalho e educação,
sem terra e sem pão,
no campo a devastação,
no congresso só ladrão.
O povo a mendigar,
o governo a roubar,
mas todo mundo acreditando:
- um dia vai melhorar”.
Os quatro amigos tinham consciência que não teriam muita receptividade por ali. E nem em outros cantos daquele estado dominado pelo forró e pelo sertanejo. Mas eles não importavam, estavam por demais felizes por terem conseguido montar a tão sonhada banda de rock que eles sempre sonharam montar.
Não foi fácil conseguir os instrumentos, ainda que usados. Aprender a tocar também não estava sendo, e talvez já mais aprendecem. As composições não tinham lá grande originalidade. Mas apesar dessas questões, não podia se negar uma coisa – eles tinham atitude Rock in roll – e conseguiam contagiar quando tocavam.
“Menininha bonitinha,
cuidado não ande só.
Que os caras lá da área,
tão tudo cheios do pó...”.
Tudo começou quando eles viram aquela banda gringa tocando na TV. Não entendiam nada do que estavam cantando, mais a energia que passavam era contagiante – sim, aquilo era Rock in roll – não o que eles ouviam nas rádios comerciais e na TV aberta. Foi então que Ícaro comentou:
- E se montassemos uma banda de rock?
- Uma banda de rock?
- Sim. Por que não?!
- Seria massa.
- Sim, seria. Todos concordaram – Ícaro e seus amigos – Nicolas, Pedro Henrique – o PH e a Sophia.
A amizade deles nasceu nos corredores do Colégio Estadual quando descobriram que apressiavam as mesmas coisas numa cidade dominada por uma cultura demasiadamente conservadora. E estarem juntos era uma forma de cultivar essas coisas que não eram muito bem vistas pela cultura dominante do local.
- E se montassemos uma banda de rock quem faria o que? Questionou Sophia.
- Eu queria ser o guitarrista. Respondeu Ícaro.
- Ah, eu queria tocar bateria. Disse Nicolas.
- Eu podia ficar com o baixo. Respondeu Sophia.
- E o vocalista? Sobrou para o PH. Disse Ícaro.
- Eu, vocalista? Com essa voz? Eu não canto nem no banheiro. Respondeu PH.
- Ah, PH não atrapalha a nossa viagem. Topa vai? Disse Sophia.
- Tá bom. Eu canto então.
- Pronto. Agora precisamos de um nome para banda.
- Vocês estão loucos? Nós não temos instrumentos e muito menos sabemos tocar. E ainda se tivéssemos e se soubéssemos tocar. Aonde encontrariamos um lugar que nos deixariam tocar e para que público?
- Calma, calma. Um passo de cada vez. Já temos a banda, agora precisamos de um nome. Depois vemos o restante.
- Uma banda sem instrumentos não existe. Por tanto não temos banda. Temos a ideia de uma banda.
- PH, tú é chato ahn meu. Vamos pensar então na ideia de um nome para nossa ideia de banda.
- Chato não. Realista. Mas tudo bem. Vamos viajar nessa ideia. Vamos pensar num nome original. Pois já que é para ter uma banda de rock vamos criar uma banda com uma identidade própria. Inclusive com composições próprias.
- É assim que se fala PH. Concordo. Alguém tem alguma ideia de nome? Falou Ícaro.
Muitas ideias vieram. Mas nenhuma que agradece á todos. E o que a princípio parecia que seria uma tarefa fácil logo se mostrou bastante difícil. Talvez até mais difícil do que arranjar os instrumentos – Nicolas descobriu no depósito do colégio uns instrumentos de fanfarra abandonados. A partir daí foi só usar a criatividade para improvisar uma bateria. Com isso a turma se animou e o que a princípio era sonho começou se tornar realidade.
- Ouvi dizer que fulano de tal tem uma guitarra velha. Quem sabe ele não passa ela pra gente?! Disse PH, que agora era um dos mais entusiasmado – ensaiava performance no banheiro e já começará a rabiscar umas ideias de letras para as músicas.
- Beleza. Vou falar com ele já. Respondeu Ícaro.
- Bom. Se conseguirmos a guitarra ficará faltando só o contrabaixo. Pois caixa amplificadora e microfone a gente consegue no Colégio. Disse Nicolas.
- Mas a gente já pode começar ensaiar. Será que a diretora libera o Colégio para fazermos isso? Ou então deixa a gente tirar as coisas de lá? Disse PH.
- A princípio acho que ela deixa. Depois que ver e ouvir o som que estamos querendo fazer, não sei. Respondeu Nicolas sorrindo.
Os ensaios se quer haviam começado, e Nicolas já mostrava ter um talento especial para tocar bateria. Absorvia e reproduzia de uma maneira invejável os sons que ouvia mesmo com uma bateria improvisada. O mesmo não se podia dizer de Ícaro com sua guitarra e Sophia com o contrabaixo – que conseguira emprestado de um primo que tocava na banda da igreja.
Já o Pedro Henrique. Bem o PH não se podia dizer que o que ele fazia era cantar, mas vomitar palavras numa velocidade que muitas vezes se tornava impossível de entender o que ele estava dizendo. O seu estilo de cantar de forma veloz exigia que os instrumentos também seguissem a toada. E dessa mistura louca surgiu um som sujo e veloz, já mais visto naquele local. A partir daí não é difícil imaginar a receptividade que tiveram.
Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.
