segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Contribuições das demais áreas do conhecimento na recomposição das aprendizagens

A temática acima nos foi proposta para ser trabalhada numa formação continuada dos professores no início das atividades pedagógicas do segundo semestre de 2025, no Colégio Esportivo Cívico-Militar Santa Rita de Cássia. De acordo com o documento o objetivo seria: Envolver os professores das diferentes áreas do conhecimento na análise das habilidades em defasagem identificadas em Língua Portuguesa e Matemática, com base nos dados das plataformas CAEd e Soluções Moderna para construir estratégias interdisciplinares que contribuam para o avanço da proficiência dos estudantes.
Toda essa mobilização tem como finalidade aumentar o índice do desenvolvimento da educação básica (IDEB) do Tocantins. Medido a partir dos dados do fluxo (aprovação e evasão) mais o desempenho numa prova objetiva (Prova Brasil) a partir de habilidades desenvolvidas nos componentes curriculares de Língua Portuguesa e Matemática, nos anos/séries finais do Ensino Fundamental e Médio. Há todo um investimento por parte do Governo em material, plataformas, formação continuada e promessa de gratificação para as escolas que conseguirem aumentar o seu índice. Ou seja, todo o foco dos sistemas de ensino acaba voltando para este fim. É nesse contexto que compreendemos a cobrança para que as demais áreas se somem no processo de recomposição das aprendizagens.
Não é de agora que se fala em déficit de aprendizagem na educação básica. Sobretudo se levarmos em consideração o desempenho dos estudantes em provas externas (internamente não é diferente). Mas foi a partir dos impactos provocados pela pandemia provocada pelo vírus SARS-CO-VID  (COVID-19) que se passou a dar mais ênfase na recomposição da aprendizagem. Por exemplo, a Secretaria de Estado da Educação passou a disponibilizar anualmente uma matriz de recomposição da aprendizagem, onde encontramos as habilidades, com sugestões de objetos de conhecimento e sequências didáticas para serem trabalhadas em sala de aula. No ano corrente, a matriz traz como novidade as habilidades das áreas relacionadas com os descritores de Língua Portuguesa e Matemática.
A nossa fala inicial na formação partiu da compreensão de que ainda que tenhamos ressalvas quanto até que ponto essas avaliações de fato expressam a qualidade do ensino-aprendizado na educação básica. Não podemos negar que é a partir dele que o Governo norteia suas ações. Por tanto boicotar esse processo não me parece uma estratégia inteligente. Por outro lado, não podemos fazer do processo de ensino-aprendizado na escola pública um espaço voltado a preparar o estudante para ter um bom desempenho nessas avaliações. Até porque, de acordo com a legislação educacional, o objetivo da educação básica é formar para o trabalho e o exercício da cidadania.
Outro fato que não podemos negar é que se o estudante e a estudante não conseguem desenvolver habilidades básicas de leitura, interpretação, escrita e raciocínio lógico. Dificilmente ele, ou ela, conseguirá aprofundar em áreas mais complexas como filosofia e ciências, tanto as ditas sociais como da natureza (Geografia, História, Sociologia, Biologia, Física e Química). Ou ainda em outras linguagens como a artística. Por isso, na medida que observamos esse déficit em sala de aula podemos desenvolver ações para mitigá-lo.
Dito isso, o nosso passo seguinte, focando nas turmas de 9° Ano de Ensino Fundamental e 3ª Série do Ensino Médio, foi conhecer e analisar as habilidades em que os estudantes tiveram pior desempenho. A opção por analisar o desempenho dessas turmas especificamente foi porque serão elas que farão o exame (SAEB) que comporá o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica do Colégio Esportivo Cívico-Militar Santa Rita de Cássia. Optamos também por fazer essa análise a partir dos dados fornecidos pela plataforma de Avaliação e Monitoramento da Educação do Tocantins (CAED/SAETO).
Em Língua Portuguesa, no 9° Ano do Ensino Fundamental, as três habilidades com menor desempenho foram: H10 – Distinguir fato de opinião (33%); H13 - Reconhecer a presença de valores sociais e éticos (39%); e a H14 - Reconhecer o efeito de sentido decorrente da exploração de recursos morfossintáticos (30%). Em resumo, podemos dizer que essas três habilidades se relacionam com a leitura de diferentes tipos de textos e sua interpretação. Já em Matemática a situação é um tanto pior. Por exemplo, em relação à habilidade H5 (Utilizar o princípio multiplicativo de contagem na resolução de problema) o desempenho foi de 5%. Em relação a  H19 (Calcular o resultado de uma multiplicação ou divisão de números naturais) o desempenho foi de 6%. Já em relação a H18 (Calcular o resultado de uma adição ou subtração de números naturais) o desempenho foi de 14%. Em resumo, podemos dizer que falta ao estudante a apropriação e aplicação das quatro operações básicas (adição, subtração, multiplicação e divisão).
Quando vamos para a 3ª série do ensino médio temos uma melhora em Língua Portuguesa. Nenhum estudante teve um desempenho em qualquer habilidade menor que 40%. As habilidades com menor desempenho foram: H9 - Reconhecer o sentido das relações lógico-discursivas em um texto (46%); H1 - Identificar a finalidade de textos de diferentes gêneros (56%); e a H15- Reconhecer o efeito de sentido decorrente da exploração de recursos morfossintáticos (56%). Em resumo, são habilidades que também se referem a leitura e interpretação. Em Matemática há uma melhora em relação ao Ensino Fundamental. No entanto, em comparação com Língua Portuguesa está bem abaixo. Foram 8 habilidades com desempenho de 40% para baixo. Com destaque para: H13 –Corresponder a representação algébrica e gráfica de uma função polinomial de 2º grau (12%); H14 - Reconhecer a representação algébrica de uma função polinomial de 2º grau a partir dos dados apresentados em uma tabela (20%); e a H4 - Utilizar probabilidade na resolução de problema (24%). Em resumo, utilizar o raciocínio lógico.
Analisando esses resultados ficamos nos questionando o que impede o desenvolvimento dessas habilidades que, a priori, não são nenhum bicho de sete cabeças. Será que de fato o exame a partir do qual temos esses índices expressam de fato o conhecimento dos estudantes? Será que pelo fato de não valer nota o estudante ou a estudante não se dedicam como deveriam na resolução das questões? Certamente existe esse fator. Mas o fato que quando analisamos o desempenho dos estudantes nas provas internas, valendo nota para progressão de ano/série, o resultado não é diferente. Ou seja, de fato esse déficit existe.
Diante disso, como podemos contribuir, a partir da nossa área ou componente curricular,  na recomposição dessa aprendizagem? Cada um deve se esforçar para chegar a uma resposta. Pois acredito que esse caminho é mais rico do que esperar uma receita de um ser iluminado que venha dizer como fazer o nosso trabalho em sala de aula. óbvio que podemos buscar sugestões que contribuam para que desenvolvamos o nosso próprio caminho. E é nesse sentido que compartilho algumas ideias.
Primeiro, defendo que, o ponto fundamental não é qual objeto de conhecimento devo trabalhar. Mas como vou trabalhar determinado objeto para que o estudante desenvolva certas habilidades. Óbvio  que se partirmos de objetos de conhecimento
 relacionados à realidade/interesses do estudante há a possibilidade de uma maior engajamento por parte dele.
Segundo, em Arte, desenvolver exercícios de leitura de imagens e reprodução de 
pinturas clássicas. Em Educação Física exercícios para o desenvolvimento do raciocínio lógico a partir de jogos de tabuleiro. Em Língua Inglesa leitura de texto em Inglês com foco na tese e no argumento. Em Filosofia exercícios de leitura e escrita a partir da perspectiva filosófica. Em Geografia exercícios de elaboração de mapas mentais e representações gráficas. Em História exercícios que explorem diferentes narrativas sobre um mesmo fato (explorar recursos como textos e audiovisual). Em Sociologia exercício de leitura de textos sociológicos com debate em seguida. No Itinerários formativos:  Eletivas: Explorar dinâmicas que fortaleça a formação geral básica fazendo uso de textos, audiovisuais e jogos. Estudo Orientado: Exercícios com análise de questões do Enem, Prova Brasil e Vestibulares. Projeto de Vida: Exercício de Escrita Criativa e confecção de tirinhas. Protagonismo: Discussão sobre valores a partir da leitura de obras literárias.
Para aprofundar um pouco mais acerca dessas sugestões vou trazer o exemplo de uma atividade que geralmente desenvolvo nas minhas aulas de filosofia. Escolho um trecho de um texto filosófico, exponho no quadro escrito de pincel (e falado). Peço para que eles anotem. E em seguida passo um exercício onde eles devem responder no formato de uma dissertação algumas questões: O que diz/defende o filósofo ou filósofa? Qual a diferença dessa perspectiva filosófica para outras? Você concorda com essa visão?Justifique. Esse simples exercício vai exigir do estudante capacidade de leitura, não uma leitura qualquer já que geralmente esses textos trazem conceitos que não são utilizados no dia a dia. O que significa que esse estudante ou essa estudante precisará compreender determinados conceitos para poder compreender o que está sendo enunciado. O segundo passo é relacionar com outras ideias. E por fim exercitar o seu pensamento de forma escrita, se posicionando fundamentadamente sobre determinada ideia. Geralmente a maioria não conseguem entregar aquilo que gostaríamos, mas para nós o exercício em si já é um avanço. Pois quando o estudante se dispõe a pensar sistematicamente certamente há um ganho. Ainda que ele não perceba isso objetivamente.
Mas enfim, eis o que buscamos fazer na formação que fomos convidados a dar para os professores do Colégio Esportivo Cívico-Militar Santa Rita de Cássia, a respeito de como as demais áreas e componentes curriculares podem contribuir para recomposição da aprendizagem a partir dos dados fornecidos pelo Sistema de Avaliação do Estado do Tocantins (SAETO).
Pedro Ferreira Nunes - Professor da Educação Básica na Rede Pública Estadual da Educação do Tocantins.

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