sábado, 30 de janeiro de 2021

Lajeado: “No coração dos deuses”

Se a memória não me falha (é, tô ficando velho) foi no verão de 1997 (talvez 1998) que Lajeado foi invadida por aventureiros em busca de um tesouro escondido por essas bandas. Aqui eles se deparariam com a bandeira do velho Fernão Dias e acabariam nas garras de uma poderosa nação indígena – que habitava essas paragens.

Aventureiros? Bandeirantes? Indios? Tesouros? Não, não estou ficando louco. Não é invenção do meu tempo de meninisse. Estou falando do primeiro longa metragem gravado no Tocantins e que teve a cidade de Lajeado como um dos seus cenários. Nesse tempo morávamos numa chácara às margens do rio Tocantins próximo a chácara de dona Júlia e seu Josias, quando de repente começaram a erguer uma aldeia Krahô e um pouco mais acima um acampamento de garimpeiros.

Num lugar onde não havia novidades, aquela novidade alvoroçou todos nós, especialmente as crianças – sobretudo quando chegaram os índios krahô e os atores “globais” liderados por ninguém menos que Antônio Fagundes – que naquele período fazia muito sucesso por essas bandas por ter protagonizado a novela “O Rei do Gado” de Benedito Rui Barbosa.

Lembro que uma noite acompanhamos a gravação de uma cena com o Antônio Fagundes e os índios Krahô na aldeia fictícia. Foi o único momento que os lajeadenses tiveram acesso ao set de filmagem. Mesmo assim não foi possível saber do que se tratava a estória – o que fazia com que ficássemos especulando sobre. 

Depois de um tempo fomos convidados para o evento de lançamento do filme que ocorreria em Porto Nacional (onde também havia sido gravado cenas do filme). Lembro que a multidão presente no evento em praça pública gostou muito da exibição. Eu particulamente não me recordo o que senti e nem me lembro do que se tratava o filme. Acho que nem eu e nem boa parte dos que saíram do Lajeado para acompanhar a exibição.

O filme

Além da gravação da cena com o Antônio Fagundes citada acima, outra coisa que eu não havia esquecido era o nome do filme – “No coração dos deuses”. A partir dessa referência fui pesquisar para saber mais sobre a obra e tive a grata surpresa de descobrir que a mesma havia sido disponibilizada na íntegra no YouTube (https://youtu.be/tNd0qn5-Mr4) Só então eu descobri do que se tratava. E fiquei encantado não só pela questão emotiva que me fez recordar a minha infância, de rever algumas paisagens que se perderam com a construção da Usina Hidrelétrica Luiz Eduardo Magalhães (o filme foi gravado antes das obras da UHE se iniciarem). Mas sobretudo pelo fato de se tratar de um bom filme, com uma boa estória, bons atores e uma excelente trilha sonora.

“No coração dos deuses” é um filme do cineasta Geraldo Moraes, que tem no elenco, além do Antônio Fagundes, Roberto Bonfim, Tonico Pereira, Regina Dourado, Iara Jamra, Ângelo Antônio entre outros. Sem falar na participação especial dos indios Krahô. A trilha sonara foi composta pelo André Moraes juntamente com ninguém menos que Andreas Kisser e Igor Cavaleira (Sepultura). E que contou com a participação especial do Mike Patton (Faith No More). De modo que não é surpresa que essa trilha tenha sido premiada em vários festivais de cinema como o de Brasília e o de Pernambuco. 

A estória se desenvolve em torno de um grupo de aventureiros que partem em busca do tesouro dos martírios após encontrar um mapa do século XVII que indica a sua existência. Ao partir em busca desse tesouro sertão adentro eles não imaginam o que encontraram e o que passaram. A aventura não os levaram a outro lugar apenas, mas também a outra época histórica – de um lado a bandeira do famoso Bandeirante Fernão Dias, do outro uma poderosa nação indígena. Decifrar os mistérios do mapa e enfrentar os obstáculos que surgirão no caminho será o desafio desses aventureiros para que encontrem o tesouro.

A mim me pareceu um filme de aventura ala “Indiana Jones” como poucas vezes vi no cinema brasileiro. Isso sem tentar reproduzir fórmulas importadas. Há muita referência a nossa cultura e ao nosso folclore. O elenco está afiadissimo, com destaque para atuação do Antônio Fagundes. Os efeitos especiais foram bem trabalhado e a fotografia está impecável ajudada pela paisagem exuberante do Tocantins, e mais especificamente do Lajeado. 

Diante disso não poderia deixar de recomenda-lo. Seja pela curiosidade pelo fato de ter sido o primeiro longa metragem a ter sido gravado no Tocantins – quem sabe buscar identificar algumas paisagens da cidade de Lajeado antes da construção da UHE. Seja pelo prazer de assistir um filme de aventura com uma boa estória, um ótimo elenco e uma excelente trilha sonora. Ou ainda para aprender um pouco sobre nossa cultura e nossa história – o que faz desse filme uma boa dica para se trabalhar a questão da formação e povoamento do norte goiano.


Por Pedro Ferreira Nunes – Educador, Poeta e Escritor Popular. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A pandemia de COVID-19 e o setor Cultural no Tocantins

Entre os setores mais atingidos pelas consequências das medidas impostas para contenção da COVID-19, o cultural é certamente um deles. Por outro lado surgiu a oportunidade, e necessidade, dos artistas saírem da sua zona de conforto e buscarem alternativas para produzir e divulgar suas produções artísticas. 

No Tocantins não foi diferente, mesmo tendo um setor cultural fragilizado pela falta de políticas públicas de apoio e incentivo a cultura. Tivemos ao longo desse período pandêmico diversas iniciativas que mostram uma rica produção artística por parte dos artistas tocantinenses em diversas áreas. Bem como a utilização das mídias digitais para divulgação e compartilhamento dessa produção. Como consequência desse processo temos hoje uma maior apropriação, por parte da classe artística regional, do mundo digital, e da parte do público, um maior número de referências artísticas locais.

Eu particularmente passei a conhecer só agora nesse período pandêmico, muitos artistas que produzem arte no Tocantins. Olha que me considero um cara antenado e informado. Mas a questão é que estes artistas não tem a oportunidade de circular, e nós que vivemos no interior sobretudo,  acabamos não tendo acesso a eles, e nem eles a nós. Com as lives e outros eventos virtuais isso se tornou possível. 

Certamente a iniciativa da Prefeitura de Palmas com o edital Palmas Curte Arte em Casa e da Prefeitura de Porto Nacional com a edição virtual  da Semana Cultural e da Feira Literária muito contribuíram para que os artistas de diversas áreas se sentissem estimulados a ocupar os espaços virtuais como o youtube. Desse modo se você pesquisa hoje no youtube: Palmas Curte Arte em Casa ou Flip portuense, você terá um ótimo leque de opções com atrações culturais Tocantinenses. Além disso é possível encontrar o trabalho de outros artistas produzidos de forma independente. 

Se por um lado houve esse avanço por outro o retorno financeiro não foi o mesmo. O que mostra que o espaço virtual não substituí o presencial. Ainda mais por que os eventos culturais mobilizam toda uma cadeia de produção para além do artista. É sabido que alguns artistas conseguem lucrar com eventos on line, esse não é o caso de 99,9% dos nossos artistas.

Daí a importância da lei Aldir Blanc que injetará 17,4 milhões na economia do Tocantins através de Projetos Culturais – mostrando a sua importância para além de um recurso destinado a gerar uma renda para classe artística. Daí também a revolta por parte dessa classe artística com a devolução, por parte do governo Estadual, de 1,2 milhões, que poderiam ter sido usados para contemplar mais projetos e assim beneficiar muito mais artistas. 

Se não houvesse demanda tudo bem, mas ao que parece, não houve foi vontade política. De modo que creio ser correto o questionamento levantado tanto em relação a este ponto como a outros. Por exemplo, a respeito dos critérios utilizados para a seleção dos projetos. 

Mesmo antes desse questionamento público, quando consultei a lista para ver quais artistas seriam contemplados, esse aspecto me chamou atenção – o nome de alguns contemplados em mais de um projeto ou que não vivem exclusivamente da arte (ou pelo menos que não tem essa como a principal fonte de renda). 

Não gosto de dar o meu exemplo pessoal, mas vou fazê-lo. Eu tenho alguns projetos artísticos, sobretudo no campo da literatura. Mas não achei que seria ético da minha parte inscrever projeto meu, sendo que atualmente estou empregado. Se eu me escrevesse e fosse contemplado poderia está tirando a vaga de um artista mais necessitado do que eu, no atual contexto. 

Se fosse um edital de Cultura regular tudo bem, mas estamos falando de uma lei que tem como objetivo “promover ações para garantir uma renda emergencial para trabalhadores da Cultura e manutenção dos espaços culturais brasileiros durante o período de pandemia do Covid‐19” (Lei Aldir Blanc). Se eu tenho outra fonte de renda por que vou tomar o lugar daqueles que não tem? Mas tudo bem, não estou aqui para julgar. Cada um com sua consciência. Por outro lado, os pareceristas, que segundo o governo tinha um perfil técnico, deviam ter se atentado para isso.

De todo modo, se executados, os diversos projetos contemplados irão contribuir para que 2021 seja um ano movimentado no Tocantins, do ponto de vista cultural. E a partir daí não só garantir uma renda mínima para artistas e espaços artísticos, como também para o fortalecimento da cultura no Tocantins. Óbvio,  esse fortalecimento só se dará de forma contínua, no momento que tivermos políticas públicas para cultura numa perspectiva de Estado e não de governo, numa perspectiva permanente e não pontual. Aos artistas cabe continuar não se acomodando e se reinventando – buscando alternativas para produzir e divulgar os seus trabalhos sem a necessidade de editais.

Por Pedro Ferreira Nunes – Educador,  Poeta e Escritor Popular. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Seguindo...

Não sei até quando, mas o fato é que agora em fevereiro este blog completará 9 anos de existência. São 9 anos mantendo uma regularidade de publicação semanal de pelo menos um novo conteúdo autoral (como pode ser conferido nos arquivos do blog). O desejo e a disposição é de continuar, por enquanto vamos seguindo.

Não é fácil manter um blog com conteúdos autorais, ainda mais quando esse conteúdo se refere a textos que exige tempo para pesquisa e produção. E mesmo sabendo que poucas pessoas leem, não abro mão do mínimo de qualidade. O que significa portanto que a pesquisa e a produção são fundamentais. 

Da minha parte não estou preocupado com a quantidade, mesmo sabendo que mais publicações significa mais visualizações. O que faz eu continuar seguindo é saber que o blog é uma referência no pensamento crítico no Tocantins – talvez o único com esse perfil. Buscamos dá voz as lutas populares e ser um espaço de questionamento da ordem dominante.  

Em 2020 conseguimos manter a média de publicações dos outros anos. Com muita dificuldade é verdade, devido ao fato de que o meu trabalho na educação básica exigiu muito de mim. Por outro lado me possibilitou novos aprendizados e a inspiração para alguns textos que inclusive foram publicados no blog. Não sei como será 2021, se conseguirei manter a média de produção dos últimos 9 anos, por enquanto, para iniciarmos mais um ano, compartilho as dez postagens mais populares do ano passado. E aproveito também para compartilhar o link do nosso recém criado perfil no Twitter, caso queira nos seguir por lá  (https://mobile.twitter.com/BarrancasDo).

10 Postagens mais vistas de 2020

Crônicas da quarentena: A difícil tarefa de ficar em casa no verão tocantinense: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/04/cronicas-da-quarentena-dificil-tarefa.html

A questão do fornecimento de água em Lajeado: Hora de pensar na municipalização do serviço: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/03/a-questao-do-fornecimento-de-agua-em.html

ESCOLA VAZIA: Um olhar dos estudantes do CENSP-Lajeado sobre educação em tempos de pandemia: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/08/escola-vazia-um-olhar-dos-estudantes-do.html

“O Rio não tá pra peixe” – intervenção artística na Ponte dos Imigrantes Nordestinos: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/06/o-rio-nao-ta-pra-peixe-intervencao.html

COVID-19: Esperança e Medo: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/03/covid-19-esperanca-e-medo.html

Byung Chul Han e Slavoj Zizek: Duas perspectivas para o mundo pós-pandemia de COVID-19: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/03/byung-chul-han-e-slavoj-zizek-duas.html

Literatura tocantinense: Pedro Tierra e o seu Porto submerso: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/03/literatura-tocantinense-pedro-tierra-e.html

Sobre a diferença entre gostar e confiar: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/04/sobre-diferenca-entre-gostar-e-confiar.html

Comentários a respeito das eleições municipais de 2020 em Palmas: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/01/comentarios-respeito-das-eleicoes.html

Como ser um escritor de sucesso ou para dizer que não escrevi auto-ajuda: https://pedrotocantins.blogspot.com/2020/01/como-ser-um-escritor-de-sucesso-ou-para.html


Por Pedro Ferreira Nunes – Educador Popular e Licenciado em Filosofia. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A última de 2020

 Retrospectiva 

“Eu quero que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês...”

Belchior

Avançamos para superar mais um ano. 

E que ano senhores?! 

E que ano senhoras?! 

Se já não bastasse a crise climática, 

o governo Trump e seus congêneres. 

Ainda tivemos que encarar uma pandemia.

Uma pandemia que até agora já ceifou 

mais de 1 milhão e 500 mil vidas. 

Só no Brasil já ultrapassamos as 181 mil mortes. 

Mas apesar dos pesares sobrevivemos.

É, sobrevivemos. 

A pesar da fome,

que voltou a fazer parte do cardápio de muitas famílias.

Da violência,

sobretudo se você teve a sina de nascer preto.

Do egoísmo, 

De quem só olha para o próprio umbigo. 

do desgoverno.

Gostaria de terminar o ano

com uma mensagem otimista.

Afinal de contas estamos vivos.

Mas o índice de aprovação do governo

mostra que não há espaço para ilusões.


Por Pedro Ferreira Nunes – Educador Popular, Poeta e Escritor Tocantinense. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Filosofia no estilo punk rock: O Podcast Aufklärung

No final de junho, após alguns meses de suspensão das aulas presenciais na rede estadual de educação do Tocantins, fomos convocados para retomada do ano letivo através de aulas remotas para as terceiras séries do ensino  médio. O desafio que se colocava diante de nós era dar aulas numa realidade, e em condições, para qual não estávamos preparados. 

Isso ficou mais evidente diante do quadro que nos foi apresentado, sobretudo em relação a condição de acesso a internet e equipamentos tecnológicos por parte dos estudantes do Colégio Estadual Nossa Senhora da Providência. A partir daí a questão que me veio na cabeça foi: Como ensinar Arte, Filosofia e História remotamente? Sobretudo sabendo que esses componentes curriculares metodologicamente tem o diálogo como um elemento fundamental. 

Desse modo, ainda que não estivéssemos presentes num mesmo espaço, era necessário buscar alternativas para que o diálogo ocorresse. Mas como?

O óbvio era utilizar os recursos tecnológicos para me conectar com os estudantes. Da minha parte isso não era tão difícil. Apesar de não ser um expert em tecnologia, me viro bem. Ainda mais quando o assunto é utiliza-la para fins educativos. No entanto como salientei no início, sabíamos que a maioria dos nossos estudantes não tinham equipamentos e acesso a internet com mínimo de qualidade – acessavam a internet via aparelho celular com pacote de dados móveis. 

Desse modo era preciso utilizar uma ferramenta acessível para eles. E que também, eu conseguisse fazer com os equipamentos que eu tinha – que não eram lá essas coisas.

Durante esse processo percebi que mais de 90% dos estudantes do CENSP-Lajeado tinham whatsapp ou podiam acessa-lo através de um aparelho celular de um familiar. Percebi então que este poderia ser uma ferramenta utilizada não só para informar (como era utilizado pela equipe diretiva da escola), mas também para formar. Para tanto seria necessário pensar em algo que não consumisse tanto os pacotes de dados móveis.

Das várias alternativas que foram surgindo nesse período de reflexão e pesquisa, fazer um podcast foi a que mais me atraia. Sobretudo na medida que fui me aprofundando nas leituras acerca do que era e de como fazer um podcast. E ao ouvir alguns podcast da área de Filosofia a minha conclusão foi: - Eu consigo fazer isso. 

Óbvio, teria que ser algo pensado e elaborado para minha realidade, e dos meus estudantes. Algo que atendesse ao objetivo almejado. Tendo isso claro, o momento seguinte foi o de “colocar a mão na massa”. E assim fiz, no estilo punk rock – do faça você mesmo. Desse processo surgiu o podcast Aufklärung (Esclarecimento), onde em cerca de 20 minutos eu dava uma aprofundada no conteúdo trabalhado no roteiro de estudo impresso. Isto é, referenciando o conceito Kantiano (Aufklärung), eu esclarecia,  ou tentava pelo menos, os conceitos e ideias presentes nos conteúdos trabalhados. 

Para compartilhar com os estudantes eu utilizava os grupos da turma no whatsapp – onde podiam baixar o arquivo de áudio para ouvir em qualquer momento (sem consumir muitos dados móveis da sua franquia de internet). E assim, além do roteiro de estudo impresso, tinham o podcast, com uma explicação um pouco mais aprofundada, para contribuir na compreensão acerca dos conteúdos trabalhados em Arte, Filosofia e História.

Creio que foi um canal importante para que os estudantes das terceiras séries do CENSP-Lajeado pudessem ter um material a mais para compreender os conceitos e ideias abordados nos textos encaminhados nos roteiros impresso. Conceitos e ideias que nem sempre são de fáceis compreensão (sobretudo em se tratando de filosofia), mas com uma explicação razoável, relacionando com questões do cotidiano deles, esse entendimento pode ser facilitado.

Outro ponto a se ressaltar é que os episódios eram elaborados a partir do feedback que obtiamos por parte dos estudantes, isto é,  do diálogo que conseguíamos estabelecer mesmo não nos encontrando presencialmente. E creio que a maior evidência que isso tenha ocorrido de forma exitosa pode ser encontrado no e-book Escola Vazia... onde os estudantes das terceiras séries  (regular e eja) fazem um breve relato sobre as aulas em tempos de pandemia. 

Mas enfim, se o podcast aufklärung contribuiu de alguma forma para que os estudantes das terceiras séries do ensino médio do CENSP-Lajeado tenham tido um maior aproveitamento nos seus estudos. Para mim, sem nenhuma dúvida, foi um grande aprendizado fazê-lo. Imaginar que no início eu não sabia nem o que era um podcast e no final conseguir o que conseguimos mostra bem isso. Espero também que essa experiência sirva de exemplo para mostrar aos demais educadores que mesmo em condições adversas podemos aprender e fazer a diferença. Segue, para quem quiser conferir, o link de acesso a três episódios:

História do Antigo Norte Goiano: https://www.spreaker.com/user/13141568/aufklaerung-009-hist-20200714-111953

Espinoza: Amor e Ódio: https://www.spreaker.com/user/13141568/aufklaerung-010-fil-20200718-194420

Arte Popular: https://www.spreaker.com/user/13141568/aufklaerung-008-art-20200714-113443_1

Por Pedro Ferreira Nunes – Educador Popular e Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal do Tocantins.  Atualmente é Professor da Educação Básica no CENSP-Lajeado.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Algumas palavras sobre orientação acadêmica

Um dos períodos mais temidos da vida acadêmica é quando vai se aproximando o momento de fazer o trabalho de conclusão de curso (TCC) – ainda mais se você  deixa tudo para última hora. Nesse processo um momento fundamental é a escolha do orientador. Pois é o orientador que tem a capacidade de tornar essa jornada menos estressante e até traumática para alguns. Desse modo é preciso buscar um orientador que oriente e não desoriente. Se não for possível então deve se buscar um coorientador que transforme a desorientação em orientação. 

Paulo Freire escreveu sobre o caráter autoritário dos intelectuais brasileiros no artigo “Para trabalhar com o povo” (1983). Autoritarismo que está presente mesmo quando se é de esquerda. Diz ele: “Nosso autoritarismo se transformou na arrogância, na sabedoria com que falamos, nas exigências de leitura que fazemos, no comportamento nos cursos e seminários. Citamos uns 40 livros e mandamos o aluno ler uns 200 capítulos, além dos 40 livros” (2012, p. 30). Esse autoritarismo fica mais evidente no processo de orientação de trabalhos de conclusão de curso. E leva a uma situação tão difícil que, ou o estudante troca de orientador, ou pior, paga alguém para fazer o seu trabalho.

Alguns acadêmicos nessa situação tem me procurado desesperado por não conseguirem desenvolver o TCC. E em muitos casos tenho observado que, em que pese a deficiência desses estudantes, o pior é a orientação que eles recebem – orientações que deveriam contribuir para que desenvolvam satisfatoriamente o trabalho de escrita do TCC, mas que acaba desorientando-os pela questão do autoritarismo. Quando alguém nessa situação me procura o meu trabalho é evitar que esse alguém não estoure – não desista do curso, do TCC, troque de orientador ou pague outra pessoa para fazer seu trabalho. Como? Você que lê essas linhas deve está se perguntando.

O primeiro passo é tranquilizar a criatura. Mostrar que aquilo que ela vê como impossível é totalmente possível. Mostrar que construir um artigo acadêmico não é coisa para superdotados. Há um padrão que você deve seguir, e seguindo esse padrão as possibilidades de erros diminuem enormemente. O segundo passo é convencê-la de que não adianta mudar de orientador sobretudo quando já se está num determinado estágio. O melhor é não contestá-lo, bater de frente com ele. Você precisa dele mais do que ele de você. Por tanto busque atender o que ele exige. Tentar ir contra é se estressar á toa. Terceiro, tento convencê-la a não pagar alguém para fazer o seu TCC, mas sim buscar uma espécie de coorientação.

É fato que tem algumas criaturas que por mais que queiram não conseguem escrever sozinhas – não conseguem colocar suas ideias no papel de acordo com o padrão exigido em trabalhos científicos. Isso é reflexo do nível deficitário de leitura e escrita dos nossos estudantes. Um problema que tem origem na educação básica e que na Universidade não se resolve, pelo contrário. Ai é que esse problema se explicita ainda mais a medida que o nível de exigência de leitura e escrita aumenta. 

Geralmente os cursos ofertam uma disciplina para remediar essa questão (no curso de licenciatura em Filosofia da UFT, por exemplo, essa disciplina se chama “leitura e produção de textos científicos”), que no entanto não é suficiente – tanto pela didática dos professores como pela carga horária pequena. Com isso vai se empurrando o problema ao longo do curso até que chega o pré-projeto e em seguida o TCC onde não há mais como escapar. Ou você produz um trabalho de acordo com as exigências do meio acadêmico ou não concluí o curso.

Pode se questionar si de fato é necessário todo esse peso que si joga no TCC. Se de fato é isso que define se si pode concluir o curso ou não. Que se será ou não um bom profissional. Ou se no final das contas trata-se apenas de um ritual de passagem que na prática servirá apenas para o orientador enriquecer seu currículo lattes. Independente do que seja, o fato é que as instituições de ensino exigem, portanto não há para onde correr. E se não tem para onde correr o jeito é encarar.

Daí a importância de saber escolher bem quem será o seu orientador (ou orientadora) para que essa jornada seja menos traumática possível. Ele saberá indicar se o problema que você pretende trabalhar é de fato viável e a partir daí lhe orientar para que seu objetivo seja alcançado. Um ponto que você deve ficar atento é para não ser usado pelo orientador, fazendo um trabalho em torno de um problema que não é do seu interesse mas dele. É preciso buscar um orientador que dialogue com você e não que lhe dê ordens.

Não é um caminho fácil, não se iluda quanto a isso. Por mais domínio que você tenha sobre a leitura e escrita de textos acadêmicos as dificuldades surgirão. Imagina então para quem não tem esse domínio. No entanto você pode e deve tomar algumas decisões que farão com que essa dificuldade diminua – entre essas decisões está a de buscar ajuda de um coorientador. Ele não irá fazer o seu trabalho mas sim um acompanhamento mais próximo – a ideia é tornar compreensível a orientação do orientador.

Para tanto o coorientador não pode ter um perfil autoritário. Ele deve ter a capacidade de desenvolver uma didática a base do diálogo. Compreender as fragilidades do orientando e traçar estratégias para supera-las. O coorientador deve pacificar a relação entre orientador e orientando pois assim o processo caminhará mais rapidamente. E sempre tomar consciência se o orientando está de fato compreendendo o que está fazendo – se o trabalho final corresponde aquilo que ele pensa. Pois será ele que irá encarar a banca avaliadora e, por tanto, deve está preparado para esse momento.

Para concluir, defendo a tese que o TCC não é nenhum bicho de sete cabeças, de modo que não vale a pena surtar e cortar os pulsos. É possível sim tomar algumas medidas (creio ter mostrado algumas nesse breve texto) que ajudará a diminuir as dificuldades que você por ventura encontrar durante essa jornada. E assim fazer desse momento um momento de aprendizado e não de tortura.

Por Pedro Ferreira Nunes – Educador Popular e Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal do Tocantins. Atualmente é Professor da Educação Básica no CENSP-Lajeado. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Poemas da Quarentena

Hoje 

Não haverá feira,

esquece o caldo de chambari.

Nem a resenha no bar,

é melhor não insistir.


Não haverá futebol,

segura o gritou de gol.

Nem o jogo do Kawhi,

que você tanto esperou.


O show do RDP,

não vai mais acontecer.

Nem o festival de tatoo,

que tanto queria ver.


Esquece o rolê no shopping, 

com a turma da quebrada.

A praia está cancelada, 

E aquela pedalada.


Caminhar na praça,

Não é uma alternativa. 

Ir ao cinema?

desista minha amiga.


O que tem pra hoje?

é ficar em casa.

Quem sabe lendo um livro,

Ou vendo série enlatada. 


Por Pedro Ferreira Nunes -  In Antologia Ruas Vazias: O Corona Vírus em Prosa e Verso. Editora Veloso, 2020.