![]() |
| Witer Naves |
Sempre que reflito sobre partidos de esquerda me lembro da definição do que deve ser o partido no romance Até, amanhã camaradas, do autor português Manuel Tiago.
"Para que serve o Partido? Qual a sua missão? Cumpre-a ou não a cumpre? O Partido não é um fim em si. Se as organizações existem e desconhecem os problemas vivos dos trabalhadores, se estão afastadas das massas, se não as esclarecem e orientam, se não sabem organizar e conduzir à luta, para que serve de fato? Pouco vale está tudo muito arrumadinho, tudo muito nos seus lugares, tudo correspondendo ao esquema indicado, se essas organizações e esses camaradas vivem voltados com os olhos para dentro, fechando o Partido em si próprio. Não, não é para isso que serve o Partido. "
Eu acrescentaria que um partido de esquerda (comprometido com a superação do modo de produção capitalista) não deve ter como finalidade a disputa de eleições. No contexto em que estamos inseridos as eleições são importantes. Mas não como um fim em si. Mas como um meio para que dialoguemos com as massas e a partir desse diálogo possamos ter um saldo organizativo que reflita no fortalecimento das lutas da classe trabalhadora. Para tanto uma candidatura que se coloca nesse espectro político não pode fazer concessões para que se torne mais tragável pelo status quo. Deve se colocar a serviço da classe trabalhadora defendendo suas pautas por melhores condições de vida. E melhorar as condições de vida da classe trabalhadora significa necessariamente atacar o privilégio das elites. Witer Naves fará isso?
O candidato psolista tem se apresentado como a única candidatura de esquerda ao governo do Tocantins. Teoricamente, se partirmos dos estatutos dos partidos (e candidatos que estão na disputa - Dorinha - UNIÃO; Vicentinho - PSDB; Laurez - PSD; Ataides - NOVO; Du Pereira - DC), ele tem razão. Mas na prática o que vai definir mesmo se se trata do único candidato de esquerda é o programa. Por enquanto dois movimentos do Witer me deixaram preocupado - o primeiro foi sentar na mesa com a Kátia Abreu (mesmo entendendo que ela é a coordenadora da campanha a reeleição do Lula no Tocantins) e o segundo foi sua fala numa entrevista de que o empresariado não sente segurança para investir no Tocantins em consequência dos casos de corrupção envolvendo chefes do executivo estadual.
Assim que fiquei sabendo da candidatura de Witer fiquei contente. Pelo seu currículo estamos diante de um quadro qualificado. Com uma formação acadêmica na área de humanidades e uma experiência de gestão no serviço público. No entanto, os dois movimentos anteriores me deixaram com um pé atrás. Mas é muito cedo para qualquer conclusão. A única conclusão possível por enquanto é que o partido precisa radicalizar o seu discurso. E quando falo em radicalizar não estou defendendo a critica pela critica. Mas radicalizar no sentido defendido por Karl Marx, de pegar os problemas pelas raízes. No caso do Tocantins denunciar as consequências do modelo de desenvolvimento capitaneado pelo agro e o hidronegócio. Modelo de desenvolvimento esse que expulsa as comunidades tradicionais dos seus territórios obrigando-os a engrossar as periferias das cidades. A transformação dos recursos naturais em mercadoria. E o sucateamento dos serviços públicos e consequentemente a desvalorização dos servidores. O combate à corrupção é necessário. Mas não podemos esconder que a corrupção se dá em conluio com o setor empresarial. De modo que não se sustenta esse discurso de que não há investimento no Tocantins pela insegurança política. Outro questionamento que devemos fazer é se precisamos desses investimentos mesmo para termos um desenvolvimento sustentável. E também se precisamos ser dirigidos pela ruralista Kátia Abreu numa campanha para a reeleição do presidente Lula.
Enfim, não sou dirigente e nem militante do PSOL para dizer o que o partido deve ou não fazer. Mas enquanto alguém que pensa criticamente nesse espectro político não poderia deixar de me posicionar. Não com o objetivo de criticar só por criticar. Mas para contribuir com o fortalecimento de um partido e uma candidatura que avalio como necessária para vislumbrarmos uma mudança de paradigma no Tocantins.
Pedro Ferreira Nunes - Graduado em Filosofia (UFT). Especialista em Filosofia e Direitos Humanos (UNIFAVENI). Mestre em Filosofia (UFT).

Nenhum comentário:
Postar um comentário