segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Crônicas Aurenyanas: - a mulher sábia edifica a casa?

Quando ela chegou me pareceu não ter mais do que 14 anos. De modo que não pude deixar de questioná-la se era maior de idade mesmo. A reação dela foi bastante reveladora: - quem dera pudesse voltar no tempo que eu tinha 14 anos. Essa frase veio carregada de uma certa tristeza. E não pude deixar de comentar: - sinto que há um trauma aí. Ela então respondeu: - não vou te mentir, se eu pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Lhe ofereci uma cerveja. Ela pareceu ficar mais à vontade. Lembrei das minhas aulas do projeto de vida. Será que ela teve aulas de projeto de vida? Se não ou sim, teria feito alguma diferença? O que teria sido? Vai saber. Ela certamente não se abriria para um completo estranho. Mas ainda ousei perguntar se tinha filhos. Tinha 1. Ela me perguntou: -  E você? Respondi: - sem filhos. - Casado? Questionou-me. Lhe respondi: - Nunca! Ela ficou admirada e perguntou: - me conta o segredo. Se eu pudesse nunca teria me casado. Entendi então que o seu arrependimento era referente á relacionamento. Falando um pouco de mim talvez lhe deixasse mais à vontade para falar de si. Então respondi-a: - Tenho dificuldade de ter que dar satisfação sobre onde vou, o que vou fazer. De modo que prefiro estar sozinho. Sei que estando num relacionamento teria que dar esse tipo de satisfação. Por tanto é melhor assim. E sinceramente estou bem. Ela respondeu entusiasmada: - Nossa, eu estou exatamente assim. Não quero saber de namoro e muito menos casar. Não quero dar satisfação do que vou vestir, para onde vou, o que vou fazer. Questionei-a então: - Foi por isso que seu casamento não deu certo? Ela respondeu: - Ele tinha muito ciúmes de mim. E eu ia aguentando. Havia toda uma pressão da minha família para que eu não terminasse. - Quantos anos você tinha? - 14 anos. - Nossa, muito nova. Mas continua. Ela então continuou a narrativa: - Tinha aquela história de que a mulher sábia edifica o lar. Mas como? Eu tentava. Juro que tentava. Mas a cada dia o ciúmes dele só piorava. No final acabou da maneira mais besta possível. Um dia eu estava na porta de casa e uns meninos iam passando e um me perguntou as horas e respondi. Ele ia chegando na hora e disse que eu estava dando “moral” para os meninos. Tentei argumentar de todas as formas. Ele dizia que não acreditava. Que só não havia acontecido algo porque ele havia chegado. Ai para mim, deu! Falei pra ele que era o fim. De início ele não aceitou. Ficou um bom tempo no meu pé mas por fim viu que tinha acabado mesmo. Eu disse para minha família. Mulher sábia. Foda-se mulher sábia. Eu não sou uma mulher sábia. Ao final do relato sorri. Eu sabia bem de onde vinha aquele discurso de que a mulher sábia edifica o lar. Só esquecem de dizer que para edificar o seu lar elas têm que abrir mão da sua existência. Não faltam exemplos de mulheres que sacrificaram a vida ou bons anos dela por esse ideal. Ela cada vez mais relaxada continuou se abrindo: - no início é aquela maravilha. Depois eles querem ser seu dono. Esse é um ponto que sempre me incomodou nos relacionamentos tradicionais - a ideia do outro como um objeto a seu dispor. Numa sociedade dominada pelo homem, como bem salienta Simone de Beauvoir no seu clássico “o segundo sexo”, esse outro que é transformado em objeto é a mulher. Continuamos a conversar como se nos conhecêssemos há tempos. Comigo ela sentiu a vontade para falar o que certamente não seria bem aceito em qualquer lugar. - minha mãe vive dizendo que do jeito que eu vivo, nunca vou arrumar outro marido. E quem disse que eu quero. Disse ela. Eu então comentei. - não sou a melhor pessoa para dar conselhos acerca de casar ou não casar. O problema é que quase sempre as pessoas se deixam levar pela paixão (emoção) e não demora o relacionamento fracassar e os dois começarem a se odiar. Eu acredito que é preciso pensar bem antes de dar um passo nesse sentido. Quando vem um filho, tudo se complica. Eu odiaria ter tido um filho com uma mulher e não está criando ele hoje. Por isso não me arrependo de forma alguma de nunca ter casado e nem ter tido filhos. - Você tem toda razão. Ela me disse. Nesse meio tempo já tínhamos tomado umas 5 cervejas. Era hora d´eu ir embora. Então me despedi. Ela respondeu dizendo que tinha sido um prazer conhecer alguém como eu. Quem sabe um dia não voltássemos a nos encontrar. Não pedi o telefone dela, ela não pediu o meu. Por isso se voltássemos a nos encontrar seria obra do acaso. Como fora o nosso encontro naquela tarde de domingo naquele bar. Melhor assim. Pois se trocássemos telefone seria criar algum vínculo. E nem eu e nem ela estava querendo isso. Escrevo essas linhas algum tempo depois do acontecido. Já não me lembro do rosto dela. Não sei se visse ela na rua a reconheceria. Mas a nossa conversa ficou na minha cabeça. Não porque foi uma conversa extraordinária. Pelo contrário. É uma história ordinária. Não é nada difícil encontrar num bar de qualquer cidade uma jovem mãe solo que traz na sua bagagem a memória de um relacionamento que deixou marcas. Não as julgo por estarem ali. O que sinto é que não aprenderam muito. No fundo elas esperam encontrar o príncipe encantado prometido. Certamente não será num bar que encontraram. Nem muito menos numa igreja onde serão levadas a acreditar que a edificação do lar é unicamente de responsabilidade delas.

Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.

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