domingo, 20 de setembro de 2026

Uma dose de punk rock - Delinquentes e Cérebro de Galinha

Tenho ouvido bastante punk rock, tanto nomes mais clássicos como novos artistas que levam adiante o grito contra uma sociedade opressora. É incrível a quantidade de trabalhos bons que encontramos de bandas de várias partes do globo. Muitas já estão há algumas décadas na estrada, outras são novatas mostrando a validade do lema: "Punk is not dead" - um grito de resistência necessário ainda mais num contexto em que o fascismo tem atraído milhões de jovens. O punk tem como essência a luta contra toda forma de opressão - e sendo o modo de produção capitalista opressor - o punk é portanto anticapitalista e antifascista. Para evidenciar melhor o que estou dizendo, conheçamos alguns nomes que quem gosta desse tipo de música, na minha visão, não pode deixar de ouvir. 

Comecemos por uma banda veterana do norte do Brasil, isso mesmo - quem disse que não tem punk rock no norte do Brasil? Estou falando da Delinquentes - de Belém do Pará - formada atualmente por Jayme Katarro (vocais), Paulo Bigfoot (guitarra), Pablo Cavalcante (baixo) e Victor Peixe (bateria). Com um som veloz e letras com uma forte crítica social o grupo construiu ao longo das décadas uma discografia de respeito com quatro álbuns de estudo: Pequenos Delitos (2000), Indiocídio (2010), Infectus Humanus (2019) e A Serpente (2024). Além de dois materiais de apresentações ao vivo: Planeta dos Macacos - Ao Vivo na Praça da República (2022), Delinquentes ao Vivo no Hangar 110 (2023). Conheci a banda ouvindo pequenos delitos (2000). Já nos primeiros acordes percebi que não era um trabalho qualquer como muitos que nos deparamos. Qual não foi minha surpresa, ao pesquisar mais sobre a banda, descobrir que eram do norte do Brasil. Compreendo que isso é reflexo de um trabalho realizado pela mídia direcionando o nosso olhar para uma determinada região do país (eixo Rio-São Paulo) e assim mesmo vivendo na região ignoramos artistas como esses. A própria cena faz isso. Quando temos um festival os nomes de destaques geralmente são de bandas que estão no centro econômico-cultural do Brasil.

Varando as baixadas, passando por cima de pontes
Pessoas iludidas esperando um amanhã sombrio
A diferença é forte, crianças e velhos sem ter onde morar
Outros tem três quartos, um pra dormir e dois pra brincar

O trecho acima é da canção gueto que compõem o álbum Pequenos Delitos (2000), na qual percebemos uma crítica à desigualdade social. 26 anos se passaram e o que a letra trás continua extremamente atual. Atual também é a crítica que eles fazem em indiocídio, do álbum homônimo:

Culturas tombadas sob a cruz religiosa
Pureza assassinada por ambições pecaminosas
Ruinas da selva ensanguentada
Ruinas da selva petrificada
Fugas em desespero ao paraiso do pecado
O inferno urbano reciclando o bizarro

A reflexão aqui trata-se do etnocídio que as religiões continuam cometendo contra os povos indígenas. Com o discurso perverso de levar a salvação para essas comunidades o que observamos é o extermínio da cultura nos territórios que grupos religiosos conseguem adentrar. Chamo atenção também para atualidade de Monstros Nazistas:

Nascidos da pobreza de pensamentos antropófagos
Sentimentos de uma raça se opondo a outra igual
Filhotes crescidos de um fascismo assumido
O mais auto grau do puro idiotismo

Idiotismo que observamos nos seguidores do Bolsonarismo - fenômeno que tem tomado conta da política nos últimos anos - defendendo o que há de mais abjeto na nossa sociedade. Enfim, há muitas outras canções da Delinquentes que valeria a pena destrincharmos aqui ainda que de forma breve, mas ficamos por aqui. Vamos para o nosso próximo nome. Continuando na região norte - no Pará - mas em outra cidade - Marabá - temos a Cérebro de Galinha.

Na Cérebro de Galinha temos um som mais sujo com um vocal gutural potentíssimo. Os caras espancam os instrumentos com um ódio pulsante. As letras metem o dedo na ferida abordando expressões da questão social como também conflitos internos que todo ser humano enfrenta. Ainda mais um jovem que nasceu na periferia e não tem muita perspectiva. O destaque fica por conta do baterista (Suco) e do vocalista (Cego) que são a banda em si. Conheci o som dos caras por meio de um vídeo do ensaio que disponibilizaram na internet. E a partir daí fui buscar mais material e descobri que já lançaram os seguintes materiais de estúdio: Sociedades Secretas (2018) e Norte em Chamas (2021). E os ao vivos: Cérebro de Galinha (Ao Vivo no T'rextúdio) (2022), Mundo em Caos (2015) e Vozes da Quebrada (2025). Há também um documentário que retrata a viagem que fizeram para alguns shows em São Paulo - A viagem da Galinha Morta. E uma demo de 2017.

O primeiro álbum que eles gravaram está disponível em plataformas de ouvir música na internet e a qualidade é muito boa. Destaco a canção que abre o trabalho, Ameba, onde eles chamam atenção para consequência de quem se torna um viciado:

Colhendo o mal pelo diabo plantado
Sobrevivendo num limbo
Não restou mais nenhum amigo
A não ser a porra de um cachimbo

Também no mesmo álbum temos a pesadíssima Hipócrita onde destilam ódio contra os falsos moralistas.

Filho da puta, vai se foder
Playboy do caralho, só quer aparecer
Filho da puta, tem que morrer
E com o seu ego desaparecer
Mas um dia vai se convencer
Que ficar por cima só te faz perder
E finalmente vai perceber
Que cagar pros outros é cagar pra você

Se no primeiro trabalho a crítica deles é mais voltada para o Eu - essa entidade criada pela filosofia moderna que nos fez achar que somos o centro do universo e que no neoliberalismo é levado à exaustão. Em Norte em chamas (2021) eles focam mais em expressões da questão social como por exemplo em racismo onde chamam atenção para persistência dessa problemática e gritam pelo fim da segregação racial. Também desse mesmo trabalho temos reintegração de posse onde denunciam que a lei está a serviço de quem tem poder - mesmo com a constituição federal determinando a desapropriação de propriedade que não cumpre a sua função social. 

Reintegração de posse
não conte com a sorte 
não há deus por aqui…

Que o diga às vítimas do massacre do Eldorado dos Carajás, do massacre de Corumbiara entre tantos outros casos vitimando camponeses pobres, trabalhadores sem terra, quilombolas e indígenas. Chamo atenção também para Pororoka (Devastação da amazônia/ para expansão rural)  denunciando a destruição da natureza para gerar riquezas para os donos do capital e Norte em chamas (O Estado quer nos matar…sangue, sangue, sangue… Nascido de um estupro… Norte, Norte, Norte. Norte em chamas). Para finalizar destaco a canção Professores, de uma demo que gravaram em 2017:

Tirando a liberdade e autonomia do professor
Tratando como lixo quem deve ser tratado como senhor
E o governo autoritário cada vez mais opressor

Essa canção nos faz lembrar do movimento escola sem partido que sob o manto da neutralidade liderou um conjunto de ações que buscavam criminalizar o fazer pedagógico do professor/professora, especialmente os da área de humanas. Tanto que nesse contexto tentaram retirar a Filosofia e Sociologia do currículo da educação básica. Infelizmente esse movimento não foi derrotado e está presente nos programas de governo de nomes como Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e Renan Santos.

Enfim. Nossa ideia inicial era apresentar aqui outras bandas, mas Delinquentes e Cérebro de Galinha renderam bastante. Então paro por aqui. Mas com a intenção de fazer uma segunda parte e talvez outras mais. Quem sabe! O tempo irá dizer.

Por Pedro Ferreira Nunes – um rapaz latino americano que gosta de ler, escrever, correr e ouvir Rock in Roll.

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