domingo, 30 de novembro de 2025

Precisamos falar do (e ouvir) Edson Gomes

Quando os acordes da banda começam soar a plateia entra em êxtase ao reconhecer nos acordes o que está por vir.  Ele entra no palco apoiado pelo filho. É o tempo passa para todos. Para ele não é diferente. O turbante na cabeça deu lugar a um boné aba reta. Já não usa o casaco militar mas sim uma camiseta preta comum. Não canta mais em pé, mas sentado numa cadeira. No entanto quando começa a cantar a magia acontece. A voz não envelheceu. Canta sem nenhum esforço acompanhado por uma plateia que sabe cada verso de suas canções. Poucos artistas na música brasileira conseguiram esse feito - construir um público que aprecia sua arte sem o apoio dos meios de comunicação de massa. Independente do lugar em que esteja tocando, a reação do público é a mesma. E não estamos falando de um público que vai nos shows por uma conexão nostálgica, mas pessoas de toda idade. Há o registro de uma criança num show em Pernambuco cantando “árvore” a pleno pulmões que é algo contagiante. Se em relação a idade o público de Edson Gomes é diverso, o perfil majoritariamente é de pessoas negras - gente do povo. E é pelo reconhecimento desse povo enquanto cidadão que Edson Gomes canta. Sim, estou falando de Edson Gomes. Talvez você não tenha ouvido falar desse nome. Provavelmente já ouviu alguma música dele cantada por um outro artista. Por isso vamos lá a uma breve biografia.
Baiano de Cachoeira, Edson Gomes nasceu em 1955. Por um tempo dividiu seus sonhos entre o futebol e a música. Com a segunda prevalecendo. Já no início teve o seu talento reconhecido ao ganhar diversos festivais. No entanto, ainda teria que perseverar muito para se tornar um ícone da música brasileira. Deixou sua terra natal, foi trabalhar na construção civil em São Paulo. E depois retornou para Bahia onde construiu uma carreira que o colocou como ícone do reggae music. Fã de Tim Maia. Edson Gomes foi arrebatado pelo ritmo jamaicano que foi popularizado mundialmente por figuras como Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff entre outros. Suas letras que falam de amor, identidade e resistência foram aos poucos construindo um público fiel que o acompanha numa trajetória que já ultrapassou 50 anos de carreira. Edson Gomes está longe do status adquirido por figuras como Gilberto Gil, Djavan, Milton Nascimento e o seu próprio ídolo Tim Maia. Não porque sua arte seja menor, mas porque tal como os Racionais MCs sua música denuncia o racismo estrutural na nossa sociedade sem maquiagem. Como em “barrados no baile” em que retrata um episódio racista sofrido por ele: “ainda ontem no condomínio que moro/uma senhora quando me avistou/apertou a bolsa e ela escondeu sua bolsa/apertou a bolsa/a branca segurou logo a bolsa”. Em camelô, outro dos seus clássicos denuncia a violência policial: quando a polícia cai em cima de mim/até parece que sou fera… Em acorde, levante e lute lembra a classe trabalhadora que as conquistas não caem do céu mas como fruto da luta: tens o direito de ser livre…ninguém nesse mundo pode impedir… porém não espere por esse direito/acorde, levante e lute…” Em árvore nosso artista fala de amor, de comunhão, de cuidado, de valorização: todo santo dia, pois todo dia é santo/e eu sou uma árvore bonita/que precisa ter os teus cuidados. 
Enfim, eu poderia escrever linhas e linhas acerca das suas composições. Mas para o nosso propósito as citações acima são mais do que o suficiente. Melhor do que ler sobre suas canções é ouvi-las na voz dele. Fica então o convite para que o façam. Não indicaria um disco específico. Talvez o ao vivo gravado em Salvador em 2005 onde encontramos uma boa amostra da sua obra. Mas também pode ser qualquer show disponível no youtube das apresentações que ele tem feito nos últimos anos. Eu particularmente gosto de ouvir música ao vivo pois a energia da interação entre artista e público me afeta de uma forma diferente. Pela qualidade dos músicos que o acompanham não há uma perda de qualidade que geralmente há entre um material gravado em estúdio e ao vivo. Os shows são uma verdadeira celebração. Até porque ainda que não se diga é uma despedida. Pois por mais que sua voz continue impecável e ele aparenta ser alguém que se cuida é natural que a medida que a idade avança, ele atualmente tem 70 anos, o fim vai ficando mais próximo.
E é nesse contexto que acredito que precisamos falar de Edson Gomes - um artista negro que incorporou o espirito da reggae music - uma música de resistência as opressões e de celebração da cultura de origem africana. Infelizmente há no Brasil uma seleção (por parte da indústria musical) de quais artistas podem ser considerados relevantes ou não. Para a indústria Edson Gomes certamente não é um artista relevante pois não é conivente com o status cos. Diante disso, celebrar sua arte é uma forma de dizer que não concordamos com isso. Viva Edson Gomes! Viva sua arte! Viva sua filosofia!
Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino americano, que gosta de ler, escrever, correr e ouvir rock in roll.

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