quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Crônicas Aurenyanas: Como mulheres negras

Os tombos da vida nos fazem crescer

e não devemos desistir…

Dead Fish



Ela disse que havia se casado aos 13 anos após descobrir que estava grávida. Não era o que ela queria. Também não era o que queria o futuro pai da criança. Mas as famílias, sobretudo a mãe dela, forçaram para que houvesse a união. - Minha mãe não sabia, mas ela estava assinando minha sentença de prisão. Compreendo que não foi por maldade que sua mãe forçou a união dos dois. Morando no interior e conhecendo o quanto não é fácil para uma jovem mãe solteira sobreviver. A mãe dela não deve ter visto outra alternativa. Quem na nossa infância, sobretudo no norte do Brasil, não conheceu uma mulher que entrou numa união estável com um cônjuge quando ainda era menor de idade. Para muitas famílias que vivem em condições socioeconômicas difíceis, uma boca a menos era uma benção.

- Foram cinco anos de penitência. Ele me batia por qualquer coisa. Uma vez me deu um tapa no ouvido na frente do meu pai. Mas eu prometi a mim mesmo que só suportaria aquela tortura até que conseguisse alcançar a minha maioridade. No dia que fiz 18 anos, peguei meu filho, juntei as coisas e me libertei. 

O relato dela doía em mim. Nunca compreendi como alguém é capaz de violentar outra pessoa. Ainda mais quando essa outra pessoa é alguém que você supostamente ama. Não romantizo as relações. Sei que elas são atravessadas por conflitos. Mas nada justifica á violência. Toda vez que ouço relatos desse tipo me questiono sobre a natureza humana. Há uma música (Presídio Zoo) da banda Cólera que diz: Animais não fazem guerras/Animais não destroem selvas/Animais não constroem bombas/Animais não poluem o ar/Animais não pertencem a ninguém/Animais não matam por prazer. E eu acrescentaria que também não matam por ciúmes ou outras paixões tristes. Até onde sei o homem é o único animal que mata sua parceira por ela não se submeter a ele.

Ela continuou relatando a sua triste história - que não é diferente de outras tantas mulheres (mas não podemos deixar de nos indignar).

- Quando o abandonei ele não foi atrás de mim. Pelo contrário. Logo estava com outra do lado. E eu não achei nem um pouco ruim. Pois já não nutria nenhum sentimento bom por ele. No entanto, quando voltei a viver minha vida (sair com alguém) ele voltou a me perturbar. Quando percebeu que eu não voltaria mais começou a me ameaçar. Minha mãe que de início apoiava ele, percebeu o perigo e me convenceu a mudar de cidade. Com medo que ele pudesse fazer algo comigo (matar). E pelo tanto de mulher que a gente vê morrendo aí pelas mãos do próprio companheiro não duvido nada que ele fosse capaz de fazer.

Ela continuou contando a sua história enquanto eu ouvia atentamente. 

- Mesmo quando mudei de cidade ele não me deixou em paz. Conseguiu tomar a guarda do meu filho com a justificativa que eu era incapaz de criá-lo. 

Pensei comigo. Certamente não era por amor à criança. Se não, não teria feito o que fez depois. Provavelmente o objetivo era obrigá-la a voltar para ele.

- De início a família dele deu todo apoio ajudando-o a cuidar da criança. Mas logo ninguém mais podia. E ele teve que levar meu filho para o trabalho dele. Lá a criança pegou uma pneumonia que quase o levou a óbito. Por fim, largou o meu filho com minha mãe. De início ela não quis me dizer. Mas acabei descobrindo e o trouxe para morar comigo. Hoje já está com 15 anos - criei-o praticamente sozinha. A pensão que o pai paga é uma miséria. E quase sempre atrasa. No entanto, a notícia que a gente fica sabendo é que ele não sai do shopping passeando com a namorada. Desde que moramos juntos podia faltar dinheiro para tudo, menos para beber. Lembro de uma vez que ele saiu de casa dizendo que ia na feira comprar as coisas para comermos pois não tinha nada em casa. As horas foram passando e nada dele chegar. O meu filho chorando de fome. E segundo me disseram ele estava num bar bebendo com outra mulher. Fiquei com tanta raiva vendo meu filho chorando com fome e ele na farra que não pensei duas vezes. Fui lá e fiz um barraco. Quebrei tudo e mandei colocar na conta dele. 

Certamente houve quem a considerasse uma desequilibrada. Essas pessoas provavelmente não sabiam o que ela sofria em casa. É como diz um poema do Bertold Brecht - chamam o rio de violento quando arrasta tudo, porém ninguém chama de violenta as margens que o oprime.

- Quando estávamos morando juntos chegou um momento que percebi que teria que me defender ou ele me mataria. Por duas oportunidades quando ele estava me agredindo “meti uma faca nele”. Na última vez ele foi parar no hospital e eu na delegacia. Chegando lá me perguntaram porque havia feito aquilo e mostrei a marca dos dedos dele no meu rosto. Depois disso ele pensava duas vezes antes de me bater. Mas me maltratava de outras formas, como não comprando nada para casa. Mas enfim consegui me libertar.

De tudo que ela me relatou durante a nossa conversa, algo ficou marcado. Foi quando ela disse que crescera num ambiente marcado pela violência doméstica. Sua mãe apanhava do seu pai. E apanhava dos outros maridos que tivera posteriormente. De modo que no início do seu relacionamento ela pensava que aquilo era natural. Para mim essa é uma das expressões mais fortes da cultura machista que está na estrutura da nossa sociedade e que precisamos superar. Como superar? Não vou ousar responder essa pergunta que você (e eu) está provavelmente se fazendo. Até porque não tenho uma resposta além de obviedades. Por isso concluo com os versos da música mulheres negras da banda de harcore capixaba Dead Fish - Os tombos da vida nos fazem crescer/e não devemos desistir.../Mas então vamos lá,/lutar por um ideal./Se viver é resistir,/então será.../E ai poderemos sorrir como mulheres negras,/que apesar de todo sofrimento se negam a chorar.

Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).

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