sábado, 30 de maio de 2026

Conversas na Madrugada: Desencanto

Mesmo sabendo o quanto Ana Maria era complicada, Daniel decidiu apostar num namoro com ela. Ele acreditava que ela podia aprender amá-lo do tanto que ele a amava. Mas não foi assim que aconteceu. Ana Maria não era mulher de um homem só, e se o Daniel quisesse ficar com ela tinha que aprender a dividi-la com outros. Daniel e Ana Maria passaram semanas de intensa paixão após o término do namoro dele com Soraia. Mas não demorou para que ele percebesse que Ana Maria continuava a mesma de sempre – uma mulher que não se deixava prender num relacionamento tradicional. Mesmo a noite sensacional de sexo ao lado de Ana Maria não tirava da cabeça de Daniel algumas preocupações. 

Ao sair da casa da amada naquela madrugada, ele se dirigiu para um bar, pediu ao garçom uma garrafa de whisky barato e rock no toca discos. Enquanto isso ficou ruminando alguns pensamentos. Até que foi despertado desse estado de espírito pela aproximação de uma garota que acabara de entrar no estabelecimento.

- Olá, posso te fazer companhia?

Daniel estava a fim de ficar sozinho com seus pensamentos. No entanto, não teve coragem para dizer isso para aquela garota. Pelo contrário. Ele aceitou a companhia.

 - Senta aí. Tá a fim de uma dose de whisky?

A garota logo se animou. Batera perna a noite inteira e nada de arrumar um programa. Quem sabe agora que estava voltando para casa teria mais sorte:

- Claro. E ai, vamos brincar hoje?

- Desculpe. Mas não tô muito no clima.

- É. Não foi dessa vez. Pensou consigo. Pelo menos podia bater papo e ajudar aquele estranho a secar aquela garrafa de whisky barato.

- Tem alguma coisa te preocupando? Se você quiser desabafar, pode ficar à vontade. Sou toda ouvidos.

- Não, não quero te incomodar com minhas angústias. Eu resolvo sozinho.

- Mas é bom desabafar às vezes. Sei que você não me conhece, mas tudo que me disser ficará entre nós. Além do mais o movimento hoje tá muito fraco. Não vou arrumar nenhum programa pelo jeito, talvez mais tarde.

- Como é seu nome? 

- Flor de Liz.

- Prazer Flor de Liz. O meu é Daniel.

- Prazer é comigo mesmo Daniel. Disse Flor de Liz sorrindo.

- Não deve ser fácil a vida que tu leva.

- Não vou mentir pra ti, não é fácil. Sobretudo quando encontramos clientes que nos tratam como se fossemos objetos. Acham que porque estão pagando podem fazer tudo o que querem com a gente, esquecem-se que somos seres humanos. Desabafou Flor de Liz

- Imagino.

- Mas às vezes encontramos com clientes que são tão carinhosos com a gente. Que nos dão tanto amor e atenção que acabamos esquecendo que somos prostitutas.

- Mas sabe. Nos relacionamentos tradicionais é assim também. Às vezes encontramos pessoas que nos amam e outras vezes aquelas que querem apenas nos usar.

Em vez de Flor de Liz ouvir o que estava afligindo aquele estranho, ele que estava conseguindo descobrir os seus segredos. É então que ela decide virar o jogo.

- Hum, percebi que alguém aqui está sofrendo por amor. O que fizeram com teu coração? É homem ou mulher?

- Homem? Não. São coisas da vida mesmo. Um relacionamento que você sabe que não tem nenhum futuro, mas que você insiste, acreditando que um milagre possa acontecer.

- É como dizem ‘o pior cego é aquele que não quer enxergar’. A gente vê, mas finge que não está vendo. Mas posso te falar por experiência própria que um dia a gente tem que vê e encarar, por mais que tentamos fugir, um dia não tem jeito.

- Poxa, é isso mesmo. Foi muito bom conversar contigo, mas tenho que ir agora.

Daniel abriu a carteira, pagou a garrafa de whisky e deu uma grana para Flor de Liz.

- Pra que esse dinheiro?

- Ora, pelo tempo que você perdeu aqui comigo.

- Não, não precisa pagar nada. Não fizemos nada além de conversar e tomar whisky. Eu que te agradeço por ter me tratado tão bem.

Mas Daniel insistiu:

- Vamos, pegue o dinheiro que sei que tu precisa. Um dia quem sabe não dormimos juntos?!

Flor de Liz, não recusou dessa vez. A verdade era que não tinha como recusar. Aquela grana garantiria pelo menos por mais uns três dias o leite das crianças. Ela o abraçou e lhe agradeceu dizendo que esperava encontrá-lo outro dia em melhor estado de espírito e disposto a brincar. Daniel sorriu e partiu decidido a dar um novo rumo para sua vida.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

Nenhum comentário:

Postar um comentário