Crônicas da UFT: Que fazer?!


Não, esse texto não se trata de uma resenha a cerca do celebre livro “Que fazer” do grande Lênin. Mas em tempos como esses que a esquerda brasileira ou o que sobrou dela esta batendo cabeça sem saber o que fazer, não deixa de ser recomendável a leitura desse clássico do marxismo-leninismo. Como também pelo fato de que recentemente comemoramos os 99 anos da revolução de outubro e agora caminhamos para comemorar os 100 anos – uma data que deve servir para fazermos um profundo balanço da luta proletária e camponesa desde então – os avanços e retrocessos. Mas voltemos ao nosso objetivo principal falar do debate sobre a politica de formação de professores de Artes e Filosofia no âmbito da MP 746/2016 que ocorreu na IV Semana Intercursos de Filosofia, Teatro e Pedagogia da UFT – Campus de Palmas.

O que fazer foi a principal questão que surgiu após a fala dos Professores João Cardoso P. Filho (UNESP), Alessandro Rodrigues Pimenta (UFT) e Marcelo Rythowem (IFTO). Sobretudo pelo fato que não houve desacordo com a analise apresentada a cerca da nocividade da MP 746/2016. Não há duvidas como bem salientou o Professor João Cardoso de que se trata de uma ponte de volta ao passado e não ao futuro como dizem os defensores da reforma. Aliás, Cardoso alertou que o objetivo do atual governo é gastar o menos possível com a educação e nesse sentido a reforma do ensino médio esta intimamente ligada com a PEC 55 que congela os gastos públicos. O professor Alessandro Rodrigues afirmou que as conquistas obtidas a partir de 2008 que conseguiu que a filosofia se tornasse disciplina obrigatória no ensino médio esta em risco, e com isso se aprovada a politica de formação de professores será impactada imediatamente. Rodrigues ressaltou muito bem ao dizer que as mudanças na educação pública vêm ocorrendo desde a década de 1990, o atual governo com a MP da reforma do ensino médio esta apenas aprofundando essas reformas. Seguindo assim a cartilha do Banco Mundial e da UNESCO – é a logica mercadológica que inclusive vemos nas universidades. E qual o papel da Universidade Pública? Ser um espaço de busca do conhecimento ou de formação de mão de obra qualificada para o mercado? Questionou Rodrigues. Já o professor Marcelo Rythowem destacou que a politica de permanência na Universidade irá desaparecer se caso a PEC 55 for aprovada e com isso os cursos de licenciatura esvaziaram mais ainda.
Na linha de que a MP 746/2016 significa um retrocesso, o professor João Cardoso destacou que ao contrario do que se diz o aluno não terá nenhuma liberdade de escolher o currículo – esse será definido pelo sistema, pelo secretário de educação. Afirmou que as diretrizes curriculares estão sendo ignoradas pelo projeto de reforma do ensino médio e que o PNE de 2014 não será cumprido. Cardoso também chamou atenção para o fato de que há 40 anos o foco do ensino tem sido em Português e Matemática, o que segundo ele é um erro, pois não tivemos importantes avanços no aprendizado, nesse sentido ele defendeu a necessidade do currículo ser integrado bem como de uma maior valorização do ensino das artes. O professor Alessandro Rodrigues chamou atenção para o fato de que a profissão de professor vem sendo sucateada e tal fato dificulta para que estes possam construir lutas contra hegemônica. Já o professor Marcelo Rythowem comentou a frase de uma colega que disse que no tempo do FHC vivíamos no paraíso se comparado ao momento que estamos vivendo. A esse respeito é preciso ressaltar que no governo FHC tínhamos organizações da classe trabalhadora muito mais fortes e mais combativas – entre elas a CUT, O MST e a UNE. Ao contrario de agora que só temos a brava resistência do movimento estudantil secundarista que na maioria dos casos não são ligados a nenhuma organização tradicional.
Ao final da ótima analise a cerca da MP 746/2016 e dos seus impactos na formação de professores o que ecoou no auditório do Cuica foi à frase – que fazer? E não é que o professor Marcelo Rythowem disse que deveríamos retomar a leitura dos clássicos começando pelo “Que fazer” do Lênin. Sim devemos ler os clássicos, mas com os olhos de hoje. Também veio do auditório uma fala dizendo que estamos num momento de luto, mas que não temos muito tempo para ficar chorando. Me lembrei de um debate entre uma militante do PSTU e do PCO nas eleições municipais – onde a camarada do PSTU mandou a do PCO soltar a alça do caixão do PT. Também surgiu o exemplo do movimento estudantil que estão ocupando escolas e universidades públicas de norte a sul do país. – Eles estão lutando. E nós? Foi à fala desesperada de uma professora do Teatro. E houve também quem não se esquecesse da greve. Ora, mas greve não são férias. Lembrou o professor Cardoso – não adianta fazer greve e ir para o litoral ou viajar para outro país.
No meu canto apenas observando o debate ia tendo a convicção cada vez maior que o nosso problema é de fato organizacional. E essa não é uma questão secundaria camaradas, pois sem organização acabamos caindo no espontaneísmo e o espontaneísmo nunca fez revolução em canto algum. Precisamos construir uma contra hegemonia, organizar o povo, forma-lo politicamente e conduzi-lo a luta. Mas não posso deixar de notar que enquanto a discussão vai se aprofundando o auditório vai esvaziando. E no final ficam alguns poucos dispostos a fazer. Há alguma coisa de errado com o nosso discurso? O povo já não acredita mais ser possível a transformação? Se não estão dispostos a discutir, imaginem lutar. Não posso deixar de pensar nessas questões diante do auditório esvaziado – auditório que só vi cheio por duas vezes quando dona Kátia Abreu por ali esteve promovendo o seu MATOPIBA.
Ora, não dá para ficar se lamentando. Quando é que nós que “não escolhemos o lado fácil da história” tivemos vida fácil? Lembremo-nos de Maiakóvski – Poeta Russo. “É preciso arrancar alegria ao futuro”. Nesse sentido ressaltamos o que falou os professores Cardoso, Rodrigues e Rythowem – eles podem ganhar essa, mas não vamos entregar de bandeja. Vai ter resistência, vai ter luta. A verdade é que já esta tendo – não é pouca coisa o que o movimento estudantil esta fazendo nesse país. Mas é possível fazer mais, precisamos o quanto antes caminhar rumo à greve geral – que os dias 11 e 25 de novembro sejam a centelha rumo a esse objetivo.
Por fim não poderíamos deixar de falar da importância da semana intercursos de Filosofia, Teatro e Pedagogia do Campus de Palmas em promover esse espaço de dialogo e debate a cerca dessas questões importantes – especialmente a reforma do ensino médio (MP 764/2016) e a pec. que congela os gastos públicos (PEC 55). Á analise dos Professores João Cardoso P. Filho (UNESP), Alessandro Rodrigues Pimenta (UFT) e Marcelo Rythowem (IFTO). Foram de extrema relevância para que nos mobilizemos, nos organizemos e lutemos para resistir aos ataques aos nossos direitos que tendem a se aprofundar no próximo período – tanto dentro como fora dos muros da universidade.

Pedro Ferreira Nunes – Estudante de Filosofia da Universidade Federal do Tocantins.


Seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação”.
Lênin.

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