terça-feira, 4 de março de 2014

Conto: Um corpo

Por Pedro Ferreira Nunes

O corpo estava ali estendido na rua. Centenas de curiosos cercavam o local tentando saber o que havia acontecido. Era uma jovem, tinha cerca de 16 para 17 anos, voltava da faculdade para casa, havia sido violentada brutalmente. Todos estavam consternados, revoltados. Ela não era a primeira vitima, outras mulheres haviam tido o mesmo destino daquela jovem. Infelizmente todos ali sabiam os culpados por aquele crime absurdo dificilmente seriam pegos, julgados e condenados. Não ao contrario, continuaram soltos cometendo mais crimes bárbaros.

O corpo estava estendido no chão do bar, o copo de cerveja quebrara com a queda, o cigarro que fumava ainda estava na sua mão aceso. Era uma bela mulher, havia decidido por um ponto final naquele relacionamento com aquele cara que mostrara se for extremamente violento. Ele não aceitava, tal como muitos por aqui. Disse que queria conversar com ela. Ela concordou, seria a ultima vez que iria encontrar com ele. Ela encontrou com ele em um bar, pediu uma cerveja, ascendeu um cigarro. Ele mais uma vez lhe pediu perdão, jurou como tantas outras vezes que nunca mais bateria nela. Mas ela estava irredutível, era o momento de por um ponto final naquela historia, começar uma nova vida. Ele não aceitou, puxou o revolver que carregava na cintura e descarregou nela. Mais uma vitima do machismo, mais uma vitima da violência contra a mulher, mais uma estatística que não terá uma solução.

O corpo foi encontrado em baixo de uma ponte, no mato, em um lugar isolado. Ela era tão jovem, tinha apenas treze anos. Seu corpo havia sido todo esfaqueado, mais de vinte facadas. – Por que tanto ódio. O assassino acreditava que ela era um empecilho para o seu romance com a mãe dela. Ela só queria ver sua mãe feliz, ao lado de um homem que realmente a merecia, e este homem não era ele. Tanto que ele mostrou ao assassinar uma criança que tinha todo um futuro pela frente.

O corpo foi encontrado em um quarto, em cima da cama. Era jovem, havia acabado de deixar a casa da mãe para morar na capital, não tinha um bom relacionamento com o padrasto. Estava feliz, estudava e trabalhava, arranchou um namorado. Acreditava que ele era um príncipe encantado, queria casar, ter filhos, constituir uma família junto com ele. Mas todos os seus sonhos tiveram fim nas mãos daquele que ela acreditava ser o grande amor de sua vida.
O corpo foi encontrado boiando no rio Tocantins, amarrada, após ser abusada violentamente. Era mais uma jovem vitima da violência contra as mulheres, mais um numero mais uma estática, mais um crime sem solução no nosso estado, no nosso país.

Todos os dias as mulheres do nosso estado vão estudar, vão para o trabalho sem saber se voltaram. Em cada esquina, em cada beco poderão se tornar mais uma vitima, mais um número, mais uma estatística. As mulheres da minha terra sabem que a qualquer momento podem se tornar a próxima vitima da violência contra a mulher, mesmo em suas casas, onde deveria ser seu porto seguro.


Corpos e mais corpos, a cada dia mais corpos. Jovens, mulheres trabalhadoras vítimas da violência. E o governo o que faz? E as autoridades o que fazem? Nada. Até quando continuaremos sem fazer nada? Infelizmente isso não são histórias fictícias, são baseadas em fatos reais de violência contra as mulheres no Tocantins.

– Basta de violência contra as mulheres já!

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