Há personagens que não me saem da memória. Hora e outra penso nelas. Imagino como estaria o Bentinho (Dom Casmurro, Machado de Assis). Questiono-me se ele não teria cometido uma injustiça contra a Capitu. Lembro também de Rubião (Quincas Borba, Machado de Assis) e fiquei refletindo sobre o seu fim. Se fosse diferente teria mexido tanto comigo? E o Fabiano de Vidas Secas (Graciliano Ramos), por onde anda? Sinhá Vitória e os meninos sem nome. Em Até amanhã, camaradas (Manuel Tiago) me recordo do Paulo e dos seus companheiros se dedicando e se sacrificando pela construção da luta do proletariado. Dom Quixote (Miguel de Cervantes) e Viramundo (Fernando Sabino), figuras trágicas.
Nesses anos todos de leitura foram tantos livros, tantas histórias, tantos lugares, tantos personagens. Acredito que eles contribuíram em alguma medida para que me tornasse o que sou hoje. Sou um ser um tanto solitário. Não gosto de sair de casa (odeio viagens). Não gosto de me relacionar na intimidade com muitas pessoas (no meu círculo íntimo de amizades há pouquíssimas pessoas).
A leitura e a escrita são o meu refúgio. Viajo pelos lugares que as páginas me apresentam. Conheço personagens admiráveis - com seus defeitos e qualidades - compartilho de suas dores e alegrias. E aprendo com eles. Compartilho as minhas dores e alegrias com os personagens que crio. Alguns poderiam dizer que eu deveria deixar os livros de lado e ir viver. Quem disse que eu não vivo? A compreensão do que é viver para mim é estar bem comigo mesmo. Com as escolhas que faço. E em relação a isso não tenho remorsos e nem ressentimentos. Tudo aconteceu como tinha que acontecer. Como o episódio que mudou a vida do Raskolnikov em Crime e Castigo. A morte de Dora em Capitães da Areia. A solidão do Aureliano Buendía em Cem anos de solidão ou o fim de Bentinho e Capitu.
Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

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