Não. Eu não poderia deixar de escrever algumas linhas sobre o que foi anunciado como o último trabalho de inéditas antes do fim anunciado desse grupo que é um dos meus preferidos se tratando de rock in roll. No geral, o trabalho é uma amostra breve da potência criadora da banda com uma sonoridade técnica (mas não menos pesada) e letras filosóficas - tanto numa perspectiva existencialista como de crítica social - que caracterizam a fase Derrick Green. Ao final da audição fica um gosto de: mais uma dose, por favor! Se caso quisessem certamente teríamos um álbum no nível dos anteriores. Com novos elementos que mostram que a banda está sempre evoluindo criativamente.
The Cloud of Unknowing (2026), traz quatro canções inéditas. Sendo este o primeiro registro discográfico com Greysson Nekrutman na bateria. E pelos elementos do jazz fica evidente que ele não só tocou, mas contribuiu com as composições - que de acordo com Andreas Kisser ocorreu de forma espontânea - sem pressão. Esse clima certamente corroborou para que gravassem a primeira balada da banda - perseguida há algum tempo.
Abrindo o ep. temos All Souls Rising (Todas as Almas Ascendendo) que começa num ritmo avassalador. Para em seguida ser cortado abruptamente por um som de cordas. Depois vem o refrão pesadíssimo. Para em seguida retomar a velocidade. A letra foi inspirada num livro sobre a revolução haitiana escrito por Madison Smartt Bell. E critica o fato das pessoas se corromperem em troca de dinheiro - jogando um jogo que sacrifica milhares. Contra esse estado de coisas o Sepultura nos conclamar a resistir e lutar:
Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)/All souls are rising - Todas as almas estão ascendendo/Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)/Until the end - Até o fim/Let's fight (this fight) Vamos lutar (essa luta)/We stand united - Estamos unidos/Let's fight (this fight) - Vamos lutar (essa luta)...
Esse refrão merece se transformar em palavra de ordem nas manifestações em defesa do povo preto, que tanto nos Estados Unidos como no Brasil (e em outras partes do globo) são os alvos preferenciais das forças de segurança em nome da classe dominante. Essa canção também nos instiga a olharmos para o Haiti - país pioneiro na luta contra a escravidão que hoje está subjugado pela violência alimentada pelas grandes potências.
Em seguida vem a canção que para mim deveria fechar o ep. Trata-se da balada Beyond the Dream (Além do Sonho) - que soa como uma carta de despedida onde eles olham para o passado com orgulho daquilo que construíram. Aceitam o fim inevitável como parte de um processo para torná-los imortais. Pois afinal de contas a banda vai chegar ao fim mas não deixar de existir.
Looking out the blurry window - Olhando pela janela embaçada/Wondering how we got this far - Me perguntando como chegamos tão longe/Bleeding out we feel the nightfall - Sangrando, sentimos a noite cair - The future was never so clear - O futuro nunca foi tão claro
Belo, não?! Uma reflexão que vale para todos nós. Até onde conseguimos ir? No caso deles, estamos falando de um patrimônio artístico brasileiro mais conhecido no mundo. O que enfrentamos para alcançar o que alcançamos? Do que não tivemos que abrir mão? Não tenho dúvida que o Andreas seria capaz de abrir mão de muitos shows para ter vivido mais com sua amada esposa (Patrícia) levada pelo câncer. São escolhas que fazemos e não devemos nos arrepender pois era o que acreditávamos ser correto naquele momento. Sobretudo quando achávamos que nunca morreríamos.
Só por essa música o ep já valeria a pena vir à luz. Mas ainda temos a pesada Sacred Books em que o vocal gutural do Derrick Green volta à cena para criticar a contemporaneidade onde vislumbramos o que Franco Bifo Berardi denuncia no seu Pensar após Gaza - ensaios sobre a ferocidade e o fim do humano (2025).
Seeking truth in a world of lies - Buscando a verdade em um mundo de mentiras/Seeking truth in this web of cries - Buscando a verdade nesta teia de gritos/Seeking truth in their sacred books - Buscando a verdade em seus livros sagrados/World of lies - Mundo de mentiras
Temos aí uma temática já trabalhada outras vezes pela banda como a questão da verdade e a alienação ao que o indivíduo é submetido num mundo cada vez mais dominado pela máquina (computadores) e fanáticos religiosos (nem sempre de uma religião tal como compreendemos).
Para finalizar temos the place (O Lugar) - e que música é the place que na sua introdução nos lembra uma bossa nova. Isso mesmo, bossa nova que depois vira um thrash metal daqueles que ninguém consegue ficar sem bater cabeça. Nesta canção também temos elementos dos trabalhos anteriores. A música começa com uma sonoridade que lembra uma balada, inclusive com Derrick Green cantando com um vocal limpo, para em seguida explodir. E essa sonoridade tem tudo haver com a história que eles estão contando - sim, é uma história - de um imigrante que deixa sua terra em busca de uma vida melhor em outro lugar, não muito diferentes de tantas histórias reais que conhecemos. E ao chegar nesse lugar vai se transformando ao ponto de esquecer suas raízes e se tornar uma figura deplorável.
All I want is a place to live - Tudo que quero é um lugar para viver/And plant the seeds to grow my roots - E plantar as sementes para fazer minhas raízes crescerem/We just want the same - Nós só queremos o mesmo?/Not long ago, you were struggling - Você esteve passando dificuldade há pouco tempo atrás/And I don't know what happened to your empathy - E eu não sei o que aconteceu com a sua empatia/Don't you feel ashamed? - Você não sente vergonha?
Sabemos bem qual é esse lugar. Quem ai não viu no período das eleições estadunidenses imigrantes defendendo o então candidato Donald Trump mesmo com sua posição clara contra imigrantes.
Take a look at catastrophe - Olhe para a catástrofe/Embrace the world that's not for me - Eu abraço o mundo que não foi feito para mim/Add the fuel to ignite the flames - Joguei o combustível para alimentar as chamas/This fire keeps burning on - A chama continua queimando/Feel the grip of insanity - Sinta o aperto da insanidade/As the fear drives humanity - Enquanto o medo controla a humanidade/See, tyrants won't show their face - Veja, os tiranos não mostram o rosto/Can't hide their face - Mas não podem escondê-lo/Can't hide their face - Mas não podem escondê-lo/Know who you are - Saiba quem você é/Know who you are - Saiba quem você é/It's what we call a coward - É o que chamamos de covarde.
Não há mais nada o que dizer. Esse trecho fala por si só. Mas ainda há algo a dizer. The Cloud of Unknowing é um trabalho e tanto. Digno do que o Sepultura fez em toda a sua trajetória. Por tanto ouça a todo volume.
Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

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