sábado, 11 de abril de 2026

Inesquecível

O dicionário define inesquecível como: um adjetivo que descreve algo ou alguém marcante, que não se apaga da memória ou que não pode ser esquecido. Refere-se a experiências, momentos ou pessoas memoráveis e dignas de lembrança duradoura. Na filosofia, sobretudo numa perspectiva fenomenológica, refere-se a algo, alguém ou algum momento que não se consegue esquecer, que permanece ativamente na memória e que impacta profundamente a consciência. Mas será que um único encontro é capaz de tamanho impacto? Você deseja novamente encontrar a responsável por impactar profundamente a sua consciência. Mas será que será tão intenso assim?

Falemos sobre o desejo. Gosto bastante da definição espinosana de que “o desejo é a própria essência do homem, enquanto esta é concebida como determinada, em virtude de uma dada afecção qualquer de si própria, a agir de alguma maneira”. Ou seja, é o que nos faz agir buscando aquilo que nos falta. É nessa linha que segue Marilena Chauí, que para tanto vai na etimologia da palavra desejo (desiderium) - que está no costume na antiguidade e na renascença de consultar os astros para saber o sentido do nosso destino. Chauí nos diz portanto que “o desejo é o sentimento da falta - aquilo que eu desejo é aquilo que me falta.” Mas como é que eu sei que aquela pessoa é o que me falta?

Foi num dia de semana à tarde que nos conhecemos. Algo havia me chamado atenção nela - uma tatuagem de escorpião na virilha - tatuagem me chama atenção. Não tenho muito interesse no significado - nem toda tatuagem tem um significado para quem tatua. Mas se antes do encontro eu tivesse pesquisado o significado da tatuagem teria encontrado o seguinte: A tatuagem de escorpião na virilha simboliza, principalmente, poder, sexualidade intensa, proteção e mistério. Devido à localização íntima e à natureza venenosa do animal, representa uma personalidade audaciosa, resiliente e uma defesa contra energias negativas. Também pode indicar forte conexão com o signo de Escorpião.

Isso me levaria necessariamente a investigar a mulher do signo de escorpião e encontraria o seguinte: é intensa, magnética, misteriosa e extremamente determinada. Conhecida por sua profundidade emocional e lealdade, ela valoriza a verdade e busca relações verdadeiras, sendo bastante ciumenta e possessiva. É independente, resiliente e possui uma intuição aguçada, desvendando segredos com facilidade.

Mas não fiz nada disso. Pois não acredito que possamos conhecer alguém a partir do que ela aparenta ou diz ser ou os outros digam que ela seja. Mas sim experienciando.

Quando vi-a não acreditei no que estava diante de mim - era uma menina - o sorriso era de quem estava reencontrando um velho conhecido. De modo que não pude deixar de perguntar: - a gente se conhece? Não, não nos conhecíamos. Talvez a alegria fosse pelo fato d'eu, aparentemente, fazer o tipo dela ou simplesmente era o seu jeito. O fato é que nos demos muito bem. Como sempre, eu estava bebendo cerveja, fumando palheiro  e ouvindo Guns n´ Roses. Ela não quis me fazer companhia - disse que estava tentando parar. Mas quando bebia disse que preferia cachaça. Eu disse que tinha. Mas ela não quis.

Ela tinha uma energia muito boa. Era muito linda. Muito espontânea. Muito tudo. Quis saber de onde ela era - Pará - ah, as mulheres do Pará estão sempre mexendo com minha cabeça. Me mostrou a sua playlist. Dançou rock doido para mim. Caralho, eu só queria sexo. E ela queria conquistar o meu amor. E conquistou. Se eu tivesse pesquisado sobre a tatuagem e o signo não teria me frustrado. Ela era realmente assim, ou pelo menos era assim naquela tarde. Desde então, desejo reencontrá-la. Não sei se será tão bom como foi. Mas pelo menos eu superaria esse desejo de tê-la de novo ainda que por uma tarde.

Não sei como começamos a falar sobre esse assunto. Ou melhor, sei. Sempre que bebemos juntos surgem assuntos aleatórios. Às vezes esses assuntos provocam boas discussões. E naquela tarde, ali na distribuidora do Colo, depois de algumas latinhas de cerveja, surgiu o questionamento acerca da palavra inesquecível. Enquanto eu apelei para filosofia, ele apelou para sua experiência de vida. Invejei-o. Pois enquanto a minha visão era teórica, a dele vinha da vivência. Uma não contradizia a outra, pelo contrário. Mas melhor do que saber é viver. Eu então senti inveja dele. Por outro lado, ao perceber o quanto aquele desejo de encontrar sua “escorpiana” lhe machucava, a inveja se esvaia.

Tentei convencê-lo, que do ponto de vista racional, era melhor não alimentar aquele desejo. Pois nada garante que ele encontre sua “escorpiana” paraense. E se encontra-lá nada garante que as coisas aconteçam conforme suas expectativas. Ainda que ela seja ela, e ele seja ele. Os tempos são outros. Ele não me deu ouvidos. O que posso fazer? Talvez o equivocado seja eu. Talvez eu que tenha que me aventurar mais e não pensar tanto, como aconselhava meu Vô chó.

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

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