No geral as segundas-feiras não são bem vistas porque está relacionado a volta ao trabalho depois de um final de semana de descanso. E a canção retrata bem esse sentimento:
Segunda-feira é sempre uma bosta
Difícil acordar pra ir trabalhar
A falta de grana me tira da cama
Não sei se vou aguentar
Aqui o artista deixa evidente o seu descontentamento com a malfadada segunda-feira. Dizendo que o que faz encará-la é a falta de dinheiro. Ou seja, se você vende sua força de trabalho para sobreviver, não tem outra opção senão levantar e enfrentá-la.
Olho no espelho a desesperança
De trabalhar para sustentar a ganância
De um sistema que oprime e humilha
Destrói os seus sonhos e rouba sua vida
Nesse verso o artista nos faz entender que o seu descontentamento não é com a segunda-feira em si. Mas o que ela simboliza - trabalho. É só lembrar que a mesma é chamada de o primeiro dia útil da semana. Ou seja, só é considerado útil o dia em que você trabalha para sustentar o sistema. Aqui não temos como não lembrar da discussão a respeito da redução da jornada de trabalho para aqueles que estão submetidos a jornada 6x1 - é de fato uma jornada que rouba a vida dos trabalhadores com a família, com os amigos, com a comunidade. E como bem ressaltou Pepé Mujica “a vida não é só trabalhar. Tem que se deixar um bom capítulo para as loucuras que cada um tem. Você é livre quando gasta o tempo de sua vida com as coisas que te motivam”. Essas coisas certamente não são, para maioria da população, o trabalho.
Fim de semana eu vou pra balada
Tentar esquecer, desbaratinar
Certa como a morte ela vai estar lá
Na última estrofe da canção o artista descreve o comportamento da maioria dos brasileiros. Que o diga às redes sociais que são infestadas com o grito de alforria - sextou! No entanto é uma liberdade passageira já que “certa como a morte” a segunda-feira vai chegar novamente.
Não é fácil levantar numa segunda-feira para ir trabalhar cedo. Ainda mais se você está submetido a uma escala de trabalho 6x1 - acordar 5h da manhã para pegar um transporte coletivo superlotado, para chegar às 07h no trabalho. E ao final do dia retornar para casa seguindo o mesmo roteiro.
Apesar de hoje viver outra realidade, já senti isso na pele. E creio no entanto que não é necessário ter passado por isso para ter a sensibilidade e defender o fim dessa escala.
Por outro lado é compreensível que haja resistência por parte de setores significativos do empresariado. Ora, quando foi que a classe trabalhadora ao longo da história conseguiu alguma conquista apelando para a sensibilidade das elites? Se dependesse disso ainda estaríamos no regime escravagista.
Diante disso não será surpresa se a proposta em discussão no congresso nacional for rejeitada, sobretudo pela composição atual do parlamento brasileiro. E o pior na minha análise não é nem esse parlamento rejeitar a proposta, mas sim um número expressivo de trabalhadores, incluindo aqueles que estão submetidos à escala 6x1, elegerem esses parlamentares.
Por isso, uma das tarefas fundamentais que se impõe para nós no contexto atual é reformar radicalmente o nosso parlamento por meio da eleição de figuras progressistas. Enquanto tivermos um congresso majoritariamente reacionário dificilmente veremos avançar pautas progressistas como o fim da escala 6x1 - ainda que essas pautas não apontem para a superação do modo de produção dominante.
Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia, Especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Graduado em Filosofia. Atua como Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário