segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A pergunta que não se fez!

A melhor maneira de desviar o foco do problema é fazendo perguntas que não tem haver com a questão em pauta. E me parece que foi exatamente isso que ocorreu no episódio em que policiais civis mataram um policial militar em Gurupi. E se querem tirar o foco com a conivência da imprensa regional é por que tem algo que querem esconder. Para compreendermos o problema precisamos ir à raiz fazendo a pergunta ou as perguntas que ninguém fez.

Mais do que depressa a cúpula da segurança pública do Tocantins veio a público comunicar que não havia uma crise institucional entre as duas corporações. E foi a isso que a imprensa regional deu ênfase – a meu ver para tirar o foco do problema. O problema é saber o porquê e a mando de quem dois policiais militares a paisana (numa moto) assassinaram duas pessoas e balearam outras duas nas ruas de Gurupi. Quem eram essas vitimas? Que crime cometeram? E se cometeram algum crime por que foram executadas ao invés de serem presas? 

São perguntas que precisam ser feitas e que a segurança pública do Tocantins tem a obrigação de responder. Pois se não, estará sendo conivente com os crimes praticados pelos dois policiais militares – crimes confessado num primeiro momento pelo sobrevivente no confronto com os policiais civis. Ao não responder essas questões o governo estadual através da sua secretária de segurança pública nos dá margem para especular a existência de “um grupo de extermínio” no seio da policia militar.

E é a partir dai que surge a pergunta que ninguém fez: existe um grupo de extermínio na polícia militar? O vídeo gravado em tom de ameaça no velório por um companheiro de corporação do policial militar morto no confronto com a polícia civil só corrobora com essa tese. 

De acordo com o portal AF Noticias no vídeo o policial declara que “amigos e combatentes estarão sempre continuando a guerra que ele começou” bem como “o nosso irmão não morreu em vão e vai ser honrado”. A postura da cúpula da segurança pública diante das declarações foi de “jogar panos quentes” dizendo que não se tratava de uma ameaça. Mas as declarações falam por se só e reforça a conivência com os crimes que ocorreram bem como com o objetivo de desviar o foco do problema.

Ora, não houve confronto entre Policia Civil e Policia Militar. O que houve foi um confronto entre uma equipe da policia civil com dois indivíduos numa moto que estavam cometendo crimes pelas ruas de Gurupi – indivíduos esses que depois veio a se saber – eram policiais militares. E esse fato não dá nenhuma margem para que se avente a possibilidade de uma crise institucional entre as corporações. Mas a cerca da possibilidade de existência de um grupo de extermínio sim. É só analisarmos as características das vitimas – todos jovens. Bem como o modus operandis de agir dos executores.

Porém não cabe a mim dá respostas às questões levantadas. Mas sim a cúpula da segurança pública do Tocantins. Para tanto o Ministério Público e a Defensoria Pública devem cobrar essas respostas. Pois a sociedade tem o direito de saber.

Pedro Ferreira Nunes – é Educador Popular e Militante do Coletivo José Porfírio. Cursou a faculdade de Serviço Social e atualmente cursa Filosofia na Universidade Federal do Tocantins.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Um jabuti no pacote: Comentário sobre a sessão da Câmara de Vereadores de Lajeado que aprovou adicional de Férias para os Vereadores.

Na sessão da Câmara de Vereadores de Lajeado realizada no dia 25 de outubro (2018) foi aprovado um pacote com diversos projetos proposto tanto por parte do legislativo como do executivo municipal. Entres estes projetos um chamou atenção – o que concede adicional de férias para os vereadores. Estava lá escondidinho em meio a outros projetos – como uma espécie de jabuti.

Não, não estamos falando do réptil. Mas de uma prática bastante comum nos legislativos de norte a sul do país – que é a inserção por parte de parlamentares de propostas impopulares no meio de um pacote de medidas. Sendo que essas propostas impopulares destoam do pacote. E como são temas polémicos – a ideia é camufla-lo para que passe sem maiores resistência. Tal pratica é conhecida no meio político como inserir um “jabuti”. Na esfera federal essa questão mereceu inclusive uma decisão do Supremo Tribunal Federal proibindo as chamadas “emendas jabutis”.

Na sessão os vereadores do legislativo lajeadense aprovaram a mudança de nome da Avenida Palmas, que agora passará a se chamar Avenida Anísio Gomes de Gouveia. A denominação de Praia Pública do município do Lajeado. A realização de concurso para escolha do Hino oficial de Lajeado. Além de requerimentos na área de infraestrutura e assistência social. Até ai tudo bem, mas incluir no meio desse pacote a concessão de adicional de férias para os vereadores é muito estranho. Não vou nem entrar no mérito aqui se os vereadores merecem ou não adicional de férias. O que nos interessa é a forma com que o projeto foi pautado e aprovado.

Ora, nos parece bastante evidente que incluir um projeto que cria um adicional de férias para os vereadores que impactará os cofres públicos – num pacote de projetos como mudança de nome de rua é no mínimo questionável. Mas o fato é que não é a primeira ação questionável da autora do projeto que também é presidente da casa de leis – a senhora Leidiane Mota (PSD). 

Ela é autora de projetos de lei como o que cria o serviço de wi fi gratuito na cidade e a oferta gratuita de transporte para os moradores da cidade que trabalham em Palmas – projetos que foram aprovados pelo legislativo lajeadense mas que nunca se efetivaram. Pois na verdade serviram apenas como uma cortina de fumaça “para cobrir o mal estar gerado junto à população com a reforma desnecessária do prédio da câmara municipal” (NUNES, 2017).

Bem, o projeto de lei que cria o serviço de wi fi gratuito na cidade e a oferta gratuita de transporte para os moradores que trabalham em Palmas não saíram do papel. E o adicional de férias para os vereadores sairá? 

Oh, meu camarada. Tu tens alguma dúvida disso? É óbvio que sairá – pois quem são os beneficiários se não os próprios vereadores?! Se ainda fosse para os servidores públicos teria minhas dúvidas. Pois com certeza ouviríamos o discurso de que “estamos em crise e não temos condições” para tanto. Mas como é para criar mais um privilégio para quem já é tão privilegiado não há nem discussão – nem uma audiência pública para pelo menos tentar convencer a população de que os pobres vereadores que ganham um salário de fome precisam de um adicional de férias.

É, no ritmo que vamos, e diante da inercia da população, não me espanta se futuramente propuserem a aprovação de um auxilio moradia.

Pedro Ferreira Nunes – é Educador Popular e Militante do Coletivo José Porfírio. Cursou a faculdade de Serviço Social e atualmente cursa Filosofia pela Universidade Federal do Tocantins. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Soube que você irá votar no Bolsonaro

Decerto nasceu em berço de ouro,
herdou uma grande herança.
Ou é um banqueiro,
um empresário,
um latifundiário.
De modo que você não precisa:
se preocupar com salario mínimo,
décimo terceiro,
férias,
aposentadoria.
Não precisa do SUS,
pois pode,
pagar um plano de saúde privado.
Não precisa de universidade pública,
pois pode muito bem
estudar na Europa.
Aliás, pra quer estudar né?!
Se você tem um líder
que lhe diz o que precisa saber.
É homem,
branco,
hétero.
E cristão (ainda que só no discurso).
Se esse for o seu caso,
não ti tiro a razão.
Deve de fato
votar no Bolsonaro.
Mas se for o contrário,
há algo de muito errado,
com você.

Pedro Ferreira Nunes – é “apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”.

(*Inspirado livremente no poema “Soube que vocês nada querem aprender” do Bertold Brecht)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Perfil de um eleitor do Bolsonaro numa pequena cidade do interior do Tocantins

Geralmente o eleitor do Bolsonaro se caracteriza por um discurso moral, sobretudo em torno do slogan “Em defesa de Deus e dos valores da família”. O nosso personagem não é diferente. Não revelarei seu nome para evitar maiores problemas, mas como os fatos que relatarei não é segredo por essas bandas não será difícil encontrar testemunhas que comprove não se tratar de um personagem fictício. É interessante conhecermos o seu perfil, sobretudo para compreendermos o discurso moral e o fundamental – a sua dimensão ética. 

Nossa figura é homem, de origem negra, hétero e evangélico protestante. Veio das bandas do Maranhão para trabalhar na Usina Hidrelétrica Luiz Eduardo Magalhães. Aproveitando o “boom” de crescimento da cidade com a vinda de operários de vários cantos do país para trabalhar na obra decidiu se aventurar no comercio e prosperou. Tornou-se, portanto um cidadão “modelo” e “respeitado” na cidade. Tornou-se inclusive um líder religioso admirado a nível regional – com programa na rádio local – onde todas as manhãs pregava “a palavra de Deus” as famílias. A partir dai não é de se admirar que se tornasse um líder político – elegendo-se vereador do município.

Como se vê não estamos diante de uma figura qualquer – é o retrato fiel de “um cidadão de bem” defensor de “Deus e dos valores da família”. E foi em nome desses valores que ele traiu sua esposa e fugiu com a cunhada. Mas tudo bem, ele se arrependeu, voltou e ela o aceitou. A segunda traição foi com a nora. E depois dessa o casamento chegou ao fim. Assim como o programa na Rádio, pois foi de mais até mesmo para comunidade evangélica tê-lo como porta voz. Para completar a Policia Federal bateu na sua porta para investigar “um esquema de doação de lotes em troca de apoio político”. O que acabou culminando com a sua não reeleição para a Câmara de Vereadores.

Porém nada disso impede que ele continue pregando pelos quatro cantos “a palavra de Deus” e “os valores da família”. Defendendo e sendo um dos principais cabos eleitorais da figura que promete moralizar o Brasil – livrando-nos da má influencia comunista. Como se os comunistas tivessem alguma relevância significativa hoje na sociedade. Ainda mais no interior do Tocantins. Ora, esses “valores morais” que ele diz defender não passa de discurso. Pois na realidade ele faz justamente o contrário daquilo que prega. 

É uma grande incoerência não?! Na verdade não. Ele segue exatamente a linha do seu líder – Bolsonaro – que se caracteriza pela seguinte máxima: - faça o que eu digo, não o que eu faço. É a partir dai, portanto, que podemos compreender o discurso moral do senhor Bolsonaro e principalmente daqueles que o seguem – como é o caso do nosso personagem. Um discurso que na prática se torna moralismo – que se caracteriza pela “supervalorização de uma moral tradicional”. (Marcondes, 2002)

O filósofo espanhol Adolfo Sánchez Vásquez (2006) diz que os homens “em seu comportamento prático-moral, não somente cumprem determinados atos, como, ademais, jul¬gam ou avaliam os mesmos; isto é, formulam juízos de aprova¬ção ou de reprovação deles e se sujeitam consciente e livremente a certas normas ou regras de ação”. Não é o caso do nosso personagem, que não julga ou avalia seus atos, mas o que os outros fazem. Para ele o problema está sempre no outro e não em si mesmo. Minha mãe tem um ditado interiorano sensacional que explica isso que é: “macaco não olha pro rabo, só pro toco da cotia”. Traduzindo: em vez de olhar para os nossos defeitos, preferimos apontar o dedo para o defeito dos outros.

Diante disso e a luz do que nos diz Adolfo Sánchez Vásquez, podemos dizer que não existe uma dimensão ética no discurso moral do nosso personagem. Para Vásquez (2006) “a ética , quando trata de definir o que é bom, recusa reduzi-lo àquilo que satisfaz meu interesse pessoal, exclusivo” com isso “evidentemente influirá na prática moral ao rejeitar um comportamento egoista como moralmente valido”. É justamente o contrário do que vemos em marcha no Brasil – onde sobra moralismo e falta ética – e o nosso personagem assim como o seu candidato é apenas um dos muitos exemplos.

Pedro Ferreira Nunes – é “apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Prorrogada até 10 de novembro a chamada de inscrição de trabalhos para serem apresentados na V Semana Intercurso de Filosofia e Teatro e IV Jornada Filosófica da UFT

Estão prorrogadas  até o dia 10 de novembro  as inscrições
para apresentação de trabalhos na V Semana Intercurso de Filosofia e Teatro e IV Jornada Filosófica da UFT. Os eventos ocorreram entre 26 e 30 de Novembro de 2018 – na UFT Campus Palmas. E como temática a semana intercursos abordará a questão da “ARTE, POLÍTICA, HOJE” e a jornada filosófica “A SOLIDÃO NO SÉCULO XXI”.

Das regras para inscrição dos trabalhos

No caso de Comunicações deverá ser enviado um
arquivo doc ou docx com o nome do autor e coautor (se tiver), o título da comunicação e também um breve resumo que deverá ter no máximo 250 palavras. Já para Minicursos deverá ser enviado o nome do autor e coautor (se tiver), o título do minicurso e a proposta de conteúdo.

Em relação à apresentação das comunicações, se darão em mesas temáticas e cada autor e coautor (se tiver), disporá de 15 (quinze) minutos para apresentação. Em seguida haverá 5 minutos para debate em cada trabalho.

As inscrições deverão ser feitas exclusivamente pelos e-mails (no caso da IV Jornada Filosófica o e-mail é: uft.cafil@gmail.com. E na V Semana Intercursos de Filosofia e Teatro é: inscricaotrabalhofilosofiauft@gmail.com).

Todas as propostas recebidas serão avaliadas por uma comissão que enviará um e-mail confirmando os trabalhos aprovados.

Da organização

A semana intercurso de Filosofia e Teatro é uma realização conjunta dos colegiados dos cursos de licenciatura em Filosofia e Teatro da Universidade Federal do Tocantins. O Evento que ocorre anualmente e já caminha para sua quinta edição. A jornada filosófica que acontece semestralmente, a partir da sua terceira edição passou a ter a organização a cargo do Centro Acadêmico Professor José Manoel Miranda – CAFIL.

A importância dos eventos

Tanto a semana intercurso de Filosofia e Teatro como a Jornada Filosófica são espaços importantes de promoção do intercâmbio acadêmico das e dos estudantes de Filosofia e Teatro da Universidade Federal do Tocantins e de outras instituições. E da discussão de temas relacionados à educação em geral, e no campo da filosofia e do teatro em particular, através da realização de palestras, minicursos e apresentação de trabalhos.

De modo que fica o convite para todas e todos participarem desses eventos, que pautaram temáticas importantes, sobretudo no contexto atual brasileiro.

Pedro Ferreira Nunes
Pela Coordenação Geral do Centro Acadêmico Professor José Manoel Miranda – CAFIL/Gestão Despertar é preciso!

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Breve reflexão sobre as eleições no Tocantins: A derrota.

A maior derrota no processo eleitoral no Tocantins não foi de Carlos Amastha (PSB) que não conseguiu levar a disputa pelo governo do Estado ao segundo turno. Também não foi de Vicentinho que se destacava nas pesquisas como o favorito para ocupar uma das duas vagas ao senado. Ou da esquerda representada pela candidatura do PSOL que não conseguiu se quer alcançar o voto de 1% do eleitorado. Sem dúvida a maior derrota dessas eleições é de Marlon Reis da Rede Sustentabilidade. Por quê? Vejamos.

De todos os candidatos que se apresentavam para disputa ao Palácio Araguaia, Marlon Reis era a novidade. Afinal de contas, oriundo do judiciário, seria a primeira vez que disputaria um cargo eletivo. E apostando na possibilidade de crescimento diante do desgaste de representantes da política tradicional no Tocantins ele se lançou. No entanto nós já alertávamos para o fato de que “se fosse uma eleição municipal numa disputa pela prefeitura da capital ou de uma grande cidade do interior como Araguaína, Gurupi, Porto Nacional ou Paraiso. Sem duvidas Marlon Reis seria um nome com condições reais de pelo menos incomodar”. Mas também pontuamos que sua candidatura poderia “desempenhar um papel importante” tanto pelo fato de qualificaria o debate bem como apontaria “formas alternativas de fazer política”. (CONJUNTURA POLÍTICA NO TOCANTINS, 2018).

Veio então à eleição suplementar e Reis surpreendeu com uma votação expressiva alcançando quase 10% do eleitorado (56 mil votos). E a surpresa maior foi ter conseguido derrotar candidaturas tradicionais em vários colégios eleitorais – isso sem aliança com grandes partidos, sem tempo de TV e pouca estrutura. De modo que Marlon Reis saia fortalecido do processo eleitoral suplementar – inclusive mais fortalecido que nomes que haviam ficado a sua frente na disputa. O que fez com que ele e seu grupo político logo passassem a vislumbrar algo maior nas eleições regulares.

Até ai tudo bem. De fato o resultado apontava que havia espaço para construção de uma terceira via. Mas o problema é quando Marlon Reis e seu grupo político na busca por alçar voos maiores se alia a grupos da política tradicional tocantinense. Com isso ele ganha mais tempo de TV e maior estrutura. Mas perde aquilo que fazia de sua candidatura uma novidade – autonomia das grandes legendas e uma forma alternativa de fazer política. Perde também a credibilidade diante do eleitorado que passa a vê-lo como mais do mesmo. É o que reflete a sua votação na eleição regular que alcançou apenas 6,68% do eleitorado (47.046). Como se vê, de 56 mil nas eleições suplementares, que inclusive foi mais disputada que a eleição regular e teve menos votantes, o candidato da Rede caiu para pouco mais de 47 mil votos.

Mas a grande derrota de Marlon Reis, não foi ter tirado menos voto e não ter sido eleito. Isso era previsível. A sua derrota foi ter abrido mão dos princípios que dizia defender. Se mantivesse a coerência construiria uma base solida para as próximas disputas eleitorais. Já que a base que se formou em torno da sua candidatura foi única e exclusivamente por oportunismo. Muitos dos partidos que se aliaram com o candidato da Rede só o fizeram por que tiveram as portas fechadas nas coligações comandadas por Carlesse e Amastha.

Marlon Reis foi um tanto ingênuo ao achar que podia contar com o engajamento dos grupos da politica tradicional em torno da sua candidatura – estes quase sempre estavam em palanques dos seus adversários. E assim, em vez de usa-los, Marlon Reis foi usado por eles, e bem usado. Pois afinal de contas à coligação encabeçada por Marlon Reis elegeu o senador Irajá Abreu (PSD) além de deputados federais e estaduais. Porém nenhum é da Rede Sustentabilidade – que sai da eleição como entrou, sem nenhum representante no parlamento.

E como esses que foram eleitos na chapa encabeçada por Marlon Reis não tem uma aliança programática com a Rede Sustentabilidade. É óbvio que mudaram de lado – irão para o lado de quem está com a máquina pública na mão.

É diante de tudo isso que para nós fica evidente que a maior derrota dessas eleições é de Marlon Reis da Rede Sustentabilidade. Pois no final das contas mesmo sendo derrotado – Carlos Amastha conseguiu uma votação expressiva, inclusive aumentado a sua votação em relação à eleição suplementar. A derrota de Vicentinho também não foi a pior dessas eleições. Afinal de contas desde o inicio do pleito apontávamos que a disputa pelas duas vagas do senado seria a mais concorrida da história do Tocantins.  Não dá para negar que surpreendeu muita gente, inclusive as pesquisas. Porém se olharmos para o cenário nacional perceberemos que Vicentinho não foi o único cacique da política a perder o mandato no senado nacional. Já quanto à votação do PSOL, também não vemos como uma derrota – derrota seria não ter uma candidatura própria e se aliar com um partido da ordem – como defendiam alguns no PSOL Tocantins.

Sendo assim é de fato Marlon Reis e seu grupo político que saem com a maior derrota e a grande frustração dessas eleições no Tocantins. Resta saber se terão força para tentar reverter essa derrota nas disputas eleitorais futuras – uma tarefa que não é impossível. Afinal de contas em política os derrotados de hoje, poderão ser os vencedores de amanhã. Para tanto é preciso tirar lições das derrotas para não repeti-las. Se estão dispostos a isso, saberemos futuramente.

Pedro Ferreira Nunes – Educador Popular e militante do Coletivo José Porfírio. Cursou a faculdade de Serviço Social e atualmente estuda Filosofia na Universidade Federal do Tocantins.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Resenha: “Marx: Vida e Obra” por Leandro Konder

“Marx elaborou as bases de uma vasta concepção do homem e do mundo. Por força das condições em que viveu e em virtude da urgência das tarefas que se impôs, não pode desenvolver suas idéias no que concerne aos diversos planos da atividade humana: concentrou-se nos exame dos problemas econômicos, sociais e políticos.”
Leandro Konder

Nesse ano em que se celebra os 200 anos do natalício de Karl Marx têm sido publicado várias livros que resgatam a sua trajetória de vida bem como a relevância das suas obras. Porém não falaremos aqui de uma dessas novidades. Mas de um livro que já foi publicado há certo tempo – a primeira edição data de 1968. Trata-se de “Marx: Vida e Obra” escrito pelo filósofo Leandro Konder. A edição da qual falaremos é a 7ª publicada pela editora “Paz e Terra” em 1999.

Comecemos, pois falando do autor do livro – Leandro Konder – sem dúvidas uma das referencias filosóficas na América Latina nos estudos Marxianos e Marxistas. Leandro Konder Nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1936 numa família envolvida com a militância política. Inclusive seu pai – o médico Valério Konder – era líder comunista. Leandro Konder por sua vez formou-se em Direito, mas foi na Filosofia, onde doutorou-se, que digamos, ele se encontrou. Dedicou boa parte da vida a militância política e a docência e é a partir daí que surgiram suas obras. Entre elas podemos destacar: “Marxismo e alienação”, “O que é dialética”, “O marxismo na batalha das ideias”, “O futuro da filosofia da práxis”, “A questão da ideologia” e “Sobre o amor”.

 “Marx: Vida e Obra” é dividido por tópicos que são desenvolvidos de forma breve. Ele parte do “Nascimento” de Karl Marx em “Tréves, no sul da Prússia Renana, região situada hoje na Alemanha” (pag. 11). Passando pela “infância”, a relação com sua companheira de toda a vida – “Jenny”. A vida universitária, a atividade como jornalista, a amizade e parceria com “Engels”. O seu desenvolvimento intelectual, a militância política, as “polêmicas” travadas com tudo e todos. As perseguições que sofrerá fazendo com que “mudasse mais de país do que de sapatos” como diria Brecht. A miséria permanente, as perdas sofridas, enfim a “morte” e o seu legado.

E no meio de todas essas questões Leandro Konder vai introduzindo os principais conceitos marxianos e o contexto em que foram elaborados. Por exemplo, “Alienação”, “Dialética”, “Materialismo”, “Prática”, “Mais-Valia” entre outros. Tudo numa escrita bem objetiva – no intuito apenas de introduzir Marx aqueles que não o conhecem, mas querem se aventurar nos estudos da sua obra. Konder acerta na medida, sobretudo ao deixar aquele gosto de “quero mais”. E isso leva o leitor a ir buscar outras leituras, especialmente do próprio Karl Marx.

Para se ter uma ideia como ele desenvolve isso vejamos um trecho do livro no tópico sobre a polêmica que ele trava com “Proudhon”, polêmica da qual teve como fruto a obra “A miséria da Filosofia” em resposta “A filosofia da miséria” de Proudhon.

"Proudhon condenava a filosofia dos que procuravam explorar a miséria dos trabalhadores, conduzindo-os por caminhos revolucionários (que, a seu ver só lhe trariam prejuízos). Marx criticou Proudhon por reduzir a dialética hegeliana às proporções mais mesquinhas que poderiam ser imaginadas. “Na França, ele tem o direito de ser um mau economista, porque passa por ser um bom filósofo alemão. Na Alemanha, tem o direito de ser um mau filósofo, porque passa por ser um dos melhores economistas franceses”." (KONDER, 1999; 59)

É essa trilha que Leandro Konder segue por toda a obra. Trazendo questões da vida e da obra de Karl Marx intercalando com citações diretas do próprio biografado. Como podemos verificar em mais um trecho no tópico onde o autor aborda a “Dor” sofrida por Marx com a perda do filho Edgar aos nove anos de idade. 

"A morte do garoto deixou Marx acabrunhadíssimo. Em total prostração, ele escreveu a Engels: “tenho passado por todas as espécies de dificuldades, mas só agora sei mesmo o que é uma verdadeira desgraça”. E, dois meses depois, ainda escreveu a Lassalle: “Bacon diz que os grandes homens têm relações tão diversas com a natureza e com o mundo, têm tantos objetivos a reter-lhes a atenção, que lhes é fácil esquecer a dor de qualquer perda. Pois bem: não sou um desses grandes homens. A morte de meu filho me abalou profundamente o coração e a cabeça. E continuo a sentir-lhe a falta com a mesma intensidade que no primeiro dia”. "(KONDER, 1999:87)

A narrativa de Konder não é cansativa, pelo contrário. Tem uma verve literária que torna a leitura por demais agradável. E assim vemos se materializar diante de nós o homem que Engels definiu como “Revolucionário” que se dedicou a cooperar de diversas formas com a superação da “sociedade capitalista e das instituições de Estado por ela criadas”. O homem que tinha como elemento a luta. “E lutou com paixão, uma tenacidade, um êxito, como poucos.” (Engels)

Falando da posteridade da obra de Karl Marx, Leandro Konder ressalta que mesmo pensadores não marxistas reconhecem a vitalidade do seu pensamento.

"é por isso que um Heidegger por exemplo, no fim da vida estava se dedicando a reflexões sobre temas colhidos na obra de Marx. É por isso que Jean-Paul Sartre, tendo partido de pontos de vista existencialistas, desemboca na conclusão de que: “o marxismo é a filosofia insuperável do nosso tempo”. E é por isso que o católico Jean Lacroix, replica àqueles que se apegam a uma versão dogmática do marxismo, escreve: “Em sua inspiração mais profunda, o espirito marxista é, sem dúvida, uma negação radical de todo dogmatismo”." (KONDER, 1999; 151)

Sem dúvidas “Marx: Vida e obra” de Leandro Konder é uma ótima maneira de se introduzir nos estudos da obra Marxiana. E por que começar lendo uma biografia em vez de ler o próprio Marx? Por que acreditamos, tal como aponta uma perspectiva hermenêutica, que não podemos conhecer a obra de um autor sem entender quem foi esse autor e o contexto no qual ele desenvolveu suas ideias.

Além disso, não podemos deixar de lado a biografia de Karl Marx para não cairmos numa visão reducionista da sua obra ou então tirar o seu conteúdo subversivo e revolucionário. Isso não quer dizer que devemos, se de fato queremos entende-lo, se limitar a leitura de uma biografia. 

Aliás, o próprio Leandro Konder deixa claro que o seu objetivo com essa obra é apenas nos legar uma “breve introdução a Marx”. Afirmando que “quem quiser aprofundar seus estudos sobre Marx e suas concepções, evidentemente, deverá procurar lê-las nos próprios textos de sua autoria”. (KONDER, 1999; 153). Uma questão fundamental, sobretudo nos tempos medíocres que vivemos.

Pedro Ferreira Nunes – Cursou a Faculdade de Serviço Social e atualmente estuda Filosofia na Universidade Federal do Tocantins.  É Educador popular e Militante do Coletivo José Porfírio.