domingo, 25 de outubro de 2026

Rascunhos: Tempos difíceis

Após mais um dia de trabalho Bia seguia de cabeça baixa de volta para casa. O seu olhar era de quem carregava consigo uma profunda tristeza, ninguém precisava conversar com ela para saber que estava infeliz. 

Não eram tempos fáceis para ela, tanto na vida pessoal como profissional. Na vida pessoal o casamento com Gustavo havia se tornado uma prisão. A cada dia ela se sentia mais infeliz sendo simplesmente uma dona de casa cuidando dos filhos e do marido. E contra a vontade deste decidiu voltar para sala de aula. E tal decisão contribuiu para que se acelerasse o fim do seu casamento com ele – um casamento que se mostrava por demais frágil, já há algum tempo.

Bia até que tentou – fez um esforço tremendo para viver uma vida feliz ao lado de Gustavo. Por isso que assim que se casaram e ela ficou grávida do primeiro filho, por exigência dele, deixou o vão do mutum - às aulas na escolinha do povoado para morar na capital. Depois de um tempo veio o segundo filho e Bia teve que se dedicar só a família. E por um tempo ela foi uma excelente dona de casa, admirada por muita gente. Mas para tanto ela teve que abrir mão de muita coisa, até que chegou num momento que ela não podia mais suportar a vida de casada ao lado de Gustavo e tomou a decisão que o magoara tanto.

A volta de Bia a sala de aula foi em um grande colégio público de Palmas. E não demorou muito para que ela se decepcionasse com a realidade do ensino por ali. A sua decepção não era com a profissão, mesmo sabendo o quanto o professor é desvalorizado no Brasil. A sua decepção era com o sistema educacional. 

Ela sentiu na carne – Todos sabem dos problemas da educação, no entanto ninguém se move para mudar, e o pior é que aqueles que se movem acabam sendo perseguidos.

Quando Bia fazia este desabafo lembrava não só da experiência que estava vivendo naquela escola, mas também da experiência que tivera no vão do mutum – quando chegou naquele povoado acreditava que iria fazer uma revolução, mas logo se viu isolada e perseguida pelas elites locais e até mesmo pelos próprios colegas de profissão. 

Mesmo diante dessa realidade difícil, Bia não desistiu e continuou tentando conscientizar a comunidade campesina para que se organizasse e lutasse pelos seus direitos. Mas todos os esforços que fazia pareciam ser em vão. Ninguém parecia disposto a mover uma palha para que melhorasse o mínimo possível ás condições de ensino naquele lugar. Até que ela foi obrigada, por pressão do marido a deixar o vão do mutum e ir morar na capital.

Mesmo com todas as dificuldades que enfrentara no vão do mutum, ali foi o único lugar que ela sentiu prazer em dar aula. Que ela sentiu orgulho de ser professora. Que ela sentiu que estava contribuindo minimamente para melhorar a vida das pessoas. Agora, naquela escola em Palmas, todos estes sentimentos estavam sendo perdidos.

Ela que outrora fora urbana em demasia, não estava se dando bem naquela escola da capital.

- O sistema educacional aqui na cidade é mais degenerado do que no campo, os profissionais mais acomodados, e os alunos mais revoltados. Dizia Bia para um amigo

Bia se lembrava de uma conversa que tivera com Camilo sobre uns alunos revoltados que ela tinha no colégio de Cachoeira de todos os santos.

- Olha menina, eu não acho que é ruim ter alunos rebeldes, desde que essa rebeldia não seja desperdiçada em questões fúteis. Aí cabe vocês professores conscientizá-los para que essa rebeldia não vire vandalismo.

Bia se lembra que naquela oportunidade não gostou muito do comentário de Camilo. Achou que ele estava tomando partido dos alunos em vez de apoiá-la. Aliás, ela notava que Camilo sempre assumia essa postura que não lhe agradava nem um pouco. Porém com o tempo ela foi percebendo que as críticas dele eram corretas.

E Bia tentou mais uma vez tal como fizera no vão do mutum organizar algum movimento na sua nova escola, no entanto logo foi abafada pelos seus próprios colegas professores, que acomodados não tinham nenhuma disposição para lutar para fazer alguma mudança por ali.  E ela então começou a se questionar novamente se valia a pena o sacrifício. Bia buscou de todas as formas resistir aos ataques que sofria, procurava superar as barreiras que surgiam no seu caminho. Mas a cada dia sentia-se mais isolada e incapaz de continuar resistindo.

Nesse período de sua vida o Camilo passou a estar mais presente no seu pensamento – hora e outra ela se lembrava do entusiasmo de Camilo com a educação, da forma com que ele falava da importância da educação para transformação da sociedade em que vivemos. 

- Para um Brasil diferente, uma educação decente. Dizia ele sorrindo

No entanto, o que era muito bonito de se dizer, um ótimo slogan para campanha eleitoral, era difícil de realizar.

- Se o Camilo visse essa realidade ia perceber que não é tão fácil assim mudar, sobretudo quando os principais interessados nessa mudança cruzam os braços, e ainda pior, acabam trabalhando contra aqueles que querem mudar. Dizia Bia baixando as armas 

Ela então seguiu até a escola onde dava aula e oficializou o pedido de demissão. Não podia continuar naquele espaço onde se sentia extremamente infeliz, não era justo com ela e muito menos com seus alunos. Pois por mais amor que ela tinha por sua profissão, não podia estar ali infeliz como estava.

- Ora, qual a qualidade da formação que eu posso dar para esses jovens, com a falta de motivação que estou? Não, não é justo comigo e nem com eles, sobretudo.

- Agora você vai voltar a ser simplesmente dona de casa Bia? Cuidar de casa, dos filhos e do marido?

- Jamais. O meu casamento acabou há muito tempo e não tem mais volta. Sinceramente não sei o que fazer ou o que quero, só tenho plena certeza do que não quero. Por enquanto o que vou fazer é deixar as crianças sob a responsabilidade do Gustavo, pois ele tem mais condição de criá-los. Vou jogar uma mochila nas costas e sair por aí sem destino.

- Você só pode estar ficando louca.

- Bom, não é a primeira vez que ganho esse tipo de elogios. O que sei é que sou muito jovem para viver infeliz. De abrir mão dos meus sonhos para viver uma vidinha medíocre como dona de casa cuidando de filhos e do marido ou numa sala de aula falando para as paredes.

E assim Bia fez – jogou tudo para o alto e foi em busca de uma nova vida. Uma nova vida que ela ainda não sabia bem como seria. Ela só esperava que fosse bem diferente da que ela vivera nestes últimos dez anos.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

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