sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Lajeado: pelo respeito à soberania popular expressada nas eleições do dia 06 de outubro de 2024

Por muito tempo colocou-se na conta de Maquiavel a ideia de que para se manter no poder o governante deve utilizar todos os meios ao seu dispor. Ainda que estes sejam questionáveis do ponto de vista ético. Mas quem estuda criticamente a filosofia política do pensador florentino compreende que não é bem assim. O que Maquiavel salienta a partir dos conceitos de virtu e fortuna é que o governante deve agir com inteligência para manter o poder e não de qualquer forma para que tenha sua cabeça degolada pelo povo.

Lembrei dessa questão ao saber da manobra que estão fazendo para mudar o resultado das eleições municipais para Câmara de Vereadores de Lajeado no dia 06 de outubro de 2024.

Em se tratando de política lajeadense não podemos dizer que seja surpresa. Mas não deixa de ser surpreendente vê o que são capazes de fazer para se manter no poder. Ainda que isso signifique passar por cima da soberania popular expressada por meio dos votos depositados nas urnas.

Tal atitude mostra a mediocridade dessas figuras que não pensam na população lajeadense mas somente nos seus interesses. E que com a derrota do Tércio para Márcia acabaram encontrando uma conjuntura favorável que possibilitou a manipulação de criaturas miseráveis - facilmente descartadas quando já não lhes forem úteis.

Não, não nos iludamos. Não dá para apelar para consciência dos envolvidos. Pois eles não as tem. É como aquele personagem da saga dos senhor dos aneis - Gollum (Sméagol) - corrompido pelo anel do poder.

Eles nos amaldiçoaram… Nos chamaram de assasino… Nos amaldiçoaram, e nos jogaram fora!... E nós choramos precioso; onde estar o tal assasino?.... E nos esqueceu do gosto de pão, do barulho das árvores ao redor do vento.. E nós esqueceu até: do nosso nome... Meeeu preecciossoooooo......

—Gollum em O Retorno do Rei

Qual o legado que essas figuras que estiveram mais de um mandato na Câmara de Vereadores de Lajeado deixaram? O resultado da votação do dia 06 de outubro de 2024 é a resposta para essa pergunta. Se tivessem tido, sobretudo nos últimos quatro anos, uma boa atuação certamente seriam facilmente reeleitos ou eleitos.

Quanto a nós que desejamos melhores dias para a querida cidade de Lajeado, esperamos que a soberania popular seja respeitada - que aqueles que foram eleitos nas urnas possam cumprir o seu mandato. E se ao final dele não corresponderem aos anseios da população, que o povo soberanamente, eleja novos representantes.

A estes que tentam manter o poder a qualquer custo, podem até conseguir. Mas ficaram para a história política de Lajeado como traidores da vontade do povo. E pagaram alto por isso. A vitória da Márcia Reis nas condições que ela foi eleita deveria ser um exemplo. Mas não dá para esperar de gente medíocre uma postura diferente.

Começamos com Maquiavel, concluímos com Rousseau. Este filósofo fala da soberania inalienável do povo. Ou seja, do fato de que o poder não pertence a uma figura específica, mas ao povo - que elege aqueles que deverão representá-lo, mas isso não significa abrir mão dessa soberania. Diante de tal manobra que em última análise vai contra a soberania popular, não podemos ficar de braços cruzados. Pelo contrário, devemos nos mobilizar e lutar para que nossa soberania seja respeitada.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

sábado, 7 de dezembro de 2024

Relato de Experiência: Ensino de Filosofia e Educação em Direitos Humanos

Área de Proteção Ambiental Serra do Lajeado 

Uma educação que se propõe libertadora não pode se furtar em trabalhar a temática dos direitos humanos na sala de aula. Foi a partir dessa compreensão que trabalhamos, na perspectiva do materialismo histórico-dialético, o tema na trilha de aprofundamento vozes da juventude: passado e presente para um futuro diferente. No contexto de uma pesquisa participante, de caráter qualitativa, no programa de mestrado profissional da Universidade Federal do Tocantins  (PROF-FILO).

A questão dos direitos humanos não é alheia a educação formal. Pelo, contrário. Há diferentes documentos que orientam esse ensino. Só para citar um exemplo, destacamos o Programa Nacional dos Direitos Humanos (PNH3) de 2009, que propõem trabalhar os direitos humanos na educação básica numa perspectiva transversal tendo como obejtivo a (2009) “formação de sujeitos de direito, priorizando as populações historicamente vulnerabilizadas”.


Nosso locus

As atividades foram desenvolvidas no Colégio Estadual Nossa Senhora da Providência – localizado em Lajeado – cidade que faz parte da Área de Proteção Ambiental Serra do Lajeado. Com estudantes do Ensino Médio  (1° e 2° Série do Ensino Médio) que participam da Trilha Vozes da Juventude. O perfil dos estudantes é de indivíduos oriundos das classes populares – servidores públicos, autônomos, pequenos agricultores e pescadores (na sua grande maioria em situação de vulnerabilidade). Além de viverem numa área de proteção ambiental também tiveram sua vida modificada com o impacto da construção da Usina Hidrelétrica Luiz Eduardo Magalhães. 


O que são direitos humanos 

Nosso ponto de partida não poderia ser outro se não começar por entender o que são direitos humanos. Sobretudo diante de uma visão distorcida que se tem acerca dos mesmos. Sobretudo no Brasil – onde a temática é muito ligada a área da segurança pública – como reflexo da violência policial sustentada por discursos como “bandido bom é bandido morto”, “gente de bem”, “direitos humanos é direito de bandido” entre outros.

Mas quando analisamos que a inserção da temática dos direitos humanos no Brasil se deu no contexto da resistência contra os crimes cometidos pelo Estado durante a Ditadura Civil-Militar é compreensível que aja todo um discurso que busca justificar a violação desses direitos. Sobretudo por parte daqueles que deveriam garantir a sua efetividade – os agentes públicos. 

Diante disso não é possível falar em direitos humanos sem falar em política. Pois a sua efetividade passa necessariamente por uma compreensão da política como meio para se alcançar o bem comum. Também não é possível falar em direitos humanos sem falar em ética. Ou seja, em quais valores se funda a sociedade. No caso da brasileira, de acordo com a Constituição Federal de 1988, um dos seus fundamentos é a dignidade humana. E o que são os direitos humanos se não a garantia da dignidade humana?!


Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável  (ODS)

A garantia da dignidade humana passa pela construção de uma cultura de respeito ao outro. Como também de um conjunto de ações que permitam aos individuos viverem com dignidade independe da sua origem social. É nesse sentido que caminha os objetivos para o desenvolvimento sustentável elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) que estabelece um conjunto de metas a serem alcançados até 2030 pelo conjunto das nações que a compõe. Entre estas está o Brasil.

Foi a partir desses objetivos que buscamos trabalhar a temática dos direitos humanos em sala de aula. E a partir daí mostrar que não é uma questão alheia a realidade que muitos vivem – uma realidade de violação de direitos, mas por falta de compreensão não buscam mudar tal realidade.

Ao todo a ONU estabeleceu 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável  (ODS). Optamos por trabalhar apenas 7 – aqueles mais condizentes com a realidade que os estudantes estão inseridos – e que nos permitia o maior aprofundamento em cada um deles:

(ODS 1) Erradicação da Pobreza; 

(ODS 4) Educação de qualidade; 

(ODS 6) Água limpa e saneamento básico; 

(ODS 8) Trabalho e crescimento econômico;

(ODS 11) Cidades e comunidades sustentáveis; 

(ODS 12) Consumo e produção sustentável;

(ODS 13) Combate às alterações climáticas. 


Metodologia e Didática 

Optamos por desenvolver as aulas a partir de uma metodologia problematizadora, tendo como fundamentação teórica o materialismo histórico-dialético. Que nada mais é do que uma Filosofia da práxis. O ponto de partida é sempre o entendimento do estudante sobre o problema em análise. A partir daí busca-se um aprofundamento a partir de exercícios diversos. É então que entra a didática pautada sobretudo no diálogo. É através do diálogo que buscamos compreender o problema tanto a partir de uma perspectiva filosófica quanto científica. 

Um aspecto interessante dessa perspectiva didático-metodológica é que a sala se transforma numa espécie de oficina experimental. Ou seja, é a partir da dinâmica da sala de aula que o processo vai sendo construído. Óbvio que temos todo um planejamento e organização. De modo que toda a experimentação não é aleatória, não é um improviso sem sentido. Mas no sentido de compreender que trabalhar a partir de uma perspectiva histórico-dialética é que não existe fórmula prévias de como fazer. Ou como diria belchior – “é caminhando que se faz o caminho” e assim fizemos.


O resultado

Desde o início tínhamos a proposta de elaborar um material didático sobretudo diante da escacez, tanto a nível regional como nacional, de publicações que subsidiasse o professor na sala de aula. Pensávamos numa cartilha. O problema é que não tínhamos em o que nos inspirar. 

A partir de um questionamento a ideia passou a ser uma cartilha ilustrada pelos próprios estudantes. O ineditismo da proposta – pelo menos na nossa visão – não nos dava nenhum norte de como fazê-la. E assim iniciamos o trabalho. No final das contas a cartilha foi o menor dos nossos problemas. Sua confecção foi uma consequência natural do trabalho desenvolvido em sala. Na medida que este ia se desenvolvido a cartilha ia tomando corpo.

Eis ai portanto o resultado do nosso trabalho ao longo de dois bimestres. E esperamos com ele não só chamar atenção para a problemática da necessidade da efetividade da educação em direitos humanos. Mas também disponibilizar um material didático, desenvolvido a partir da realidade da sala de aula, para quem queira assumir esse desafio que é trabalhar a educação em direitos humanos numa realidade – que muitas vezes – nega esses direitos.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Desafios para valorização dos povos indígenas no Tocantins

Fiquei pensando nesse problema durante um bate-papo etnocultural com o Célio Kanela - Diretor de Proteção aos Indígenas, da Secretaria dos Povos Originários e Tradicionais do Tocantins (SEPOT). Realizado no dia 11 de Novembro no Colégio Santa Rita de Cássia. Ainda que breve, o bate-papo nos mostrou o quanto desconhecemos os povos indígenas e os desafios que eles enfrentam.

A fala do Célio Kanela iniciou com o questionamento acerca de quantos povos indígenas encontramos no Estado do Tocantins. Para em seguida apresentar quem são e onde estão localizados. Até 2021, o governo do Tocantins reconhecia 9 povos: Karajá, Xambioá, Javaé (que forma o povo Iny) e ainda os Xerente, Apinajè, Krahô, Krahô-Kanela, Avá-Canoeiro (Cara Preta) e Pankararu. Com uma população, segundo o IBGE, acima de 14 mil indígenas. Para Célio a realidade é outra: o Tocantins possui atualmente 16 etnias, incluindo aqueles que recentemente migraram da Venezuela.

Outro ponto que certamente é de desconhecimento da população em geral é em relação à localização dos povos indígenas. Célio ressaltou que além das aldeias há um quantitativo significativo de indígenas vivendo na zona urbana. Destacando que dos 139 municípios tocantinenses, 125 têm indígenas. E a partir daí questionou quais as políticas públicas, criadas pelo poder público municipal, voltadas para essa população, existem nessas localidades.

Célio Kanela nos apresentou os municípios onde há maior presença de indígenas com Tocantínia no topo, onde mais de 54% da sua população é de indígenas. Os demais são: Goiatins, Tocantinópolis, Lagoa da Confusão, Formoso do Araguaia, Itacajá, Pium, Gurupi, Palmas e Maurilândia do Tocantins.

O que se observa em relação às políticas públicas é que tanto o governo Federal (na saúde) como o Estadual (na educação) têm tido uma preocupação e agido concretamente nesse sentido. Mas quando vamos para os municípios que é onde as pessoas vivem não encontramos tais políticas. Podemos pegar como exemplo o município de Palmas onde há um número significativo de indígenas. Qual a política existe voltada para esse público?

A nível regional a criação da Secretaria dos Povos Originários e Tradicionais do Tocantins (SEPOT), seguindo a estrutura do Governo Federal, é certamente uma grande conquista. Ainda mais pelo fato dessa secretaria ser comandada pelos próprios indígenas. Pois não tem ninguém com maior propriedade para falar em nome dos povos indígenas se não os indígenas.

Isso foi certamente um dos aspectos que tornaram o bate-papo tão significativo para aqueles que participaram dele. Durante a fala do Célio Kanela foi possível perceber o interesse e curiosidade dos participantes no que estava sendo dito. O interesse se dá porque é algo que faz parte da nossa matriz cultural, ou seja, uma herança que todos nós carregamos de alguma forma. E a curiosidade porque se houve muitas coisas acerca dos hábitos e costumes dos indígenas, mas que não correspondem à realidade. O que pudemos observar durante a fala do Célio Kanela - que nos apresentou brevemente a característica desses povos, ressaltando a língua, rituais bem como modo de organização.

Certamente são muitos os desafios para valorização dos povos indígenas no Tocantins. Entre estes o conhecimento da cultura e de sua história, história escrita por eles. Nesse sentido, a educação cumpre um papel fundamental. Por muitos anos, e ainda hoje, as escolas têm apresentado uma imagem caricata do indigena. Como se este tivesse parado no tempo do descobrimento (invasão). Isso precisa mudar. Precisamos dar voz aos próprios indígenas - pois ninguém melhor do que eles em mostrar a realidade que vivem.

Foi isso que fez o Célio Kanela - que na sua intervenção final questionou o discurso de que os povos indígenas representam uma ameaça ao desenvolvimento econômico do território em que habitam. Pelo contrário, os territórios onde estão localizados as comunidades indígenas são verdadeiros santuários preservados, propícios para o turismo ecológico. Por outro lado, ele não deixou de apontar as ameaças, representadas sobretudo por um modelo de produção agropecuário predatório que ameaça os territórios indígenas e a sua biodiversidade.

Enfim, foi um bate-papo muito agradável em que aprendemos muito. Que esse aprendizado possa contribuir para que tenhamos um olhar mais solidário aos povos indígenas que habitam esse território. Ao contrário daquele que encontramos em obras como História do Tocantins (1989), do Osvaldo Rodrigues Póvoa, onde os indígenas são retratados como indolentes. Nesse sentido, políticas públicas de valorização dos povos indígenas e seus territórios são fundamentais.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

sábado, 30 de novembro de 2024

Vladimir Safatle: Alfabeto das Colisões

Que é isso, meu caro Safatle! Essa foi a frase que me veio à cabeça lendo o “alfabeto das colisões", do Vladimir Safatle. Numa linguagem direta, o filósofo traz um olhar incômodo sobre o cotidiano e, a nós mesmos, que parecemos, em que pese o discurso contrário, termos nos acomodado com as coisas tal como são. Ao longo da leitura sua reflexão vai despertando em nós diferentes emoções que vão do riso ao choro. Isso mesmo, acredito que  é impossível não chorar diante do texto que fecha o livro (como termina o alfabeto).

Safatle é um dos intelectuais brasileiros mais ativos na última década. Com uma produção vasta sobretudo na esfera acadêmica que vai da política à estética. Mas que não foge do debate público por meio de artigos em jornais, revistas, entre outros. Algumas das suas obras publicadas são: Dar corpo ao impossível: O sentido da dialética a partir de Theodor Adorno (2019), Só mais um esforço… (2017), O circuito dos afetos: Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo (2015), Cinismo e falência da crítica (2008).

Em alfabeto das colisões, na minha análise, o objeto do filósofo é a linguagem. Através de textos escritos no estilo de crônicas, dialogando com o conto e a poesia, ele nos mostra como a nossa linguagem vai sendo moldada não só para que nos expressemos de determinada forma, mas também que nos comportemos de determinada forma. Cada texto é representado por uma letra do alfabeto, mas que não segue a ordem estabelecida de A a Z. São 24 ao todo que perpassam por diferentes assuntos: filosofia, identidade, amor, sexo, música, cinema, arquitetura entre outros. A publicação é de 2024, e tem como responsável a ubu - que preparou uma edição de extrema qualidade. Com destaque para as imagens que estão no contexto de reflexão do filósofo.

Numa espécie de subtítulo, Vladimir Safatle define seu alfabeto das colisões de “filosofia prática em modo crônico”. Para mim, é exatamente isso. Reflexões filosóficas no estilo de crônicas. Com essa estratégia o filósofo entrega uma obra para o público em geral. Que não terá dificuldade de compreender sua escrita durante a leitura.

Eu particularmente aprecio bastante este tipo de escrita. E acredito, partindo da minha experiência, que quando nos afastamos da estrutura acadêmica não tornamos o texto menos filosófico. Pelo contrário. Afinal de contas, os clássicos da filosofia não são produtos de mestrados e doutorados.

Um dos trechos que mais me afetaram durante a leitura é do texto intitulado de mercadoria, onde encontramos o seguinte trecho: “nós falamos a linguagem deles, por isso, mesmo quando vencemos, são eles que vencem”. E traz como exemplo o discurso acerca do empreendedorismo como forma de emancipação.

“As quebras são nosso destino porque somos seres em relação. Não há como evitar quebras porque procuramos colocar em relação corpos com tempos distintos”.

O trecho acima é do texto que abre o alfabeto com a letra Q (quebras). Que trás uma crítica sobre como os manuais de ética apontam para um horizonte impossível, ou seja, de relações perfeitas. Contra essa perspectiva Safatle nos lembra que é impossível não sair de uma relação quebrado. Isso me lembrou de um trecho de uma canção da Legião Urbana: “agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou…”.

Na sequência temos a letra F (filosofia), onde o filósofo questiona a origem da palavra filosofia, que segundo a tradição advém da junção de duas palavras gregas: philo (amor ou amizade) mais sophia (sabedoria). Tendo assim como significado amor ou amizade a sabedoria ou, ao saber. Para Safatle: “o que a fez aparecer foi a raiva. Uma raiva da doxa, raiva do senso comum, da maneira como ordinariamente falamos e organizamos nossa experiência.”

Não é nosso objetivo aqui abordar ainda que de forma breve todos os textos que compõem a obra. Mas chamar atenção para a escrita do filósofo bem dos objetos da sua crítica. Avancemos por tanto para a letra X onde encontramos o texto (incógnita):

“Um dos dispositivos fundamentais de definição do horizonte da época à qual pertencemos está vinculado ao advento de um tipo muito específico de fala. Para nós, talvez ela seja a mais natural de todas as falas. No entanto, foi necessária uma modificação estrutural em nossas formas de vida para que tal fala emergisse e, principalmente, para que ela ganhasse tamanha importância. Trata-se do que entendemos por “falar de si”.

A crítica de Safatle é acerca da ideia de que falar de si seriam formas de expressão de emancipação política. Desse modo, ele propõe o sentido contrário. Ou seja, a supressão do eu como possibilidade para uma transformação política.

O texto que fecha o seu alfabeto traz a letra Z (como terminar o alfabeto). Ou seja, curiosamente fechando com a letra que tradicionalmente fecha o alfabeto. Nesse texto encontramos uma espécie de conto sobre um gato - que não é propriamente sobre o gato. Mas justamente acerca daquilo que é abordado no primeiro texto. Desse modo é como se o filósofo emendasse uma ponta na outra. Criando uma espécie de espiral. 

“seu negócio era tecer linhas, criar um território que ia da perna da criança  à cama do casal, da cama à porta, da porta à cadeira da sala, da cadeira da sala ao sol que o esperava no parapeito da janela, assim em movimento contínuo que teciam também os dias em uma grande malha uniforme. Em silêncio, sem ninguém perceber, ele tecia uma malha densa de fios que envolviam todas as pessoas da casa, e seu trabalho ele fazia com afeto e rigor”.

A resposta acerca da continuidade dessa história e o que ela simboliza não será dada aqui. Que isso sirva de estímulo para que adquiram e leiam a obra.

Para concluir, quem compreende minimamente a lógica de funcionamento da sociedade que vivemos não pode de modo algum se acomodar pois do contrário estará sendo condescendente com a ordem estabelecida. Mas que condições temos para subverter essa ordem? O primeiro passo é se incomodar. E esse papel o Vladimir Safatle faz muito bem. O alfabeto das coalizões não é água com açúcar, mas uma dose de conhaque que desce queimando. Mais do que necessário para os tempos que vivemos.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O filme diário de um jornalista bêbado: Imprensa e poder

Uma entrevista recente do Fernando Haddad (Ministro da Fazenda do Governo Lula) em que ele fala sobre o sacrifício que todos devem fazer no ajuste fiscal, incluindo a imprensa que é fartamente beneficiada com isenções fiscais. Me fez lembrar do filme diário de um jornalista bêbado (2011), mais um exemplo que coloca em xeque o mito da neutralidade da imprensa.

Na trama, Paul, um jornalista estadunidense é contratado para escrever num periódico, ameaçado de ser fechado, em Porto Rico. Imediatamente um empresário tenta recrutá-lo para que escreva favoravelmente a seus projetos no jornal. Convencendo a opinião pública e pressionando o governo a fazer concessões para que os projetos saiam do papel. Em troca disso, o jornalista terá abertas as portas da alta sociedade porto-riquenha. E sair da situação de miséria que se encontra.

O filme dirigido por Bruce Robinson e estrelado por Johnny Depp é uma adaptação do romance Rum: Diário de um jornalista bêbado (1998), do escritor e jornalista estadunidense Hunter Thompson. E trás uma dose de memórias já que quando Thompson escreveu a obra contava com 22 anos e morava em San Juan (Porto Rico).

No decorrer do filme as concepções éticas do jovem jornalista vão sendo testadas.  Hal Sanderson (Aaron Eckhart) surge como o diabo surgiu para Jesus Cristo no deserto prometendo-lhe tudo. Mas nesse caso, Paul (Johnny Depp) está longe de ser um santo, é um amante de bebidas alcoólicas e mulheres. E acaba se apaixonando justamente pela mulher de Hal Sanderson - Chenault (Amber Heard). Ou seja, parece o perfil de alguém fácil de ser comprado. Mas há um ponto que faz de Paul alguém difícil de ser dobrado. Ele não está ali por necessidade. E quando você não é refém de uma situação ou de um lugar é mais fácil de você se libertar.

A forma com que Paul se refere ao Presidente Estadunidense (Nixon), mostra que a sua ida para Porto Rico está ligado a um descontentamento com a política do republicano a frente da casa branca:

- Imagina passar a vida toda mentindo. Meu Deus, nunca foi pior! A única coisa pior é sabermos que um dia surgirá um canalha sujo que o fará parecer o liberal.

No entanto, ele perceberá que quem dá as cartas em Porto Rico não são indivíduos diferentes daqueles que ele abomina. Durante um jantar na casa de Hal, ele percebe isso durante um diálogo com um dos empresários e sua esposa que faz parte dos esquemas de corrupção:

- Paul tem um ponto de vista meio liberal. Diz a senhora.

- Liberal não existe. Um liberal é um comunista universitário com ideias de negro. Responde o empresário.

Haddad durante o seu discurso apelando para a sensibilidade da imprensa parece se esquecer que estas são empresas que visam o lucro e não o bem comum. Esperar que o discurso da grande mídia seja contrário ao interesse da classe dominante parece ser  um tanto ingênuo. Há certamente jornalistas tal como Paul com suas convicções éticas, contrário a colocar na conta do povo trabalhador os cortes dos ajustes fiscais. Mas a partir do momento que estes profissionais fazem parte de uma empresa não terão liberdade para dizer o que pensam. E caso tenham, as retaliações certamente virão tal como retratado no diário do jornalista bêbado.

Além das reflexões que suscitam, o filme é divertido, nos brindando com situações hilárias. Ninguém melhor do que Johnny Depp para incorporar esse jornalista bêbado num país caribenho. Alguma semelhança com o seu famoso Jack Sparrow? Talvez a capacidade de se colocar em encrenca e improvisar. Mas aqui o temos numa atuação mais contida. Mas não menos brilhante. 

Temos uma boa atuação do elenco no geral. A fotografia e a trilha sonora também não deixam a desejar. De modo que o fato de não ter feito sucesso comercial não diminui o seu valor. Talvez esse fracasso, além das questões pessoais envolvendo o relacionamento de Johnny e Amber na vida real, seja a mensagem do filme sobre os bastidores da relação entre imprensa e poder - uma relação que alguém como Fernando Haddad certamente conhece bem. E portanto não deveria esperar uma postura contrária. Mas vindo de alguém que acha que é possível conciliar os interesses do mercado com as pautas sociais e ambientais não é muito surpreendente.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

O Sistema de Gerenciamento da Educação e a saúde mental do Professor

Em 2024 os servidores da educação da Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins, em especial os professores, tiveram acesso a uma nova versão do Sistema de Gerenciamento da Educação (SGE) - ferramenta que concentra todos os dados e informações acerca do fluxo escolar como matrículas, frequência e os índices de aprovação e reprovação. Mas também os planos de cursos, de aula, competências, habilidades e objetos de conhecimento trabalhados pelos professores em sala de aula. Ou seja, uma ferramenta importante para quem gere a educação no Tocantins. Pois é a partir dos dados fornecidos pelos profissionais que estão em sala de aula que se pode ter um diagnóstico da realidade da educação pública do Tocantins e a partir daí planejar ações de enfrentamento aos problemas detectados, como por exemplo, em relação a evasão escolar e o índice de aprendizagem.

O principal responsável por alimentar o sistema é o professor que está na regência da sala de aula. Devendo portanto dedicar parte do seu tempo para esse fim. A questão é que a dinâmica escolar nem sempre possibilita que isso seja feito a contento. Obrigando, não raramente, o professor de fazer isso no seu tempo que deveria ser de descanso. Algo que facilitaria é se tivéssemos uma ferramenta que ajudasse - o que não é o caso da nova versão - que parece ter sido feita estrategicamente para complicar a vida de quem está na sala de aula. A versão anterior de fato já estava ultrapassada. Porém, imaginava-se que a mudança seria para melhor. Não foi o que ocorreu, infelizmente. Como consequência temos uma ferramenta que ao invés de otimizar o trabalho docente tem o tornado mais penoso. Ainda mais num contexto de deficiência do serviço de internet nas escolas.

Independente disso, como também do fato dos professores não terem passado por formação. Pela instabilidade do sistema e as suas constantes atualizações. Há prazos a serem cumpridos. E quando não são, a cobrança vem de forma enfática. Inclusive com ameaça de notificação entre outros.

Marcuse (1973) é um crítico do desenvolvimento tecnológico porque observa que esse desenvolvimento ao invés de contribuir para libertação dos indivíduos acaba tendo um efeito contrário. E é isso que observamos no caso da nova versão do sistema de gerenciamento escolar (SGE). Uma ferramenta que deveria contribuir com o nosso trabalho docente acaba se tornando algo nocivo que afeta a saúde mental.

O trabalho burocrático é certamente uma das partes mais estressantes do fazer docente. E acaba afetando a sala de aula. Pois enquanto o professor está perdendo tempo preenchendo coisas burocráticas está deixando de lado o estudo e o planejamento de atividades que de fato iria impactar na qualidade das aulas. Quase sempre é um trabalho repetitivo, preenchendo coisas que não fará nenhuma diferença no processo de ensino-aprendizagem. 

Desde o seu lançamento no início do ano letivo, a ferramenta já passou por alguns ajustes. E o que se ouve é que estes ajustes continuarão. O que evidencia a má escolha realizada por quem adquiriu o produto. Enquanto isso, quem está na ponta está pagando a conta. Essa questão me fez lembrar de um pensamento há alguns anos ao ouvir uma colega reclamar da educação, sobretudo referente às exigências burocráticas.

- Se a burocracia mata a educação. Matemos a burocracia então.

Hoje acrescentaria. Ou matamos a burocracia ou ela nos matará. O índice de brasileiros com sentimentos negativos referente ao trabalho é enorme, como aponta pesquisa divulgada recentemente do State of the Global Workplace 2024. Que isso evolua para um adoecimento mental é mais do que óbvio. Também não faltam dados que mostram essa realidade, como, por exemplo, o divulgado pelo INSS, de 2023, que aponta um crescimento de quase 40% no afastamento de trabalhadores decorrentes de problemas como ansiedade e depressão. Os levantamentos também apontam que esse é um dos principais problemas que tem levado ao afastamento dos professores da sala de aula.

Engana-se quem pensa que o adoecimento mental dos professores está ligado apenas a sala de aula. A relação entre professor e aluno certamente não é fácil. Sobretudo num contexto em que a educação não é mais vista como um instrumento de mudança - tanto pessoal como social. E tanto a família como a sociedade passam por uma crise de valores.  Mas, mais desgastante do que a sala de aula é certamente as demandas burocráticas que são cobradas do professor. E o pior, é que se observa, que essas exigências não tem como fim melhorar o processo de ensino-aprendizagem, mas justificar a existência de determinadas estruturas burocráticas.

Dito isso, infelizmente não vislumbramos uma mudança dessa realidade. Sobretudo porque ouvir quem está no chão da escola parece não estar no radar de quem pensa a educação no Tocantins. Além disso, quem está no chão da escola não está muito disposto a fazer um enfrentamento para que seja ouvido.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Poema: Doce de buriti


 Para Maria Lucia, em memória 

Das delícias dessa terra,
existe uma especial.
Seu sabor é indescritível, 
coisa fenomenal.

Se feito por Maria Lúcia, 
melhora ainda mais.
Ela sabe o ponto certo,
ela sabe como faz.

O fruto tem que ser bom,
tem que ser da estação. 
Se não for do tempo certo,
não vingará não. 

De preferência que seja,
da chácara do Vô Chó. 
Feito no fogão a lenha,
não há coisa melhor. 

Depois de qualquer refeição, 
sempre cai bem.
É a melhor sobremesa,
não tem para ninguém. 

Oh doce de buriti,
tu és especial.
Dás delícias dessa terra,
não há nada igual.

Pedro Ferreira Nunes. Casa da Maria Lúcia. Lajeado-TO.  Inverno de 2019.

domingo, 10 de novembro de 2024

A música do Aureny I

O filósofo alemão Friedrich Nietzche diz que sem música a vida seria um erro. E seguindo esse raciocínio disse: “e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam ouvir a música”. Essa frase me faz imaginar o quanto não é triste a vida daqueles que não podem ouvir a música. Corroborando com a visão do autor, de entre outros, “ O crepúsculo dos ídolos”, não consigo imaginar a minha vida sem música.

Por algum tempo, sobretudo no período da adolescência, o que me importava numa canção era a letra e o ritmo. Leitor de poesia desde a infância era natural que eu buscasse aqueles artistas que tinham uma força poética maior nas suas composições. Com o tempo fui me interessando mais pela música - identificar uma linha de baixo, o groove da bateria, um solo de guitarra. E até outros instrumentos como teclado e metais. Foi a partir daí que compreendi a grandeza de um The Beatles, por exemplo. Ou um Pink Floyd. O que não me fez deixar de apreciar uma letra poética. Ou ainda, canções pobres musicalmente mas subversivas.

A música está presente no meu cotidiano desde quando eu sequer tinha consciência disso. E com o tempo percebi que elas se tornaram o elo de ligação com um momento da minha vida. Há determinadas canções que quando ouço me remete há uma época passada, há um determinado lugar. A partir daí comecei a pensar que cada lugar tem uma música. Assim, quando ouvimos essa música somos levados a esse lugar, mesmo que ele já não exista. 

No entanto, nem todos vivem o lugar da mesma forma. De modo que essa música sempre depende da ótica de cada um. Ou seja, a música que me remete a Miracema da minha infância não é a mesma que remete a Miracema da infância do meu irmão Paulo. A música que marcou o meu período no colegial não é a mesma do meu amigo Joe. E daí por diante. Ou seja, a música do lugar está relacionada às nossas vivências pessoais.

Pensando nisso fiquei imaginando qual será a música do Aureny I - qual canção, ou canções, irá me fazer recordar desses dias quando eu já não estiver por aqui? Uma coisa é certo será um blues rock, pois nunca ouvi tanto esse estilo quanto tenho ouvido ultimamente. Em especial Saco de Ratos, Bebados Habilidosos e Celso Blues Boy.

Não sei porque, o Aureny me remete a uma zona boêmia de uma cidade grande como São Paulo - um lugar um tanto marginalizado, mas apreciado por amantes da noite dispostos a se aventurar por becos escuros atrás de álcool e sexo. Justamente aquilo que é retratado nas canções dos artistas citados.

“Na casa da luz vermelha
Só tem dor e solidão
Vejo tantas almas tristes
E mesmo assim estão sorrindo pra mim.
Cartão esquecido
Que a sorte abandonou
Quem chega aqui está perdido
Sem abrigo e sem amor
Mas nem conseguem entender.
Que nessa beira de estrada
É um jeito triste de viver
Na sala cheia de fumaça, ninguém vê
Que estou chorando por você
Chorando por você
Por você…”

Não me entendam mal, não estou dizendo que o Aureny I é um cabaré. Pelo menos, não no sentido que as pessoas geralmente imaginam, como um lugar sem regras. Mas eu não diria que o retrato que o Celso Blues Boy apresenta na sua canção (na casa da luz vermelha) seja muito distante do que encontramos nas ruas do Aureny I: almas tristes que apesar dos pesares sorriem para mim.

Talvez eu mesmo seja uma alma triste que nunca nega um sorriso para quem quer que seja. O artista tem sua razão em dizer que esse é um jeito triste de viver. Mas eu diria que tem lá sua beleza. E daqui há algum tempo isso ficará mais nítido. Ou não, né. Vai saber. Por enquanto essa canção é para mim a música do Aureny I. E para você? Qual é a música do lugar onde você vive?

Pedro Ferreira Nunes - é apenas um rapaz latino-americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock n roll.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Resenha: o homem unidimensional, Herbert Marcuse

Quando você ler um livro que foi escrito há alguns anos e tem a impressão de que ele foi escrito hoje, que dizer que você está diante de um clássico. Pelo menos, é uma ideia que eu corroboro, e que me veio à cabeça quando estava lendo “o homem unidimensional”, do filósofo alemão Herbert Marcuse. A minha impressão ao ler a obra completa é que o problema ao qual o filósofo se dedica é: numa sociedade administrada por uma racionalidade tecnológica, em que os indivíduos são levados a abrir mão da sua liberdade em troca de conforto, é possível vislumbrar mudanças qualitativas?

Antes de adentrarmos a obra, conheçamos o nosso filósofo. Herbert Marcuse nasceu em Berlim (Alemanha), no ano de 1898. Sua formação se deu nas Universidades de Berlim e Freiburg. Lecionou nas Universidades de Columbia, Harvard e Brandeis. Integrou a famosa escola de Frankfurt tendo tido uma enorme contribuição na resistência ao regime nazista e na popularização da teoria crítica. Tornando-se uma referência para a chamada nova esquerda. Além da obra em análise, ele publicou: Eros e civilização (1957), Cultura e sociedade (1970), A dimensão estética (1977) entre outros.

“O homem unidimensional: a ideologia da sociedade industrial” é de 1964, ou seja, em 2024 completa 50 anos da sua publicação. E trás uma profunda análise das sociedades desenvolvidas industrialmente e a importância da teoria crítica da sociedade como uma trincheira de resistência a um projeto totalitário caracterizado por novas formas de controle.

A obra é organizada por seções composta por capítulos. Segundo a seguinte lógica: na primeira seção o objeto é a sociedade. Na segunda é o pensamento unidimensional. A terceira é acerca de possíveis alternativas. A partir dessa sequência podemos perceber a linha de raciocínio do filósofo. Ou seja, primeiro ele faz um diagnóstico da sociedade contemporânea, mais especificamente as mais desenvolvidas industrialmente como os Estados Unidos da América (EUA). No segundo momento ele analisa como o pensamento é moldado fazendo com que os indivíduos se comportem de determinada maneira. E no terceiro momento ele aponta para possíveis alternativas, que na sua visão, passam pela defesa da teoria crítica como um contraponto ao projeto dominante.

Vale a pena ressaltar o texto introdutório da 1ª edição escrita por Marcuse intitulada de “a paralisia da crítica: sociedade sem oposição.” Que já dá o tom do que iremos encontrar no decorrer da obra. Ou seja, um diagnóstico de uma sociedade autoritária que impõe o seu projeto de dominação não mais pelo uso da força mas pela introjeção de falsas necessidades. Com isso o nosso filósofo ressalta que nessa conjuntura a liberdade é transformada num poderoso instrumento de dominação. Diante disso é importante lembrar de Karl Marx quando ele nos diz que não há liberdade verdadeiramente quando não podemos escolher entre duas alternativas concretas.

“Nós vivemos e morremos racionalmente e produtivamente. Nós sabemos que a destruição é o preço do progresso, assim como a morte é o preço da vida, que a renúncia e o esforço são pré-requisitos para gratificação e o prazer, que os negócios têm que continuar, e que as alternativas são utópicas. Essa ideologia pertence ao aparato social estabelecido; ela é requisito para seu funcionamento contínuo e faz parte de sua racionalidade”.

O trecho acima nos dá uma ideia da escrita do Marcuse. Ou seja, um texto acessível. Óbvio que temos consciência de que para quem não é da filosofia haverá uma certa dificuldade em relação a compreensão de determinados conceitos. Mas creio que isso não é limitador para que o público no geral possa ler e compreender a obra. Sobretudo a caracterização da sociedade contemporânea e como sua lógica de funcionamento forma indivíduos submissos.

Nesse contexto é possível vislumbrar alternativas? Para um materialista histórico dialético tal como Marcuse sempre há alternativas. E na sua concepção a alternativa passa pela restauração do pensamento crítico. Não num sentido moral, como percebemos muitas vezes, sobretudo na atualidade. Mas se opondo negativamente a uma consciência feliz positiva.

Enfim, não é nosso objetivo fazer uma análise profunda dessa obra aqui. Mas apenas resenha-lo brevemente, salientando a sua importância e relevância. E a partir daí recomendar a sua leitura. Por tanto encerramos por aqui com um verso do Maiakovski que acredito representar o espírito com o qual Marcuse encerra o livro: “é preciso arrancar alegria ao futuro”.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Diálogos em sala de aula

- Qual o sentido da gente estudar tanto para depois virar professor e ganhar um salário desses?

Esse questionamento ouvi numa aula de filosofia esses dias por parte de um estudante. A minha resposta imediata é que para mim fazia muito sentido. Pois no contexto em que vivemos o salário que eu ganho me dá uma condição de vida superior a maioria dos brasileiros. Sem falar que a medida que eu continuasse me qualificando poderia melhorar o meu ganho. 

- De onde eu venho. O lugar que estou hoje me deixa com muito orgulho. Sem falar que eu gosto do que faço. Acordo todos os dias e venho dar aula com prazer.

Compreendi a provocação do estudante como um movimento que existe de desqualificação do fazer docente na educação básica. Um movimento que parte, muitas vezes, dos próprios professores que desencorajam os estudantes a fazer uma licenciatura. Tanto que diferentes levantamentos apontam que é uma minoria aqueles jovens que se dispõem ser professor. Entre aqueles que entram na universidade para cursar uma licenciatura o indice de evasão é alarmante. E aqueles que desistem quando conhecem a realidade de uma sala de aula não são poucos.

Não vou aqui romantizar a realidade. De fato não é um trabalho fácil. Sobretudo num contexto em que a educação parece ter se tornado algo supérfluo. As condições de trabalho nem sempre são as melhores. E os vencimentos estão longe de ser aquilo que merecemos pelo trabalho que fazemos. 

Mesmo assim, com o salário que ganhamos temos uma situação privilegiada em relação a maioria da classe trabalhadora. E não digo isso para que nos conformemos. Mas para que tenhamos consciência de que mudar as condições atuais do nosso fazer profissional, bem como a sua valorização, passa por essa compreensão. E a partir daí buscarmos fortalecer a profissão e não aceitar a sua desqualificação. 

Eu gostei da provocação do estudante. E fiz questão de dizer isso. Falei que quanto mais houvesse questionamentos por parte deles mais dinâmicas seriam as aulas. Óbvio, que esses questionamentos deveriam ser no contexto do que estávamos discutindo. Foi então que na mesma linha, outro estudante questionou qual era o sentido dele ter que ir todo dia para a escola pois já estava cansado daquela rotina.

A minha resposta foi: - o sentido quem tem que dá é você. A resposta quem tem que dá é você. Para deixar claro que não se tratava de uma mau resposta. Expliquei o motivo.

- Eu posso fazer todo um discurso lindo aqui sobre a importância do estudo. Mas vai ser o que eu penso. Vai ser o meu sentido em relação a educação a partir da minha experiência. Que como já ficou evidente na resposta anterior é inegável. Eu posso até ti convencer. Mas no final das contas vai ser o que eu penso. O que estou querendo dizer é que a vida é sua meu caro. E quem tem que encontrar sentido pra ela é você. O meu papel aqui será problematizar. Quem sabe ajudá-los a encontrar esse sentido.

Pela reação dele não era a resposta que esperava. Provavelmente pensava que eu faria um discurso tentando convencê-lo do contrário. No entanto percebi que ele compreendeu a minha colocação. Ou seja, nós precisamos assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas. Pois quem arcará com as consequências seremos nós. Ora, não podemos jogar para os outros a responsabilidade de dar sentido a nossa existência. E quanto mais cedo aprendermos isso melhor.

Pedro Ferreira Nunes –  É professor de Filosofia na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins 


sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Política no Tocantins e a incômoda posição de estar sempre entre o espeto e a brasa

Isso me ocorreu ao analisar a opção que aqueles que se insere no campo da esquerda (como eu) terão em relação às eleições no segundo turno em Palmas. Para nós que vivemos no Tocantins não é nenhuma novidade. Vivendo num território em que a esquerda não tem grande relevância. Incluindo nesse bonde a socialdemocracia. Não raramente temos que escolher entre direita e direita. Esse é o caso da disputa entre Eduardo Siqueira Campos (Podemos) e Janad Valcari (PL).

Nesse cenário qual seria a melhor escolha? A grande maioria daqueles que se insere no campo progressista estão fazendo a escolha pela candidatura do Eduardo Siqueira Campos. O que é compreensível diante do fato de que a outra alternativa é uma candidata que veste a camisa do bolsonarismo. Ou seja, a escolha é pela direita tradicional (maquiada de moderninha) ao invés da extrema direita (maquiada de liberal). A diferença entre uma e outra é que com a primeira há um diálogo possível, sobretudo o respeito ao Estado democrático de direito. Já a segunda não.

Outro fator a ser levado em consideração é que pensando num projeto nacional de manutenção do bolsonarismo fora do poder. Não é nada interessante ter no comando da capital alguém que irá dar palco para a extrema direita. Não que Eduardo não faça isso. Pois ideologicamente ele está mais próximo do bolsonarismo do que da esquerda. No entanto com Janad isso será automático. Só vermos quem já passou pelo seu palanque (Bolsonaro, Michele, Nicolas, Damares entre outros).

Foi justamente o apoio dessa gente que é bastante popular em Palmas, sobretudo na periferia, que catapultou Janad ao lugar que ela chegou.

Apesar de ver toda a sua força durante o primeiro turno da campanha, ao contrário do que algumas pesquisas apontavam, sempre disse que haveria segundo turno. Ainda que não percebesse um movimento que pudesse impedir a sua vitória.

O fato é que esse movimento ocorreu. As votações expressivas tanto do Professor Júnior Geo como do Eduardo mostraram uma resistência do eleitorado palmense ao bolsonarismo representado por Janad. Mostraram também que o que parecia ser uma terceira via tornou-se uma alternativa real - a candidatura do Eduardo Siqueira Campos que conseguiu ficar à frente do Júnior Geo (que contava com o apoio da prefeita Cintia).

Não acredito que ninguém que tenha minimamente uma formação progressista tem alguma ilusão quanto a uma gestão do Eduardo Siqueira Campos que não seja para atender os interesses do mercado. Tanto é que um dos pontos do seu programa de governo é o estabelecimento de parceria público-privada (privatização). Entre eles na educação e no transporte público. No transporte público, por exemplo, sua proposta é adquirir 200 novos veículos e entregar para uma empresa privada fazer a gestão, óbvio que isso não será em troca de nada, mas da tarifa que os usuários pagam diariamente.

O mote do seu programa é a livre iniciativa com justiça social. É praticamente o mesmo lema do Governo Siqueira Campos à frente do Estado do Tocantins (o Estado da livre iniciativa e da justiça social). Em primeiro lugar o interesse do mercado e alguma migalha para o social (compreendido como caridade).

Diante desse cenário, votar nulo seria uma opção? Já que independente de quem for eleito as perspectivas não são boas para a classe trabalhadora, sobretudo quem vive na periferia. Para alguns sim.

Minha posição, não sem incômodo, é defender a necessidade de não ficarmos neutros num cenário em que uma candidata que reivindica o bolsonarismo pode chegar ao poder. Seguindo a análise do filósofo e professor Paulo Arantes sobre Bolsonaro de que este seria uma ruptura para o pior, que deve ser portanto estancado e contido. Aqueles que o seguem também o são. E por tanto devem ser combatidos igualmente.

Também devemos nos perguntar se esse é o horizonte que queremos. Nos acomodar com a incômoda posição de ter que escolher entre direita e direita. Esperando em troca ganhar algum cargo comissionado. Ora, quando vamos pensar e trabalhar seriamente para nos colocar como uma força relevante na política tocantinense? 

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

domingo, 20 de outubro de 2024

O filme Nação dos sonhos do Michael Goldbach e a nossa formação moral

O que seria uma “Nação dos sonhos”? Me parece que há duas respostas possíveis. Primeiro, um lugar perfeito. Ou, segundo, um lugar em que se vive fora da realidade. Esse parece ser o sentido dado pelo diretor Michael Golbach a sua película Daydream Nation (2011).

A narrativa se desenrola numa cidade interiorana. Envolta por uma névoa conservadora, assolada pela poluição de fumaça e o perigo de um serial killer de mulheres. Caroline (Kat Dennings) é o fio condutor da narrativa. É a partir da sua perspectiva que conheceremos o lugar e suas personagens. Como o jovem Thurston Goldberg (Reece Thompson) viciado em maconha, que carrega consigo o trauma da morte de um amigo num acidente. E o professor Barry Anderson (Josh Lucas) - um aspirante a escritor que buscou refugiou ali após descobrir uma traição da esposa com o seu melhor amigo.

A vida desses personagens vai se encontrar numa escola de ensino médio. O cineasta não poderia escolher um lugar mais simbólico para retratar aquela realidade. Desmotivação, falta de perspectiva, traumas e mais traumas é em resumo o que desfila naqueles corredores. Caroline olha para tudo com um ar de superioridade e desprezo, vindo de uma cidade grande, com uma mentalidade mais liberal não vai se deixar enquadrar por aquela realidade, pelo contrário. Buscará subverte-la.

A questão é que estamos falando de uma jovem, que por mais que tenta se mostrar forte está passando por um momento de transição assim como os demais. E nesse momento de transição nem sempre irá agir de forma virtuosa, digamos assim. Não vamos condená-la por isso, mas entender que faz parte do seu processo de desenvolvimento e amadurecimento. O mesmo não podemos dizer do professor Barry - do qual se espera um nível de maturidade condizente com sua idade e formação. Mas também não o condenemos. Tentemos compreender a fraqueza humana.

Kohlberg, psicólogo estadunidense, tem uma teoria interessante acerca do comportamento moral. Que pode nos ajudar a compreender a psique dos personagens do Daydream Nation. De acordo, com esse pensador, há diferentes níveis de moralidade. O primeiro, denominado de pré-convencional, tem como principal característica uma ética individualista, onde a preocupação com o eu se sobressai. Nesse nível há dois estágios. O primeiro é a consciência de que as regras morais derivam da autoridade. E o segundo a consciência da necessidade de acordos diante dos diferentes interesses pessoais. Prevalecendo sempre o meu interesse como prioridade. Esse é o caso de Caroline quando decide seduzir o professor Barry como uma forma de fugir do tédio do lugar. E também do professor ao ceder a investida de Caroline. Sobretudo porque vê nessa relação um meio de recuperar a confiança perdida em si como escritor.

O segundo nível de moralidade é denominado de convencional, aqui também há mais dois estágios, mas em resumo, o indivíduo passa a ter preocupação com o outro, a reconhecer o outro não como um meio. Esse é o caso do Thurston no seu relacionamento com Caroline e pelo remorso que sente pela morte do amigo. Com isso percebemos que não necessariamente o desenvolvimento moral está relacionado a idade. Pois Thurston é um adolescente ao contrário do professor Barry.

Ainda temos o terceiro nível, denominado de pós-convencional, que também se divide em dois estágios, para Kohlberg este é o mais alto nível de moralidade. E se caracteriza por um comportamento moral fundamentado em princípios éticos. Não é o caso de nenhum dos personagens do filme em análise. No entanto percebemos eles se movendo nesse sentido a partir de um elemento fundamental, o erro.

E o que é o erro senão aquilo que a sociedade estabelece como errado. E ao se estabelecer algo como errado busca-se criminalizá-lo para que os indivíduos, sobretudo os mais jovens, não o pratique. No entanto, esquecemos que o erro é um elemento pedagógico muito importante. E que nos faz crescer. De modo que a questão não é tanto cometer erros, mas a capacidade de aprender com eles e evoluir.

O que me parece é que esse período de transição que caracteriza a juventude  é o que mais cometemos “erros”. Muitas vezes apenas pelo prazer de desafiar o status quo. O cuidado que tem que se ter é que alguns são irreversíveis, como por exemplo, o que levou a morte do amigo do  Thurston. No final, Daydream Nation, nos mostra não uma nação ideal, mas a possível. E essa nação possível, pode ser boa de viver se soubermos aprender com nossos erros. Ou olhando para os personagens, que são um retrato das juventudes que existem na nossa sociedade. Daydream Nation, nos mostra não indivíduos perfeitos, mas reais. E que por serem reais cometem erros mas não cortam os pulsos por isso.

Pedro Ferreira Nunes - É Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins. Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (Unifaveni). E Mestre em Filosofia (UFT).

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Conto: A noite mais longa

Ele nunca imaginou que um dia colocaria os pés num lugar daqueles. Ainda mais agora que já ultrapassara 60 primaveras. Sempre trabalhou duramente para sustentar a família e buscou educar os filhos para que seguissem o seu exemplo. Das tantas noites difíceis que tivera, aquela era a pior. E quanto pior, mais longa, tornando o sofrimento ainda maior.

Algo lhe dizia que não sairia vivo dali. As pessoas que passavam por ele naquele corredor olhavam-o como se estivesse vendo um morto. Ele sabia que isso não ia demorar acontecer. Os anjos da morte nos seus cavalos negros a qualquer momento se materializariam naquele lugar, fazendo ecoar o som feroz de suas armas. Mais tardavam, fazendo com que os minutos se transformassem em horas. – o que fiz para merecer esse final? A tortura psicológica daquele momento era pior que tudo.

Ele não temia a morte. Sempre fora um homem temente a Deus. Este certamente estaria lhe reservando um bom lugar. Lamentava deixar sua esposa, filhos e netos. Mas se o seu destino era pagar com a vida um erro de um filho. Nada podia fazer. Se não orar e pedir a proteção de Deus para aqueles que ficavam. Orava inclusive pela alma dos seus algozes. – Pai, perdoai-vós, eles não sabem o que fazem.

Por ele não estaria mais naquele lugar. Mais fora orientado a aguardar o amanhecer para que pudesse voltar para casa em segurança. Para ele estava apenas adiando o inevitável. Já mais voltaria a ver a casa que construira com tanto sacrifício. Desde cedo trabalhando duro e o máximo que conseguira fora aquela casinha e uma aposentadoria de miséria. Mas não se lamentava, pelo contrário, agradecia a Deus pelo que tinha – era pouco, mas havia conquistado com trabalho.

Não entendia por que o seu amado filho, mesmo com tanto conselho, decidira pelo caminho da criminalidade. Foram noites e noites de joelhos dobrados, juntamente com sua esposa, orando para Deus, pedindo para que aquele menino tomasse juízo. Mas nada de mudança. Agora estava morto. Tão jovem, tão jovem. Tudo bem que não era flor que se cheirasse. Mas será que merecia aquele destino? Questionava-se.

Se o filho, mesmo com o crime que cometera, não merecia a morte sumária. Ele muito menos. Se tinha mentido para Policia num primeiro momento não fora para proteger o filho criminoso, mas por receio do que esse poderia fazer a si e a sua mulher. Agora que havia esclarecido no seu depoimento o por que dá mentira, sua consciência estava mais tranquila do que nunca. Morreria como culpado de cumplicidade, mas seria absolvido pela justiça divina.

Que noite longa. Parecia nunca ter fim. Ele tentou tirar um cochilo. Mas os pensamentos não lhe dava trégua. Pensava na sua esposa, nos filhos, na casa, nos irmãos da igreja, na plantação de mandioca. Mesmo com a idade avançada e sendo aposentado, não fugia do trabalho. Qualquer pedacinho de terra ele aproveitava para plantar uma mandioquinha, um feijão, um milho, uma abóbora, para ajudar no orçamento da família. 

Ele tentava esquecer dos acontecimentos que o fizeram chegar ali – do confronto que levou a morte do seu filho. Tentava inclusive esquecer de onde estava. Imaginava-se no lugar da sua infância em meio a natureza. Como era bom a vida no campo. Não havia a violência que existe nas cidades. A relação de respeito entre pais e filhos eram outra. Mas passos rapidos nos corredores o fizeram lembrar de onde estava.

Quando os anjos da morte chegaram, o local escureceu. Ele não esboçou reação. Estava sereno. Eram muitos, muitos foram os disparos. Seu corpo ficou estendido no corredor. E os anjos partiram deixando um rastro de sangue, na noite mais longa naquela cidade interiorana. 

Por Pedro Ferreira Nunes – Um rapaz latino americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in roll.