O primeiro afeto que salta aos olhos durante a narrativa é o amor. Machado parece compreender o amor segundo a tradição grega, sobretudo de inspiração platônica, como uma falta. O amante busca no objeto amado aquilo que lhe falta. Ao ponto de o amado se tornar o sentido da existência do amante. Parece trágico, não?! E é. Quantas pessoas ao longo da história não tiraram a própria vida pelo fato do objeto do seu amor não se realizar. O conto Frei Simão é um exemplo nesse sentido. Ele não chega a tirar a própria vida. Mas é afetado por uma tristeza tão profunda que acaba não tendo outro destino. Naquele período não se falava em depressão. Mas nos dias atuais seria disso que diagnosticariam o jovem Frei. Em Miss Dollar e Linha Reta e Linha Curva acontece o contrário. O amante conquista o amor do amado. Não sem uma boa dose de sofrimento. O sofrimento aqui advém sobretudo pelo fato de que o amado nesse caso já tinha tido experiências anteriores (eram viúvas). Certamente nesse caso o medo está presente. O medo do que diria a sociedade. O medo de ser usada por um dom juan - o que de fato aconteceu em Confissões de uma viúva moça.
“Mas aquilo que o espírito do homem não vence, há de vencê-lo o tempo, a quem cabe final razão. O tempo convenceu Margarida de que a sua suspeita era gratuita; e, coincidindo com ele o coração, veio a tornar-se efetivo o casamento apenas celebrado.”
O trecho acima é do conto Miss Dollar. E trás um elemento importante que faz com que o amado corresponda a expectativa do amante - o tempo. Há uma definição bem interessante do que é o tempo no conto Linha Reta e Linha Curva.
“- Três meses, três minutos! Eis toda a verdade da vida. Se os pusessem sobre uma grelha, como São Lourenço, cinco minutos eram cinco meses. E ainda se fala em tempo! Há lá tempo! O tempo está nas nossas impressões. Há meses para os infelizes e minutos para os venturosos!”
Ou seja, o tempo é abstrato. O que para alguns é tempo demais para outros é tempo de menos. Para o amante que ainda não possui o objeto amado o tempo anda lentamente. Quando está em posse do objeto amado a perspectiva muda. O tempo é portanto a sucessão dos acontecimentos. Fazendo uma leitura espinosana, mais do que a duração de um momento. É o quanto esse momento nos afeta com determinada afecção. Se aquele momento nos afeta de tristeza a impressão acerca do tempo é uma. Se nos afeta de alegria, a impressão é outra.
Ainda seguindo uma leitura espinosana da obra machadiana. Sobretudo no conto Linha Reta e Linha Curva. Percebemos como os afetos se transformam. Nesse conto temos Tito - jovem que diz ser indiferente ao amor. Incapaz de amar quem quer que seja. Deixando claro que isso se dá não por que não ver as mulheres dignas do seu amor. Mas porque nasceu assim.
“Note bem, não por elas, é por mim. Acredito que todas as mulheres sejam credoras da minha adoração; mas eu é que sou feito de modo que nada mais lhes posso conceder do que uma estima desinteressada.”
Por mais que Tito tente evidenciar que não despreza as mulheres. Num determinado momento diz preferir um jogo de carta ao amor de uma mulher. O que provoca indignação em Emília - que decide conquistá-lo para vingar o sexo feminino de tamanho desprezo.
“- Lembra-me um do mesmo gênero que este - disse Emília -. Foi já há tempos. Andava sempre a gabar-se da sua isenção. Dizia que todas as mulheres eram para ele vasos da China: admirava-as e nada mais. Coitado! Caiu em menos de um mês. Adelaide, vi-o beijar-me a ponta dos sapatos... depois do quê, desprezei-o.”
Não vou aqui dar spoiler do que acontecerá tirando de você camarada o prazer de descobrir por meio da leitura do conto. Mas ao ler você perceberá o seguinte movimento - a substituição ou transformação de afetos. Você perceberá, numa linha do que diz Espinosa, que não podemos fugir daquilo que a natureza determina. No entanto, se usarmos a razão podemos perseverar numa determinada direção.
Em contos fluminenses (1870), temos mais uma amostra desse ser extraordinário que foi Machado de Assis. Ao final de cada conto, ao mesmo tempo que o leitor é tomado de alegria, também é afetado pela tristeza por que chegou ao fim.
Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).

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