terça-feira, 25 de novembro de 2025

- O que tu fizeste da vida? - O que nos tornamos!

Quando nos vimos pela última vez eu era um jovem interiorano sem muita perspectiva. Você já era uma mulher que há pouco tempo havia concluído um curso universitário e estava dando início a carreira profissional. Nos relacionávamos há uns dois anos. Havia amor entre nós. Mas nosso relacionamento não tinha perspectiva de futuro. Eu era uma espécie de porto seguro para onde você ia quando retornava de suas aventuras. Você para mim era a fuga de uma vida medíocre. Mas nem sempre você vinha, pois espírito livre como era não se deixava prender. Eu queria mais do que você podia me dar. Nunca deixei de pensar em você desde então. Não foram poucas as vezes que idealizei um reencontro. Por onde estava? Como estava? De vez em quando ouvia uma conversa sobre você. Eu fingia não dar muita importância para não mostrar meu interesse. Um dia a noite assistindo televisão, quase 20 anos depois da nossa despedida, recebo a ligação de um conhecido perguntando se podia passar meu telefone para você. Não acreditei. Teríamos então o nosso reencontro. Será que seria bom? Autorizei que o meu telefone fosse passado para você e fiquei aguardando o contato. Não foi naquele dia, nem no dia seguinte, nem na semana seguinte. Eu não fui atrás. Quando então do nada recebo uma mensagem. Aquilo mexeu comigo significativamente. Você dizia que queria me encontrar. Eu disse que seria um prazer. Mas algo na sua voz me dizia que talvez não fosse o certo a fazer. Eu já não era mais eu. Você já não era mais você. O encontro não se concretizou, você sumiu. Tempos depois recebo uma nova mensagem. Sua voz estava diferente. Senti vontade de estar com você mas estávamos distante territorialmente falando. No entanto, ainda que por mensagens conversamos como há muito não conversávamos. Falamos da vida, de música, de poesia. Prometemos nos encontrar quando você estivesse melhor. Sim, você não estava bem. Eu não quis saber porque. A não ser que você quisesse falar. Eu queria apenas te acolher sem julgamento. Faria mais se não fosse a distância. Por algumas semanas conversamos quase diariamente. Você dizia me acompanhar pelas redes sociais e tinha orgulho do profissional que eu havia tornado. Já você estava em busca de recomeço e precisava superar alguns vícios. Não estava sendo fácil mas iria conseguir. Fiquei imaginando o que a vida havia feito com você. Como tinha chegado naquela situação? No pouco tempo que estivemos juntos percebi que você coloca a emoção na frente da razão. Como tudo na vida viver assim tem seus aspectos bons e ruins. Saber conviver com isso é o ponto central. Sobretudo porque isso nos coloca em situações difíceis. Óbvio que falo isso porque sou um racionalista irremediável. Você certamente vai me chamar de covarde. Como quando você me chamou para morarmos juntos e não aceitei porque havíamos acabado de nos conhecer e ainda não nos conhecíamos o suficiente para dar um passo tão importante. Hoje com 40 anos estou bem pior. E você parece não ter mudado também. De repente você sumiu novamente. E apareceu 1 ano depois. Nesse tempo, confesso que cheguei a pensar que talvez você estivesse morrido. E que o nosso contato foi uma espécie de conciliação para que morresse em paz. Mas não. Que bom. Fiquei feliz em saber que você estava se tratando e que estava retornando para recomeçar a vida. Precisava de apoio. Que eu era peça importante nesse processo. Eu não podia dizer não para alguém que fora tão importante na minha vida. Ainda sabendo que talvez eu não correspondesse ao que você esperava. Ando bebendo muito, fumando muito. Óbvio que sob controle, creio eu. Pelo menos ainda não afetou o meu trabalho e minhas relações pessoais. Você falou que não tinha importância e a partir daí o nosso reencontro passou a ser questão de tempo já que do ponto de vista territorial estamos próximos novamente. No entanto, novamente algo parece nos afastar. Lembro lá que quando éramos jovens eu gostava de pensar que o nosso relacionamento não havia dado certo porque estávamos em tempos diferentes. E digo isso não em relação a idade mas ao espírito. Lembra daquela música da Legião Urbana? - Agimos certos sem querer, foi só o tempo que errou… De modo que imaginei que quando nos encontrássemos estaríamos no mesmo tempo. Mas vejo agora que não. Nós nos amamos, isso é fato. Mas as nossas perspectivas sobre a vida são opostas. De modo que nunca daria certo entre nós. Diante disso não sei se seria interessante nos reencontrar pessoalmente (presencialmente). Eu já não alimento esse desejo. Não posso dar o que você espera de mim. Talvez um dia nos encontremos por acaso. Ti darei um abraço, trocaremos algumas palavras, desejarei que você fique bem. E partirei de volta para minha vida. Não vou cometer o erro de querer que você se encaixe nela. Você é um espírito livre e jamais vai deixar de fazer o que quer. Eu também jamais abriria mão da minha vida para me encaixar na de outra pessoa. Pois por mais que não pareça, sou um espírito livre também. Enfim, é isso meu bem.

Fique bem.

Pedro Ferreira Nunes - Casa da Maria Lúcia. Lua Minguante. Lajeado -TO. Inverno de 2025.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Conhecendo o Santa Rita: Educação Antirracista entre os muros da Escola.

Essa foi a temática do podcast produzido por estudantes do CEMIL Santa Rita de Cássia. No qual fui um dos convidados a falar da minha compreensão do que é educação antirracista, das atividades desenvolvidas pela Unidade Escolar a partir dessa temática no corrente ano e de sua importância.

Entre as atividades desenvolvidas pelo Cemil Santa Rita de Cássia está o podcast. Por tanto comecemos por ele. É importante esclarecer que não partiu de nós a sua confecção. Mas da organização da Olimpíada Brasileira de Relações Étnicos-Raciais, Afro-Brasileiras, Africanas e Indígenas (OBERERI) que estabeleceu em edital que a última tarefa para as equipes de ensino médio seria a produção de um podcast. No entanto partiu de nós inscrever e orientar uma equipe na competição.

Anteriormente eles fizeram mais duas tarefas: pensar um projeto sustentável para uma comunidade tradicional no território amazônico afetada por uma crise hídrica. E responder um quiz sobre a temática Africana, Afro-Brasileira e Indígena.

Ressaltando a fala da equipe de estudantes que participaram da OBERERI foi uma experiência enriquecedora que certamente contribuiu para mudança de olhar deles acerca dessa temática.

Desde que ingressei na educação básica como docente tenho procurado trabalhar uma educação numa perspectiva antirracista (Que na minha compreensão está dentro da educação em direitos humanos). Não só desenvolvendo ações em datas específicas como o dia dos povos indígenas e na consciência negra. Mas também no cotidiano da sala de aula. No entanto nesse ano de 2025 é certamente o ano em que mais consegui avançar nesse sentido. A política da Secretaria de Estado da Educação (SEDUC-TO) incentivando práticas antirracista nas unidades escolares da rede pública certamente contribuiu para que isso pudesse se concretizar.

É isso que busquei trazer durante a minha participação no podcast (conhecendo o Santa Rita ).

Ao definir o que é educação antirracista - como um conjunto de práticas pedagógicas de enfrentamento ao racismo.  E a partir daí contribuir com a construção de uma cultura de respeito à dignidade humana do povo negro. Fizemos um relato do que desenvolvemos enquanto escola no decorrer do ano. Entre as ações destacamos a leitura e discussão de autores negros e indígenas. E uma ampla discussão e mobilização para atualização da autodeclaração étnico-racial dos estudantes.

Nas minhas aulas especificamente continuei o movimento de trazer para as aulas de Filosofia textos da bell hooks, Ailton Krenak, Djamila Ribeiro, Angela Davis e Sueli Carneiro. Por coincidência dois desses filósofos (Carneiro e Krenak) caíram na etapa regional e na etapa nacional da Olimpíada de Filosofia (ONFIL). E pelo conhecimento desses pensadores, a partir do que havíamos trabalhado, o nosso representante optou por elaborar um ensaio filosófico sobre a problemática apresentada por eles.

Por tudo que desenvolvemos esse ano ouso dizer que não teremos dificuldade de obtermos o reconhecimento tanto por parte da SEDUC-TO como pela OBERERI, de Escola Antirracista. No entanto temos plena consciência de que ainda temos muito a avançar. Não podemos aceitar com naturalidade, ficar em silêncio ou pior, relevar atitude racista travestida de brincadeiras. Por outro lado não acreditamos que o caminho é a lógica punitivista. Enquanto Educador acredito na educação como instrumento de transformação. De modo que no ambiente escolar devemos buscar estratégias pedagógicas para mudar a cultura racista. Não é fácil. Não será da noite para o dia. Mas não podemos e nem iremos recuar. 

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor no CEMIL Santa Rita de Cássia. 

sábado, 15 de novembro de 2025

Sobre leituras

A leitura entrou na minha vida ainda na infância. Eu diria que até mesmo antes de aprender a ler. Amava ficar folheando os livros vendo as ilustrações. Antes disso ficava deslumbrado com os mais velhos contando estórias no pé de uma fogueira ou de uma lamparina. Não é de se admirar que acabei trilhando um caminho em que a leitura é fundamental - me formei professor de Filosofia. 

Leio de tudo, com exceção de autoajuda e de livros de religião. A formação em Filosofia me levou a leituras mais densas. Mas mesmo antes já me interessava por coisas assim. Lembro de quando li Assim falou Zaratustra, do Nietzsche, pela primeira vez.  Não entendi muita coisa. Isso que já havia lido umas três ou quatro obra desse filósofo (antes de ingressar na graduação em Filosofia). Creio que era mais o estilo e o exercício de criticidade que me atraía. Ainda mais pelo fato de que no ensino médio as leituras que mais me marcaram fora: Vidas Secas (Graciliano Ramos) e Memórias Póstumas de Braz Cubas (Machado de Assis). No entanto mesmo com toda essa carga acumulada ao longo dos anos não significa que absorvo facilmente qualquer leitura. Pelo contrário. 

Fiz questão de ressaltar isso para um estudante que eu estava orientando para Olimpíada Nacional de Filosofia (ONFIL). Passei para ele interpretar um trecho de texto de Filosofia. E ao contrário de outros textos, esse ele estava tendo dificuldade. Quando já estava querendo desisti busquei tranquiliza-lo trazendo o meu exemplo. 

Por muito tempo evitei ler o Capital, do Karl Marx.  Falavam tanto que se tratava de um livro de difícil compreensão que evitei até que me senti preparado. O fato de ter lido outras obras do Marx antes, além de leituras sobre ele e  seu método contribuiu para que a leitura do O Capital fosse compreensível. 

Recentemente finalizei uma dessas leituras densas que a cada página você parece compreender menos. Tratou-se do livro Dar corpo ao impossível: O sentido da dialética a partir de Theodor Adorno. Escrito pelo filósofo brasileiro Vladimir Safatle.

Safatle é para mim uma das principais referências intelectuais brasileira na contemporaneidade. Sempre leio os seus artigos em periódicos como também assisto sua participação em eventos disponíveis na Internet, em podcasts entre outros. Gosto muito da leitura que ele faz da realidade brasileira. No geral são textos acessíveis para o grande público. E nessa linha ele publicou um livro muito bom na minha avaliação - Alfabeto das colisões (que inclusive já escrevi sobre). Além dessa produção acessível, ele tem uma produção mais voltado para academia. Dessa produção a minha leitura é pouca. Já havia lido trechos do Circuito dos afetos que utilizei como referência num artigo de conclusão de minha pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos. Mas foi com a leitura de "Dar corpo ao impossível..." que entrei em contato de forma mais aprofundada com essa produção. 

Lembro que adquiri o livro em 2022, comecei lê-lo em 2023. Não avancei muito. Desisti. Tentei em 2024, não avancei muito. Desisti novamente. Agora em 2025 tentei novamente e consegui concluir. Parafraseando o próprio Safatle num podcast em que ele fala do seu tempo de estudante de filosofia e da dificuldade em compreender algumas aulas.  Não entendi muito coisa. Mas o pouco que entendi deu pra perceber que há muito coisa interessante. 

Como pode ser deduzido a partir do título do livro o objetivo do Safatle é investigar a dialética negativa do Theodor Adorno propondo uma reflexão sobre sua relevância no contexto atual. Para tanto ele apresenta como essa dialética foi sendo desenvolvida pontuando sua diferença com outras perspectivas, por exemplo a Hegeliana. E analisando as críticas feitas à ela. Concluindo trazendo para a realidade brasileira. 

No primeiro momento a obra é bastante teórica. E a cada página que avançamos na leitura ficamos com a sensação de que não estamos assimilando muita coisa. Safatle vai relacionando com outros pensadores tais como Hegel, Marx, Freud. Entre outros. A ideia dele creio que é mostrar que para compreendermos a dialética negativa do Adorno precisamos conhecer minimamente essas outras perspectivas. Além desses há outros autores que ele vai trazendo para conversa hora corroborando, hora rechaçando. No entanto Safatle faz um movimento que torna a leitura mais acessível - ele parte do geral para o particular. Do abstrato para o concreto. Termina falando sobre o Brasil trazendo para conversa filósofos como Paulo Arantes e Bento Prado Jr. fazendo um diálogo com a literatura, sobretudo Grande Sertão: veredas, do Guimarães Rosa e assim saímos da leitura com a ideia de ter compreendido o principal  - a dialética negativa Adorniana continua relevante para quem acredita na superação do que está posto. Será se é isso mesmo? Foi o que compreendi. 

Seguindo para uma conclusão eu diria que Dar corpo ao impossível é uma obra potente. Mas não é para o grande público. Eu diria que nem para um estudante que ainda está na graduação em Filosofia, por exemplo. Em outros cursos então nem se fala. Já para quem está num nível de mestrado e doutorado, e quer compreender como se pensa dialeticamente eis ai uma obra fundamental. Concluo falando que ler bem é um exercício constante. As vezes vamos encontrar aquele livro que a leitura parece incompreensível. Nesse momento é importante dar um recuo e se preparar mais para encará-lo. Isso já aconteceu comigo algumas vezes e sei que outras virão.  Mas querendo a gente consegue. Basta ter disposição para ler, ler e ler. Pois não há receita melhor do que isso para dominarmos a leitura.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Crônicas Aurenyanas: - a mulher sábia edifica a casa?

Quando ela chegou me pareceu não ter mais do que 14 anos. De modo que não pude deixar de questioná-la se era maior de idade mesmo. A reação dela foi bastante reveladora: - quem dera pudesse voltar no tempo que eu tinha 14 anos. Essa frase veio carregada de uma certa tristeza. E não pude deixar de comentar: - sinto que há um trauma aí. Ela então respondeu: - não vou te mentir, se eu pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Lhe ofereci uma cerveja. Ela pareceu ficar mais à vontade. Lembrei das minhas aulas do projeto de vida. Será que ela teve aulas de projeto de vida? Se não ou sim, teria feito alguma diferença? O que teria sido? Vai saber. Ela certamente não se abriria para um completo estranho. Mas ainda ousei perguntar se tinha filhos. Tinha 1. Ela me perguntou: -  E você? Respondi: - sem filhos. - Casado? Questionou-me. Lhe respondi: - Nunca! Ela ficou admirada e perguntou: - me conta o segredo. Se eu pudesse nunca teria me casado. Entendi então que o seu arrependimento era referente á relacionamento. Falando um pouco de mim talvez lhe deixasse mais à vontade para falar de si. Então respondi-a: - Tenho dificuldade de ter que dar satisfação sobre onde vou, o que vou fazer. De modo que prefiro estar sozinho. Sei que estando num relacionamento teria que dar esse tipo de satisfação. Por tanto é melhor assim. E sinceramente estou bem. Ela respondeu entusiasmada: - Nossa, eu estou exatamente assim. Não quero saber de namoro e muito menos casar. Não quero dar satisfação do que vou vestir, para onde vou, o que vou fazer. Questionei-a então: - Foi por isso que seu casamento não deu certo? Ela respondeu: - Ele tinha muito ciúmes de mim. E eu ia aguentando. Havia toda uma pressão da minha família para que eu não terminasse. - Quantos anos você tinha? - 14 anos. - Nossa, muito nova. Mas continua. Ela então continuou a narrativa: - Tinha aquela história de que a mulher sábia edifica o lar. Mas como? Eu tentava. Juro que tentava. Mas a cada dia o ciúmes dele só piorava. No final acabou da maneira mais besta possível. Um dia eu estava na porta de casa e uns meninos iam passando e um me perguntou as horas e respondi. Ele ia chegando na hora e disse que eu estava dando “moral” para os meninos. Tentei argumentar de todas as formas. Ele dizia que não acreditava. Que só não havia acontecido algo porque ele havia chegado. Ai para mim, deu! Falei pra ele que era o fim. De início ele não aceitou. Ficou um bom tempo no meu pé mas por fim viu que tinha acabado mesmo. Eu disse para minha família. Mulher sábia. Foda-se mulher sábia. Eu não sou uma mulher sábia. Ao final do relato sorri. Eu sabia bem de onde vinha aquele discurso de que a mulher sábia edifica o lar. Só esquecem de dizer que para edificar o seu lar elas têm que abrir mão da sua existência. Não faltam exemplos de mulheres que sacrificaram a vida ou bons anos dela por esse ideal. Ela cada vez mais relaxada continuou se abrindo: - no início é aquela maravilha. Depois eles querem ser seu dono. Esse é um ponto que sempre me incomodou nos relacionamentos tradicionais - a ideia do outro como um objeto a seu dispor. Numa sociedade dominada pelo homem, como bem salienta Simone de Beauvoir no seu clássico “o segundo sexo”, esse outro que é transformado em objeto é a mulher. Continuamos a conversar como se nos conhecêssemos há tempos. Comigo ela sentiu a vontade para falar o que certamente não seria bem aceito em qualquer lugar. - minha mãe vive dizendo que do jeito que eu vivo, nunca vou arrumar outro marido. E quem disse que eu quero. Disse ela. Eu então comentei. - não sou a melhor pessoa para dar conselhos acerca de casar ou não casar. O problema é que quase sempre as pessoas se deixam levar pela paixão (emoção) e não demora o relacionamento fracassar e os dois começarem a se odiar. Eu acredito que é preciso pensar bem antes de dar um passo nesse sentido. Quando vem um filho, tudo se complica. Eu odiaria ter tido um filho com uma mulher e não está criando ele hoje. Por isso não me arrependo de forma alguma de nunca ter casado e nem ter tido filhos. - Você tem toda razão. Ela me disse. Nesse meio tempo já tínhamos tomado umas 5 cervejas. Era hora d´eu ir embora. Então me despedi. Ela respondeu dizendo que tinha sido um prazer conhecer alguém como eu. Quem sabe um dia não voltássemos a nos encontrar. Não pedi o telefone dela, ela não pediu o meu. Por isso se voltássemos a nos encontrar seria obra do acaso. Como fora o nosso encontro naquela tarde de domingo naquele bar. Melhor assim. Pois se trocássemos telefone seria criar algum vínculo. E nem eu e nem ela estava querendo isso. Escrevo essas linhas algum tempo depois do acontecido. Já não me lembro do rosto dela. Não sei se visse ela na rua a reconheceria. Mas a nossa conversa ficou na minha cabeça. Não porque foi uma conversa extraordinária. Pelo contrário. É uma história ordinária. Não é nada difícil encontrar num bar de qualquer cidade uma jovem mãe solo que traz na sua bagagem a memória de um relacionamento que deixou marcas. Não as julgo por estarem ali. O que sinto é que não aprenderam muito. No fundo elas esperam encontrar o príncipe encantado prometido. Certamente não será num bar que encontraram. Nem muito menos numa igreja onde serão levadas a acreditar que a edificação do lar é unicamente de responsabilidade delas.

Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

“Quando eu falava desses homens sórdidos… você não escutou…”

Olá, minha querida. Como andam as coisas por aí? Por aqui sigo bem dentro do possível. Você sabe que para alguém que se deixa afetar em demasia pelas injustiças contra quem quer que seja nunca é possível estarmos totalmente bem. Quando pensei em escrever essas linhas, os versos (“quando eu falava desses homens sórdidos”) da canção Paisagem da Janela, do Lô Borges e do Fernando Brant, me vieram à cabeça. Você sabe que o Lô partiu essa semana e quando uma figura desse tamanho parte nós que apreciamos o seu legado ficamos um tanto mexidos. Fiz uma atividade utilizando esse trecho numa aula de filosofia da arte e fiquei feliz com o resultado. O objetivo da aula era conhecer as funções da arte. E a atividade tinha como fim aprofundar o entendimento com um exercício. Mas o que isso tem haver com o que quero realmente dizer? Que durante o exercício eles relacionaram o trecho com o contexto atual. Pontuando que esse trecho é um espelho que reflete a realidade (seguindo a função naturalista). Uma estudante, por exemplo, chamou atenção para o aspecto de que as pessoas se prendem no seu ponto de vista e se negam a enxergar o óbvio. Isso acabou me remetendo a uma aula de filosofia contemporânea em outra turma em que trabalhei um texto (Tolerância e ofensa) do Desidério Murcho sobre liberdade de expressão. Em que ele propõe uma reflexão muito interessante sobre tolerância. Mas o importante mesmo é o que está por trás dessas questões. Você provavelmente viu o que aconteceu no Rio de Janeiro. E me conhecendo sabe qual a minha posição sobre. O fato é que toda vez que ouço a frase “homens sórdidos” me vem a imagem do Governador do Rio de Janeiro - Cláudio Castro. Ele me lembra também a música Pigs (Three Different Ones) do Pink Floyd - inclusive a fisionomia dele é de um porco - porco fascista. Mas o que mais me deixa triste é ver a quantidade de pessoas que aplaudem a ação. Fico pensando onde nós erramos. Pois me sinto responsável. Sei que não sou. Sei que posso pouco enquanto professor de Filosofia na educação básica. Faço um esforço para inserir a educação em direitos humanos no meu planejamento e no projeto político pedagógico da escola. Mas parece que não saímos do lugar. Não são poucos aqueles, inclusive colegas professores, que reproduzem o discurso contra os direitos humanos. Por outro lado há exceções que nos deixam felizes. Gostaria de lhe falar de um caso especial - uma estudante que entrou em contato comigo perguntando se havia algum conceito na Filosofia que explicasse a situação. Apresentei para ela o conceito de necropolítica criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe. E começamos a trocar uma ideia sobre. Ela me disse que estava incomodada com o posicionamento de alguns colegas banalizando a morte daquelas pessoas. Inclusive usando justificativa religiosa. E ela queria entender para rebater os posicionamentos com propriedade. É uma postura louvável. Ainda mais pelo fato de que essa estudante há uns meses talvez tivesse uma postura diferente, analisando seu comportamento de outrora. Mas sabe querida, tudo que escrevi até agora foi afetado por uma situação que ocorreu hoje no meu trabalho. Cheguei à escola com a notícia de que vários colegas tiveram o seu contrato exonerado pelo Governador em Exercício do Tocantins - Laurez Moreira. Nós sabemos que os contratos de trabalho temporário no serviço público são usados como instrumento de cooptação e dominação política. Mas isso não significa que as pessoas devam ser tratadas como objetos - jogadas no lixo quando não são mais úteis para quem está no governo. Você não sabe o quanto foi duro o dia de trabalho hoje. Chegar na escola e ver vários colegas sem nenhum aviso prévio perder o seu ganha pão. E tudo porque? Pelos jogos do poder. Me parece portanto que o senhor Laurez não é menos sórdido do que outros governantes que temos por aí. Enfim, querida. Já te enchi demais com minhas lamentações. Mais do que nunca precisamos lutar para mudar essa realidade. Mas quem me escutará? Fique bem se puder.

Do seu Pedro

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Ensaio literário: O coração nas trevas de Camilo

Camilo se olhou no espelho e não se reconheceu – barba feita, cabelo
cortado. Todo uniformizado – calça, camisa e sapato. Não, aquele não era o Camilo que sempre recusara um estilo formal. Que cultivava uma pequena barba, que usava brincos na orelha com muito orgulho e apreciava tanto um estilo alternativo. 

Não, aquele Camilo que trabalhava como operador de caixa de um supermercado na zona leste paulista em nada se parecia com o Camilo que tirava o sono da alta sociedade cachoeirense, o Camilo do rock, o Camilo subversivo. 

Aquela figura triste, que andava sempre cabisbaixa no metrô, que não cumprimentava e nem falava com ninguém. Não tinha amizades, não se divertia – vivia apenas da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Nada se parecia com aquele Camilo cheio de vida que sonhava ingressar na faculdade de Filosofia, se tornar um professor e mudar o mundo.

Camilo sempre foi um apaixonado pela educação, via nesta uma ferramenta de transformação social, e assim mantinha o sonho de se tornar um professor um dia. Quando ainda era estudante do ensino médio, Camilo era referência para seus colegas e professoras no Colégio em que estudava como alguém de personalidade forte e muito inteligente. Dava aula de reforço para seus colegas e auxiliava alguns professores, entre eles, Bia. 

Teve a oportunidade de dar aulas na zona rural quando auxiliou um professor amigo seu. Nesta experiência Camilo percebeu a importância da educação para formação de uma consciência crítica na juventude, foi então que decidiu que queria ser um professor.

Mas assim que chegou a São Paulo a realidade que teve que encarar era muito diferente da que ele sonhara um dia. Há um ano naquela dura rotina, os sonhos de Camilo iam sendo esquecidos, era preciso encarar a realidade, ter que trabalhar duro de segunda a segunda, ganhando um mísero salário que se quer dava para ele pagar o aluguel do barracão que morava bem como para sua subsistência ali.

Camilo odiava a vida em São Paulo, odiava ter que acordar todos os dias cedo, enfrentar o transporte público caótico dali, tanto para ir como para voltar do trabalho. Às vezes pensava em jogar uma mochila nas costas e sair vagando pelo Brasil.

– Ele ficava invejando os hippies que sem nenhuma preocupação viajam por todos os cantos, conhecendo novas pessoas, novas culturas, vivendo novas experiências. Mas ele jamais teria a coragem de jogar tudo para o alto assim. Ele nunca fora um aventureiro. Aliás era um dos seus problemas, ele não se arriscava, tinha o pé por demais fixado no chão, não era capaz de dar nenhum passo antes de ter o mínimo de certeza para onde iria e o que poderia encontrar.

Camilo odiava a vida em São Paulo, mas em nenhum momento ele pensou em voltar para sua terra querida, onde ele fora tão feliz. Não, Camilo não pensava em retornar para o interior, por mais difícil que a vida era em São Paulo, ele não via perspectivas melhores voltando para Cachoeira de todos os santos.

Camilo sabia que aquele momento de trevas pelo qual estava passando uma hora seria superado. E isso só dependia dele mesmo. Ele tinha que entender e aceitar que a sua vida jamais seria novamente o que era. Camilo sabia que precisava encarar a realidade – trabalhar, trabalhar e trabalhar. 

Mas também era preciso viver – se divertir, fazer novas amizades, namorar, conhecer um novo amor. Era preciso fazer as coisas da qual ele gostava, bem como buscar realizar os sonhos que sonhava.

Mas será que Camilo teria forças para isso?

Por Pedro Ferreira Nunes - Apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.

sábado, 25 de outubro de 2025

Cartilha sobre educação em direitos humanos a partir do Ensino de Filosofia

A educação em direitos humanos é estabelecida por meio de diversos documentos como um tema transversal que deve ser trabalhado em sala de aula (entre eles o Programa Nacional em Direitos Humanos - PNDH 3, o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, O Plano Estadual de Direitos Humanos do Tocantins e a Resolução n.º 1, de 30 de maio de 2012, do Conselho Nacional de Educação - CNE). Porém em que pese existir um grande número de textos teorizando sobre o assunto. Não há muitos materiais didáticos que auxilie a professora e o professor nessa tarefa. Foi isso que me motivou ao ingressar no Mestrado Profissional de Filosofia (PROF-FILO) desenvolver como produto educacional uma cartilha que agora disponibilizo pela UICLAP (plataforma de autopublicação) que pode ser adquirido e trabalhado na educação básica (https://loja.uiclap.com/titulo/ua125062/).

A cartilha contém atividades que foram desenvolvidas no chão da sala de aula. Mas é importante salientar que sala de aula foi essa. Uma sala de aula numa escola pública (Colégio Estadual Nossa Senhora da Providência) localizada num território dentro de uma área de proteção ambiental que tem a sua história marcada pela construção de uma obra de grande impacto - uma usina hidrelétrica (Luiz Eduardo Magalhães - município de Lajeado - região central do Estado do Tocantins). Faço esse esclarecimento pelo fato de que as atividades propostas partiram da realidade em que os estudantes que fizeram parte da pesquisa estavam inseridos. Acredito que esse fator foi importante sobretudo para mudar o olhar acerca dos direitos humanos que no geral é visto como algo distante da nossa realidade. Pois só veem falar dessa temática quando a uma violação desses direitos envolvendo as forças de segurança pública numa operação policial. Daí o nosso ponto de partida não poderia ser outro senão definir o que são direitos humanos e como eles se relacionam com a ética e a política. A partir daí, tendo como objetos de conhecimento os objetivos para o desenvolvimento sustentável estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ODS - ONU), buscamos mostrar como a não garantia dos direitos sociais como educação, saúde e cultura é uma violação dos direitos humanos.

Como salientamos na apresentação da obra: “o desafio para o educador e a educadora que optar por trabalhar esse material é tê-lo como um guia norteador e não algo a ser reproduzido ao pé da letra. Um aspecto fundamental é colocar o estudante e a estudante no centro do processo. Instigando-o por meio de provocações e perguntas a olhar para um determinado problema, refletir criticamente acerca desse problema e a partir daí apontar possibilidades”.

Para dar exemplo de algumas atividades que foram desenvolvidas em sala de aula e estão na cartilha, ressaltamos a escrita criativa. Propomos que os estudantes criassem uma estória inspirada num episódio de violação dos direitos humanos ocorrido na cidade em que vivem. Para inspirá-los, disponibilizamos um trecho de um conto da região que mostra algo nesse sentido. Outra atividade proposta, ao discutir a temática da erradicação da pobreza foi a ilustração do poema: O bicho, do poeta Manoel Bandeira. Ao trabalhar a ODS - trabalho e desenvolvimento econômico propomos que fizessem entrevistas com a comunidade escolar e posteriormente a sistematização destas. Ao final propomos que fizessem uma carta para as autoridades locais com propostas para o desenvolvimento sustentável. Enfim, são muitas propostas, todas frutos do trabalho em sala de aula. Nem sempre tivemos um bom engajamento por parte dos estudantes. Nem sempre o retorno foi o esperado. Já outras nos surpreenderam. De todo modo, todas cumpriram a missão de mostrar possibilidades. E em última análise é isso que é essa cartilha - uma pequena mostra das possibilidades que temos de desenvolver a educação em direitos humanos na educação básica, sobretudo no ensino médio.

Acredito que a partir das escolhas que fizemos, e estão na cartilha, fica evidente qual perspectiva filosófica assumimos. Mas faço questão de enfatizar a nossa adesão à teoria crítica, sobretudo a partir do filósofo alemão Herbert Marcuse que defende a necessidade de restauração da crítica em oposição à racionalidade tecnológica - que é um instrumento de dominação da classe dominante na construção de uma sociedade unidimensional. Nesse contexto, a arte cumpre um papel importante. Outro filósofo que também segue essa linha é o Paulo Freire, sobretudo a sua defesa de uma educação para a emancipação. E obviamente, Karl Marx, que critica a concepção de direitos humanos burguesa que em última análise tem como objetivo garantir os privilégios da classe dominante. Com Marx dizemos que não é possível falar seriamente em direitos humanos a partir de abstrações - sem levar em conta as condições que os indivíduos estão inseridos. Seguindo essa tradição defendemos os direitos humanos não como um direito para poucos, mas sobretudo para aqueles que mais necessitam - que é a maioria das pessoas.

Gostaríamos de ver esse material disponibilizado em todas as bibliotecas escolares da rede pública de ensino. Mas não temos condição para isso. E acredito que não é de interesse dos governos um material desses. Pois o que percebemos é que há uma distância considerável entre o discurso e a prática. Ora, o que adianta reconhecer a importância da educação em direitos humanos com leis mas não dar as condições para sua efetivação? Não nos esqueçamos que o Estado é no final das contas o principal violador desses direitos, pois na sociedade capitalista está a serviço da classe dominante - que não tem nenhum interesse que as condições atuais de vida se modifiquem. É contra isso que pensamos, elaboramos e nos sublevamos.

Pedro Ferreira Nunes - Mestre em Filosofia (UFT) e Professor na Rede Pública Estadual de Ensino do Tocantins.

*Baixe gratuitamente pelo link: https://pt.slideshare.net/slideshow/cartilha-educacao-em-direitos-humanos-onde-estao-os-direitos-de-viver/284580588