sábado, 10 de outubro de 2026

Crônica: No eixão ou é o Brasil!

Peguei o eixão em direção ao centro. O movimento me pareceu normal levando em consideração que era feriado. Pelo que pude perceber era horário de troca de turno de trabalhadores do comércio de alimentos (havia muitos deles uniformizados) que trabalham na escala 6x1 - para esses não há sábado, domingo e feriado. Mas o que me chamou atenção mesmo foi um senhor com os seus 70 anos com uma camisa vermelha, um adesivo da candidatura do Lula para Presidente no peito e um chapéu do PT. Pensei comigo - eis alguém de coragem. Sobretudo diante do fato de que estamos numa das cidades mais bolsonarista do Brasil.

O ônibus seguia colhendo gente pelo caminho - o povo da periferia que vende sua força de trabalho repondo mercadorias nas prateleiras do comércio varejista, servindo os clientes nas padarias, açougues e nos caixas do centro. Muitos deles jovens. Não pude deixar de lembrar de mim mesmo quando terminei o ensino médio e tive como primeiro trabalho de carteira assinada reposição de mercadoria num grande supermercado na capital goiana. Eu também trabalhava na escala 6x1 e pegava coletivos lotados todos os dias da semana. Odiava ter que trabalhar feriados, odiava trabalhar sábado e domingo. Sobretudo porque era um trabalho que não gostava, que fazia pela sobrevivência.

Entre os jovens trabalhadores naquele ônibus um me chamou atenção. Pelo seu uniforme provavelmente trabalhava no setor de frios e laticínios. Estava com uma latinha de cerveja na mão. Pelo seu comportamento, aquela não era a única que havia bebido. Fiquei pensando se estava voltando ou indo para o trabalho. Pois se estivesse indo naquelas condições era demissão na certa (há não ser que estivesse fingindo a embriaguez). Voltando do trabalho não me pareceu lógico. Pois geralmente alguém não vem do centro trabalhar no comércio na região sul, a não ser que seja o dono do comércio. Ou só se fosse um desses milionários excêntricos que estava fazendo uma experiência e não tinha suportado a jornada. 

O ônibus estava lotado. Em um dado momento ele começou a cantar alto:

Do you have the time to listen to me whine
About nothing and everything all at once?
I am one of those
Melodramatic fools
Neurotic to the bone
No doubt about it

Reconheci imediatamente a música (basket case, do Green Day) sua voz era péssima, seu inglês mais ainda. Não pude deixar de sorrir discretamente. Ele certamente tinha consciência do que estava cantando. Se não posso dizer que a letra casava muito bem com o estado de espírito que ele parecia estar. Seria o trabalho? A vida pessoal? O momento político do país? Não, eu não tinha tempo para ouvi-lo choramingar e descobrir o que era.

O senhor com o boné do PT e o adesivo do Lula me perguntou se a estação Krahô estava distante. Respondi que não. Ele então disse que desceria lá e começou a se deslocar para mais próximo da porta com a ajuda de uma moleta. Durante o trajeto até ali ele manteve um semblante fechado olhando para o horizonte. Talvez fosse uma defesa para evitar provocações. Talvez estivesse preocupado com o futuro - imagino o quanto não é difícil um governo de extrema direita para um senhor aposentado ou pior, que depende de um benefício de prestação continuada (BPC) para sobreviver. Não sei se era o caso dele. Sei que é o caso de tantos outros. Sobretudo daqueles trabalhadores da periferia se deslocando para os seus trabalhos. Quando ele se levantou em direção a porta lhe dei um tapa no ombro e disse: - vamos virar. Ele sorriu e respondeu: - sim, vamos. No mesmo ponto que ele desceu, subiu um senhor mais ou menos com a mesma idade com uma camiseta amarela e os dizeres: Tocantins com Flávio Bolsonaro. Pensei comigo: Pode isso? Ele pediu o lugar preferencial que era ocupado por uma jovem trabalhadora e foi tirar um cochilo.

Enquanto isso, o nosso jovem embriagado sentou na poltrona ocupada outrora pelo senhor com o boné do PT e o adesivo do Lula. E passou a discutir com alguém pelo celular. Logo pude perceber que a conversa era sobre política, mais especificamente sobre uma pesquisa que não compreendi do que se tratava. Sei que ele questionava a pesquisa apelando para o IBGE. Pensei comigo - se ele está apelando para o IBGE, não é um bolsominion. A certeza veio quando ele gritou - fascista. Imaginei ele chegando no trabalho, sendo chamado atenção pelo patrão e metendo o dedo na cara dele e falando: - fique com o seu trabalho de merda, seu fascista.

O ônibus chegou ao ponto que eu iria descer. Desci. Muitos também desceram ao longo do caminho. O ônibus continuou cheio. Seguia nele o velho bolsonarista tirando o seu cochilo, o jovem revoltado e tantos outros apáticos - seguindo como gado para o seu trabalho - sem muita preocupação com o país que teremos nos próximos anos se hegemonia da extrema direita se consolidar com a eleição do seu candidato a presidente.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

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